sexta-feira, 20 de junho de 2014

Washington toca os tambores de guerra


17 de junho de 2014.

por Paul Craig Roberts Institute for Political Economy


Gostaria muito de ter apenas boas novas para apresentar a meus leitores, ou pelo menos uma singela boa notícia. Infelizmente as boas novas não mais são uma característica da política dos Estados Unidos e simplesmente não podem ser encontradas em palavras ou atos originários de Washington ou das capitais de seus estados vassalos na Europa. O mundo ocidental entregou-se totalmente ao mal.

Eric Zuesse, em seu artigo publicado pelo Op-Ed News, apóia meu relato sobre as evidências de que Washington se prepara para um primeiro ataque nuclear contra a Rússia.


A doutrina de guerra dos Estados Unidos mudou. As armas nucleares até há pouco tempo restringiam-se a uma força retaliatória, mas mudaram de patamar e avançaram para um ataque nuclear preventivo.

Washington abandonou o tratado Anti Mísseis Balísticos (ABM, sigla em inglês - NT) com a Rússia e desenvolveu e implantou um escudo ABM. Ao mesmo tempo, a vergonhosa máquina de propaganda política e de mentiras está demonizando a Rússia e seu presidente, como forma de preparar a população dos Estados Unidos e se seus estados vassalos para a guerra contra a Rússia.

Os neoconservadores convenceram o governo dos Estados Unidos de que as armas nucleares estratégicas da Rússia estão defasadas e em más condições e que são atualmente um alvo fixo para o ataque. Esta falsa crença tem base em informações ultrapassadas, velhas de uma década, como o argumento apresentado em “The Rise of US Nuclear Primacy” (O avanço da supremacia nuclear dos Estados Unidos – NT) escrito por Keir A. Lieber e Daryl G. Press em abril de 2006 como tema de “Foreign Affairs”, uma publicação do Conselho de Relações Exteriores, organização das elites americanas.


Independentemente das condições das forças nucleares russas, o sucesso de um primeiro ataque nuclear de Washington e o grau de proteção proporcionado pelo escudo ABM de Washington contra a retaliação, o artigo postado por Steven Styarr “The Lethality of Nuclear Weapons” (A letalidade das armas nucleares - NT), deixa bem claro que não há vencedores em uma guerra nuclear. Todos morrem.



Em um artigo publicado em dezembro de 2008, no “Physics Today”, três cientistas atmosféricos (ou cientistas espaciais) assinalaram que apesar da redução dos arsenais nucleares que o Tratado de Redução Estratégica Defensiva (SORT, sigla em inglês – NT) esperava alcançar, de 70.000 ogivas (nucleares) em 1986 para alguma coisa entre 1.700/2.200 ogivas pelo final de 2012, não se reduziu a ameaça que a guerra nuclear representa para a vida na Terra. Os autores concluem que, somando-se aos efeitos diretos das explosões nucleares, que causariam a morte de centenas de milhões de seres humanos, “os efeitos indiretos provavelmente provocariam a eliminação da maioria da população humana.” A obliteração estratosférica causada pelas tempestades que as explosões provocam resultaria em um inverno nuclear e colapso agrícola. Aqueles que não perecessem pelas explosões e pela radiação, morreriam de fome.


Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev compreenderam isso. Infelizmente, nenhum de seus sucessores no governo dos Estados Unidos o fez. No que concerne ao governo em Washington, só morreriam os outros, não “o povo excepcional”. (O acordo SORT aparentemente falhou. De acordo com o Stockholm International Peace Research Institute – SIPRI os nove países com poder nuclear possuem ainda um total de 16.300 armas nucleares.


É um fato que Washington tem políticos influentes que pensam, incorretamente, que a guerra nuclear pode ser ganha e que a consideram como um meio de prevenção contra o crescimento da Rússia e da China, assim como forma de manter controlada a hegemonia de Washington sobre o mundo. O governo americano no poder, partidos à parte, é uma grande ameaça à vida na Terra. Os governos europeus, embora se considerem civilizados na realidade não o são, por permitir a busca de Washington por hegemonia. Essa busca é o motivo da ameaça de extinção da vida no planeta. A ideologia que atribui aos Estados Unidos o direito à supremacia pela sua categoria de “excepcional, indispensável país” é uma imensa ameaça ao mundo.

