sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Há um objetivo comum entre o Estado Islâmico e as potências intervencionistas: a guerra perpétua           


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O Professor da Universidade York, Sabah Alnasseri discute a estratégia do Estado Islâmico e atores regionais na sequência dos ataques em Paris – 19 de novembro de 2015 (entrevista concedida para Jessica Desvarieux, da TRNN).
                 
Bio
Sabah nasceu em Basra, Iraque, e obteve seu doutorado na Universidade Johann-Wolfgang Goethe em Frankfurt, Alemanha. Ensina política e economia do Oriente Médio no Departamento de Ciências Políticas da Universidade York em Toronto, Canadá. Suas publicações cobrem vários tópicos desde a Economia Política Marxista, Estado Marxista no viés de Gramsci, Poulantzas e Althusser, Teoria da Regulação e Política e Economia do Oriente Médio.


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Transcrição.

JESSICA DESVARIEUX, PRODUTORA, TRNN: Sejam bem vindos à Real News Network. Sou Jessica Desvarieux, desde Baltimore.

Muitas das noticias na quinta feira deram ênfase para um vídeo recentemente revelado do Estado Islâmico onde ameaçam atacar as maiores cidades (norte)americanas como Nova Iorque. Mas o prefeito de Nova Iorque, Bill de Blasio disse que não acredita, cito, em ameaças específicas e factíveis contra Nova Iorque, e pediu à população que sigam com suas vidas normalmente.

Muitas pessoas afirmam que estes vídeos fazem parte de uma estratégia do Estado Islâmico para causar medo. Mas o que existe nessas ameaças, além da estratégia? Para responder a esta questão, temos aqui o professor Sabah Alnasseri. Sabah é professor de Ciência Política na Universidade York, na Canadá. Obrigada por se juntar a nós, Sabah.

SABAH ALNASSERI: É bom estar aqui com você, Jessica.

DESVARIEUX: Então, vamos direto para a estratégia do Estado Islâmico. Você poderia apenas expor para nós alguns dos principais objetivos do Estado Islâmico no que diz respeito aos ataques acontecidos em Paris, assim como suas metas relacionadas à Síria e ao Iraque?

ALNASSERI: Certo. Então começarei com isto, quer dizer, com o recente ataque em Paris, que é tão produto do Estado Islâmico quanto de Paris. O que quero dizer com isso é que o Estado Islâmico explora e se utiliza da criminalização, inferiorização e desumanização das nações aliadas para com os jovens muçulmanos e a população árabe na Europa. Especialmente na França, um dos Estados Mais racistas da Europa. Assim, eles se utilizam dessa alienação dos jovens muçulmanos. Dão a eles uma sensação de poder, e um sentido na vida, que seria a vingança contra a mesma sociedade que os excluiu através da descriminação racial. Esta é parte da estratégia do Estado Islâmico, a qual significa que os ataques em Paris esclarecem mais sobre o relacionamento da França com sua comunidade de imigrantes, que sobre a violência do Estado Islâmico.

Claro, o Estado Islâmico, você sabe, e eu já conversei sobre isso com Chris Hedges, é um movimento de colonização por assentamentos, similar ao de Israel, porque essa é a única maneira de sustentar seu Estado, através da perpetuação do conflito. Estender o conflito. Pense sobre os Estados Unidos, nos anos 70s, quando parecia que estava perdendo a guerra do Vietnã. Também parecia ser possível uma solução pacífica para o conflito no Vietnã. Os Estados Unidos estenderam a guerra até o Camboja precisamente para impedir qualquer possível solução pacífica para o conflito.

Então o Estado Islâmico utiliza as mesmas táticas através da extensão da guerra do Iraque para a Síria e outras partes, na tentativa de sustentar a existência de seu Estado, sabendo que qualquer solução pacífica ou na Síria ou no Iraque, com uma troca de forças políticas, pode significar a ruína do Estado Islâmico. Assim, eles, logicamente, precisam perpetuar e estender o conflito.

