terça-feira, 20 de outubro de 2015

O Exército russo afirma a sua superioridade em guerra convencional
      
////////\\\\\\\

Resultado de imagem para Thierry Meyssan      
Thierry Meyssan - Voltairenet.org

Tradução de Alva com revisão de Ricardo Cavalcanti-Schiel publicada no Portal GGN e no Blog do Alok
       
A intervenção militar de Moscou na Síria não apenas revirou a situação militar no terreno e semeou o pânico entre os jihadistas. Ela vem mostrando ao resto do mundo, em situação de guerra real, a atual capacidade das forças armadas russas. Para surpresa geral, elas dispõem de um sistema de interferência capaz de deixar a OTAN surda e cega. A despeito de ter um orçamento muito superior, os Estados Unidos acabam de perder a sua supremacia militar.

A intervenção militar russa na Síria, que poderia ser uma aposta arriscada para Moscou diante dos jihadistas, transformou-se numa manifestação de poderio que transtorna o equilíbrio estratégico mundial [1]. Concebida inicialmente para isolar os grupos armados apoiados por Estados que violam as resoluções do Conselho de Segurança da ONU a esse propósito, para em seguida destruí-los, a operação foi conduzida de modo a cegar o conjunto dos atores ocidentais e seus aliados.

Estupefato, o Pentágono está dividido entre os que tentam minimizar os fatos, tentando encontrar uma falha no dispositivo russo, e aqueles que, pelo contrário, consideram que os Estados Unidos perderam a sua superioridade em matéria de guerra convencional, e que serão necessários muitos anos para recuperá-la [2].

Há que se lembrar que em 2008, quando da guerra da Ossétia do Sul, mesmo que as forças russas tenham sido capazes de repelir o ataque georgiano, acabaram mostrando ao mundo o estado deplorável do seu equipamento. Ainda há dez dias atrás, o antigo secretário da Defesa, Robert Gates, e a ex-conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, falavam do exército russo como uma força de "segundo nível" [3].

Como é que, então, a Federação da Rússia conseguiu reconstruir a sua indústria de defesa para conceber e produzir armas da mais alta tecnologia, sem que o Pentágono percebesse a amplitude do fenômeno, deixando-se ficar para trás? Os russos utilizaram todas as suas novas armas na Síria, ou ainda dispõem de outras maravilhas de reserva? [4]

O mal-estar é tão grande em Washington que a Casa Branca acaba de cancelar a visita oficial do Primeiro Ministro Dmitry Medvedev e de uma delegação do Estado-Maior russo. A decisão foi tomada após uma visita idêntica de uma delegação militar russa à Turquia. É inútil discutir as operações na Síria quando o Pentágono não sabe mais o que acontece lá. Furiosos, os "falcões liberais" e os neo-conservadores exigem a retomada de um orçamento militar arrojado e obtêm a suspensão da retirada das tropas do Afeganistão.

Da forma mais estranha que se possa considerar, os analistas da OTAN, que assistem à ultrapassagem do poder militar dos EUA, denunciam o perigo de um imperialismo russo [5]. Mas no fim das contas, a Rússia não está fazendo outra coisa que salvar o povo sírio, ao mesmo tempo em que propõe a outros Estados trabalhar em cooperação com ela, enquanto os Estados Unidos, enquanto detinham a supremacia militar, apenas impunham o seu sistema econômico e destruíam vários Estados.

É forçoso constatar que as declarações incertas de Washington durante o deslocamento russo, antes da ofensiva, não devem ser interpretadas como uma adaptação política lenta da retórica oficial, mas sim, pelo que elas realmente expressam: o Pentágono desconhecia o que se passava no terreno. Ele se tornara surdo e cego.

Um sistema de interferência generalizado

Sabe-se, desde o incidente do USS Donald Cook no mar Negro, em 12 abril de 2014, que a Força Aérea russa dispõe de uma arma [o sistema de guerra eletrônica Khibiny (L-175V)] que lhe permite interferir em todos os radares, circuitos de controle, sistemas de transmissão de informação etc. [6]. Desde o início do deslocamento militar, a Rússia instalou um centro de interferência em Hmeymim, ao norte de Latakia.

Subitamente, o incidente do USS Donald Cook repetiu-se, mas, desta vez, num perímetro de 300 km; incluindo a base da Otan em Incirlik (Turquia). E ainda persiste. Tendo o evento ocorrido durante uma tempestade de areia de intensidade histórica, o Pentágono acreditou a princípio que os seus instrumentos de vigilância haviam sido afetados, antes de constatar que eles tinham sido deliberadamente neutralizados. Todos alvo de interferência eletrônica.

Ora, a moderna guerra convencional se assenta no "C4i", uma sigla que corresponde aos termos em inglês: "command" (comando), "control" (controle), "communications" (comunicações), "computers" (computadores) e "intelligence" (inteligência). Os satélites, aviões e drones, navios e submarinos, blindados, e agora até mesmo os combatentes, estão ligados uns aos outros por comunicações permanentes, que permitem aos estados-maiores comandar as batalhas. É todo este conjunto, o sistema nervoso da Otan, que está agora eletronicamente empastelado na Síria e numa parte da Turquia.

