sábado, 24 de outubro de 2015

O mundo, entre guerra e paz
      
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[Parte 2] (e excertos das Q&A)

Resultado de imagem para Putin
Presidente Vladimir Putin, Sochi, Rússia (vídeo e transcrição ing. aqui traduzida)
Discurso à Plenária Final da 12ª reunião anual do Valdai International Discussion Club      
Tradução Pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu →→→→      


  • Ver também "O mundo, entre guerra e paz" [Parte 1]
    22/10/2015, Presidente Vladimir Putin, Sochi, Rússia
    Traduzido neste blog


[Continuação] Digo aqui o que creio que devemos fazer para apoiar um acordo de longo prazo e o renascimento social econômico e político da região.


Primeiro, libertar de todos os terroristas os territórios de Síria e Iraque e impossibilitar que levem suas atividades para outras regiões. Para fazer isso, temos de unir forças – exércitos regulares do Iraque e da Síria, milícias curdas, vários grupos de oposição que já mostraram que realmente combatem contra terroristas – e coordenar as ações de países dentro e fora da região, contra o terrorismo. Ao mesmo tempo, toda e qualquer ação conjunta contra o terrorismo terá necessariamente de se pautar pela lei internacional.

Segundo, é óbvio que apenas uma vitória militar sobre os terroristas não resolverá todos os problemas, mas criará soluções para conseguir o principal: uma abertura de algum processo político com a participação de todas as forças patrióticas, saudáveis, da sociedade síria.

Cabe exclusivamente aos sírios decidir sobre o próprio futuro, com ajuda – mas exclusivamente civil e respeitosa – da comunidade internacional, não expostos a pressões externas que lhes chegue por ultimatos, chantagem e ameaças.

O colapso das autoridades oficiais da Síria, por exemplo, só mobilizará terroristas. Agora, em vez de atacar e debilitar o legítimo governo sírio, temos de reforçá-lo, reforçar as instituições do estado na zona de conflito.

Quero lembrá-los que ao longo de toda sua história, o Oriente Médio sempre foi arena de confrontos entre impérios e grandes potências. Essas forças redesenharam os limites e remodelaram a estrutura política da região para atender aos seus próprios interesses e gostos. E as consequências não foram sempre boas ou benéficas para as pessoas que ali vivem. Agora, dessa vez, ninguém pediu a opinião nem de impérios nem de grandes potências.

Finalmente, quem cuida de descobrir o que está acontecendo em suas respectivas nações é o próprio povo que habita o Oriente Médio.

Claro que é preciso responder, antes, outra pergunta: Será hora, agora, de a comunidade internacional coordenar todas as suas ações com os povos que vivem nesses territórios? Entendo que é hora, e que já faz tempo que é hora: os povos que vivem no Oriente Médio, como quaisquer povos, têm de ser tratados com respeito.

É crucialmente necessário que clérigos muçulmanos, líderes do Islã e chefes de estado de nações muçulmanas envolvam-se no processo de construir um acordo político. Contamos com a posição  consolidada e a ajuda dessas autoridades, bem como com o prestígio e a autoridade moral que têm. É muito importante proteger as pessoas, especialmente os mais jovens, contra os efeitos destrutivos da ideologia dos terroristas, aos quais pessoas só interessam como bucha de canhão, nada mais.

É imperioso distinguir claramente entre (i) o Islã genuíno, cujos valores são a paz, as boas obras, a caridade, ajudar o próximo, respeitar tradições, de um lado; e, de outro, (ii) as mentiras que pregam violência e ódio, e que mercenários ou militantes armados semeiam pelo mundo, apresentadas como se fossem o Islã.

Quarto, atualmente é preciso desenvolver um mapa do caminho para o desenvolvimento econômico e social da região, para restaurar a infraestrutura básica, moradias, hospitais e escolas.  Só esse tipo de trabalho criativo no local, depois de eliminado o terrorismo e alcançado um acordo político, pode deter o fluxo gigante de refugiados para as nações europeias, e permitir que os que fugiram das guerras possam voltar ao país natal.

É claro que a Síria precisará de massiva assistência financeira, econômica e humanitária, para curar suas feridas de guerra. Temos de definir um formato pelo qual esse trabalha possa ser feito, envolvendo nações e instituições financeiras internacionais como doadores. Nesse momento, os problemas da Síria estão sendo discutidos na ONU e em outras organizações internacionais, e no quadro das relações entre estados. É verdade que, por hora, nem sempre conseguimos chegar a qualquer acordo, e é dolorosamente difícil abandonar expectativas do que poderia ter sido e de projetos errados e planos sem substrato, mas apesar das dificuldades, há já algum progresso.

