sábado, 28 de novembro de 2015

A era Erdogan está para acabar
              


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por Petr Lvov - New eastern Outlook            
tradução por mberublue             


Há poucas dúvidas agora entre os círculos da OTAN e através dos países que lideram a aliança – os Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha que a derrubada do bombardeiro russo SU-24 foi de fato um ato de agressão. Na realidade, a força aérea turca vinha tentando emboscar um bombardeiro russo nas áreas de fronteira há dias. Tudo foi planejado, até mesmo a presença de um cameramen profissional de um canal turco.


Resultado de imagem para SU-24 overthrowDesde que Washington tomou conhecimento que a força aérea turca derrubou um bombardeiro russo sobre a Síria, Ancara tem tentado desesperadamente jogar a culpa sobre Obama na intenção de se esconder atrás do apoio (norte)americano. Reportagens de 26 de novembro das estações de TV turcas relatavam que a queda do avião alegadamente teria acontecido com aprovação de Obama, supostamente concedida na reunião de cúpula do G-20 em Antália. Mas foi tarde demais. Erdogan foi pego na cena do crime ainda com sangue nas mãos. Sua carreira política provavelmente está morta – não há lugar na política para assassinos de pilotos russos. Aliás, ele já tem um concorrente de peso para o seu posto – o Primeiro Ministro Ahmet Davutoglu, que fortaleceu consideravelmente suas posições depois das últimas eleições na Turquia.

Especialistas pelo mundo afora estão tentando prever quais seriam as respostas que a Rússia pode tomar. Até o momento, já existem uma série de medidas a serem tomadas pela Federação Russa, a saber:

●● Proibição completa de quaisquer viagens de turismo para a Turquia. Essa medida não deve demorar a ser colocada em prática mais que duas semanas. Não haverá mais viagens com descontos, nem aviões fretados, nem nada. O resultado será um prejuízo de aproximadamente 3,5 bilhões de dólares para a Turquia em apenas um ano.

●● Preparação pesada para ataques de retaliação. Para alcançar esse resultado, a Rússia já instalou seus sistemas antiaéreos “top de linha” S-400 Triumf nas proximidades de Latakia. Com isso criou uma zona de exclusão aérea de facto sobre a Síria para a força aérea turca.

●● A Rússia está reduzindo o número de locais em Moscou que vendem produtos turcos no mercado russo. Isso afeta tanto os produtos alimentícios quanto os bens industriais. A Turquia deverá perder cerca de 2 bilhões de dólares anualmente devido a essas medidas.

●● A Rússia fechou todos os projetos que tinha em comum com a Turquia, o que inclui a construção de uma usina nuclear. Ao mesmo tempo deverá proibir a atividade de um grande número de companhias turcas na Rússia.

●● A Rússia começou a trabalhar mais ativamente na cooperação política e militar com as forças políticas curdas – a maior ameaça ao poder central em Ancara. Esta atitude da Rússia causará certamente uma queda severa na estabilidade política da Turquia. Especialmente em uma situação na qual a posição de Erdogan pode não ser tão forte quanto ele pensa. Ele está às voltas com sérias oposições dentro de seu próprio partido e não apenas nos círculos militares.

Porém o golpe mais severo para a personalidade de Erdogan é sem dúvida uma extensa cobertura da mídia sobre suas relações com o Estado Islâmico e o papel de sua família nesses negócios escusos. Já está provado que o filho de Erdogan trabalha para um amigo de infância do presidente que entrega petróleo roubado na Síria para a Ucrânia, o Japão e outros países asiáticos. É sabido que a receita proveniente desses “negócios” sobe a cerca de 5 bilhões de dólares ao ano, dos quais 2 bilhões voltam para as estruturas de comando do Estado Islâmico, que os usa para comprar armas e pagar seus militantes.


Além disso a família de Erdogan está envolvida na produção e tráfico de drogas sintéticas. Se alguns jornalistas revelam isso abertamente nos canais de televisão, é porque com certeza todas as instâncias de aplicação da legislação acumularam na evidências necessárias para processar os membros da família de Erdogan.

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O "sultão" Erdogan 
Consequentemente, tão logo a sociedade turca comece a associar a família de Erdogan com o Estado Islâmico, fará também a associação lógica com este fato e os ataques terroristas levados a cabo pelo Estado Islâmico na Turquia, cujos ataques tiveram o condão de ajudar o partido AKP, no poder, a vencer as últimas eleições parlamentares.

Dá para perceber que a Rússia não está particularmente apressada em resolver a situação e que não aceitará as desculpas de Ancara nem que Erdogan venha pedir perdão a Putin de joelhos. Quanto à onda de ataques terroristas que começaram na Turquia depois da queda do jato russo, isso só pode ter um significado – as autoridades turcas não conseguem controlar a situação no país e portanto não pode proteger a integridade e a vida dos turistas estrangeiros. Tudo isso pode levar à rápida desintegração do país, com as áreas curdas se separando da nação, o que significa que todo o sudeste da Anatolia pode se tornar independente. Assim como a província de Hatay, ela é largamente povoada por árabes, que podem querer se juntar à Síria em um futuro previsível. Já parece estar em tempo de algumas regiões armênias do noroeste da Turquia, como o monte Ararat, retornarem às mãos da Armênia.

Também não adianta esperar a chegada da cavalaria da OTAN porque simplesmente não vai acontecer. Afinal, quando a OTAN permitiu que a Turquia se juntasse à aliança, queria uma espécie de contenção à crescente influência da União Soviética na região e não um país islâmico em suas fileiras, mas acabou fazendo um pacto com o diabo.

