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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A República Francesa feita refém   
                                 

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Thierry Meyssan – REDE VOLTAIRE      
Tradução: ALVA             


A guerra que se estende a Paris é incompreensível para os Franceses que ignoram quase todas as actividades secretas do seu governo no mundo árabe, as suas alianças antinaturais com as ditaduras do Golfo, e a sua participação ativa no terrorismo internacional. Jamais tal política foi debatida no Parlamento e os grandes veículos de mídia raramente ousaram interessar-se por ela.
        

Desde há cinco anos, os Franceses ouvem falar de guerras longínquas, sem perceber do que se trata. A imprensa informou-os do envolvimento do seu exército na Líbia, mas nunca da presença de soldados franceses em missão no Levante. Os meus artigos a este propósito são amplamente lidos, mas entendidos como bizarrias orientais. Apesar da minha história pessoal, é de bom tom qualificar-me de «extremista» ou de «conspiracionista» e de relevar que os meus artigos são reproduzidos por sítios internet de todas as tendências, aí incluídos autênticos extremistas ou conspiranóicos. No entanto, ninguém encontra nada que comentar sobre o que realmente escrevo. Apesar disso ninguém quer saber nada sobre os meus alertas a propósito das alianças que a França assumiu.

Subitamente, a verdade ignorada vem a tona.

A França foi atacada na noite de sexta-feira, 13 de novembro de 2015, por vários comandos que assassinaram pelo menos 130 pessoas, em cinco lugares diferentes de Paris. O estado de emergência foi decretado por 12 dias em todo o território e poderá ser prorrogado pelo Parlamento.

Sem ligação direta com o assunto Charlie Hebdo

A imprensa francesa interpreta este ato de guerra ligando-o ao atentado acontecido no Charlie Hebdo, muito embora as atuações operacionais sejam totalmente diferentes. Em janeiro, tratou-se de matar pessoas específicas, enquanto aqui trata-se de um ataque coordenado contra um grande número de pessoas, ao acaso.

Sabe-se agora que o redator-chefe do Charlie Hebdo tinha acabado de receber um «donativo» de 200.000 euros do Próximo-Oriente para continuar a sua campanha anti-muçulmana [1]; que os assassinos estavam ligados aos serviços de inteligência franceses [2]; que a origem das suas armas está coberta pelo Segredo-de-Defesa [3]. Eu já havia demonstrado que este atentado não fora uma operação islamista [4], que ele havia sido alvo de uma recuperação estatal imediata [5], e que esta recuperação havia tido eco na população hostil à República [6] —uma ideia que foi brilhantemente desenvolvida, alguns meses mais tarde, pelo demógrafo Emmanuel Todd [7]—.

Se regressarmos à guerra que acaba de se estender a Paris, ela surpreende a Europa ocidental. Não se pode compará-la aos atentados de Madrid de 2004. Em Espanha, não houve nem atirador, nem “kamikaze”, mas, sim, 10 bombas colocadas em 4 lugares distintos [8]. O tipo de cena que acaba de ter lugar em França é o pão nosso de cada dia de numerosas populações do «Médio-Oriente Alargado» desde 2001. E, encontramos eventos comparáveis para além dele, tal como os três dias ataques em seis lugares diferentes, em Bombaim, em 2008 [9].

Mesmo que os atacantes fossem muçulmanos, e que alguns dentre eles tenham gritado «Alá Akbar» (!) ao matar transeuntes, não há nenhum laço entre estes ataques, o Islão e uma eventual «guerra de civilizações». Assim, estes comandos tinham instruções para matar ao acaso, sem se perguntarem, previamente, sobre a religião das suas vítimas.

Do mesmo modo, é absurdo valorizar ao máximo o móbil evocado pelo Daesh (Exército Islâmico- ndT) contra a França —embora não haja dúvida sobre o seu envolvimento neste ataque—. Com efeito, se a organização terrorista queria «vingar-se» era em Moscou que deveria atacar.

A França é um Estado terrorista desde pelo menos 2011

A percepção destes eventos fica baralhada porque por trás dos grupos não-estatais se escondem sempre Estados que os patrocinam. Nos anos 70, o venezuelano Ilich Ramírez Sánchez dito «Carlos», ou «o Chacal», colocara-se por convicção ao serviço da causa palestina e da Revolução com o discreto apoio da URSS. Nos anos 80, o exemplo de Carlos foi retomado por mercenários, trabalhando para quem pagava mais, tal como Sabri al Banna, dito «Abu Nidal», o qual realizou atentados tanto por conta da Líbia e da Síria, como de Israel. Hoje em dia, existe uma nebulosa do terrorismo e da ação secreta implicando uma quantidade de Estados.

