quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A “Troika Midiática”: Imprensa financeira e Guerra Política (parte 02)         


O extremismo da “imprensa empresa”: As distorções, fabricação de fatos e fraudes na imprensa financeira. 
                  

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James Petras         
Tradução por mberublue           


Por causa de uma década de crescimento, a Troika castiga a Argentina capitalista

Há uma década a Argentina está no radar negativo da Troika apesar do fato de ter um governo de centro/esquerda, que recuperou a Argentina capitalista de um colapso total (a Crise de 1998-2002) recuperando o crescimento dos lucros. Multinacionais como a Monsanto e a Chevron obtiveram grandes retornos em seus investimentos na Argentina.

A Troika denuncia o governo argentino por propor orçamentos deficitários, ignorando o impacto do julgamento de uma corte de Manhattan beneficiando um grupo de especuladores de “fundos abutres” de Wall Street que queria o “pagamento de juros” de 1.000% (um mil por cento) de dívidas pré-crise.

A Troika reclama que o governo argentino embarca em excessos populistas, que impedem o fluxo de capital para os especuladores.

A Troika descreve o atual baixo crescimento da economia como sendo uma “crise profunda”, a qual requereria “grandes reformas estruturais” (principalmente a eliminação de qualquer tipo de ajuda social estatal para os empregados de baixa renda, para aposentados e pensionistas e para crianças em idade escolar).

A Troika pinta a Argentina como à beira de um desastre total. Uma economia em queda acelerada governada por uma líder demagógica preocupada apenas em falsificar dados... para mascarar uma iminente catástrofe...

A Troika e a campanha: “Odeie a Venezuela”

Os jornalistas da Troika e seus escritores de editoriais apresentam a Venezuela como um desastre total: uma economia estagnada e em ruínas, destruída por um regime populista e autoritário que reprimiria violentamente seus opositores pacíficos.

De acordo com a Troika a Venezuela é incapaz de prover seus consumidores mesmo com os bens mais básicos. Em vez disso, recorreria a confiscos draconianos de empresários honestos, acusados injustamente de cartelização e especulação. A realidade diária da escassez de manufaturados é solenemente ignorada.

Quando o governo venezuelano tentou impedir a violência em suas fronteiras, assolada por constantes assaltos de paramilitares colombianos e traficantes, foi denunciado como reprimindo arbitrariamente imigrantes colombianos.

Quando Caracas teve que prender líderes da oposição porque eles, documentadamente, se envolveram em manifestações violentas, promovendo até a sabotagem de centrais de energia e clínicas, planejando golpes, os governantes foram retratados como violadores dos “direitos humanos de dissidentes legítimos”.

A Troika jamais menciona as dezenas de milhões de dólares que os Estados Unidos providenciaram para ONGs de oposição, que nada mais faziam a não ser tentar implementar uma campanha contra a Venezuela. Essas ONGs traidoras foram chamadas de “organizações sociais civis independentes” (exatamente como na Ucrânia antes do golpe).

Por quase duas décadas a Troika apresentou os grupos oposicionistas venezuelanos como críticos formidáveis de Chavez/Maduro. Só nunca explicou porque esses “formidáveis grupos oposicionistas” perderam 15 das 14 eleições que ocorreram durante o período.

Defendendo o Terror Israelense: A Troika e a Palestina.

Na sua cobertura do Oriente Médio,a Troika insistentemente descreve os palestinos como sendo terroristas violentos e agressores, enquanto descreve os judeus como vítimas inocentes. De acordo com a Troika o exército israelense, quando se dedica a bombardear e massacrar palestinos encurralados em Gaza estaria apenas agindo em justa represália. A desapropriação das terras, casas e direitos dos palestinos, que parece não ter fim, bem como a violenta ocupação colonizadora  pelos judeus israelenses é apresentada como se fosse apenas um assentamento de judeus que fogem da perseguição.

Não existe menção, ou não se dá a devida importância a:

(1) a contínua profanação de lugares sagrados para o cristianismo ou islamismo;

 (2) O terrorismo sistemático e o aprisionamento em massa de manifestantes pacíficos.

