domingo, 1 de novembro de 2015

Porque a Europa precisa apoiar a política da Rússia para a Síria        



 
por Finian CUNNINGHAM      
tradução mberublue         



A Rússia colocou as coisas de forma simples e sucinta: A Europa precisa que o conflito na Síria tenha um fim para resolver seu próprio problema com a crise dos refugiados. Para que o problema seja totalmente solucionado, há que se respeitar o governo soberano da Síria e derrotar a guerra encobertamente apoiada por potências estrangeiras que visam mudança de regime.

Também é condição sine qua non que se respeite o direito do povo sírio na determinação de seu próprio futuro; e isso significa que a Europa terá que rejeitar de forma clara a agenda ilegal de Washington, Londres e Paris de derrubar a qualquer custo o presidente sírio Bashar al Assad. Resumindo, isso significa que a Europa deverá se alinhar com a Rússia em suas políticas para a Síria.


Enquanto hospedava o vice chanceler da Alemanha, Sigmar Gabriel, o Presidente Putin reiterou a posição russa em relação à Síria. Para que não restem dúvidas quanto à importância das palavras de Moscou, a relação entre os Estados da União Europeia sofreu mais uma reviravolta em seu já desgastado arcabouço.

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Putin e Sigmar Gabriel
As tensões entre os Estados balcânicos relacionadas ao número sem precedentes de refugiados acabaram por desandar até envolver a Alemanha e a Áustria – dois destacados membros do bloco com fortes laços culturais. A confusão teve início após o anúncio pela Áustria de que se tornará o próximo país da União Europeia a construir muros em suas fronteiras para restringir o fluxo de imigrantes que pretendam cruzar seu território.

Thomas de Maiziere, Ministro do Interior da Alemanha, atacou fortemente a última iniciativa austríaca, chamando seu comportamento de “fora da ordem”. Berlin foi ainda mais longe, ao acusar a Áustria de abandonar os refugiados ao anoitecer nas fronteiras da Alemanha, para que esta os abrigasse. Por sua vez, a Áustria realizou um contragolpe imputando a culpa pela situação à Chanceler alemã Angela Merkel, por ter encorajado o fluxo de imigrantes com sua “política de portas abertas”.

Este foi mais um sinal das relações deterioradas no interior da União Europeia como resultado da crise dos refugiados – cuja maior fonte continua sendo a guerra de já mais de quatro anos que grassa na Síria. O jornal francês Le Figaro verberou raivosamente a Áustria por sua decisão de instalar um muro em suas fronteiras, pois estaria “ameaçando Shengen” – o tratado fundamental que garante a livre movimentação de cidadãos europeus no interior do bloco.


A movimentação austríaca aconteceu na esteira das decisões tomadas por Hungria, Eslovênia, Croácia e Bulgária de construir muros bordejando suas fronteiras, vigiadas por polícia de choque e pessoal armado. Relatos de pesadas táticas policiais usadas contra os refugiados causaram enorme consternação em Bruxelas. O jornal alemão Deutsche Welle publicou um artigo no início deste mês acusando o premier húngaro Victor Orban de estar criando uma “ditadura asquerosa” devido às suas políticas de contenção dos imigrantes.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker já denunciou a dramática tendência de construir muros para isolar imigrantes, ao dizer que esta atitude vai contra o espírito da União Europeia. A preocupação tácita é a de que a estrutura social europeia está desmoronando.

Enquanto isso, no interior da Alemanha, o partido governista de Angela Merkel, a União Democrática Cristã, está sob pressão de seus eleitores na medida em que eles têm a percepção de que o partido exerce política conivente com a acolhida de refugiados. Protestos contra os imigrantes foram montados na Bavária, em Hamburgo e em Dresden. Pior. Não é apenas o movimento Pegida, de extrema direita, que está em rebuliço.

Mesmo entre os centristas, as pesquisas mostram que a inquietação cresce em relação ao aumento de estrangeiros adentrando o país. Uma pesquisa revelou que apenas um terço dos alemães são apoiadores das políticas de “porta aberta” de Merkel relacionadas aos imigrantes e aos solicitantes de asilo. Relata-se que a Alemanha receberá 800.000 pedidos de asilo neste ano. O número pode ser ainda maior, chegando a tanto quanto 1,5 milhões.

Enquanto isso, a Inglaterra e a França anunciaram que poderão aceitar números relativamente baixos de 20.000 e 30.000 respectivamente. Não obstante, mesmo esses números relativamente pequenos são capazes de prover de munição pesada os partidos contrários à União Europeia, respectivamente o UKIP na Inglaterra e a Frente Nacional na França.

Sob este prisma, a advertência que a Rússia fez à União Europeia de que deve encontrar uma solução para a crise síria adquire importância visceral. Caso o conflito sírio continue a arder, o número de refugiados pressionando a Europa continuará a crescer, o que por sua vez certamente levará os líderes dos Estados Membros da União Europeia a travar embates cada vez mais raivosos, dividindo os países. Não há exagero em afirmar que o conflito sírio, e por consequência a crise dos refugiados, está dividindo a Europa e pode mesmo colocar em risco a existência do bloco.