Em princípio, os Estados negam sempre o seu envolvimento com grupos terroristas. No entanto, o ministro de Relações Exteriores francês, Laurent Fabius, declarou em dezembro de 2012, quando da conferência dos «Amigos da Síria» em Marraquesh, que a al-Nusra, o ramo sírio da al-Qaida , «fazia um bom trabalho» [10].

Tendo em conta as suas funções, o Sr. Fabius sabia que não seria levado à justiça pelo seu apoio a uma organização classificada como terrorista pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas, ele assumiu um risco grave para o seu país que mergulhou, assim, no caldeirão do terrorismo.

Na realidade, a França estava implicada desde, pelo menos, o início de 2011 ao lado da al-Qaida. À época, o Reino Unido e a França tinham-se juntado ao projeto dos E.U. da «Primavera Árabe». Tratava-se de derrubar todos os regimes árabes laicos e de os substituir por ditaduras da Irmandade Muçulmana. Londres e Paris tinham descoberto esta operação, em curso de concretização, na Tunísia e no Egito, enquanto tinham sido previamente solicitados a agir na Líbia e na Síria [11]. Na Líbia organizaram, com a ajuda da Forças especiais italianas, os massacres de Bengazi, depois com a ajuda da al-Qaida a tomada de arsenais. Eu posso atestar que, em agosto 2011, enquanto estava sob a proteção de Khamis el-Kadhafi na altura em que a Otan lançava o assalto da capital, o hotel Rixos, onde nós nos encontrávamos, foi cercado por uma unidade da al-Qaida, a Brigada de Tripoli, comandada por Mahdi al-Harati ao grito de «Alá Akbar!» e enquadrada por oficiais franceses em serviço. O mesmo Mahdi al-Harati foi com o seu chefe, Abdelhakim Belhaj, o fundador do pretenso Exército sírio livre, na realidade um grupo da al-Qaida portando a bandeira da colonização francesa.

Na Síria, a presença de oficiais franceses enquadrando grupos armados, enquanto perpetravam crimes contra a humanidade, está amplamente provada.

A França jogou em seguida um jogo extremamente complexo e perigoso. Assim, em janeiro de 2013, ou seja, um mês após o apoio público de Laurent Fabius à al-Qaida na Síria, lançou uma operação no Mali contra a mesma al-Qaida, provocando uma primeira descida de pau contra os seus agentes infiltrados na Síria.

De tudo isso, vocês nunca ouviram falar. Porque, embora a França tenha instituições democráticas, a sua política atual no mundo árabe nunca foi debatida publicamente. Quando muito, contentaram-se — em violação do artigo 35 da Constituição — em ter entrado em guerra contra a Líbia e contra a Síria após algumas horas de superficiais debates parlamentares, sem votação. Os parlamentares franceses renunciaram a exercer o seu mandato de controle do Executivo em matéria de política estrangeira, pensando que se trata de um domínio reservado do presidente, sem consequências na vida quotidiana. Toda a gente pode constatar, ao contrário, hoje em dia que a paz e a segurança, um dos quatro «Direitos do Homem e do Cidadão» de 1789 (artigo 2º), dependem diretamente dela. Aliás, o pior ainda está para vir.

No início de 2014, quando os falcões liberais americanos apuravam o seu plano de transformação do Emirado Islâmico no Iraque e no Sham naquilo em que se ia tornar o Daesh, a França e a Turquia encaminharam munições para a al-Qaida, para que ela combatesse o E.I. —este fato é atestado por um documento apresentado ao Conselho de Segurança a 14 de julho de 2014 [12]—. Ora, no entanto a França juntou-se, posteriormente, a esta operação secreta e participou na Coligação Internacional anti-Daesh, da qual todos sabem, agora, que contrariamente ao seu nome ela não bombardeava o Daesh, mas, na realidade, lhe lançou armas de pára-quedas durante um ano [13]. As coisas evoluíram, ainda mais, após a assinatura do acordo 5+1 com o Irã. Os Estados Unidos voltaram-se subitamente, no terreno, contra a organização terrorista e repeliram-na em Hassaka (Síria) [14]. Mas, só pelo meio de outubro de 2015, há um mês atrás, é que a França recomeçou a combater o Daesh. Não para parar os seus massacres, mas, sim, para conquistar uma parte do território que ocupa na Síria e no Iraque e aí instalar um novo Estado colonial que seria chamado de «Curdistão», mesmo que a sua população curda aí seja, para começar, largamente minoritária [15].