Vemos que começam a estabelecer-se contato entre chefias militares dentro do quadro da operação antiterroristas, embora ainda não tão ativamente nem tão rapidamente quanto gostaríamos de ver. A aprovação do documento russo-norte-americano sobre orientações de segurança para o pessoal das respectivas forças aéreas que estão voando missões sobre a Síria é um importante e sério primeiro passo na direção certa.

Estamos também próximos de iniciar um intercâmbio de informações com nossos colegas ocidentais sobre posições e movimentos dos militantes. Todos esses, sem dúvida, são passos na direção certa. O mais importante é todos se tratarem, uns os outros, como aliados numa luta comum: ser honestos e abertos. Só assim se pode assegurar a vitória sobre os terroristas.

Apesar de todo o drama da situação atual, a Síria pode vir a ser modelo para parceria em nome de interesses partilhados, para resolver problemas que afetam todos, e para que se desenvolva um sistema efetivo para gestão de riscos. Já tivemos oportunidade para fazer isso, depois do fim da Guerra Fria. Infelizmente, não cuidamos de aproveitar a oportunidade daquele momento. Depois, novamente tivemos uma oportunidade, no início dos anos 2000s, quando Rússia, EUA e várias outras nações viram-se vítimas de agressão terrorista, mas infelizmente, tampouco naquele momento conseguimos construir uma boa dinâmica para cooperação. Não voltarei a esse tema nem às razões pelas quais nada pudemos fazer. Creio que todos sabem disso tudo.

Agora, o importante é extrair as lições corretas do que vivemos no passado e andar adiante.

Tenho certeza de que a experiência que adquirimos e a situação de hoje nos permitirão afinal fazer a escolha certa – e escolher a cooperação, o respeito e a confiança mútuos. Afinal, escolher a paz.


Muito obrigado pela atenção de todos. [Aplausos]

[...]


Perguntas e Respostas (excertos)

RESPOSTAS ao ex-embaixador dos EUA na URSS,

Jack Matlock


Vladimir Putin: Antes de tudo, permitam-me agradecer a todos que se manifestaram. Entendo que tudo foi muito substantivo e interessante, e muito me agrada ver que nossa discussão tem substância e tempero e não é só conversa oca.

Não nos ponhamos, agora, a escavar o passado remoto. Quando se trata de quem culpar pelo colapso da União Soviética, entendo que a causa primária foram razões internas. Nesse sentido, claro, o Sr. Embaixador acertou. A ineficiência dos ex-sistemas político e econômico da União Soviética foi a causa principal do colapso do estado.
Mas outro assunto é quem se apresentou para ajudar naquele processo. Não acho que nossos adversários geopolíticos tenham-se mantido inertes, mas ainda assim as causas internas constituíram a causa primária. Sr. embaixador, conforme entendi, discordava de mim, de longe, e agora aqui, cara a cara, quando dizia que, diferente de mim, ele não considera o colapso da União Soviética uma das maiores tragédias do século 20. De  minha parte, insisto que sim, foi uma tragédia, em primeiro lugar uma tragédia humanitária. Era o que eu estava dizendo.
O colapso dos soviéticos deixou fora do país 25 milhões de russos. Aconteceu da noite para o dia e ninguém sequer os consultou. Repito meu argumento, de que o povo russo tornou-se o maior povo nacional dividido, e não há dúvida de que isso foi inquestionável tragédia. Até  aí, ainda não se falou da dimensão econômica. O colapso dos soviéticos derrubou com ele o sistema social e econômico. Sim, a velha economia não era efetiva, mas o colapso, como aconteceu lançou milhões de pessoas na miséria, o que também foi terrível tragédia para pessoas, individualmente consideradas, e famílias.

Quanto à questão de continuar as conversações para limitação de armas estratégicas ofensivas, o senhor tem razão quando diz que temos de continuar esse diálogo. Mas ao mesmo tempo, não posso dizer que Rússia e EUA nada fizeram. Concluímos um novo tratado sobre limitar as armas estratégicas ofensivas e fixamos objetivos com vista a limitar esse tipo de armas. Contudo, a retirada unilateral dos EUA do Tratado dos Mísseis Antibalísticos, que era o alicerce fundamental para preservar o equilíbrio do poder e a segurança internacional, deixou todo esse sistema em situação grave e complicada.

