quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Putin reforça a mão de Assad, antes de conversações de paz 
      
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M.K. BhadrakumarAsia Times Online
Tradução pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu       

SOCHI – O repentino, inesperado encontro entre o presidente Vladimir Putin da Rússia e o presidente Bashar al-Assad da Síria, em Moscou, n 3ª-feira passada, teve a ver com a ação diplomática para iniciar um processo político, segundo destacados especialistas russos aqui em Sochi.

Um dos mais importantes diplomatas russos, embaixador Alexander Aksenyonok (que trabalhou nas negociações para os acordos de Dayton), disse que Moscou tem interesse numa solução política na Síria "o mais rapidamente possível – e essa será também nossa estratégia para sair de lá."

Segundo todos os relatos, a reunião em Moscou na 3ª-feira transcorreu em atmosfera excepcionalmente calorosa, amistosa; e Assad viajou imediatamente depois de receber o convite de Putin. Os dois presidentes mantiveram conversações em nível de delegação, e também uma reunião limitada.

A transcrição oficial do Kremlin cita Putin, falando a Assad: "Sobre a questão de um acordo para a Síria, nossa posição é de que resultados positivos nas operações militares são a base para construam acordo de longo prazo baseado num processo político que envolva todas as forças políticas, grupos étnicos e religiosos."

Putin acrescentou: "Na verdade, é o povo sírio, e só ele, quem deve ter a palavra final nesse assunto. A Síria é nação amiga da Rússia, e estamos prontos a dar nossa contribuição, não só nas operações militares e na luta contra o terrorismo, mas também para o processo político. Faremos tudo isso, claro, em íntimo contato com as demais potências globais e com os países da região que desejem ver acordo pacífico que ponha fim a esse conflito".

Consideradas no todo, as observações de Putin devem pôr fim a quaisquer noções fantasiosas (ou mal-intencionadas) disseminadas pelos adversários detratores no ocidente e na região, segundo as quais a Rússia estaria se aproximando da ideia de que Assad teria de sair para abrir caminho para um novo governo na Síria.

Bem ao contrário, a reunião da 3ª-feira no Kremlin reforça os laços já fortes que unem os dois países e os dois presidentes. Na verdade, a recepção de 'tapete vermelho' preparada pelo Kremlin para dar boas-vindas a Assad – tudo deliberadamente planejado, é claro – deixou muita gente em Washington com as penas arrepiadas, como era previsto. O porta-voz da Casa Branca lamentou abertamente que [a reunião] "desmente o que os russos dizem sobre transição política na Síria".

Como se poderia esperar, também causou algum desconforto em Washington que Putin tenha decidido agendar a reunião com Assad exatamente no mesmo dia em que EUA e Rússia firmavam memorando de entendimento para prevenir incidentes aéreos na Síria.

Assim também, o timing da reunião de Putin e Assad, apenas poucos dias antes do início das conversações tripartites em nível ministerial, entre EUA, Rússia, Turquia e Arábia Saudita, na 6ª-feira, em Viena, também carrega seu próprio simbolismo.

De fato, Putin falou ao telefone com o presidente Recep Erdogan da Turquia, com o rei Salman da Arábia Saudita, com o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi e com o rei Abdullah II da Jordânia, na 4ª-feira, para informá-los dos "resultados das conversações" com Assad na noite anterior.

Tudo considerado, portanto, a visita de Assad a Moscou assinala, em termos políticos, o início da avançada diplomática chefiada por Putin, para resolver a questão síria. Impulso robusto dos russos para uma reunião das potências exteriores com influência na Síria, para que todas voltem às negociações que agora se podem esperar para a reunião em Viena, da qual participará o ministro Sergey Lavrov, das Relações Exteriores da Rússia.

Por outro lado, as conversas de Putin com os líderes turco e árabe, para atualizá-los sobre suas conversas com Assad transmitem mensagem forte de que, na avaliação dos russos, Assad continua em ativo comando como chefe do Estado sírio; é protagonista inafastável de qualquer processo político; e seus interesses não podem ser ignorados em qualquer processo político. Sem sombra de dúvida, a realidade em campo é também que a ação a Força Aérea da Rússia, no combate contra os terroristas, fortaleceu o governo sírio.