Nesta perspectiva, a França enviou o seu porta-aviões —que ainda não está na zona— para apoiar os Marxistas-Leninistas do partido curdo YPG —bem o que é que interessa esta referência política quando se projeta criar um Estado colonial?— contra seu antigo aliado Daesh.

Assistimos, agora, ao segundo regresso do cacete. Não da parte da al-Qaida na Síria, mas da parte do Daesh em França, por ordens de inconfessáveis aliados da França.
Quem dirige o Daesh

O Daesh é uma criação artificial. É somente o instrumento da política de vários Estados e multinacionais.

Os seus principais recursos financeiros são o petróleo, as drogas afegãs —sobre as quais os franceses ainda não perceberam as implicações no seu território—, e as antiguidades levantinas. Toda a gente concorda que o petróleo roubado transita livremente pela Turquia, antes de ser vendido na Europa Ocidental. Tendo em conta as quantidades, não há qualquer dúvida possível sobre o apoio do Estado turco ao Daesh [16].

Há três semanas, o porta-voz do Exército árabe da Síria revelava que 3 aviões fretados, respectivamente, pela Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, acabavam de retirar combatentes do Daesh para fora da Síria e de os transportar para o Iêmen. Uma vez mais, não há, pois, nenhuma dúvida sobre as ligações destes três estados com o Daesh, em violação das resoluções pertinentes do Conselho de Segurança.

Já expliquei, em pormenor, desde a primeira conferência em Genebra, em junho de 2012, que uma facção dentro do aparelho de Estado norte-americano conduzia a sua própria política contra a da Casa Branca. Inicialmente, este complô foi dirigido pelo diretor da CIA, e co-fundador do Daesh em 2007 (’The Surge’) [17], o general David Petraeus, até à sua detenção, algemas nos punhos, no dia seguinte à reeleição de Barack Obama. Depois, foi a vez da secretária de Estado Hillary Clinton, impedida de terminar o seu mandato, durante o período de transição presidencial, por um infeliz «acidente». Finalmente, este combate foi prosseguido por Jeffrey Feltman, a partir dos escritórios da ONU, e pelo general John Allen, à cabeça da pretensa Coligação anti-Desh. Este grupo, parte do «Estado profundo» americano, que não cessa de se opor ao acordo 5+1 com o Irã e de combater a República Árabe da Síria, conserva membros no seio da administração Obama. Acima de tudo, ele pode contar com a ajuda de empresas multinacionais, cujos orçamentos são maiores do que os de Estados, e que podem financiar as suas operações secretas. É, nomeadamente, o caso da petrolífera Exxon-Mobil (o verdadeiro dono do Catar), os fundos de investimento KKR, e o exército privado Academi (ex-Blackwater).

Foi por conta desses Estados e destas multinacionais que a França se tornou um país mercenário.

A França objeto de chantagem

A 11 de novembro de 2015, o Primeiro-ministro, Manuel Valls, assegurava que a França estava empenhada contra o terrorismo [18].

A 12 de novembro, o Observatoire national de la délinquance et des réponses pénales(Observatório nacional da delinquência e das respostas penais- ndT) —ligado ao ministério do Interior— publicava um relatório segundo o qual o terrorismo se tinha tornado a segunda preocupação das Franceses após o desemprego [19].

Na própria manhã de 13 de novembro, o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, apresentava em Nanterre um plano de vinte medidas para lutar contra o trafico de armas [20].

Claramente, o governo esperava o pior, o que implica que ele estava negociando com aqueles que o atacaram. A França assumiu compromissos que não manteve e é, claramente, vítima de uma chantagem por parte dos mestres que ela acaba de trair.

Um exercício simulando atentados foi realizado na própria manhã do ataque, pelos serviços de emergência hospitalares [21]. Uma coincidência que já se havia notado aquando dos ataques de 11 de setembro em Nova Iorque e Washington, dos de 11 de março em Madrid, ou ainda dos de 7 de julho de 2005 em Londres.