Quanto a isso, dado que estamos num clube de discussão, gostaria de perguntar ao senhor embaixador o que ele pensa da retirada unilateral dos EUA do Tratado dos Mísseis Antibalísticos.

Jack Matlock: Pessoalmente, opus-me àquela retirada e adoto o seu argumento. Mas diria que não acho que quaisquer planos subsequentes sobre o destino das alocações foram ou poderiam ser ameaça contra os sistemas russos. Mas de modo geral nunca apoiei os sistemas de mísseis antibalísticos. Destacaria que creio que a principal fonte de tudo aquilo não é ameaçar a Rússia, mas garantir uso seguro nos EUA. Muita coisa é decorrência do complexo industrial-militar e do número de empregos que gera.

Vladimir Putin: Senhor Embaixador, seus argumentos não me convencem. Tenho o maior respeito por sua experiência e suas habilidades diplomática, das quais o senhor nos deu excelente demonstração, ao fugir de responder diretamente à minha pergunta. Ok, o senhor respondeu minha pergunta, mas não sem acrescentar muitos circunlóquios.

Que argumento seria esse, que sugere que se deveriam criar empregos em atividade que ameaça a existência de toda a humanidade? E se desenvolver novo sistema de mísseis de defesa é questão de criar empregos, por que teriam de ser criados nessa específica área? Por que não providenciaram para criar empregos na área da biologia, da pesquisa de remédios ou em setores de alta tecnologia não relacionadas à produção de armas?

Quanto à questão de se há aí ameaça à Rússia, ou não, posso assegurar-lhe que os especialistas norte-americanos em segurança e em armas estratégicas têm plena consciência de que tudo isso, sim, ameaça a capacidade nuclear da Rússia, e de que o único objetivo desse sistema é reduzir a zero as capacidades nucleares de todos os países, exceto dos próprios EUA.

Temos ouvido argumentos desse tipo, sem parar, a propósito da 'ameaça' nuclear iraniana, mas, como disse em minhas primeiras observações, nossa posição sempre foi a de que essa ameaça jamais existiu; agora, não só nós, mas toda a comunidade internacional partilha esse mesmo ponto de vista.

Os EUA começaram a assinar um acordo com o Irã sobre resolver a questão nuclear iraniana. Ativamente acompanhamos e apoiamos nossos parceiros norte-americanos e iranianos na trilha rumo a decisão comum, e esse acordo entra agora em vigência, e o Irã concordou com enviar seu urânio enriquecido para fora do país. Assim sendo, se não há problema nuclear iraniano, por que desenvolver um sistema de mísseis de defesa? Podem deter o projeto, mas não só o projeto não parou, como, ao contrário, estão acontecendo novos testes e exercícios. Esses sistemas estarão instalados na Romênia pelo final do ano, e na Polônia em 2018 ou 2020.

Como posso lhes dizer, e os especialistas sabem bem, os locais de instalação para os mísseis de defesa podem ser usados efetivamente para instalar sistemas de ataque de mísseis cruzadores de ataque. E não haveria aí uma ameaça contra nós? Claro que há ameaça contra a Rússia, e isso altera a própria filosofia da segurança internacional.

Se um país pensa que tenha criado um escudo de mísseis de defesa que o protegerá contra ataques ou contra-ataques, sente-se com as mãos 'livres' para usar qualquer tipo de arma que bem entenda, e é isso, precisamente, que altera todo o equilíbrio estratégico. O senhor trabalhou em acordos de armas no passado, com alguns resultados interessantes. Por isso, sim, tiro meu chapéu e congratulo-me com o senhor.

O senhor e seus parceiros russos alcançaram alguns grandes sucessos, mas o que está acontecendo agora em nenhum caso deixaria de nos preocupar. Não tenho dúvidas de que o senhor, no íntimo, concorda com isso. De fato, o senhor praticamente admitiu que concorda, quando o senhor disse que não apoiava a retirada unilateral dos EUA daquele tratado.

Agora, quanto à Ucrânia, e a ideia de que isso cria perigos para nós, sim, é claro que cria perigos, mas fomos nós, talvez, que criamos essa situação? Recordem o ano quando o Sr. Yanukovych perdeu a eleição, e o Sr. Yushchenko chegou ao poder? Considerem o modo como chegou ao poder. Numa terceira rodada de votos, que nem existia prevista na Constituição da Ucrânia. Os países ocidentais apoiaram ativamente esse arranjo. Foi completa violação da Constituição. Que tipo de democracia é essa? É simplesmente, caos.

