quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Israel: a mídia e a anatomia de uma sociedade doente.

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tradução mberublue

O vídeo de um garoto palestino de 13 anos de idade, Ahmed Manasrah, sangrando até a morte no chão, nas imediações de Jerusalém leste já foi descrito como sendo “chocante”, “perturbador” e “doloroso de se ver”. Os espectadores israelenses podem ser ouvidos no vídeo, que se tornou viral: “Morra, filho de uma puta! Morra! Morra!”. Os xingamentos e insultos lançados sobre o menino que se contorcia em agonia já foram caracterizados de várias formas, como “covardes”, “insensíveis” e “cruéis”, e de fato são.


Embora já haja muita discussão sobre o vídeo e ainda outros incidentes semelhantes que envolvem a execução extrajudicial de jovens palestinos, que são acusados por Israel de terem esfaqueado cidadãos israelenses (e a veracidade destas acusações tem sido veementemente contestadas), decididamente não há muito exame das implicações ideológicas ou sociológicas destes acontecimentos. Na realidade, tornou-se um tabu explícito qualquer questionamento, mesmo pequeno sobre as conclusões que se podem tomar sobre a sociedade israelense – uma sociedade na qual este tipo de comportamento não é incomum; onde, ao invés de ver nisso uma anomalia, indica na realidade um comportamento significativo, senão habitual. A barbárie inegável na forma pela qual a sociedade israelense trata os palestinos não é simplesmente fruto do ódio, nem pode ser explicada ou justificada. Mas é justamente isso o que a mídia corporativa faz.
Basta dizer que há muitos analistas políticos, ativistas e outros que são absolutamente tímidos ao condenar diretamente a sociedade israelense ou Israel como entidade estatal em relação a este tipo de atitude. Muito justificadamente, eles têm medo de serem demonizados como antissemitas, aterrorizados de que, em vez de um debate aberto e exame crítico, possam ter seus argumentos distorcidos e apresentados como odiosos e racistas. Mesmo que estas acusações sejam de vez em quando justificadas – como no caso de fascistas fanáticos e neonazistas, para os quais “judeus” é sinônimo de “mal” – na maior parte dos casos as críticas são viciosamente desviadas para proteger a sociedade israelense das acusações que ela tão claramente merece.
Porém aqueles para quem o que interessa mesmo é a justiça e falar apenas a verdade não podem ficar em silêncio, não podem permitir a si mesmos tornarem-se vítimas de uma autocensura induzida pelo medo. Calar o criticismo em relação a Israel é na realidade falhar em defender de forma apropriada o povo oprimido; é abdicar da responsabilidade de falar contra a injustiça, a brutalidade do colonialismo e a desumanidade do sionismo contemporâneo. É a mesma coisa que abandonar o dever de desconstruir a narrativa dominante no interesse da justiça social, de desafiar a propaganda da mídia corporativa cuja função primordial é proteger o poder dominante das inconfortáveis luzes do criticismo. Eu não posso e não vou ficar em silêncio.
A propaganda da Mídia e o perigo da falsa igualdade

Lendo o New York Times, Washington Post e outros alegados representantes legítimos da mídia liberal dominante, alguém poderia se ver tentado a pensar que a natureza do conflito Israelense/Palestino é uma espécie de olho-por-olho, que seria o produto de uma relação de causa, efeito e contra efeito em andamento. É precisamente desta forma que o conflito é apresentado por praticamente todos os assim chamados jornais “respeitáveis”.
Pegue, por exemplo, um artigo publicado no “Jornal dos Estados Unidos”, o New York Times, poucas horas depois do incidente, que colocava em manchete: “Aos desafios de segurança de Israel, acrescente-se agora as facadas e as respostas mortais”. Ao analisar detalhadamente, desconstruindo só a manchete, torna-se clara a intenção maliciosa e as mentiras enganosas; The Times coloca na manchete do artigo a presunção de que a culpa é dos palestinos. De acordo com a lógica sintática da elaboração da manchete, são as “facadas” (mencionadas em primeiro lugar) que seriam a raiz dos problemas e, consequentemente, daria origem às “respostas mortais”, que não seriam nada além disso: respostas. O efeito tentado e obtido é justificar o assassinato de palestinos como sendo uma simples resposta a um fator externo: violência contra israelenses.