Foi uma decisão sem visão e imperdoável. Ao tempo, este esforço mais criou que resolveu problemas para ao ocidente. Com o passar dos anos, a Turquia acabou por se revelar uma criança mimada e birrenta que a OTAN tinha que vigiar. A invasão que promoveu contra Chipre em 1974 causou uma profunda divisão na aliança e até o ano de 1980 a Grécia se retirou da estrutura de comando da OTAN. Em 2012, a Síria derrubou um avião turco que estava em incontestável violação de seu espeço aéreo. Hoje, o fiel ao Islã que preside a Turquia usa seu status de membro da OTAN para atingir seus objetivos políticos que em nada coincidem com aquelas da Aliança.

O radicalismo do Islã já atingiu duramente a Europa, mesmo em seu coração – Paris. O resultado foi que o presidente francês, François Hollande passou a exigir que os Estados Unidos deixem de lado suas diferenças com a Rússia para fortalecer uma união geral para a luta contra os exércitos de terroristas. A Turquia, como foi sublinhado pelo presidente russo Vladimir Putin, tem laços estreitos com o Estado Islâmico e lucra ao apoiar suas atividades criminosas de contrabando de petróleo. Como isso se torna a cada momento mais evidente não há que se admirar de que haja cada vez mais apelos para que a OTAN exclua da aliança a Turquia e estabeleça uma cooperação mais efetiva com a Rússia, mesmo porque o ocidente tem mais em comum com a Rússia que com o mundo islâmico.


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Boualem Sansal
Nesta senda, é curioso que o cientista político francês Boualem Sansal crê que há inimigos piores que o Estado Islâmico, ao apontar que a Turquia à qual considera como o último califado, está em processo de restauração do Império Otomano. O cientista político está convencido que está em andamento uma futura, previsível e amarga rivalidade entre Ancara e Teerã. A posição ambígua de Ancara em relação à crise dos refugiados e agora com a revelação cada vez mais clara de suas ligações com o Estado Islâmico deve levar as elites dirigentes na Europa a adotar e aprovar uma posição mais dura com a Turquia. Torna-se claro que os eleitores apoiarão com votos aqueles candidatos que apoiem uma posição mais rígida para com o Islã e a Turquia.

Testemunhamos um grande número de mudanças dramáticas ocorrendo no Oriente Médio nos últimos meses. Depois de ficar exortando as partes no conflito sírio a ouvirem a voz do bom senso sem serem ouvidos os russos resolveram intervir de forma direta na Síria. Essa intervenção levou a uma mudança tectônica no equilíbrio das forças em luta contra o terrorismo. No entanto, a situação se tornou perigosa tendo em vista que nos céus da Síria se misturavam aviões de ataque de quatro grandes potências mundiais – Estados Unidos, Rússia, Inglaterra e França, todas elas operando sem qualquer tipo de coordenação entre si mesmas.


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O exército do Hezbollah
Que não se esqueça as demais variantes: o Irã também está agindo ativamente na Síria, no apoio declarado ao governo de Bashar al Assad, ou até a vitória ou até o fim. Na outra banda, Turquia, Arábia Saudita e Qatar não abrem mão da ideia de que Assad tem que sair, não importando as consequências. Israel supostamente não está envolvido no conflito na Síria, mas há que se ter em mente que os esquadrões do Hezbollah foram instalados naquele país, e permanecem até a atualidade o inimigo mais perigoso com o qual o Estado de Israel tem lutado ao longo de sua turbulenta história nos últimos dez anos e contra o qual provavelmente terá que voltar a lutar. Ao mesmo tempo, o regime atual na Turquia é o mais hostil em relação a Israel no decorrer de toda a história de suas relações bilaterais.

Cada uma das partes envolvidas no conflito da Síria cuida de seus próprios e diferentes interesses. Como Putin colocou em seu discurso, não se pode negar que há um grande fluxo de petróleo e derivados que são roubados e depois adentram território turco, com a Turquia em contrapartida fornecendo os recursos financeiros necessários ao Estado Islâmico para continuar lutando. A situação nos coloca em face de uma séria preocupação – afinal, um membro da OTAN está apoiando ativamente grupos terroristas, sejam eles o Estado Islâmico na Síria ou o Hamas na Faixa de Gaza. Até o momento, por uma série de razões, os países ocidentais não exigiram do governo de Ancara que cesse tais atividades de ligação com militantes islâmicos. Quanto aos líderes israelenses, sem exceção, manifestam pública e estridentemente sua indignação com o papel, que consideram destrutivo, exercido pela Turquia na região. Durante muito tempo a Turquia tem sido um dos poucos países que tem apoiado e fornecido suporte para que os radicais islâmicos palestinos continuem capazes de matar israelenses.


Resultado de imagem para Erdogan terroristDepois da tragédia com o SU-24 da Rússia, a necessidade de repensar suas relações com a Turquia tornou-se evidente para Moscou, e a Rússia pode e deve solicitar que a OTAN detenha os responsáveis por tal ato imprudente de agressão. Não é possível admitir para sempre uma situação onde um país seja ao mesmo tempo considerado parte de uma comunidade civilizada e também apoiador de atividades de organizações como o Estado Islâmico. Caso seja mesmo o Estado Islâmico considerado um aliado pelas elites turcas, então a Turquia evidentemente não pode ser aliada do mundo civilizado. Apesar do conhecido jogo de dois pesos e duas medidas, do duplipensar do ocidente, ainda assim não se pode negar a condição de apoiador do terrorismo ostentado por Ancara. A localização única e privilegiada da Turquia sempre permitiu à sua elite fugir das situações difíceis com demasiada frequência. Mas desta vez, foram muito longe e chega.


Petr Lvov, Ph.D em ciências políticas, escrevendo com exclusividade para a revista online “New Eastern Outlook”. Este artigo apareceu em primeiro lugar em http://journal-neo.org/2015/11/28/the-erdogan-era-is-all-but-over/