quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Putin – o incrível Abou Ali


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Tradução: Vila Vudu                                                 

Com as notícias de que se intensifica a ação militar dos russos na Síria, com novos passos afirmativos em andamento, o resto do mundo vê-se colhido numa mistura complexa de emoções, que vão do pavor à gratidão, ansiedade, desapontamento, frustração e medo, com várias outras entre uma e outra dessas. Variem as emoções como variarem, todos os observadores manifestam o mesmo ar de incredulidade.


Já parece excesso de ousadia afirmar qual seria o principal ponto de vista de cada um dos grandes acionistas envolvidos, imagine falar de todos eles, de modo que faça sentido geral. Mesmo assim, se se consideram simultaneamente todas as linhas principais, o quadro fica muito mais claro.

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Pode-se dizer, quase sem sombra de dúvida e conclusivamente, que os ataques russos, de uma semana, não mais que isso, foram muito mais efetivos que os da coalizão liderada pelos EUA ao longo de um ano inteiro, ou quase. As notícias sobre missões russas não são muito detalhadas. Vêm aos pedaços, sem o manto de purpurina e tecnicolor hollywoodiano ao qual nos habituamos desde 1991 e a Operação Tempestade no Deserto, no Iraque. 


Mas o fato de que os inimigos do governo legítimo da Síria estão incomodados, para dizer o mínimo, é indicação clara de que os ataques russos estão alcançando seus objetivos.


Por que, se não por incômodo profundo, a Arábia Saudita teria pedido formalmente à Rússia que suspenda os ataques? (1). Os sauditas tiveram diálogo bastante intenso com os russos ao longo dos dois últimos anos. Desde que o príncipe Bandar voltou de Moscou, de mãos vazias, em meados de 2013, os sauditas deram-se conta de que, no que tenha a ver com a Rússia, a Síria era linha vermelha. Mas talvez não tivessem percebido naquele momento o quão vermelha era aquela linha vermelha, nem depois de os russos terem negociado uma iniciativa de paz entre sauditas e o governo sírio, iniciativa que só resultou em uma reunião formal entre funcionários dos dois governos. Os sauditas continuaram obstinados, e imaginaram que poderiam pressionar mais a Rússia e/ou coagir os russos a se submeterem, sem saber até que ponto a Rússia estaria preparada para ir, depois de exauridas todas as vias diplomáticas.


Quanto à Turquia, segundo artigo de M. Nour-Eddin no diário libanês Assafir, publicado dia 3/10/2015 sob o título "Rússia na Síria; Turquia perde massivamente" (2), a Rússia tentou muito empenhadamente, em diferentes níveis, levar a Turquia na direção de uma paz negociada que poria fim à "Guerra contra a Síria". Os russos também tentaram incluir a Turquia num eixo antiterror, com Rússia e Irã, mas nada conseguiram. Antes, a Rússia já tentara incentivos econômicos para a Turquia, com o gasoduto "Ramo Sul". Mas o presidente Putin já estava cada dia mais incomodado com Erdogan, que prometia uma coisa e fazia o exato oposto.


Agora, os turcos também pedem a cessação dos ataques russos em solo sírio. As recentes incursões dos aviões de combate russos no espaço aéreo turco deixaram-nos extremamente preocupados, bufando que a 'agressão' afetaria as regras do engajamento, mas quem esteja fantasiando com a possibilidade de a Turquia atrever-se a derrubar um jato de combate ou bombardeiro russo, deve preparar-se para esperar muito antes que chegue o dia.


Pela primeira vez em quase nove anos, e numa guinada bizarra do destino, a roda girou, e os turcos agora se preocupam com a própria soberania e com eventos no sul da fronteira, depois que abriram os portões para uma enxurrada de jihadistas, saqueadores e fornecedores de armas. De diretores de cena, os turcos foram reduzidos a pedintes, de sultões a servos.


Com uma guerra criada por ele e que começa a escapar a qualquer controle, uma nova guerra contra os curdos e crescente animosidade contra a Rússia, Erdogan terá graves dificuldades para vencer a eleição dos seus sonhos, no próximo mês. Talvez, de todos os ingredientes desse Coquetel Anti-Síria, ninguém esteja mais absolutamente furioso com a ação russa na Síria, que os políticos turcos; mas, de todos, o maior perdedor individual é o próprio Erdogan.


Dizem que "a Rússia foi longe demais", e, sim, a Rússia ultrapassou em muito todas as expectativas. Mas é possível que ainda não tenhamos visto, da missa, a metade. O general norte-americano aposentado Michael Flynn disse a RT que não está surpreso ante a resposta da Rússia, porque foram ultrapassadas algumas linhas vermelhas já fixadas (4). E diplomaticamente se calou, um segundo antes de culpar os EUA por terem deliberadamente cruzado aquelas linhas; mas, segundo o general, quando uma superpotência é pressionada além de um dado limite, devem-se esperar reações desse grande calibre.


Por "ir muito longe" referem-se à Rússia ter realmente imposto sua própria zona aérea de exclusão sobre a Síria, depois de os EUA e aliados terem fracassado duas vezes nas tentativas que encaminharam pelo Conselho de Segurança da ONU (5). Na realidade, tudo de que a Rússia precisava para fazer o que planejava fazer era o consentimento do governo sírio. Mas, com essa zona aérea russa de exclusão, todas as nações resultaram excluídas, exceto Rússia e Síria. 