Enquanto isso, a Turquia assistirá com crescente mal-estar aos relatos recentes que sugerem que os sírios curdos podem brevemente inaugurar um 'escritório' em Moscou. Alto especialista em Oriente Médio, Vitaly Naumkin, Diretor do Instituto de Estudos Orientais da Academia de Ciências da Rússia, disse aqui em Sochi na 4ª-feira, que os sírios curdos têm esperança de ter entidade deles em seus territórios tradicionais na parte norte do país, mas que a linha a não ultrapassar para negociadores sírios e árabes será preservar a unidade do país a qualquer custo e, daí, portanto, o papel da Rússia será de 'mediadora'.

Mas a impressão que persiste é que Moscou sente-se cada dia mais exasperada ante o jogo duplo dos turcos na questão síria. Pode ser o caso de a Turquia ter afinal captado a mensagem e pode estar cautelosamente modificando sua posição sobre Assad.

Alto funcionário turco disse em Ancara, na 2ª-feira, que a Turquia está disposta a aceitar uma transição política pela qual Assad permanece no poder por seis meses, antes de deixar o governo. Bem evidentemente, a Turquia percebeu que se meteu num beco sem saída, dado que seria impossível não se dar conta de que confronto direto com a Rússia seria movimento arriscado demais.

Quanto à Arábia Saudita, já está superdistendida no Iêmen e não é provável que se interesse por desagradar Moscou e manter o apoio a grupos armados que se opõem a Assad. No máximo, talvez mantenha o fluxo de dinheiro. Seja como for, a especulação sobre a Arábia Saudita estar-se organizando para um replay da 'Jihad afegã' dos anos 80s, agora na Síria, nos próximos meses, está muito fora dos limites de qualquer possibilidade.

Mais uma vez resta saber se o rei Abdullah da Jordânia, que há um ou dois anos trabalha para construir laços com o Kremlin, deixará que o território da Jordânia seja usado como rota para enviar armas para grupos terroristas na Síria.

Ao contrário do que diziam relatos iniciais, a Jordânia não participará das conversações em Viena na 6ª-feira, apesar de o secretário de Estado dos EUA John Kerry ter mencionado o país como um dos convidados. Dada a decisão dos EUA de fechar seus campos de treinamento para terroristas sírios (e outros), é perfeitamente possível que a Jordânia esteja silenciosamente caindo fora da empreitada síria.

Interessante: o embaixador do Irã na Rússia Mehdi Sanaei revelou aqui em Sochi que o poderoso presidente do Parlamento do Irã [Majlis], Ali Larijani, estará em Moscou no próximo final de semana em visita oficial. Sem dúvida, as conversações entre Larijani e os russos serão dedicadas à Síria.

Mais uma vez, o timing da visita de Larijani a Moscou é balde de água fria sobre a especulação segundo a qual Rússia e Irã teriam interesses opostos na Síria. Têm-se ouvido recentemente especulações de que Moscou estaria querendo desistir de Assad, mas Teerã insistiria em que Assad permaneça e conversas desse tipo. A reunião de 5ª-feira no Kremlin acaba com essas especulações – pelo menos por enquanto.

E já começa nova especulação, segundo a qual Assad ter escolhido Moscou para sua primeira visita ao exterior desde o início dos confrontos na Síria há quatro anos, seria sutil mensagem ao Irã, de que quem manda é a Rússia. Mas, como a visita de Larijani comprova, a verdade é que Rússia e Irã trabalham em estreita coordenação na questão síria.

Na reunião em Moscou, na 3ª-feira, Assad manifestou claramente a Putin sua avaliação sobre a ação da Rússia de "ter-se integrado às operações militares, como parte da frente comum contra o terrorismo". Evidentemente, Assad nada disse sobre a composição da "frente comum", mas fato é que nem precisava dizer, quando é amplamente sabido que o Irã, ali, é constituinte chave.

M. K. Bhadrakumar - foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.