Já haviam feito antes, e fizeram novamente e em forma ainda mais flagrante, com a mudança de regime e o golpe de estado que aconteceu na Ucrânia há bem pouco tempo.

A posição da Rússia não é que nos oponhamos à escolha do povo ucraniano. Estamos prontos a aceitar qualquer escolha. A Ucrânia é genuinamente país irmão aos nossos olhos, povo fraternal. Não faço nenhuma distinção entre russos e ucranianos.

Mas nos opomos a esse método de mudar governos. Não é método considerado bom em nenhum lugar do mundo, mas é completamente inaceitável na região pós-soviética, onde, para ser franco, várias repúblicas que foram soviéticas ainda não têm tradições de estado, e ainda não desenvolveram sistemas políticos estáveis. Nesse contexto, temos de ter muito cuidado com o que fazemos e ajudamos a desenvolver.

Naquela época, estávamos prontos a trabalhar até com aquele pessoal que chegou ao poder como resultado daquele '3º' turno inconstitucional. Trabalhamos com o Sr. Yushchenko e a Sra. Timoshenko, apesar de serem considerados políticos absolutamente pró-ocidente – não acho que seja rótulo muito adequado em geral, mas eram vistos assim. Nos reunimos com eles, viajamos a Kiev, os recebemos aqui na Rússia. Sim, às vezes tivemos debates ferozes sobre questões econômicas, mas, sim, trabalhamos com eles.

Mas o que se faz, quando se é confrontado com um golpe de estado? Alguém desejaria organizar um Iraque ou uma Líbia? As autoridades dos EUA não esconderam o fato de que estavam gastando bilhões ali. Disseram abertamente, em público, que haviam gasto $5 bilhões em apoio à oposição. Seria essa a escolha acertada?

Outro de nossos colegas disse que seria errado interpretar as coisas de modo que sugira que os EUA procuram mudar o sistema político e o governo na Rússia. Muito difícil, para mim, concordar com esse argumento.

Os EUA têm uma lei que diz respeito à Ucrânia, mas menciona diretamente a Rússia. Essa lei dispõe que o objetivo é a democratização da Federação Russa. Agora, imaginem, se aqui, na Rússia, tivéssemos uma lei que dispusesse que nosso objetivo seria democratizar os EUA, embora, em princípio, possamos fazer tal coisa, e permitam-me contar por quê.

Há fundamento para isso. Todos sabem que houve duas ocasiões na história dos EUA, quando um presidente chegou ao poder dom os votos da maioria do colégio eleitoral, mas minoria de voto de cidadãos eleitores comuns. É democrático esse sistema? Não é. Democracia é o poder do povo, o desejo da maioria. Como se admite que alguém seja declarado empossado no mais alto posto do país, se foi eleito por porção minoritária dos eleitores? É um problema da constituição dos senhores, mas nem por isso exigimos que mudem a Constituição.

Podemos discutir eternamente, mas se há país que escreve coisas desse tipo na legislação doméstica e gasta bilhões para fazer funcionar a oposição interna de outro país... Ora, oposição é coisa normal, mas tem de ser capaz de sobreviver por seus próprios meios. Se outro país põe-se a abertamente gastar bilhões numa oposição que não se manteria sem aquele dinheiro... pode-se dizer que estaria havendo aí uma prática política normal? Essas ações ajudam a construir um espírito de confiança entre os estados. Acho que não.

Agora, sobre o tema da democracia que está de mudança cá para perto de nossas fronteiras. [Risos] O senhor [sem ouvir a fita toda, é impossível saber se é homem ou mulher] parece ser pessoa experiente. O senhor imagina que nós nos oporíamos a que houvesse democracia junto às nossas fronteiras?

Mas nesse caso, está falando do quê? Que democracia seria essa, nesse caso? Estarão falando dos movimentos da OTAN em direção às fronteiras da Rússia? É a isso que se referem, quando falam de democracia? Mas a OTAN é uma aliança militar. Não estamos preocupados porque alguma democracia estivesse tentando chegar mais perto de nós. Estamos preocupados porque uma infraestrutura militar só faz rastejar para chegar, cada dia mais perto de nossas fronteiras. Que resposta esse tipo de atitude pode esperar? O que os senhores esperam que respondamos? O que nós deveríamos supor? A questão que nos preocupa não é a aproximação de alguma 'democracia'; o que nos preocupa é a aproximação de uma aliança militar hostil.