A destruição, total ou parcial de sete países pelo ocidente no século 21, com o apoio da “civilização ocidental” e da mídia do ocidente, prova de maneira irrevogável que a liderança do mundo ocidental não tem moral, consciência ou compaixão humana. Agora que Washington se armou com a falsa doutrina da “primazia nuclear”, a perspectiva para a humanidade é realmente sombria.

Washington começou a seguir na direção da Terceira Guerra Mundial e os europeus parecem estar a bordo.  Recentemente, em novembro de 2012 o Secretário da OTAN, general Rasmussen, disse que a OTAN não considerava a Rússia como um inimigo.  Agora, que os idiotas na Casa Branca e seus vassalos europeus convenceram a Rússia de que o ocidente é um inimigo, Rasmussen declarou que “temos que nos adaptar ao fato de que a Rússia nos considera agora como seus adversários” para reforçar o exército da Ucrânia e de toda a Europa central e oriental. No último mês, Alexander Vershbow, antigo embaixador dos Estados Unidos para a Rússia e atualmente Secretário Geral adjunto da OTAN declarou que a Rússia é um inimigo e disse que os pagadores de impostos dos Estados Unidos e da Europa precisam se esforçar pela modernização militar “não apenas da Ucrânia, mas também da Moldávia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão.” É possível que estes apelos por mais gastos militares sejam apenas o funcionamento normal de agentes do complexo exército/segurança dos Estados Unidos. Tendo perdido a “guerra ao terror” no Iraque e no Afeganistão, Washington precisa substituí-la e começou a ressuscitar a Guerra Fria.

Provavelmente, tudo seja apenas uma isca da indústria de armamentos, e parte de Washington vê isso.  Acontece que os neoconservadores são muito mais ambiciosos. Eles já não querem apenas mais lucros para o complexo exército/segurança. Sua meta é a hegemonia do Washington sobre o mundo, o que significa ações irresponsáveis como a ameaça estratégica que o regime de Obama, com a cumplicidade de seus vassalos europeus impõe à Rússia na Ucrânia.

Desde o último outono, o governo dos Estados Unidos tenta cravar os dentes na Ucrânia, culpando a Rússia pelas consequências das ações de Washington e demonizando Putin, exatamente como foi feito contra Gaddafi, Saddam Hussein, Assad, o Talibã e o Irã. A mídia prostituta (presstitute no original – NT) e as capitais europeias têm feito coro às mentiras e à propaganda política repetindo tudo infinitamente. Por conseqüência, a atitude pública dos Estados Unidos em relação à Rússia mudou fortemente para conotações negativas.

O que pensarão a Rússia e a China a respeito? A Rússia assistiu a OTAN ser colocada em suas fronteiras, a violação dos acordos Reagan-Garbochev. A Rússia assistiu os Estados Unidos abandonarem o tratado ABM e desenvolver um escudo “star wars”. (Se o escudo vai funcionar ou não é irrelevante. Seu objetivo é convencer os políticos e o público de que os norte americanos estão a salvo.) A Rússia assistiu Washington mudar sua doutrina sobre armas nucleares de “armas de dissuasão” para “primeiro ataque preventivo”. Agora, a Rússia ouve todo santo dia um monte de mentiras do ocidente e assiste o massacre perpetrado pelos vassalos de Washington em Kiev contra civis na Ucrânia russa, chamados de “terroristas” por Washington, através de armas de fósforo branco, sem um pio de protesto do ocidente.

Intensos ataques aéreos e de artilharia contra casas e apartamentos na Ucrânia russa aconteceram no 25º aniversário da Praça Tiananmen, enquanto Washington e seus fantoches condenavam a China por um evento que não aconteceu. Como sabemos atualmente, não houve massacre algum na Praça Tiananmen. Foi apenas mais uma mentira de Washington, como o incidente do Golfo de Tonquim, as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, o uso por Assad de armas químicas, as armas nucleares iranianas, etc. É uma coisa espantosa que o mundo ainda acredite nas falsas realidades criadas pelas mentiras de Washington.