Os palestinos continuam a ser descritos como sendo “incendiários, irracionais de extrema violência”

Os “jornalistas” da Troika produzem “artigos” que são virtualmente indistinguíveis da propaganda oficial distribuída pela Configuração do Poder Sionista nos Estados Unidos. A Troika sempre adverte os regimes parceiros EUA/EU por qualquer resquício de criticismo ou expressão de choque frente aos mais flagrantes crimes cometidos por Israel.

A Troika ecoa os ataques sionistas ou israelenses contra os tribunais internacionais que acusam funcionários israelenses por crimes contra a humanidade. A Troika afirma que essa atitude traz o “desequilíbrio”.

A Troika e a Síria: generais de poltrona.

A Troika tem demonizado o governo sírio de Bashar al-Assad enquanto apoia terroristas aos quais denomina “rebeldes” ou “moderados”. Por muito tempo tem pedido por uma maior intervenção militar pelos exércitos da OTAN para derrubar o governo em Damasco.

A Troika, botando uma máscara de “imprensa financeira independente” publica punhados de artigos, por dúzias de “generais de poltrona”, que ficam bolando estratégias militares contra Damasco e ao mesmo tempo ignorando os altos custos econômicos envolvidos, a catástrofe social de 4 milhões de refugiados sírios internos e externos e as consequências funestas de dividir um país que já foi uma nação/estado secular e unificada.

A Troika e os neoliberais voluntariosos

A Troika sempre adverte os Estados cujos governos, embora tenham adotado “políticas de mercado livre”, mantenham paliativos sociais, mesmo que moderados. Por exemplo, o governo chileno de Michelle Bachelet foi vítima de forte criticismo por promover um pequeno aumento nas taxas contra as corporações e implementar uma legislação sindical que permite maiores direitos aos trabalhadores. De acordo com a Troika essas reformas mínimas levam a uma estagnação econômica. Um declínio no investimento e a grande polarização social.

Avaliação: desmascarando as distorções, invenções e falsificações da Troika

O “jornalismo e editorialização” da Troika sobre a Rússia distorceu completamente sua história política e econômica recente. Como todos os homens de confiança, sejam eles editores, articulistas e jornalistas da Troika encaixaram mentiras flagrantes com os fatos reais narrados, conseguiram maximizar defeitos e minimizar conquistas, não levaram em consideração tendências positivas no longo prazo e puseram em destaque fatos negativos episódicos.

Os relatos da Troika sobre a recente assistência militar e diplomática da Rússia para o governo da Síria, em seus esforços contra terroristas islâmicos, ignoram as recentes conquistas que tiveram, revertendo os avanços do Estados Islâmico e estabilizando o governo central do país.

A Troika pinta um abantesma de uma suposta expansão geopolítica da Grande Rússia, mas faz questão de ignorar as parcerias políticas de longa data entre a Rússia e os maiores países da região, como Iraque, Irã, Síria, Líbano e Jordânia.

No campo econômico, a Troika descreve como “catastrófico” o impacto sobre a Rússia das sanções impostas pelos Estados Unidos e União Europeia por causa da Ucrânia, enquanto deixa de lado os resultados positivos que advirão no longo prazo para a economia russa – investimentos na indústria de transformação e na agricultura, maior autossuficiência, estímulo a produtores locais e a emergência no estrangeiro de mercados/fornecedores alternativos, especialmente China e Irã.

A Troika dá grande destaque aos dois anos de recessão na Rússia, ignorando toda uma década anterior de crescimento substancial, depois dos – estes sim catastróficos – “anos Yeltsin”.

A Troika falsifica tanto o passado quanto o presente desenvolvimentos políticos. Louvam discretamente os violentos gangsters oligarcas que governaram o país apoiados por Washington durante a pilhagem levada a efeito nos anos 1990s como tendo sido “uma democracia” enquanto denunciam as relativamente pacíficas e competitivas eleições sob Putin como sendo “autoritárias”.

A Troika recorre a armadilhas de propaganda similares contra a China. Qualquer pequena queda no crescimento de dois dígitos por três décadas consecutivas da China ganha cores de um iminente colapso, ignorando o fato de que a comunidade de negócios dos Estados Unidos/Europa só pode mesmo é sonhar com um robusto crescimento de 7% que a China exibe ano após ano.