Querem saber qual é o xis dos problemas de hoje? Já lhes digo, e cuidarei para que os senhores recebam o documento que citarei aqui. É uma gravação de discussões entre políticos alemães e altos oficiais soviéticos, pouco antes da reunificação da Alemanha. É leitura interessantíssima, como romance de detetives.

Um destacado político alemão naquele momento, líder do Partido Social-Democrata, disse, durante as conversas com altos funcionários russos – não posso citar palavra por palavra, mas lembro perfeitamente do que ele disse: – "Se não chegarmos agora a um acordo sobre os princípios da reunificação da Alemanha e o futuro da Europa, as crises continuarão e até crescerão depois da reunificação da Alemanha e não lhes poremos fim, apenas as veremos diante de nós com novas formas."

Adiante, quando os funcionários soviéticos protestaram, ele se surpreendeu e disse: "Até parece que estou defendendo interesses da União Soviética – parece que por ter criticado a visão curta dos funcionários –, mas estou pensando é no futuro da Europa." Adiante se viu que o homem estava absolutamente certo.

Sr. Embaixador, seus colegas não conseguiram chegar a acordo algum sobre os princípios do que viria depois da reunificação alemã: a questão de a Alemanha tornar-se membro da OTAN, o futuro da infraestrutura militar, suas modalidades e desenvolvimento, e a coordenação de questões de segurança na Europa. Houve acordos verbais, naquela época, mas nada no papel, nada fixado, e foi assim que começou.

Mas se o senhor recorda meu discurso em Munique, quando falei sobre esse ponto, naquele momento, o secretário-geral da OTAN deu garantias orais de que a União Soviética poderia ter certeza de que a OTAN – cito – não se expandiria além das fronteiras leste da República Democrática Alemã de hoje. Mas a realidade foi completamente outra.

Houve duas ondas de expansão da OTAN rumo leste, e agora temos também sistemas de mísseis de defesa bem ali, junto às nossas fronteiras.

Acho que tudo isso levanta preocupações legítimas aos nossos olhos, e aí está algo sobre o que com certeza temos de trabalhar. Apesar das dificuldades, estamos querendo trabalhar juntos. Sobre a séria questão dos mísseis de defesa, já fizemos propostas no passado, e digo novamente que podemos trabalhar juntos em trio – EUA, Rússia e Europa. O que implicaria esse tipo de cooperação? Significaria que as três partes concordam sobre de que direção vêm as ameaças dos mísseis, e têm partes iguais no comando do sistema e em outras questões.

Mas nossas propostas foram recusadas. Não fomos nós quem evitou qualquer tipo de cooperação; eles é que se recusaram a cooperar conosco.

Agora, temos pela frente a grave questão do que está acontecendo na Síria, e estou seguro de que será objeto de mais discussão. Ouvimos críticas de que estaríamos acertando alvos errados. Recentemente, falando em Moscou, eu mesmo disse que "Digam-nos quais são os alvos certos, para que os acertemos, se vocês os conhecem". Deu em nada. Não disseram. Então, pedimos que nos dissessem que alvos evitar, e tampouco nos responderam.

Há esse ótimo filme,
Ivan Vasilyevich Changes Profession. Os russos conhecem bem. Um dos personagens do filme diz ao outro: "Como você quer que eu entenda o que você diz, se você não diz nada?" Felizmente, pelo menos no nível militar, como disse antes, estamos começando a dizer alguma coisa uns aos outros e a chegar a alguns acordos. As circunstâncias nos obrigam a fazer isso.

Parece que os militares são mais responsáveis, e espero que, se chegarem a alguns acordos, poderemos chegar a acordos também no nível político. Obrigado.


PERGUNTAS E RESPOSTAS do público


(1) O quanto efetivas serão nossas operações na Síria?


VLADIMIR PUTIN: E como se pode dar resposta garantida a perguntas como essa? A única coisa certa é uma política de segurança. Estamos atuando conforme nossas convicções e pelas normas da lei internacional. Esperamos que ação coordenada entre nossa força aérea de ataque e outros sistemas militares que estão sendo usados, coordenados com a ofensiva do exército sírio, produzirá resultados positivos. Creio que nossos militares também acham que já obtivemos resultados positivos.

Basta isso, para podermos dizer que derrotamos o terrorismo na Síria? Não. Ainda são necessários grandes esforços, para que se possa dizer tal coisa. Falta ainda muito trabalho, e permitam-me repetir que tem de ser trabalho conjunto.