DESVARIEUX: Muito bem. Sabah, vamos mudar o foco e falar sobre a estratégia do ocidente ao lidar com o Estado Islâmico, especificamente os Estados Unidos. Nós sabemos que há um bombardeio contínuo acontecendo na Síria e o presidente Barak Obama falou sobre sua estratégia. Vamos escutá-lo:

PRESIDENTE BARAK OBAMA: Temos uma estratégia abrangente, com o uso de todos aos elementos que podemos. Inteligência militar, desenvolvimento econômico, e o fortalecimento de nossas comunidades. Sempre soubemos que esta seria uma campanha de longo prazo.

DESVARIEUX: Acabamos de ouvir o presidente admitindo que esta será uma campanha de longo prazo. Há quem a chame de infinita. O que você pode dizer sobre esses comentários do presidente, Sabah, e esclareça também se você acha que este tipo de plano faz com que o ocidente se torne mais vulnerável a um ataque?

ALNASSERI: Sim. Quer dizer, isto é – esta foi uma das três coisas que me surpreenderam em relação aos ataques em Paris. Deixe-me começar com a terceira surpresa. A previsibilidade das reações dos Estados Ocidentais desde os acontecimentos de 9/11. Daí, sempre que acontece um ataque, ouviremos sempre as mesmas coisas, sobre mais militarização, intensificação dos conflitos, envio de mais tropas (inaudível), armas, e vamos para uma guerra prolongada, uma guerra sem fim. Esta é a mensagem. A mensagem informa ao povo que se prepare para uma forma interminável de violência política. Nós precisamos sustentar este estado de coisas através deste tipo de mensagem, exatamente como o Estado Islâmico precisa sustentar seu Estado (inaudível) elementos.

Daí fica tudo como estava. Como você pode ver, o problema é que – e mais uma vez, e esta foi uma de minhas surpresas em relação ao ataque em Paris, sobre a previsibilidade das reações ocidentais, foi ver que um dos perpetradores do atentado tinha um passaporte sírio. Ou foi o que disseram. Claro que esse fato provocou uma reação de criminalização em massa, com atos racistas dentro da Europa e dos Estados Unidos. Todos os 26 estados e todos os candidatos republicanos falaram contra a admissão de refugiados sírios nos Estados Unidos e na Europa.

Ocorre que esta é apenas uma reminiscência da mentalidade colonialista, uma espécie de [deja vú] fascismo ou nazismo como nos anos 30s. Digo isso porque quando os judeus eram massacrados na Europa, você sabe, quando os regimes nazistas e fascistas estavam cometendo o genocídio contra o povo judeu, nenhum dos Estados ocidentais, os assim chamados estados civilizados, como Reino Unido ou Estados Unidos, aceitou refugiados judeus. Na realidade, hoje acontece a mesma coisa, como eu disse, estamos experimentando um deja vú em relação a aquilo, daquele tempo.

A segunda surpresa é a surpresa em si mesma, que o povo francês esteja surpreso por ter sido atacado, considerando que sua pátria, de acordo com suas próprias declarações, está em guerra contra o Estado Islâmico. A França se envolveu na guerra contra a Líbia, em 2011. Em Mali, no Iraque e por aí afora. Então estou surpreso de que o ataque tenha surpreendido os franceses.

Talvez a mais importante delas seja a terceira surpresa, que é ver, apesar de todas as intervenções, ocupações, massacres e/ou a deslocalização de milhões de pessoas árabes e muçulmanas do Oriente Médio, ainda assim a absoluta maioria do povo do Oriente Médio reage de forma pacífica. Não de forma violenta. Você vê 100.000 refugiados vindos do Oriente Médio. Mas não vêm para atacar a Europa. Se viessem a Europa seria destruída. Mas na realidade, a Europa hoje parece um paraíso de segurança, com uma situação de paz, pois os refugiados fugiram dessa mesma violência que os parisienses estão enfrentando agora. Dessa forma, a surpresa é que apesar de ter o povo árabe experimentado o terror em todas as suas formas, violência, encarceramento etc, ainda assim são capazes de reagir de forma tranquila.