Resultado de imagem para Israel assassinoÉ claro que qualquer um que tenha mesmo um conhecimento rudimentar sobre as questões sabe que as facadas são elas mesmas uma resposta aos ataques de assentados israelenses e de forças de segurança de Israel contra palestinos, assim como mera consequência da brutalidade de uma ocupação que parece não ter fim, da pobreza e do desespero. A história do colonialismo está repleta de tais exemplos. Ainda por cima os israelenses e o estado israelense mesmo, são colocados como vítimas. A manchete apresenta o assunto como se fosse um “desafio de segurança” para Israel, e não, como deveria colocar, um problema de colonialismo, ou de uma ocupação criminosa. Dessa forma, considerada em seu todo a manchete e o artigo tem o efeito cumulativo de transformar as vítimas em agressores e os agressores em vítimas, distorcendo totalmente a relação opressor/oprimido. Esta inversão é absolutamente necessária para a intenção declarada de lavar/perdoar os crimes cometidos por Israel, absolvendo de toda a culpa ao Estado e seus cidadãos que são de uma fanática e fascista extrema direita.
Até mesmo uma alegadamente imparcial abordagem da questão por um veículo supostamente liberal moderado como a NBC News é desmentido pelo tratamento desonesto dado ao conflito e à recente onda de violência. Na cobertura do incidente, a NBC News publicou a história do tiroteio e os insultos ao jovem moribundo com a seguinte manchete: “O vídeo viral que mostra Ahmed Manasrah baleado resume o conflito israelense/Palestino”. O veículo pretende apresentar de forma imparcial o assassinato de Ahmed como um fato emblemático que retrataria todo o conflito. A NBC quer apresentar narrativas ao mesmo tempo de israelenses e palestinos, tentando convencer os leitores que as alegações em curso, assim como as contra alegações que surgiram imediatamente são mais do mesmo, e que a verdade é nada mais que inescrutável; depois de tudo, israelenses alegam X, palestinos alegam Y. Acho que nunca saberemos.

O leitor do artigo da NBC acaba por dispor de uma versão falsa e desonesta, embora muito usada politicamente, ao concluir que os dois lados são igualmente culpados, ambos dignos de admoestações e que o conflito em si mesmo está para além de qualquer análise. Dessa forma, apresentado o conflito com essas cores, o veículo, no caso a NBC posa de justo, já que teria providenciado um relato balanceado e imparcial. No entanto, na realidade, isso é simplesmente ocultar a verdadeira natureza do conflito: uma luta entre um opressor colonial e suas vítimas, deslocadas e despojadas sistematicamente por sete décadas.
Mas deixando de lado a equivalência, mesmo tornando opaca a verdade da questão, a NBC acabou por, sem querer, revelar uma verdade fundamental sobre o conflito: que, de fato, o incidente resume muito claramente o conflito Israel/Palestina. Embora seu intento não fosse esse, a NBC corretamente expôs o fato de que o comportamento dos israelenses no vídeo é claramente emblemático do conjunto da sociedade de Israel, na qual as crianças palestinas são chamadas de “cães” e “filhos de putas”, sem direito a respirar, sem direito à vida.
A patologia do fascismo israelense


Resultado de imagem para Israel assassinoO que o vídeo de Ahmed Manasrah colocou a nu para o mundo inteiro tomar conhecimento é a desumanidade do sionismo, uma ideologia supremacista judia (só falta mesmo os judeus afirmarem que são excepcionais e indispensáveis para o mundo – NT) a qual necessariamente coloca os não judeus como inferiores em relação aos judeus, que coloca a vida de todos os não judeus como valendo menos que a vida dos judeus. Não se trata apenas de ódio, ou simplesmente ódio que motivou os comentários nojentos dos espectadores judeus, isso está arraigado em seu background, é um intergeracional senso de superioridade, produto da desumanização dos palestinos, e dos árabes em geral.
O fato fundamental raramente é colocado em discussão, mas está ligado ao âmago do conflito palestino. Ao considerar os árabes como sub-humanos, muito israelenses se sentem justificados, frequentemente até um nível de inconsciência a praticar todas as formas de brutalidade, violência e opressão. Devo no entanto dizer aqui que existem alguns israelenses que lutam justamente contra esse modo de pensar (Gideon Levy talvez seja a voz mais proeminente contra essa ideologia supremacista), mas infelizmente eles foram sufocados pela direita raivosa israelense (e mesmo muito do centro, devo dizer).
Rapidamente, esse fenômeno pode te cobrir de alcatrão e penas retóricas como um maldito antissemita, está nas entrelinhas de toda a política israelense, com a aceitação passiva ou ativa de todo o corpo político do Estado de Israel. Enquanto Ahmed Manasrah sangrava até a morte em meio a um pletora de insultos pode até fazer com que haja algum tipo de comoção expressa pelas redes sociais da internet, na verdade isso não se trata senão de mais um tipo de violência. Será que é mesmo pior ou diferente do que tratores de esteira israelenses destruindo casas palestinas? Talvez seja mais bárbaro que queimar casas de palestinos com bebês ainda dormindo lá dentro?