O que interessa observar aqui é que Israel também está excluída, e as notícias de um pesado sistema de defesa instalado dentro da Síria é terrível preocupação para os israelenses.


Os israelenses suspeitam que essa não seja medida provisória, a ser suspensa quando a missão russa estiver concluída. Os russos já construíram para eles uma base em Lattakia – sua primeira e única base fora do solo da Federação Russa, e não consideram diluir aquela zona de defesa aérea de 300-400km de raio em torno da base, enquanto a base for operativa, e operativa ela deve continuar.


Firas Al-Shoufi, do diário Al-Akhbar, do Líbano, já o indicou bem claramente, ao dizer que a Rússia está fazendo saber aos EUA, com clareza total, que o Mediterrâneo não é parte do Atlântico (6). Em outras palavras, os russos estão agora dizendo aos seus contrapartes norte-americanos, que o Mediterrâneo, ou, pelo menos, o Leste do Mediterrâneo, está sob domínio russo; e que norte-americanos e israelenses terão de aceitar essa realidade e conviver com ela, porque não lhes resta outra escolha.

Ele tende a se  irritar facilmente... Não acorde o urso russo!
"Você me chamou?"
Os norte-americanos, eles mesmos, talvez estejam mais chocados ante o movimento dos russos, que muitos outros; e estão absolutamente sem saber o que fazer. Desde o final da URSS, os norte-americanos vêm usando o mais altamente sofisticado equipamento militar desenhado para lhes dar supremacia contra todas as demais superpotências em suas pequenas-grandes guerras contra exércitos mais pobres e mais fracos. E, de repente, se dão conta de que, se resolverem aventurar-se na Síria e tomar posição contra os russos, terão de estar preparados para confronto de vastas proporções com adversário à altura; e aí está o que os norte-americanos nunca se prepararam para fazer. Os EUA não confrontarão a Rússia, porque não passam de provocadores abusadores, e provocadores abusadores só atacam vítimas mais fracas.


E ainda que os EUA tenham já admitido que seu programa para treinar "rebeldes moderados" fracassou escandalosamente, ainda insistem em repetir que a Rússia deve evitar bombardear rebeldes moderados. 


Em gesto que foi em parte diplomático em parte sarcástico, o ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov solicitou aos norte-americanos que identificassem os moderados, naquela legião de terroristas. A solicitação ainda não foi atendida, porque ninguém encontrou o que dizer. Em outro comentário, também sarcástico, mas bem-humorado, Lavrov disse claramente que, se um combatente tem jeito de terrorista, anda como terrorista e atira como terrorista, ele é terrorista e será tratado como tal (7). 


Mas só depois de Lavrov ter dito que o chamado 'Exército Sírio Livre' é na verdade uma "estrutura fantasma", é que ficou aberta e claramente dito que não existe, na Síria, nada que se assemelhe a 'rebeldes moderados' (8).


Ainda assim, os EUA ainda dizem que querem ajudar 'rebeldes moderados' (9) e há relatos que indicam que estão dispostos a treiná-los e armá-los. E, se se considera que aquele projeto de treinamento norte-americano que custou 500 milhões de dólares só produziu cinco combatentes, nada sugere que todo o sonho ambicioso dos EUA venha a concretizar-se.


Muito mais entusiasmante é ver os inimigos da Síria, diferentes membros do Coquetel Anti-Síria, fugindo espavoridos, cada um para seu lado. Mais agradáveis aos ouvidos, talvez, são notícias de que os terroristas estão em fuga. Estimados 3 mil terroristas parecem ter abandonado suas posições no Sul da Síria e foram vistos a caminho da Jordânia (10). Outros cerca de 600 foram vistos a caminho do Iraque.


Finalmente, no que tenha a ver com apoiadores da Síria, basta examinar a posição do Hezbollah, pelos olhos Nabil Haytham do diário libanês Assafir, dia 5/10/2015. Segundo suas análises e entrevistas com oficiais do Hezbollah, Haytham noticia que a posição oficial do Hezbollah considera que, na total coordenação entre Exército Sírio, Rússia e Hezbollah, vai-se configurando nada menos que "uma vitória conjunta" (11).


Dado que todos receberam com descrédito as primeiras notícias dos ataques russos na Síria, o que virá na sequência parece ainda mais inacreditável. Estão em andamento conversações para expandir os bombardeios russos, de modo a incluir também as bases terroristas no Iraque. Há até notícias, ainda não confirmadas, sobre preparativos para um assalto russo por terra.


O presidente Putin não para de surpreender todos. Agora já está à frente, indicando aos demais líderes ocidentais o que fazer e como. A cada passo adiante, empurra os opositores muitos passos para trás.


Na Síria, Putin é respeitosamente chamado de "Abou Ali" – nome que se dá a homem firme e confiável que, depois que fala, cumpre o que diz. A credibilidade que acumulou a seu favor, pela decisão e pela capacidade de agir com precisão, já fizeram, do incrível Putin, o incrível Abou Ali.

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