segunda-feira, 9 de junho de 2014


7/6/2014, [*] Natalia MEDEN, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

George Friedman, diretor do think-tank norte-americano Stratfor, entende que alguns países da OTAN devem aumentar os gastos militares. No caso da Polônia, cujo gasto militar é próximo de 2% do PIB, deve ser aumentado para 5%. [1] A “ameaça russa” em torno da qual Freedman e tantos deliram está sendo usada para impor aumento no gasto militar dos países que compõem a OTAN.
“Os gastos de defesa russos cresceram mais de 10% em termos reais anualmente ao longo dos últimos cinco anos” – disse o secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, numa conferência de segurança em Bratislava, Eslováquia (15/5/2014). Comparou os investimentos crescentes de Moscou, com os números declinantes em vários países europeus membros da OTAN – vários dos quais cortaram gastos em 20% (até mesmo, 40% – imaginem só!), no mesmo período. [2]

Será que alguém, no ocidente, está realmente com medo da Rússia? Parece que não. A Casa Branca e Stratfor, por exemplo, não parecem intimidadas pela “ameaça” russa. George Friedman vê a Rússia como potência regional, não global; e Barack Obama não faz outra coisa além de meter-se a “ensinar” à Rússia o que ela deve(ria) e não deve(ria) fazer. Por exemplo, uma das lições de Obama à Rússia é que deve normalizar imediatamente as relações com Petro Poroshenko. Isso, só para começar. Porque a lista de instruções é longa:


1) Todas as tropas russas devem ser retiradas da fronteira da Ucrânia. O presidente dos EUA mete-se a dizer à Rússia onde deve(ria) pôr ou não pôr tropas, em território russo. É i-na-cre-di-tá-vel. É cômico. É além de ridículo.

2) É hora de pôr fim ao apoio dos russos às formações de resistência e autodefesa. Pronto. Não há o que abale a fantasia de BO, segundo a qual as unidades de autodefesa na Ucrânia são fantoches do Kremlin, assim como não há o que faça os EUA suspenderem o apoio que dão à operação de punição coletiva que soldados ucranianos fazem contra a população local, o que faz aumentar o ódio contra o governo de Kiev apoiado pelos EUA. Pela ‘lógica’ norte-americana, milhares de refugiados que cruzam a fronteira russa só saíram para visitar uns parentes por ali perto, na região vizinha de Rostov.

O número dos que querem deixar a Ucrânia está aumentando. As pessoas têm de enfrentar longas filas para comprar bilhetes para os trens que passam por Slavyansk, Kramatorsk e Volnovakha. Os fatos são óbvios, mas os números que a Rússia apresentou não convenceram os membros do Conselho de Segurança da ONU. Só a China acompanhou o voto dos russos. E o projeto de resolução que criaria corredores humanitários no leste da Ucrânia – região que está sob ataque do governo da junta de Kiev – foi rejeitado.

3) Que a Rússia não se atreva a suspender o fornecimento de gás. Por que os EUA assim o “exigem”, isso, é perfeito mistério. Talvez os EUA entendam que a Rússia deva doar gás à Ucrânia... E caso a Rússia discorde, que peça instruções a Barack Obama, que já tem um Prêmio Nobel e talvez receba também inspirações divinas, e Obama lhe dirá o que fazer. Um dos antecessores de Obama no trono da Casa Branca entendia que o excepcionalismo dos EUA o poria em contato direto com o Altíssimo... que teria sido apontado por Deus para agir em Seu nome sobre a terra.

Bases militares - forças terrestres - dos EUA na Alemanha
Ora! Se os norte-americanos veem a Rússia como simples potência regional, não há por que temer que os russos movam seus exércitos para lá ou para cá. E por que alarmar tanto aliados, em torno de uma “ameaça” que ninguém leva a sério? É fácil – a crise ucraniana é bom motivo para fortalecer a unidade no “Atlântico Norte”.

