terça-feira, 10 de novembro de 2015

EUA: Grande mudança política na Síria (1 e 2)


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Andrei AKULOV, Strategic Foundation (1 e 2)
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Parte 1

Finalmente o presidente Obama definiu sua estratégia de segundo mandato para o Oriente Médio. A linha vermelha está sendo ultrapassada – pela primeira vez os EUA enviarão soldados de solo para a Síria para assessorar e aconselhar terroristas [ditos "rebeldes moderados"] que combatem o ISIS (?!) disse o porta-voz Josh Earnest, da Casa Branca, dia 30 de outubro. 

Os EUA mandarão para a Síria "menos de 50" forças das Operações Especiais, que serão mandados para o território controlado por curdos no norte da Síria. Os soldados norte-americanos ajudarão forças curdas e árabes locais, com logística, no combate contra o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico; e visam a amplificar o efeito de seus esforços. A Casa Branca insistiu que absolutamente não é caso de "superdistender a missão". "A missão não mudou", disse Josh Earnest, secretário de imprensa da Casa Branca. "Essas forças", acrescentou ele, "não têm missão de combate". 

Mesmo assim, o envio de soldados para a Síria é a escalada mais significativa de toda a campanha militar dos EUA contra o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico até o presente. O primeiro grupo de coturnos das Forças Especiais sairá dos EUA e poderá já estar no norte da Síria ainda em novembro, segundo alto funcionário da Defesa. Uma vez lá, os soldados serão baseados principalmente num quartel-general não oficial, onde estão representantes de árabes sírios (sic), curdos e outros grupos. Por razões de segurança, o local não foi revelado. Esses coturnos norte-americanos permanecerão na Síria por períodos que podem variar de semanas a meses de cada vez, disse o funcionário.

Pode acontecer de serem mandados mais coturnos. Espera-se que esses soldados não entrem em combate, mas têm direito de se autodefender e podem requerer autorização, se forem necessários em campo. Haverá mais forças de Operações Especiais disponíveis para ataques na Síria e no Iraque quando se identificarem alvos do ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico, de alto valor. Além do envio de soldados das Operações Especiais, o presidente Obama autorizou o envio de aviões de combate A-10 e F-15 para a base aérea de Incirlik, na Turquia. Os A-10s podem prover apoio aéreo próximo, aos combatentes em solo. Os F-15s podem executar grande variedade de missões de combate ar-terra.

Os EUA também consideram estabelecer uma força-tarefa de Operações Especiais no Iraque, para ampliar os esforços dos EUA na luta contra o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico e seus líderes, informou o secretário do governo Obama. 

Obama autorizou aumentar a ajuda militar à Jordânia e ao Líbano para enfrentarem o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico. Os EUA também aumentaram a ajuda militar aos grupos locais, com entrega por ar de armas, munições e outros itens para as forças "rebeldes moderadas" dentro da Síria. O número de soldados dos EUA no Iraque já inchou para mais de 3.500, desde que Obama anunciou que estava mandando para lá os primeiros 300 conselheiros/instrutores militares norte-americanos, em junho de 2014.

O Pentágono quer construir uma barreira por trás das forças aliadas aos EUA – curdos e a coalizão sírio-árabe que o governo Obama apoia –, para permitir que esses combatentes conservem o território que tomaram. Um dos modos para conseguir isso, disse um funcionário do Departamento de Defesa, é garantir que o equipamento e outros suprimentos entregues cheguem rapidamente até essas forças.

No momento, disseram funcionários, não há planos para mandar soldados dos EUA para além do 'quartel-general' improvisado da oposição no norte da Síria. Eles não patrulharão nem viajarão com grupos de oposição. Mas os funcionários também disseram que isso pode mudar, se a situação assim exigir. 

A 'notícia' de que esses soldados não participarão de missões de combate não conforma o que diz o chefe da Defesa dos EUA. Antes de essa notícia aparecer, o secretário de Defesa dos EUA Ashton Carter declarara perante a Comissão de Serviços Armados do Senado, dia 24 de outubro, que o Pentágono estaria ampliando os ataques contra o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico – inclusive mediante "ação direta em campo" no Iraque e na Síria. 