Conclusão provisória

Os sucessivos governos franceses forjaram alianças com Estados cujos valores são opostos aos da República. Assumiram progressivamente o compromisso de travar guerras secretas para eles, antes de se retratarem. O presidente Hollande, o seu chefe de estado-maior privado, o general Benoit Puga, o seu ministro de Relações Exteriores, Laurent Fabius, e o seu antecessor, Alain Juppé, são hoje em dia objeto de uma chantagem, da qual eles não poderão escapar senão revelando em que é que atolaram o país, mesmo se isso os expõe à pronúncia pelo Supremo Tribunal de Justiça.

A 28 de setembro, na tribuna das Nações Unidas, o presidente Putin dirigindo-se aos Estados Unidos e à França, exclamava: «Eu gostaria de perguntar aos responsáveis por esta situação: - “Têm vocês, pelo menos, a noção do que fizeram?” Mas, receio que esta questão fique abafada, porque esta gente não renunciou à sua política, baseada numa autoconfiança exagerada e na convicção da sua excepcionalidade e da sua impunidade» [22]. Nem os Norte-americanos, nem os Franceses o escutaram. Agora é demasiado tarde.

Para lembrar

Descrição: - O governo francês afastou-se progressivamente da legalidade internacional. Ele comete assassínios políticos e enquadra acções terroristas pelo menos desde 2011.
Descrição: - O governo francês teceu alianças contra-natura com as ditaduras petrolíferas do Golfo Pérsico. Ele trabalha com um grupo de personalidades norte-americanas e de companhias multinacionais para sabotar a política de apaziguamento dos presidentes Obama e Putin.
Descrição: - O governo francês entrou em conflito com estes aliados pouco recomendáveis. Um de entre eles patrocinou os ataques de Paris.


Tradução
Alva

[1] «Charlie Hebdo : les révélations de la dernière compagne de Charb», Thibault Raisse, Le Parisien, 18 octobre 2015.
[3] “Armas do ataque ao Charlie-Hebdo abrangidas pelo Segredo de Defesa”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 25 de Setembro de 2015.
[4] “Quem ordenou o ataque contra o Charlie Hebdo?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Janeiro de 2015.
[5] “O Charlie Hebdo têm as costas largas”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 14 de Janeiro de 2015.
[6] “De que têm medo os políticos e jornalistas franceses?”, Rede Voltaire,Rede Voltaire, 28 de Janeiro de 2015.
[7Qui est Charlie ? : Sociologie d’une crise religieuse, Emmanuel Todd, Seuil,‎ 5 mai 2015, 252 p.
[8] « 11 mars 2004 à Madrid : était-ce vraiment un attentat islamiste ? », «Attentats de Madrid : l’hypothèse atlantiste », par Mathieu Miquel, Réseau Voltaire, 11 octobre et 6 novembre 2009.
[9] The Siege, Adrian Levy & Cathy Scott-Clark, Penguin, 2013.
[10] « Pression militaire et succès diplomatique pour les rebelles syriens », par Isabelle Maudraud, Le Monde, 13 décembre 2012.
[11] Ver o testemunho do antigo presidente do Conselho constitucionalRoland Dumas sur LCP.
[12] Ler a intervenção do representante sírio « Résolution 2165 et débats (aide humanitaire en Syrie) », Réseau Voltaire, 14 juillet 2014.
[13] Este ponto é ignorado pela imprensa ocidental, mas foi largamente debatido durante um ano pela imprensa árabe e persa. A verdade explodiu à luz do dia quando cinquenta analistas do CentCom denunciaram as mentiras dos relatórios sobre a Coligação, que um inquérito interno desencadeou e em que, finalmente, o general John Allen foi forçado a demitir. Ver nomeadamente: “Stewart, Brennan e Cardillo denunciam as manipulações da Inteligência ao Pentágono” e “O general Allen apresenta a sua demissão (Bloomberg)”, Tradução Alva,Rede Voltaire, 16 e 24 de Setembro de 2015.
[14] “A França tenta travar a implementação militar russa na Síria”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 11 de Setembro de 2015.
[16] Para saber mais: “O papel da família Erdoğan no seio do Daesh”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 3 de Agosto de 2015.
[17] O Daesh foi inicialmente constituído no Iraque no quadro de um plano visando por fim à Resistência à ocupação norte-americana. Para conseguir isto, os E.U,A criaram milícias anti-xiitas —daí o Emirado islâmico no Iraque, futuro «Daesh»—, depois milícias anti-sunitas. Finalmente, os dois grupos da população esqueceram o exército de ocupação e se guerrearam entre si.
[18] «Valls: la France engagée contre le terrorisme», AFP et Le Figaro, 11 novembre 2015.
[19] «La grande peur du terrorisme», Timothée Boutry, Le Parisien-Aujourd’hui en France, 13 novembre 2015.
[21] Cf. Intervenção do Dr Patrice Pelloux, presidente da Associação de médicos emergêncistas de França, na France Info à 10h26 e no jornal da noite da France2, a 14 de novembro de 2015. «Comment le Samu s’est préparé aux attentats simultanés de Paris», Kira Mitrofanoff, Challenges, 15 novembre 2015.
[22] « Discours de Vladimir Poutine à la 70ème Assemblée générale de l’Onu », par Vladimir Poutine, Réseau Voltaire, 28 septembre 2015.