As alegações berradas pela Troika  de que a China rouba ciência e tecnologia do ocidente ignora o fato óbvio do imenso investimento chinês em tecnologia e ciência básica e aplicada e a criação pelo governo chinês de dúzias de centros de excelência que têm produzido impressionantes conquistas em níveis de escolaridade. Uma passada de olhos nas publicações internacionais de literatura científica e jornais especializados mostra um quadro inteiramente diferente daquele pintado pela Troika em relação aos avanços chineses nesses campos.

As exportações chinesas por via marítima que não param de crescer, requerem um grande investimento e comprometimento com segurança e com suas rotas marítimas. Para conter o enorme crescimento chinês e assegurar a supremacia (norte)americana, Washington assinou novos e provocativos pactos com o Japão, Austrália e Filipinas e procedeu a uma escalada nas intrusões de aviões e navios através de águas e espaço aéreo chinês. A Troika faz questão de rotular a defesa da China de suas águas territoriais e espaço aéreo como sendo uma ameaça militar “agressiva” contra seus vizinhos regionais, enquanto os investimentos dos Estados Unidos em novas bases através da Ásia e coleta de dados de inteligência excede o que é feito por Pequim na proporção de cinco vezes por uma. Os navios de guerra de Washington violam descaradamente o limite de 12 milhas das águas territoriais nas fronteiras chinesas.

Os escribas da Troika solenemente ignoram a recente história dos impérios dos Estados Unidos e do Japão, que invadiram dúzias de países, matando dezenas de milhões de pessoas no processo. Contrastando com o enorme círculo de bases militares e de centros de comunicação dos Estados Unidos na região do Pacífico asiático, a China não tem bases ou tropas no exterior – um fato que você jamais saberá apenas lendo os jornais que fazem parte da Troika.

Impregnada em suas páginas, a campanha da Troika contra a Argentina não dá o devido papel de destaque da diminuição de curto prazo na demanda internacional por commodities, preferindo atribuir os problemas da Argentina aos seus programas de bem estar social, controles de capital e regulação pelo Estado. A Troika não quer nem saber da última década de crescimento, prosperidade e aumento dos padrões de vida dos argentinos.

A fonte da estagnação argentina não está em alguma eventual “falha nas políticas de livre mercado” mas no regime de Fernandez, que procurou acomodar e promover o interesse de banqueiros internacionais, praticamente todos eles detentores de títulos da dívida externa da Argentina (exceto um dos mais notórios “abutres”) e com as empresas capitalistas extrativistas (agronegócio, Monsanto, Barrak Gold, etc.).

A “década da infâmia” – anos 1990s - é totalmente ignorada pela Troika. Nestes anos fatídicos, a Argentina serviu como um bazar de pechinchas para a privatização de empresas públicas lucrativas, tendo finalmente desmoronado em 2001, com bancos fechando em massa, 100.000 falências e cinco milhões de desempregados (30% da força de trabalho) – tornou-se então uma economia totalmente saqueada. Em vez disso, a Troika quer fazer lembrar estes tempos negros como um passado ideal de prosperidade e livre mercado, a fim de condenar a Argentina contemporânea à miséria, desprezando o registro histórico real de duas coisas: um desastre liberal e uma recuperação keynesiana.

Hoje, a Venezuela enfrenta uma crise severa, como gostam imensamente de lembrar os escribas da Troika em reportagens estridentes – culpando pela crise um governo “populista” (ou seja, que gasta com programas sociais de bem estar público), e políticas “nacionalistas”.

A Troika faz questão de desconhecer a já bem documentada sabotagem feita pelos distribuidores e importadores da comunidade privada de negócios, retenção de divisas, excesso de exploração e especulação monetária. Esses problemas foram exacerbados pelo forte declínio dos preços do petróleo, resultado de forças do mercado internacional e não meramente de má gestão governamental.

A Troika gosta de afirmar repetidamente aos seus leitores que os governos de Chavez e Maduro são autoritários, deixando porém de informar que uma dezena e meia de eleições muito competitivas foram realizadas desde que Chavez ascendeu ao poder. Além disso, a Troika mantém bem escondido debaixo do tapete os seus violentos editoriais de apoio para a oposição liderada pelos empresários e financistas, e o golpe militar apoiado pela embaixada dos Estados Unidos em 2001, e ainda outro, que também não deu certo, em 2014.