Não queremos começar com denúncias e acusações, mas permitam que diga, mesmo assim, que em cerca de 18 meses a coalizão dos EUA coordena ataque de mais de 11 países, e já mais de 500 ataques realizados contra alvos variados, e não obtiveram resultado algum. Aí está um fato bem claro. De que resultado se poderia falar, se os terroristas reforçaram sua presença na Síria e no Iraque, avançaram mais para o interior do território que já haviam ocupado antes e expandiram sua presença? Nesse sentido, parece-me que nossos colegas ainda não alcançaram nenhum resultado efetivo.

As primeiras operações de nossas forças armadas com as forças armadas sírias produziram resultados, o que não significa que bastem. Seria maravilhoso se uníssemos forças, todos os que genuinamente desejam combater o terrorismo, se todos os países da região e poderes externos, inclusive os EUA, se unissem nisso. Na essência, é o que estamos propondo.

Propusemos que uma delegação militar viesse a Moscou primeiro, depois eu disse que estávamos prontos para enviar uma delegação política de alto nível chefiada pelo primeiro-ministro da Rússia, para discutir questões políticas. Nossa proposta não foi aceita. Sim, nossos colegas norte-americanos ofereceram explicações em nível ministerial, disseram que teria havido algum mal-entendido, que o caminho está aberto, que podemos tomar esse caminho e que temos de pensar sobre unir nossos esforços.

Agora, ministros de Relações Exteriores dos EUA, Rússia, Arábia Saudita e Turquia se reunirão. Acho que outros países na região devem unir-se também nesse processo, países cujo envolvimento é essencial, se queremos acertar essa questão. Penso, em primeiro lugar, no Irã. Já dissemos isso várias vezes. Mas já é um começo, nesse momento, que os ministros de RE reúnam-se para discutir as coisas. Quanto aos nossos parceiros iranianos, estamos em íntimo contato com eles sobre essa questão, e o Irã faz sua própria significativa contribuição para um acordo.

Sobre a questão da partição da Síria. Acho que esse é o cenário de pior caso possível. É opção inaceitável, porque não ajudaria a resolver o conflito, mas, sim, o tornaria maior e o prolongaria. Viraria conflito permanente. Se a Síria fosse dividida em territórios separados, eles inevitavelmente lutariam entre eles, luta sem fim, e nenhum resultado positivo adviria disso.

Quanto à questão de se o presidente al-Assad deve ficar ou não, já disse incontáveis vezes que, para mim, a simples ideia de propor tal questão já é errada. Como alguém pode perguntar e decidir, do lado de fora, se esse ou aquele presidente daquele país deve permanecer ou ser derrubado?! Essa é questão que só o povo sírio pode decidir. Permitam-me acrescentar contudo que temos de assegurar que o governo seja constituído mediante procedimentos democráticos transparentes. Pode-se cogitar de criar algum tipo de monitoramento internacional para velar por aqueles procedimentos, inclusive eleitorais, mas tem de ser monitoramento objetivo, e, mais importante, sem qualquer viés a favor de qualquer país ou bloco de países.

Por fim, sobre como vemos o processo político, permitam-me que lhes apresente alguma linhas gerais, mas insisto que, sim, cabe exclusivamente aos sírios formular o processo, os princípios e objetivos finais, o que desejam e como alcançarão o que desejam. Por "exclusivamente os sírios" refiro-me ao governo legal e às forças legais de oposição. Evidentemente, entendemos que as causas raízes do conflito na Síria não é só a luta contra o terrorismo e os ataques terroristas, embora a agressão terrorista seja clara e os terroristas estão simplesmente tirando vantagens das dificuldades internas na Síria. É preciso separar a ameaça terrorista e os problemas políticos internos. Com certeza, o governo sírio deve estabelecer contato de trabalho com aquelas forças da oposição que estejam prontas para o diálogo.

Entendi, do encontro que tive com o presidente al-Assad anteontem, que ele está pronto para esse diálogo.

[...]


VLADIMIR PUTIN: O que posso dizer é que assisto aos vídeos que mostram depois do ataque e são impressionantes. A explosão de munição é tão gigantesca que os fragmentos de explosivo quase alcançam os aviões. Fica-se com a impressão de que se reuniam ali armamento e munição trazida de todo o Oriente Médio. Fato é que ali havia quantidade colossal de armas. É impossível não pensar de onde poderia ter saído dinheiro para comprar tudo aquilo. O poder de fogo que acumularam é realmente tremendo. Mas, sim, hoje já é menor do que foi. O exército sírio está realmente conseguindo avanços, com o nosso apoio. Os resultados ainda são modestos, mas já começam a aparecer e tenho certeza de que haverá mais resultados. [Continua]