Segundo o perito romeno Valentin Vasilescu, a Rússia teria instalado vários Krasukha-4, teria equipado os seus aviões de aparelhos de guerra electrónica [KNIRTI] SAP / SPS-171 (como o avião que sobrevoou o USS Donald Cook), e os seus helicópteros Richag -AV. Além disso, usaria o navio-espião Priazovye (da classe Projecto 864, Vishnya na nomenclatura da Otan), no Mediterrâneo [7].

Parece que a Rússia assumiu o compromisso de não perturbar as comunicações de Israel domínio de proteção norte-americano , de modo que se absteve de implantar o seu sistema de interferência no sul da Síria.

Na realidade, as aeronaves russas chegaram a dar-se ao luxo de violar repetidamente o espaço aéreo turco. Não para medir o tempo de reação da sua Força Aérea, mas para verificar a eficácia da interferência eletrônica nessa zona, de modo a poder vigiar as instalações colocadas à disposição dos jihadistas na Turquia.

Por fim, a Rússia utilizou várias novas armas, como os 26 mísseis de cruzeiro furtivos 3M-14T Kaliber-NK, equivalentes aos RGM/UGM-109E Tomahawk [8] . Disparados a partir da Frota do Mar Cáspio o que não tinha nenhum fundamento militar , eles atingiram e destruíram 11 alvos situados a 1.500 km de distância, na zona não interferida de maneira que a Otan pudesse apreciar o desempenho. Estes mísseis sobrevoaram o Irã e o Iraque, a uma altitude variável de 50 a 100 metros, segundo o terreno, passando a quatro quilómetros de um drone norte-americano. Nenhum se perdeu, ao contrário dos americanos cujos erros se situam entre os 5 e os 10%, segundo os modelos [9].

De passagem, estes disparos demonstraram a inutilidade das despesas faraônicas do "escudo anti-mísseis" construído pelo Pentágono em torno da Rússia — mesmo que fosse oficialmente justificado como dirigido contra os lançadores iranianos.

Sabendo que estes mísseis podem ser disparados a partir de submarinos, localizados em qualquer ponto dos oceanos, e que eles podem transportar ogivas nucleares, os russos recuperam o seu atraso em termos de lançadores.

Em última análise, a Federação Russa, em caso de confrontação nuclear, seria destruída pelos Estados Unidos — e vice-versa — , mas sairia vencedora em caso de guerra convencional.

Apenas os russos e os sírios estão em condições de avaliar a situação no terreno. Todos os comentários militares vindos de outras fontes, aqui incluídos os jihadistas, são infundados, porque só a Rússia e a Síria têm agora uma visão completa do terreno. Ora, Moscou e Damasco querem tirar o máximo de proveito da sua vantagem, e mantêm, dessa forma, o conveniente sigilo sobre as suas operações.

Dos poucos comunicados públicos, e confidências de oficiais, pode-se concluir que pelo menos 5.000 jihadistas foram mortos, entre os quais numerosos chefes da Ahrar al-Sham, da al-Qaida e do Emirado Islâmico. Pelo menos 10.000 mercenários fugiram para a Turquia, Iraque e Jordânia. O Exército Árabe Sírio e o Hezbolla reconquistaram o terreno sem esperar pelos anunciados reforços iranianos.

A campanha de bombardeios deverá terminar no Natal ortodoxo. A questão que se colocará então será a de saber se a Rússia estará autorizada, ou não, a terminar o trabalho, perseguindo os jihadistas que se refugiam na Turquia, no Iraque e na Jordânia. Se assim não for, a Síria estará salva, mas o problema não terá sido resolvido por completo. Os Irmãos Muçulmanos não deixariam de procurar uma revanche, e os Estados Unidos de os utilizar, de novo, contra outros alvos.


[1] “Russian Military Uses Syria as Proving Ground, and West Takes Notice”, Steven Lee Myers & Eric Schmitt, The New York Times, October 14, 2015.
[2] “Top NATO general: Russians starting to build air defense bubble over Syria”, Thomas Gibbons-Neff, The Washington Post, September 29, 2015.
[3] “How America can counter Putin’s moves in Syria”, by Condoleezza Rice, Robert M. Gates,Washington Post (United States), Voltaire Network, 8 October 2015.
[4] O único estudo disponível está bem abaixo da realidade : Russia’s quiet military revolution and what it means for Europe, Gustav Gressel, European Council on Foreign Relations, October 2015.
[5] «Russisches Syrien-Abenteuer: Das Ende der alten Weltordnung», Matthias Schepp, Der Spiegel, 10. Oktober 2015.
[6] “O que é o que assustou o navio de guerra americano no Mar Negro?”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 21 de Setembro de 2014.
[8] “KALIBRating the foe: strategic implications of the Russian cruise missiles’ launch”, by Vladimir Kozin, Oriental Review (Russia), Voltaire Network, 14 October 2015.
[9] Após ter anunciado o contrário, os Estados Unidos tiveram que admitir os fatos : “First on CNN: U.S. officials say Russian missiles heading for Syria landed in Iran”, Barbara Starr & Jeremy Diamond, CNN, October 8, 2015. “Moscow rejects CNN’s report on Russian missile landing in Iran”, IRNA, October 8, 2015. “Daily Press Briefing”, John Kirby, US State Department, October 8, 2015. “Пентагон не комментирует сообщения о якобы упавших в Иране ракетах РФ”, RIA-Novosti, October 8, 2015.