sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Os Mercadores da Morte: Como as vendas de armas dos EUA estão alimentando as guerras do Oriente Médio.
                

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por WILLIAM HARTUNG          
tradução mberublue           

O recente aumento nas transferências de armas para o Oriente Médio é parte de um crescimento sem precedentes nas grandes vendas de armas que tem sido propiciado pela administração Obama.

A maioria das vendas de armas sob a administração Obama vai para o Oriente Médio e Golfo Pérsico, com a Arábia Saudita liderando a lista, já com mais de 49 bilhões de dólares em novos acordos. Isto é particularmente problemático dada a complexa gama de conflitos grassando através da região, e levando em consideração que a Arábia Saudita se utiliza do suprimento de armamento (norte)americano em sua intervenção militar no Iêmen.

A administração Obama tem feito da venda de armas a ferramenta principal de sua política externa, em parte como forma de exercitar uma influência militar sem precisar colocar as “botas no terreno” em grande número, como fez a administração Bush, com consequências desastrosas.

 O esforço da administração Obama por mais vendas de armas no Oriente Médio têm feito a fortuna dos fornecedores de armas dos Estados Unidos que fazem da exportação de armas uma meta primordial, dado a diminuição dos níveis de gastos do Pentágono. Não só as vendas para o exterior fazem crescer os lucros das companhias, como ajudam a manter as linhas de produção que de outra forma teriam que ser fechadas devido ao declínio das ordens de compra do Pentágono.


F-18 Super Hornet
Por exemplo, foi noticiado no início do ano que a Boeing concluiu um acordo para a venda de 40 F-18s para o Kuwait, o que fará com que se estenda o tempo de vida do programa, com seu final anteriormente datado para o início de 2017, em pelo menos um ano ou mais. Igualmente aconteceu com os Tanques M-1 da General Dinamics que sobreviverão graças a programas adicionais aprovados pelo Congresso e um acordo para a venda de tanques e upgrade de tanques para a Arábia Saudita.

Mas não se trata apenas de dinheiro. O suprimento de armas dos Estados Unidos alimenta o conflito na região. A mais recente e problemática venda é um acordo em andamento que pode suprir a força aérea saudita com mais um bilhão de dólares em bombas e mísseis, novamente para serem usados na guerra contra o Iêmen.

O uso dos helicópteros, aviões de combate, bombas e mísseis que os EUA entregaram para a Arábia Saudita tem contribuído para a catástrofe humanitária que se observa ali. Um ataque recente a uma festa de casamento que matou mais que 130 pessoas é apenas o último exemplo do que pode causar o uso de bombardeios indiscriminados, que já causaram a morte de mais de 2.300 civis por causa da guerra.


Bombardeios no Iêmen
Os bombardeios foram acompanhados de um bloqueio naval que causou uma situação onde quatro em cada cinco pessoas no Iêmen estão agora necessitando de ajuda humanitária. Estima-se que 12,9 milhões de pessoas no Iêmen estão em situação de insegurança alimentar e que mais de 1,2 milhões de crianças estão sofrendo de moderada a aguda desnutrição e que meio milhão estão severamente subnutridas, de acordo com o Programa Mundial de Alimentação das Nações Unidas.  Caso se permita que o conflito siga seu curso atual, há o risco de fome em massa.

Há evidências reunidas pelas organizações Human Rights Watch e Amnesty International indicando que os suprimentos fornecidos à Arábia Saudita pelos Estados Unidos incluem bombas de fragmentação que estariam sendo usadas no Iêmen.

Bombas de fragmentação são armas que matam indiscriminadamente e que têm seu uso proibido por um tratado internacional – um tratado que infortunadamente não foi assinado nem pelos Estados Unidos nem pela Arábia Saudita.

As coisas estão tão fora de controle que se sabe que é possível que algumas das armas fornecidas pelos Estados Unidos acabaram chegando às mãos de todas as partes envolvidas nos conflitos no Iêmen. Como se disse acima, as armas dos EUA estão sendo usadas tanto pelas forças aéreas e em solo da Arábia Saudita e do Kuwait, ambos invasores do Iêmen, e algumas delas foram perdidas tanto para os Houtis quanto para a Al Qaeda na Península Arábica.

O exército do Iêmen se dividiu ao meio, com uma parte das forças oferecendo lealdade ao antigo presidente Saleh e juntando forças com os Houtis enquanto a outra parte tomou o lado dos sauditas e do ex presidente Hadi. As duas facções acabaram recebendo tanto treinamento militar quanto armas por transferência dos Estados Unidos. Estatísticas recolhidas pelo Security Assistance Monitor (Monitor de Assistência para a Segurança) informam que as forças iemenitas ou receberam ou tiveram oferta de armas dos EUA no valor de mais de 900 milhões de dólares em ajuda militar ou policial desde 2009.

Cresce a preocupação sobre a participação dos Estados Unidos, que facilita a campanha de bombardeio da Arábia Saudita. A Oxfam (Organização para o combate à fome no mundo - NT) (norte)americana pressiona os Estados Unidos para que “retire seu apoio à coalizão liderada pela Arábia Saudita, que inclui a transferência de armamento para as partes em conflito, exija publicamente que seja permitido o livre fluxo de bens comerciais em todos os portos do país e angarie apoio no Conselho de Segurança das Nações Unidas para um imediato e incondicional cessar fogo com o início de um processo político inclusivo que permita chegar ao fim da guerra.”

O senador (norte)americano Patrick Leahy (Democrata) tem levantado questões quanto à responsabilidade dos EUA quanto às ações da Arábia Saudita, e também se os bombardeios violam a Lei (norte)americana que leva seu nome. A Lei Leahy “proíbe que os Estados Unidos forneçam assistência a qualquer unidade militar ou policial estrangeira, caso haja informações críveis de que esta tenha cometido violações graves dos direitos humanos, impunemente”.

Uma carta ao presidente Obama, organizada pelos deputados Dibbie Dingell (Democrata), Keith Ellison (Democrata) e Ted Lieu (Democrata) pede par que o presidente faça com urgência “todos os esforços possíveis para evitar mortes de civis no Iêmen e chegar a uma conclusão diplomática para o conflito.”

A intervenção liderada pela Arábia Saudita e apoiada pelos Estados Unidos no Iêmen precisa ser interrompida. Cessar o apoio militar dos EUA para esforço de guerra saudita seria um bom meio de começar.

William D. Hartung – é o diretor do Projeto de Armamento e Segurança no Centro para Política Internacional e conselheiro sênior do Monitor de Assistência para a Segurança e ainda colunista do Americas Program.