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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Em direção a uma inversão da situação no Oriente próximo         

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por Thierry Meyssan          
tradução de Marisa Shoguill          


Os dias da «Primavera árabe» estão quase no fim. A partir de agora, a Casa Branca e o Kremlin estão redesenhando os contornos do «Grande Oriente Médio ». No entanto, o seu acordo, que foi celebrado antes da intervenção militar russa na Síria, ainda pode ser modificado pelas alterações no equilíbrio do poder. Não há nenhuma prova de que Moscou irá aceitar a estabilização da Síria ou ignorar a partição da Turquia e da Arábia Saudita, que estão prestes a começar. Em qualquer caso, a agitação futura irá modificar o status quo que tem estado em vigor nos últimos cinco anos. A maioria dos poderes implicados, portanto, está lutando para mudar de lado antes dos outros jogadores.

Postado originalmente na REDEVOLTAIRE 

Qualquer que seja seu país de origem, a imprensa está atualmente demasiadamente ocupada com a análise da posição do seu próprio Estado no conflito do Oriente Próximo para tomar qualquer conhecimento das negociações globais em curso entre a Casa Branca e o Kremlin [1]. Como resultado, ela está interpretando mal certos eventos secundários. A fim de clarificar a atual agitação diplomática, temos de rever o acordo EUA-Rússia de setembro passado.

A parte pública do presente acordo foi formulada pela Rússia em um documento distribuído em 29 de setembro pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ele indica que para restabelecer a paz e a estabilidade no norte da África e o Oriente Médio é essencial – e suficiente 1) aplicar as resoluções do Conselho de Segurança – o que implica nomeadamente a retirada de Israel para suas fronteiras de 1967 – e combater a ideologia terrorista – em outras palavras, lutar contra a Irmandade Muçulmana, criada pelo Reino Unido e apoiada pela Turquia, e o Wahabismo propagado pela Arábia Saudita.

Havia sido originalmente planejado que a Rússia iria clamar pela adoção de uma resolução para este fim durante a reunião do Conselho de Segurança de 30 de setembro. No entanto, os Estados Unidos se opuseram a essa iniciativa menos de uma hora antes dessa reunião [3]. Sergey Lavrov, portanto, presidiu as conversações sem mencionar seu projeto. Este grande evento apenas pode ser interpretado como um desacordo tático, o qual não deve bloquear o acordo estratégico.


Resultado de imagem para Putin e AssadNo dia 20 de outubro, no Kremlin, o Presidente Vladimir Putin recebeu seu homólogo sírio, Bachar el-Assad, na presença de seus Ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, o Secretário-Geral do Conselho Russo de Segurança Nacional e o Chefe dos Serviços Secretos. A reunião centrou-se na aplicação do plano Rússia-EUA, incluindo o acordo do Comunicado de Genebra de 30 de junho de 2012 [4]. O Presidente al-Assad apontou que ele estava seguindo as instruções desse Comunicado e, em particular, que ele tinha integrado no seu governo os partidos da oposição que haviam solicitado participação, como exigido no documento do Comunicado por um Corpo Governante de Transição.

Tendo verificado que ambos tinham o mesmo entendimento do Comunicado de Genebra, Rússia e Estados Unidos decidiram trazer os Estados dissidentes em linha, ou seja, França, Turquia e Arábia Saudita. Desde que eles entenderam que a posição francesa não se baseava em quaisquer interesses realistas e só poderia ser explicada por uma fantasia colonial e pela corrupção do governo francês pelo dinheiro da Arábia Saudita e da Turquia [5], a Casa Branca e o Kremlin decidiram agir somente sobre a origem do problema - em outras palavras, Turquia e Arábia Saudita. No dia 23 de outubro, John Kerry e Sergey Lavrov, portanto, receberam suas contrapartes turcas e sauditas em Viena. Nenhum texto final foi publicado. No entanto, parece que a Rússia ameaçou os dois hóspedes sem que os Estados Unidos tivesse vindo à sua defesa.

Assustada com a idéia de um possível acordo entre a Rússia e os Estados Unidos contra a Turquia e a Arábia Saudita, a França convocou um «jantar de trabalho» (em vez de uma «cúpula diplomática») em Paris. Alemanha, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, Itália, Jordão, Qatar, Reino Unido e Turquia «evocaram» (em vez de «decidiram») o destino da Síria. O formato deste encontro correspondeu à assembleia do «grupo» de «Amigos da Síria», com exceção do Egito, que secretamente já se aliou à Síria. O fato de terem sido obrigados a convidar os Estados Unidos poluiu a atmosfera da reunião e, mais uma vez, nenhum texto final foi publicado.

Finalmente, no dia 30 de outubro, os Estados Unidos e a Rússia organizaram uma assembleia qualificada mais ampla que incluiu todos os participantes das duas reuniões anteriores, além de Egito, China, Iraque, Irã, Líbano, Omã, União Europeia e Nações Unidas. Enquanto a imprensa revelou a presença do Irã, cuja participação tinha sido rejeitada em qualquer discussão sobre resolução desde o início do conflito, ela nada disse sobre o retorno do Egito de al-Sissi, que originalmente havia sido excluído pela França, mas que agora está entrando no estágio internacional graças à sua recente descoberta de reservas de petróleo. A imprensa também não disse nada sobre a ausência persistente da grande potência regional, Israel. Este último ponto só pode ser explicado no caso que o Estado hebreu ter obtido anteriormente uma garantia de que seria capaz de realizar um dos seus objetivos de guerra, a criação de um Estado colonial no norte da Síria.

Todos os participantes foram obrigados a assinar uma declaração final que apenas Rússia e Irã decidiram publicar [6]. Há uma boa razão para esta omissão – ela assinala a derrota dos falcões (do inglês ‘hawks’; ave de rapina) dos EUA. Com efeito, o ponto 8 do texto afirma que o «processo político» (e não a «fase de transição») será liderado pelos sírios, apropriado pelos sírios, e que o povo sírio vai decidir o futuro da Síria [7]. Esta concepção de peso invalida o documento de Feltman que, por mais de três anos, constituiu-se no objetivo dos vários ‘hawks’ dos Estados Unidos, franceses, turcos e sauditas – em outras palavras, sua capitulação total e incondicional da República Árabe Síria [8].

O projeto dos EUA continua, apesar do acordo com a Rússia

O próximo passo lógico, portanto, deve ser o comandado por Turquia, Arábia Saudita e França, que deve ser viável, enquanto os objetivos originais dos EUA são perseguidos.

Com relação à Turquia, seja qual for o resultado das eleições gerais de 1º de novembro. e especialmente no caso de uma vitória para o AKP – o partido da justiça e desenvolvimento [9], a guerra civil provavelmente continuará e se espalhará [10] até que o país seja dividido em dois, seguido pela fusão do Curdistão turco com o Curdistão iraquiano e um território árabe sírio ocupado pelos curdos sírios e pelos Estados Unidos. Já, as YPG (Unidades de Proteção do Povo) e os Estados Unidos estão trabalhando juntos para conquistar um território árabe no norte da Síria. Agora, as YPG, que, até o mês passado, estavam recebendo suas armas e sendo pagas por Damasco, virou-se contra a República Árabe da Síria. Sua milícia está invadindo as aldeias conquistadas, expulsando os professores, e reforçando a ’Curdização’ das escolas. A língua falada pelos curdos, o curdo, que tinha anteriormente sido falada e ensinada nas escolas, tornou-se a linguagem única e obrigatória. A milícia da República Árabe Síria, particularmente os assírios, está agora reduzida à defesa de suas escolas contra seus compatriotas curdos [11].

Quanto ao rei Salman da Arábia Saudita, ele terá que engolir sua derrota no Iêmen – um vizinho que, oficialmente, ele tinha invadido para apoiar seu Presidente ausente, mas, na realidade, a fim de explorar, com Israel, a gasolina do «Setor Vazio» [12]. Um após o outro, os Emirados Árabes Unidos e o Egito deixaram a coligação; o primeiro após ter sofrido grandes perdas entre os seus oficiais, e o último, mais discretamente, deixando as operações militares inteiramente nas mãos dos israelenses. Os Houthis, empurrados para o norte pelos bombardeamentos, fizeram várias incursões na Arábia Saudita, onde eles destruíram bases aéreas militares e equipamentos. Os soldados sauditas, dos quais quase todos são estrangeiros lutando sob a bandeira da Arábia Saudita, desertaram em massa, obrigando o rei a emitir uma ordem legal contra a deserção. Para evitar um desastre militar, a Arábia Saudita, por conseguinte, solicitou a ajuda de novos aliados. Em troca de dinheiro, o Senegal enviou 6.000 homens, e o Sudão 2.000. a Mauritânia está hesitante quanto a enviar um contingente. Há um boato de que o rei também contatou o exército privado Academi (ex-Blackwater/Xe) que está atualmente a recrutar mercenários na Colômbia. Este fiasco é diretamente imputável ao príncipe Mohammed ben Salmane, que clama a iniciativa desta guerra. Desta forma, ele está enfraquecendo a autoridade de seu pai, o rei Salman, e causando descontentamento entre os dois clãs excluídos do poder, aqueles do ex-rei Abdallah e o do príncipe Bandar. Logicamente, o conflito deve levar a uma partilha da herança entre os três clãs e, consequentemente, à separação do Reino em três Estados diferentes.

Será somente depois da solução desses novos conflitos que a paz poderá vir para a região, exceto pela parte árabe que é colonizada pelo novo Curdistão, destinado a se tornar o ponto focal para a expressão do antagonismo regional em lugar da Palestina.

Mas, mesmo que já esteja escrito, o futuro permanece incerto. A inversão do equilíbrio de poder entre Washington e Moscou [13] terá modificado seu acordo.

Os ratos estão deixando o navio

Enquanto maus perdedores anunciam sem pestanejar que a intervenção militar na Síria não está produzindo os resultados esperados por Moscou, os jihadistas em fuga estão se reunindo no Iraque e na Turquia. O Chefe do Estado Maior dos EUA, General Joseph Dunford, admitiu durante uma audiência no Senado, no dia 27 de outubro, que a guerra estava a evoluir favoravelmente à República Árabe Síria [14]. E o Comandante Supremo da OTAN, General de Philip Breedlove, declarou durante uma Conferência de Imprensa no Pentágono, no dia 30 de outubro, que é um eufemismo dizer que a situação está evoluindo a cada dia e agora está ameaçando a segurança da Europa [15].

Somos obrigados a constatar que a aliança entre os partidários do caos e os partidários da recolonização não só perdeu na Síria, mas que a própria Aliança Atlântica já não pode pretender exercer a dominação global. Como resultado, uma tempestade repentina de agitação está soprando pelas chancelarias, muitas das quais agora estão declarando que está na hora de encontrar uma solução pacífica – o que sugere que até agora, pensavam diferente.

As consequências primárias das próximas «inversões de marcha» com relação à Síria serão primeiro a consagração dos papeis internacionais da República Islâmica do Irão e da Federação da Rússia – dois atores que a imprensa ocidental estava apresentando, há quatro meses, como sendo totalmente isolados e em perigo de sofrer terríveis dificuldades econômicas. Esses dois poderes são agora poderosas forças militares - o Irã sendo grande força militar regional e a Rússia global. A segunda consequência será a permanência no poder do Presidente el-Assad - o homem a quem, nos últimos cinco anos, todos diziam que «teria que sair».