Talvez a gente não devesse expressar qualquer choque ou ultraje com o vídeo, mas vê-lo apenas como um desenvolvimento lógico, como consequência da ideologia supremacista e fascista que emana dos líderes do Estados de Israel. Para os israelenses do vídeo, eles nada mais faziam que seguir o exemplo dado pelos seus líderes, como o Ministro da Justiça Ayelet Shaked, que, no auge da guerra criminosa de Israel contra Gaza no verão de 2014, escreveu a seguinte declaração vergonhosa e infame:

O povo palestino declarou Guerra contra nós, e devemos responder com guerra. Não uma operação, não um movimento militar limitado, de baixa intensidade nem de escalada controlada, nenhuma destruição de infraestruturas do terror nem alvos para mortes. Isto é uma guerra... Não uma Guerra contra o terror, nem contra extremistas, nem mesmo uma guerra contra a Autoridade Palestina... Trata-se de uma guerra entre dois povos. Quem é o inimigo? O povo palestino... O que há de tão terrível em entender que todo o povo palestino é o inimigo? Toda guerra acontece entre dois povos e em toda guerra o início é deflagrado por um dos povos inimigos, todo o povo, que é o inimigo... Atrás de cada terrorista estão dezenas de homens e mulheres, sem os quais ele não poderia se engajar numa campanha terrorista. Todas essas pessoas são combatentes, e o sangue derramará de todas as suas cabeças. Agora, estamos incluindo também as mães dos mártires... Elas deverão seguir seus filhos, nada pode ser mais justo. Elas devem perecer, assim como suas casas, onde criaram as cobras, para que nenhuma outra pequena cobra possa crescer ali.
Tal retórica, que atende perfeitamente ao desejo de desumanização do outro, é reminiscente de várias ideologias fascistas, desde a Alemanha Nazista dos anos 1930s, até a Ucrânia contemporânea com suas políticas desenvolvidas pelo Setor de Direita e pelo Batalhão Azov. A noção de “guerra total” contra um povo inteiro, incluindo não combatentes, homens, mulheres e crianças, na realidade se sobrepõe à simples propaganda de guerra. É a advocacia do genocídio e da limpeza étnica.
Exatamente no ponto:  limpeza étnica é tanto um conceito como um objetivo militar que tornou-se a política atual em aplicação pelo Estado de Israel hodierno.. Então, por que se surpreenderia alguém quando jovens israelenses esperam ansiosamente a morte de um jovem palestino a esvair-se em sangue, aos berros de “filho de uma puta!”. Afinal, depois de tudo, o que era Ahmet Manasrah a não ser “uma pequena cobra”?
...e tem mais:
Se o passado ensina alguma coisa, o que eu escrevi acima com certeza provocará várias reações negativas, condenações, e-mails raivosos e insultos de todos os tipos. “Antissemita”, “Traidor” e “Odeia a si mesmo” são alguns dos epítetos mais comuns que tenho ouvido em todas as vezes que escrevo ou falo sobre Israel, Sionismo, Supremacia Judia e assuntos que tais. Não apenas não me intimidam ou impedem, como me motivam ainda mais para novas artigos e palestras, porque a raiva é a indicação precisa de que toquei fundo na ferida, que é feia e precisa ser exposta aos olhos do mundo inteiro.
Da mesma forma, reconheço que tenho certos privilégios ao escrever estas linhas. Como ateu convicto que rejeita qualquer nacionalismo étnico ou tribalismo inerente à ideologia política sionista, minhas origens judaicas me dão um certo isolamento distante contra as acusações de antissemitismo (não que isso fará com que as acusações parem, claro). Mas com certeza tenho uma certa folga para escrever e falar livremente sobre estes assuntos, além de me lembrar de que tenho o dever de fazê-lo.
Todos aqueles que não se opõem frontalmente aos crimes de imperialismo, colonialismo, opressão e genocídio indubitavelmente são cúmplices desses crimes. Eu, pelo menos, não sou.
Eric Draitser é o fundador do site StopImperialism.org e locutor de CounterPunch Radio. Ele é um analista geopolítico independente baseado em Nova Iorque. Pode ser encontrado em ercdraitser@gmail.com