Enquanto se deplora a maneira brutal com que a polícia dos países trata os refugiados, e os entraves burocráticos cruéis que estes são obrigados a enfrentar, ao mesmo tempo existe um terreno fértil para o florescimento de problemas entre os países “na linha de frente” da União Europeia e que estão às voltas com um fluxo de refugiados sem precedentes. Com população relativamente pequena e economias cambaleantes, é compreensível que Estados como a Eslovênia, com população de apenas 2 milhões de eslovenos estão encarando o súbito aparecimento de milhares de pessoas em situação desesperada como um desafio que não pediram e não querem.


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Victor Orban
Já o primeiro ministro húngaro, Victor Orban, tem um ponto de vista muito razoável quando questiona o fato de que a Turquia é um país seguro, então porque de repente o governo de Ancara começou a permitir que tantos refugiados atravessem o país em direção ao território da Europa?

Por outro lado, o conflito sírio, principal fonte do atual número histórico de refugiados é uma crise para o surgimento da qual a maioria dos países europeus não colaboraram.

A Inglaterra e a França são acusadas, com boas evidências, de fomentar e incrementar o conflito na Síria com o intento de derrubar o governo do Presidente Bashar al Assad. Tanto Paris quanto Londres foram constantes em seu apoio incondicional para as ambições hegemônicas dos Estados Unidos no Oriente Médio. É marcante a lembrança de que Roland Dumas, antigo Ministro de Relações Exteriores da França revelou em 2013 que foi procurado secretamente por altos funcionários da Inglaterra já em 2009 com um plano que deveria permanecer na clandestinidade para derrubar o governo de Assad. Isso aconteceu pelo menos dois anos antes da insurgência apoiada no estrangeiro, sob a cobertura de uma suposta “revolta pela democracia” sobre a qual desde então a imprensa ocidental mente sistematicamente.

Desde aquela época a narrativa fantasiosa de uma “revolução pela democracia” foi esvaziada pela sangrenta realidade de uma guerra encoberta que o ocidente, a Arábia Saudita e a Turquia levaram a efeito utilizando-se de mercenários. Não é mais possível esconder a verdade dos fatos.

Mesmo agora, quando Washington, Paris, Londres e seus aliados regionais combinaram nesta semana um encontro para “conversações de paz” em Viena, juntamente com a Rússia e o Irã, não há qualquer indicação de que a agenda de mudança do regime tenha sido abandonada pelas potências ocidentais.

John Kerry e Philip Hammond, Secretários de Estado dos EUA e da Inglaterra, respectivamente, aparentemente amainaram a sua antes imperiosa demanda quanto à agenda “Assad tem que sair”, para um processo mais tradicional de abdicação do poder. Todavia, o objetivo final ainda é a mudança de regime. Por outro lado, a França continua inamovível em suas exigências para a saída imediata de Assad. O ministro de Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, que preside as conversações de Viena, exigiu um “prazo fixo definido” para que Assad deixe o poder.

Dessa forma, quando Washington e seus aliados europeus falam em encontrar uma “solução” para o conflito, o que querem mesmo é que a solução encontrada vá ao encontro de seus desejos de derrubar o governo da Síria. Não estão de forma alguma comprometidos com uma solução pacífica para o conflito. O que querem e perseguem é conseguir realizar suas intenções, se possível, por meios políticos. É absolutamente necessário dizer que isso é uma violação clara dos direitos de soberania da Síria.

Uma coisa é certa. O conflito alimentado pela agenda obsessivamente perseguida pelos Estados Unidos para o conflito na Síria continuará a fazer crescer o número de refugiados. Esta semana a ONU revisou seus números de sírios que estão necessitando urgentemente de ajuda humanitária para 13,5 milhões de pessoas – mais da metade da população total do país. Quantos milhões ainda vão se juntar a esses números? Quantos eventualmente vão se dirigir para a Europa em busca de socorro?

O destino da Europa não deveria estar nas mãos de dois lacaios (norte)americanos – Inglaterra e França – cujas mãos, aliás, já estão manchadas com o sangue sírio. Não dá para aceitar que países europeus que nada tem a ver com o conflito estejam sendo incendiados por uma crise que não criaram.

mercenários dos EUA na Síria

A resolução do conflito sírio requer que Washington e seus vassalos respeitem os ditames da lei internacional e que suspendam imediatamente seus esquemas ilegais para uma mudança de regime e ainda, que chamem de volta seus cães de guerra para fora do país. Isso não só resolveria o conflito como seria uma solução integral para a crise de refugiados. Respeitem a lei internacional. Há coisa mais simples?

Claramente, a Rússia e o Irã colocaram essa solução na mesa de negociações insistindo em que o direito soberano da Síria tem que ser respeitado. Cabe agora à Alemanha e outros países não beligerantes da Europa mostrar sua própria independência apoiando a Rússia e ao Irã nesta política, repudiando o esquema ilegal de mudança de regime representado pelo eixo Washington, Paris, Londres.


Finian Cunningham – nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe.