segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O comportamento dos Estados Unidos no Oriente Médio: Origens e Significado




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Dmitry MININ - Strategic Culture Foundation     

tradução mberublue                    



O infantilismo da diplomacia (norte)americana na Síria.

A atitude da administração dos Estados Unidos em relação às operações deflagradas pelo exército russo na Síria faz lembrar uma criança embirrada e bagunceira que tem seu brinquedo favorito tomado, depois que já arrancou as duas pernas do brinquedo e estava pronta para arrancar a cabeça. Você explica pacientemente para ela que o brinquedo está sendo levado em seu próprio interesse, caso contrário ela ficará definitivamente sem seu brinquedo favorito de qualquer forma, mas ela fica chateada assim mesmo. Ela parece entender que estava errada, mas não consegue fazer nada em relação ao erro que praticou e provavelmente agirá de forma exatamente igual no futuro.


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Todo dia é 1º de Abril em meu Salão Oval!
Não se pode chamar de qualquer outra coisa a não infantilidade a reação da Casa Branca às propostas russas de combater o Estado Islâmico em conjunto. Washington não tem meios de se opor abertamente às ações russas – já que dentro do que diz respeito às leis internacionais, essa atitude atrairia imediata reprovação, não importa o quanto a propaganda ocidental continue mentindo. Colocar obstáculos sérios contra a ação russa no teatro de guerra também não é uma opção.

Dentro deste quadro, infantilismo não se trata de mera figura de linguagem, e sim um diagnóstico acurado de toda a estratégia do governo Obama para o Oriente Médio. Mais que atitudes sérias e verdadeiras para alcançar um determinado objetivo, parecem ser mais importantes para essa administração o prestígio, uma liderança universalmente reconhecida e sombras de grandeza estatal.

Uma perturbadora inversão dos relacionamentos tem sido observado pelos filósofos e pode ser descrita assim: “A humanidade está se tornando tecnologicamente mais sábia e humanitariamente mais idiota”. Mesmo quando você examina os projetos (norte)americanos para a queda da União Soviética, como por exemplo o Relatório do Conselho de Segurança Nacional 68, de 1950, você tem que admitir que se tratavam de documentos multifacetados para ação de longo prazo que deveriam fazer realmente alcançar seus objetivos (embora não sem a colaboração entusiasmada dos líderes soviéticos, é bom que se diga). Podia se notar naquela época que os projetos foram elaborados por gente que entendia do negócio. Agora, seus sucessores estão repousando nas camas da fama armadas por seus pais fundadores em completo acordo com a fórmula filosófica de “progresso tecnológico e regresso humanitário” e ficam simplesmente a anos luz dos elevados padrões daquela época.

A estratégia atual dos Estados Unidos para a região do Oriente Médio está determinada em um específico documento doutrinário – A diretiva política presidencial (PPD, na sigla em inglês – NT) “Reforma econômica e política no Oriente Médio e Norte da África” ou PPD13 (cada presidente começa a contar as ações do zero, assim que assumem), assinado por Barak Obama entre o final do ano de 2010 e o início de 2011. Historiadores do futuro ainda terão muito a dizer sobre este documento fatídico, que serviu como gatilho para disparar mudanças tectônicas na região, obrigando a máquina governamental dos Estados Unidos a deflagrar e encorajar “processos democráticos” nos países regionais. Pode se ter a certeza de que outras gerações de dirigentes e/ou políticos (norte)americanos ainda terão muito trabalho com o que se pode chamar de consequências desastrosas dessa estratégia. Enquanto isso, embora os experts dos Estados Unidos saibam perfeitamente da existência do documento PPD-13, nesta assim chamada “maior democracia do mundo” é expressamente proibido discuti-lo.

Tudo começou com um número relativamente pequeno de “especialistas em Oriente Médio” dentro do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos que terminaram por convencer Obama de que, dado seus ancestrais e suas habilidades pessoais, seria totalmente capaz de conduzir uma transformação revolucionária no assim chamado “Grande Oriente Médio”. Ao fazer isso, ele teria alcançado o objetivo perseguido inutilmente por seus predecessores desde setembro de 2001, tornando a macro região um lugar completamente sob o controle dos Estados Unidos.


Resultado de imagem para historic ObamaPresumiu-se que Obama passaria para a história com tais resultados, os quais eram o sonho desde sempre e de todos os presidentes dos Estados Unidos e quem sabe, talvez mesmo chegasse a ultrapassar a glória dos republicanos Reagan e Bush pai, cujos nomes estarão para todo o sempre ligados à queda da União Soviética e à transformação do Leste Europeu. O primeiro passo foi dado no discurso proferido por Obama no Cairo em maio de 2009. A sua corte o convenceu de que a região inteira estava no ponto para receber os benefícios da “democracia e liberdade”, lhe lhes estava sendo prometido e que apenas esperava o sinal do ungido para começar a aplicar seus esforços na obtenção daqueles objetivos ideológicos.

Então, quando a política começou a ser aplicada, o seu desenvolvimento desaguou em um drástico retrocesso em relação aos princípios proclamados. Em vez de democracia, houve tirania e violência e no lugar de uma emancipação social o que se viu foi uma explosão de instalação de estruturas arcaicas. Nações inteiras entraram em colapso. Não é surpresa nenhuma saber quem estava por trás do PPD-13. Eram justamente as três personagens já famosos pelas recomendações desastrosas para a presidência dos Estados Unidos durante a invasão do Iraque. Trata-se de Dennis Ross, Daniel Shapiro e Elliott Abrams. Eles foram os mentores e pensadores da Primavera Árabe. Embora esses homens tenham advogado uma dura ação militar durante a invasão do Iraque pelos EUA, eles decidiram tentar uma nova política de “soft power” para a esperada “reforma política e econômica no Oriente Médio”. O resultado foi exatamente o mesmo.

Desde então, analises insuficientes e simplificação da relação entre causa e efeito, slogans e dogmatismo bem como um total desrespeito às tradições e interesses das nações nas quais Washington pretende aplicar suas políticas vão se tornando cada vez mais um lugar comum, não apenas com relação a esse tema, mas também em outros contextos da política externa dos Estados Unidos. Mesmo assim, o país continua com uma confiança inabalável, embora injustificada, em seu próprio conceito de justiça, em sua capacidade de mudar o mundo ao seu bel prazer, apesar de que esta afirmação já não corresponder à verdade há longo tempo. Só dá para entender essas incongruências se se pensar na degradação da política externa dos Estados Unidos como fazendo parte da degradação do Império como um todo.

Nem sempre fica claro onde se reflete esse declínio sempre mencionado. Parece que a incapacidade de produzir raciocínio claro também é indicação importante do declínio imperial. Referem-se os acadêmicos a uma “atrofia da capacidade de empatia cognitiva” do Estado. Quando se enquadra nesta situação, o país não mais se preocupa com aspectos realmente importantes, mesmo aqueles que estão pouco a pouco escapando de seu controle, e sim em assegurar externamente supostos símbolos de grandeza. No entanto, fica impossibilitado de superar sua própria inspiração para o messianismo, chegando às vezes a flertar com a ultrapassagem das fronteiras do bom senso.

Dispositivos desatualizados de decisão em nível mais elevado e declarações de que o planeta inteiro está na esfera dos interesses (norte)americanos estão levando os presidentes dos Estados Unidos a ter que montar equipes para resolver um elevadíssimo número de problemas a todo o tempo. Há muito tempo os Estados Unidos não são enfrentados de maneira séria. Quem seria louco o bastante? Assim, os relatórios de análises artificialmente otimistas são devidamente resumidos, corrigidos onde necessário e simplificados ao máximo para que haja tempo suficiente sem o que se tornaria impossível. As primitivas dicotomias relacionadas pelas administrações dos EUA (democracia, totalitarismo, etc.) desmoronam na primeira confrontação com a realidade, pois não dá para colocar a Arábia Saudita como campeã das liberdades individuais enquanto se classifica a Síria, o Estado mais democrático e secular da região, como uma tirania. A vivência com a realidade reduz a pó todos esses esquemas imbecis. Também não funcionará nunca a tentativa de reduzir o conflito sírio, com suas extremas e complicadas implicações até a figura isolada de Bashar al Assad, dada a falência já observada da mesma visão em relação ao Iraque (Saddam Hussein) e Líbia (Muammar Kaddafi). Parece tudo um simplismo patético.

Durante o transcorrer dos acontecimentos, em dado momento os políticos dos Estados Unidos começam a acreditar na própria propaganda enganosa e confundem a miragem midiática com a realidade. Não deve ser fácil ter que aceitar a perda da condição de “superpotência global” de forma espontânea e tranquila, e então os Estados Unidos, adentra a fronteira das reações infantis, abdicando de um comportamento político maduro. Dada a força que ainda possuem e possuirão por longo tempo, a atitude pode se tornar extremamente perigosa. Ajudar os Estados Unidos a entender que houve uma mudança no mundo e chegou a hora de desistir de suas pretensões hegemônicas mundiais, tornando-se uma nação como todas as outras deveria ser a tarefa comum e primordial da humanidade.

Dmitry Minin -