O secretário anunciou que "os EUA iniciarão" "ação direta em campo" contra forças de ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico no Iraque e na Síria, com o objetivo de aumentar a pressão sobre os militantes [sic], enquanto o progresso contra eles permanecer difícil. "Não deixaremos de garantir apoio a parceiros capazes, em ataques oportunistas contra o ISIL, ou de conduzir diretamente tais missões seja por ataques aéreos ou ação direta em campo" – disse Carter. 

Ora... O que ninguém sabe é como soldados "conduzem" ação direta "em campo" sem entrar em combate! Evidentemente, é só mais e mais conversa, para confundir. É possível que o secretário Carter da Defesa e Ernst, de Imprensa, saibam mais do que dizem.   

Dia 4 de novembro, o The Wall Street Journal noticiou que os EUA e aliados regionais combinaram aumentar os embarques de armas e outros suprimentos para ajudar os rebeldes sírios "moderados" a defender os próprios avanços e impedir qualquer progresso da ação dos russos e iranianos em defesa do presidente sírio Bashar al-Assad.

As entregas feitas pela CIA, pela Arábia Saudita e por outros serviços de inteligência aliados aprofundaram os combates entre as forças que combatem na Síria – apesar das muitas promessas feitas pelo presidente norte-americano Obama de que não permitiria que o conflito se convertesse em guerra à distância dos EUA contra a Rússia. 

O artigo do WSJ diz que no mês de outubro, ante a intensificação dos ataques russos, a CIA e seus parceiros aumentaram o fluxo de suprimento militar para "os rebeldes" no norte da Síria, incluindo mísseis TOW antitanques de fabricação norte-americana – segundo informação daqueles funcionários. Esses suprimentos continuarão a aumentar nas semanas vindouras, para recompor os estoques consumidos na crescente ofensiva militar do governo sírio. O diretor da inteligência nacional, James Clapper, alertou essa semana que a atual intervenção na Síria "arrisca-se a converter-se no que se tornou a intervenção no Afeganistão, nos anos 1980s, para os soviéticos. Pergunto-me se [os russos] têm alguma estratégia para decolar logo de lá, e se conseguirão evitar outro atoleiro" – disse Clapper.

É declaração que finge que não vê o fato de que os EUA, não a Rússia, é que anunciam a decisão de enviar coturnos em solo para a Síria, arriscando-se a converter a Síria no que foi a invasão dos EUA ao Vietnã em 1961-1974.  Lá também, os EUA começaram por mandar conselheiros das Operações Especiais. 

Some-se tudo isso, e vê-se claramente que a presença militar dos EUA na região está aumentando. Passo a passo, os EUA vão metendo os pés pelas mãos e empurrando seus próprios soldados para o fundo de mais uma guerra sem fim. É a primeira vez que os EUA mandam forças para a Síria e informam o mundo sobre o que estão fazendo, expandindo o alcance geográfico das operações militares norte-americanas no Oriente Médio. 

Com a presença dos EUA mantida no Iraque, e a decisão recém tomada de manter as tropas norte-americanas também no Afeganistão até no mínimo o próximo ano, o próximo presidente dos EUA herdará, no mínimo – e só até agora – três grandes conflitos militares! 


Parte 2

Quando os soldados de operações especiais dos EUA chegarem à Síria poderão aplicar lá as lições que aprenderam dos cerca de 1.400 soldados e apoiadores das Operações Especiais, que trabalham "à distância de hálito de café" [orig. coffee-breath close] com parceiros em 23 países africanos, disse dia 2 de novembro o comandante do Comando Africano da Operações Especiais dos EUA, brigadeiro-general  Donald Bolduc. 

"Entendo que operações das Forças Especiais na África abrem oportunidade única para examinar como aconselhar e ajudar, treinar e equipar e conduzir um pleno espectro de operações de Forças Especiais (...), para compreender como operar uma força letal que pode efetivamente desenvolver-se e operar dentro da própria população" – disse o brigadeiro-general Donald Bolduc na conferência Defense One Summit em Washington, D.C.