Conclusão

A Troika: o Wall Street Journal, New York Times e o Financial Times fazem de forma repetitiva falsos prognósticos relacionados ao desempenho econômicos dos governos apontados pelo Império como “inimigos”, sempre visando uma “mudança de regime”. Tais previsões econômicas erram, erram e erram e caso seus leitores entre o público de investidores tivessem apostado nestes prognósticos teriam perdido até a camisa, por apostar baseados nas sugestões dos editoriais da Troika contra a China e o resto...

Suas denúncias mal intencionadas em relação às atividades meramente de defesa dos exércitos russos e chineses estão elevando o nível de tensão no mundo a um nível perigoso. Seu apoio a separatistas étnicos no Oeste chinês e no Cáucaso russo incentivam atos de terrorismo que levaram à morte centenas de trabalhadores chineses pela ação de terroristas uigures e tibetanos e ainda centenas de russos nas mãos de terroristas chechenos, além de milhares de pessoas de linguagem russa na região do Donbass na Ucrânia.

Que fuja da Troika aquele que desejar informação confiável, especialmente as relacionadas às decisões econômicas, e políticas de governos estrangeiros considerados adversários dos Estados Unidos e da União Europeia (aqueles que são alvo de tentativas de “mudança de regime”).

Os leitores mais exigentes e inteligentes da Troika terão, no máximo, uma visão bem abrangente sobre a linha propagandística adotada pelas potências ocidentais.

Além disso, na atualidade, a Troika se tornou aos poucos ainda mais irracional e militarista que as próprias elites dominantes. Os generais de poltrona da Troika zombaram de Obama porque ele não quis enviar tropas para a Síria; os acordos nucleares com o Irã foram alvos de críticas direcionadas aos Estados Unidos e União Europeia; a Troika encampou com entusiasmo o sistemático assassinato de palestinos por Israel.

Irracional, desonesta e mais dada a agir de forma ruidosamente estabanada do que a relatar os fatos de maneira equilibrada, Troika perdeu credibilidade, pelo menos para leitores mais inteligentes e sérios, que tem que se esforçar para “ler nas entrelinhas” quando a Trika escreve, por exemplo, que determinado governo é “impopular” no correr das eleições. Mais provável é que não sejam, pois estes governos acabam por vencer de forma categórica as eleições, mantendo maiorias absolutas, como é o caso, pelo menso atpe agora, na Rússia, na Argentina, na Venezuela pelo mundo afora.

Nos casos em que a Troika tem sucesso em promover mais e mais guerras, como fez e faz no Iraque, na Líbia, Síria, Iêmen e Somália, todas estas e cada uma destas aventuras militares levaram e levarão a desastres econômicos e sociais, espalhando pelo mundo milhões de refugiados.

Quando governos soberanos, como o da Inglaterra, resolvem adotar políticas conciliatórias em relação à China, deixando de lado confrontações de ganho zero para uma política cooperativa de ganha-ganha, os generais de poltrona não perdem tempo em zombar e acusar os governos conservadores que agem dessa forma acusando-os de “submissão” a regimes autoritários –   rejeitando um acordo de 30 bilhões de dólares.

Já vão longe os tempos em que a Troika apenas seguia fielmente a linha determinada pelos regimes imperiais. Agora, marcham com independência, rufando os tambores para guerreiros nucleares imaginários e terroristas. Sejam benvindos à “imprensa livre” e desfrutem das “mentiras de nossos tempos!”.*

 *(A última frase do artigo é um trocadilho do autor com o nome de dois dos jornais da Troika, ao escrever ironicamente ‘lies of our Times’. Dois dos jornais da Troika tem [Times] no nome The New York Times – Financial Times – NT).


James Petras - é um emérito professor de sociologia da Universidade Binghamton em Binghamton, Nova Iorque e professor adjunto na Saint Mary’s University, Halifax, Nova Escócia, Canadá. Pode ser encontrado em http://petras.lahaine.org/