Neste contexto, a propaganda de guerra continua livre, com a afirmação de que tanto o bombardeio russo ou o sírio está matando civis. Essas acusações são sustentadas pela organização central dos grupos terroristas, a Irmandade Muçulmana, por meio de seu Observatório Sírio para os Direitos Humanos. Ou então alega-se que a Rússia está ansiosa para negociar rapidamente porque sua intervenção está custando muito dinheiro – como se eles de alguma forma tivessem negligenciado questões orçamentárias durante a longa fase de preparação. Sempre com ideias brilhantes, o diretor da CIA, John Brennan, pretende que a Rússia se prepara para abandonar o Presidente el-Assad, mesmo depois de o Presidente Putin ter ridicularizado essa tentativa de auto-persuasão alguns dias antes, no Clube de Discussão Valdai Internacional.

Na França, a revolta está ganhando a classe política. Os quatro principais líderes da direita, Dominique de Villepin, François Fillon, Alain Juppé e Nicolas Sarkozy, cada um declarou que é um absurdo alienar a Rússia e se recusam a admitir a derrota na Síria. No entanto, Alain Juppé, que teve um papel central no início da guerra, particularmente através da assinatura de um tratado secreto com a Turquia, persiste em conservar o objetivo de derrubar a República Árabe Síria, mais tarde. À esquerda, vários líderes estão planejando viagens para Damasco, para o futuro próximo.

O pânico diante dessas mudanças evidentes é, na verdade, geral. Nicolas Sarkozy apressou-se ao lado do Presidente Putin, como fez o alemão Vice-Chanceler Sigmard Gabriel [16]. Ele declarou ser o caso para fechar o livro sobre as disputas e amarguras do passado e renovar o diálogo com a Rússia. Está mesmo na hora.
Lembre-se: 

Descrição: - A Declaração de Viena e o Programa de Ação de 30 de outubro de 2015 modificam o Comunicado de Genebra de 30 de junho de 2012. Não haverá nenhuma «fase de transição» na Síria porque a República Árabe Síria ganhou a guerra; mas, haverá um «processo político», que será determinado pelo voto do povo.

Descrição: - A guerra na Síria deve acabar nos próximos meses, exceto no norte, onde os Estados Unidos e Israel estão tentando criar um estado independente colonial, dominado pelos curdos. 

Descrição: - Novas guerras estão em preparação – antes de tudo ao redor de um pseudo-Curdistão imposto sobre populações colonizadas não-curdas, e em seguida na Turquia e Arábia Saudita, a fim de dividir esses grandes Estados em vários Estados menores, em conformidade com o plano de 2001 para a «remodelação do Vasto Oriente Médio». Washington não hesita em destruir seus próprios aliados desobedientes, enquanto Moscou quer terminar com a Irmandade Muçulmana e o Wahabismo.

Descrição: - A oposição na França e toda a classe dominante na Alemanha tomaram nota da ascensão do poder russo e iraniano e da queda futura da Turquia e da Arábia Saudita. Como resultado, eles estão buscando modificar a sua política.


Thierry MeyssanIntelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

[1] “Moscovo e Washington entendem refundar as relações internacionais”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Outubro de 2015.
[4] « Communiqué final du Groupe d’action pour la Syrie », Réseau Voltaire, 30 juin 2012.
[5] “Porque quer a França derrubar a República Árabe da Síria?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 19 de Outubro de 2015.
[6] “Joint Statement on the outcome of the multilateral talks on Syria”,Voltaire Network, 30 October 2015.
[7] “This political process will be Syrian led and Syrian owned, and the Syrian people will decide the future of Syria”.
[8] “Duas espinhas no pé de Obama”, Thierry Meyssan, Tradução Alva,Rede Voltaire, 31 de Agosto de 2015.
[9] “Em direção ao fim do sistema Erdoğan”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Junho de 2015.
[10] “A Turquia em perigo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 28 de Julho de 2015.
[12] “Os projectos secretos de Israel e da Arábia Saudita”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Junho de 2015. “Why is the West So Silent About The Yemeni War?”, by Martha Mundy,Counterpunch, Voltaire Network, 4 October 2015.
[13] “O Exército russo afirma a sua superioridade em guerra convencional”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 19 de Outubro de 2015.
[14] “Dunford Tells Senate Now is Time to Reinforce Iraqi Success Against ISIL”, Jim Garamone, DoD News, October 27, 2015.
[16] “A Alemanha tenta safar-se do conflito sírio”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria), Rede Voltaire, 29 de Outubro de 2015.
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