São assim estas as três surpresas, as quais me fazem pensar em algo muito importante. Nomeadamente, o impulso para a (inaudível) guerra ao terrorismo. Por três razões. Primeiro, porque desde 9/11 o terrorismo é sinônimo indissociável do Islã. Assim, faz crescer a islamofobia. Não é possível diferenciar entre muçulmanos bons e maus com (inaudível). Você vê, como eu disse, qual é a reação no ocidente, EUA e Europa, ao criminalizar e culpar milhões de sírios por causa de um passaporte. Como você vê o terrorismo se tornou intercambiável com o Islã, e portanto, faz com que cresça a islamofobia.

Segundo, terrorismo é um  termo violento. Não é apenas o (inaudível), mas também um julgamento. O que significa que ele cria ainda mais violência e torna quase impossível para o povo ocidental simpatizer e criar qualquer forma de solidariedade para com o povo do Oriente Médio.

E terceiro, o terrorismo colocado dessa forma, nos faz esquecer o terrorismo de Estado, que os países ocidentais estão praticando vis-a-vis do povo do Oriente Médio. É por isso que penso que nós dever[íamos deixar de usar esse termo (não a palavra) terrorismo para podermos ver e pensar sobre a situação com outros olhos.

DESVARIEUX: É assunto definitivamente importante, deixar de usar esse nome terrorismo, como você mencionou. Mas vamos falar sobre as maneiras que temos para derrotar e destruir o Estado Islâmico. Porque é sobre isso que as pessoas querem saber, já que, afinal de contas, eles são uma organização terrorista, quer dizer, eles atacam civis. Não estou dizendo aqui que os próprios governos possam ser considerados organizações terroristas, mas este já é outro assunto. Mas vamos falar de alternativas específicas, reais, no curto e longo prazo para lidar com o Estado Islâmico, especificamente.

ALNASSERI: Bem apenas (inaudível) a solução já é óbvia há anos. Este é o problema. Mas nenhum dos atores regionais o internacionais envolvidos estão interessados em uma solução pacífica. Você vê isso claramente na Síria. Você sabe, desde 2011, 2012, há várias opções para resolver o conflito politicamente. No entanto, as potências regionais, você sabe, apoiam e armam e financiam todos os grupos extremistas para perpetuar o conflito na Síria, porque o seu objetivo é uma mudança de regime, não uma solução pacífica.

No Iraque é a mesma coisa. A maneira de resolver o conflito é tão clara, tão óbvia. Deve-se simplesmente integrar política, econômica e territorialmente todos os iraquianos declarados sunitas ao Estado. Em seguida, deixar que as próprias pessoas cuidem do Estado Islâmico, que se defendam, como sempre fizeram. Só que também quanto a isso não há vontade política de fazer dessa forma. Não há qualquer estratégia para resolver de forma pacífica o conflito. O que temos em vez disso é o aumento dos ataques e bombardeios, militarização crescente, tropas no terreno. Claro que isso ocorre precisamente porque o ocidente quer mais é perpetuar o conflito, a violência, a instabilidade em vez de resolver suas diferenças e se livrar do Estado Islâmico.

Eliminar o Estado Islâmico é relativamente fácil se alguém quiser realmente fazer isso, e há muitas opções. Mas não vejo ninguém interessado nisto pelo menos até o momento.
DESVARIEUX: Entendo. E essa má vontade que expomos aqui, eu penso, deve levar o povo destes países a verem por si próprios e aprenderem um pouco mais sobre este assunto.   Sabah Alnasseri, muito obrigada por suas análises.

ALNASSERI: Jessica, obrigado por me chamar.

DESVARIEUX: Obrigada a você por se juntar a nós na Real News Network.

Fim da entrevista.


tradução por mberublue