Matrix, o filme, é uma descrição exata da vida no ocidente. A população acredita numa falsa realidade criada por seus dirigentes. Um punhado de seres humanos escapou da falsa existência e luta para trazer a humanidade de volta à realidade. Eles resgataram Neo, o “número um”, que acreditam corretamente ter poder para libertar os seres humanos da falsa realidade onde vivem. Morpheus, o líder dos rebeldes, explica a Neo:

“A Matrix é um sistema, Neo. É o nosso inimigo. Mas quando você está dentro do sistema e olha em volta, o que você vê? Homens de negócios, professores, advogados, carpinteiros. É a consciência verdadeira dessas pessoas que lutamos para libertar. Mas até que tenhamos sucesso, esse povo ainda é uma parte do sistema e eles nos olham como seus inimigos. Você precisa entender que a maioria dessas pessoas ainda não está pronta para ser livre. E muitos deles estão tão acostumados, tão completamente dependentes do sistema, que eles lutarão para protegê-lo.”

Experimento isso toda a vez em que escrevo uma coluna. Protestos dos determinados a não serem desplugados chegam através de emails e naqueles sites que expõem os autores à difamação pelos trolls do governo em seções de comentários. Não creia na realidade real, insistem eles, creia na realidade irreal.

A Matrix engloba ainda parte da população russa e chinesa, especialmente aqueles educados no ocidente e aqueles suscetíveis à propaganda política ocidental, mas a grande maioria da população desses países sabe a diferença entre mentira e verdade. O grande problema para Washington é que a propaganda política que prevalece sobre o povo ocidental não prepondera sobre os governantes da Rússia e da China.

Como você pensa que reage a China quando Washington declara que o Mar do Sul da China é área de interesse nacional dos Estados Unidos, coloca 60 por cento de sua vasta frota no Pacífico e constrói novas bases aéreas e navais nas Filipinas e no Vietnã?

Acho que tudo o que Washington pretende de verdade é fazer os pagadores de impostos manterem vivo o complexo exército/segurança, que lava parte do dinheiro desses pagadores de impostos e o faz retornar como contribuição de campanhas políticas. Podem a Rússia e a China correr o risco de ver as palavras e atos de Washington nessa linha limitada?

Até agora, os russos e somente os russos (e chineses) se mantiveram sensatos. Lavrov, o Ministro de Relações Exteriores da Rússia disse:

“Neste estágio, temos que proporcionar a nossos parceiros a oportunidade de se acalmar. Vamos ver o que acontece em seguida. Se as acusações absolutamente infundadas contra a Rússia continuarem, se houver novas tentativas de nos pressionar por meio de poder econômico, então será tempo de reavaliar a situação.”

Se os imbecis na Casa Branca, as putas da mídia de Washington e os vassalos europeus convencerem a Rússia de que a guerra é provável, a guerra será provável.  Já que não há qualquer perspectiva de que a OTAN seja capaz de montar uma força que ameace a Rússia que seja pelo menos aproximadamente do tamanho e com o poder de destruição da invasão alemã de 1941, que reuniu a maior força de invasão já conhecida, a guerra será nuclear, o que significa nada mais nada menos que o fim de todos nós.

Não se esqueça disso, quando Washington e suas prostitutas da mídia continuarem a tocar seus tambores de guerra. Tenha em mente ainda que a história prova, ao longo do tempo, sem qualquer sombra de dúvida, que tudo o que Washington e a mídia prostituta (presstitute no original – NT) lhe diz é mentira e segue uma agenda não declarada. Você não arrumará a situação votando em republicanos no lugar de democratas ou vice versa.

Thomas Jefferson nos contou qual é a solução desse enigma: “A árvore da liberdade precisa ser renovada de vez em quando com o sangue dos patriotas. É seu adubo natural.”

 Há poucos patriotas em Washington, mas abundam os tiranos.


Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da ReaganomicsEx-editor e colunista do Wall Street JournalBusiness Week e Scripps Howard News ServiceTestemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

Tradução: mberublue