Bolduc disse que os operadores especiais dos EUA têm obtido grande sucesso no serviço de treinar e equipar forças de segurança africanas para que enfrentem as ameaças de muitos grupos terroristas, inclusive do Estado Islâmico.

Nos termos do que determina(ria) a chamada Lei Leahy – que leva o nome do senador por Vermont, Patrick Leahy –, os EUA são proibidos de prover assistência a unidades "de forças de segurança de país estrangeiro, se o secretário de Estado tiver informação confiável de que aquelas unidades tenham cometido violações graves de direitos humanos." 

Sim, mas nada disso impediu os EUA de conduzir exercícios de treinamento conjuntos com militares de países africanos que têm currículos genuinamente apavorantes quanto a esse quesito. A lista inclui Mauritânia, Mali, Chade, Burkina Faso, Níger, Nigéria, Senegal, Marrocos, Argélia e Tunísia (os países da Parceria Trans-Sahara para Contraterrorismo [orig. Trans-Sahara Counter Terrorism Partnership]).

Os EUA treinaram militares nigerianos durante anos. Resultado? O grupo Boco Haram passou, de pequeno grupo de uma seita radical do norte da Nigéria, para furioso e crescente grupo terrorista regional. Grupos terroristas, incluindo a Al-Qaeda no Maghreb Islâmico, al-Murabitun, o Movimento pela Unidade e Jihad na África Ocidental e Ansaru, grupo que surgiu de uma divisão do Boko Haram, estão todos em crescimento e expandido o objetivo de suas operações. Há casos também, de militares treinados pelos EUA que rapidamente chegam ao poder mediante golpe. Ano passado, o governo de Burkina Faso, como antes dele o governo do Mali, foram derrubados por militar treinado nos EUA – ex-aluno da Universidade de Operações Especiais Conjuntas do Departamento da Defesa [orig. Defense Department’s Joint Special Operations University]. Também houve golpes liderados por militares apoiados pelos EUA na Mauritânia em 2005 e novamente em 2008 e no Níger em 2010; e houve também a revolução que, em 2011, derrubou o governo que os EUA apoiavam na Tunísia, depois que o exército tunisiano, apoiado pelos EUA, omitiu-se de qualquer resistência. 

Apesar dos esforços das operações especiais dos EUA, nações africanas continuam a padecer sob a ação de uma pletora de grupos terroristas ou insurgentes e de membros das próprias respectivas forças armadas, numa sequência sem fim de conflitos.

Declarações do Comando Africano sobre 2015 admitem que, passada já uma década de intervenções militares, "No norte da África e na África Ocidental, a insegurança na Líbia e na Nigéria ameaçam crescentemente a interesses dos EUA. Apesar dos esforços multinacionais de segurança, redes de terroristas criminosas estão ganhando força e interoperabilidade." 

Lá se lê também que "Al-Qaeda nas Terras do Maghreb Islâmico, Ansar al-Sharia, al-Murabitun, Boko Haram, Estado Islâmico no Iraque e Levante [ing. ISIL] e outras organizações extremistas violentas estão explorando a fraqueza do governo, as lideranças corruptas e as fronteiras porosas por todo o Sahel e o Maghreb para treinar e movimentar militantes e combatentes e distribuir recursos."

Nem a insistente repetição dessas ações dos EUA, de usar forças das Operações Especiais para dar treinamento e cumprir missões de combate, conseguiu virar a maré na África, onde senhores da guerra e terroristas continuam a expandir suas operações. As mesmas ações também fracassaram no Oriente Médio.

Matéria do canal ABC diz que Republicanos no Congresso já criticaram o anúncio do envio de soldados para a Síria, questionando se o presidente não estaria simplesmente tentando 'segurar o jogo', empurrando qualquer desenlace para depois do fim de seu governo.

Os EUA consumiram cerca de 10 anos para treinar forças de segurança afegãs e o exército do Iraque. Sabe-se de sobra em que deu todo esse trabalho. Earnest já admitiu que não cabe esperar qualquer mudança dramática na luta contra ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico, sem solução diplomática na Síria. Parece correto. A via para solução pacífica na Síria depende de processo de negociações em Viena, não de 'envio' unilateral de forças das Operações Especiais dos EUA.

Andrei Akulov -