E quanto à Alemanha? Para George Friedman, a posição da Alemanha é obscura e instável; e ele tem lá seus motivos para pensar assim.

Já há muito tempo, a Alemanha balança entre a solidariedade transatlântica e a realidade que reflete interesses nacionais e europeus reais. É verdade: a Alemanha aumentou o número de Eurofighters para ampliar a patrulha aérea no Báltico, e tomou a decisão de enviar mais 50 oficiais graduados para o Corpo Multinacional do Nordeste (Szczecin/Poland).

Os alemães fizeram como se não tivessem percebido que não foram consultados na decisão dos EUA para modernizar a munição nuclear norte-americana em solo alemão. Mas não, não... A Alemanha não pode aumentar o orçamento militar, a chanceler e o ministro das Finanças entendem que deve ficar nos 32 bilhões de euros. Eles não creem que os Estados do Báltico estariam realmente “ameaçados” e, assim, não veem necessidade de a OTAN manter presença militar permanente na Europa Central e do Leste. O exemplo alemão é contagioso: não importa que pretexto o ocidente use, a República Tcheca e a Eslováquia absolutamente não querem receber militares norte-americanos.

Nem os contribuintes alemães nem as elites alemãs querem uma Guerra Fria com a Rússia. Até os mais altos líderes militares, que apoiam a ideia de ampliar gastos militares, opõem-se à ideia de fazer da Ucrânia estado membro da OTAN. [3] Os mais conhecidos e qualificados think-tanks alemães entendem que a finlandização será a melhor solução para a Ucrânia e para a Europa. [4]

Bases aéreas dos EUA na Alemanha
(clique na imagem para aumentar)
Rols Muetzenich, representante dos social-democratas alemães, relembrou o “Relatório Harmel” [Harmel Report, 1967]. Quando era ministro de Relações Exteriores, Harmel apresentou aos ministros da OTAN um documento intitulado “Tarefas Futuras da Aliança”. O documento, aprovado pelo conselho em dezembro de 1967, expunha a chamada “Doutrina Harmel”: advogava defesa forte, combinada com boas relações diplomáticas com os países do Pacto de Varsóvia. Essa “Doutrina Harmel” ajudou a pavimentar o caminho para a détente entre leste e oeste do início dos anos 1970s, que levou à Cúpula de Helsinki de 1975, e à criação da Organização de Segurança e Cooperação da Europa (OSCE). O próprio Harmel visitou vários países do Pacto de Varsóvia.

Quanto mais se disseminam na Europa esse tipo de sentimentos e de pensamentos, mais difícil, para Washington, disfarçar a própria aflição. Já faz quase um ano que se divulgaram notícias de que os EUA espionavam as comunicações alemãs; agora, há poucos dias, o Procurador-Geral da Justiça Alemã, Harald Range, anunciou que iniciou investigação criminal oficial sobre as denúncias de que o celular da chanceler Angela Merkel teria sido grampeado.

Harald Range
A decisão do Procurador-Geral alemão e a firmeza com que declarou que há crime se o celular da chanceler é invadido sem autorização judicial, mostra bem o quão profundamente os alemães se ressentiram ao saber que os EUA espionavam, há anos, a sua chanceler.

Há alguns dias, Range informou que já havia feito contato com Edward Snowden, através do advogado alemão da equipe de defesa de Snowden, para convocar Snowden a testemunhar. Snowden – que está vivendo em Moscou desde que divulgou centenas de milhares de documentos secretos ano passado, que expuseram a extensão planetária da espionagem/vigilância eletrônica feita pela Agência de Segurança Nacional dos EUA – ainda não respondeu à convocação da autoridade alemã. Os EUA não estão nada satisfeitos com a atitude do Procurador-Geral alemão, que lhes parece fora de lugar e tomada em momento bem pouco oportuno.

Segundo George Friedman, a Alemanha estaria virando problema para a Europa. [5] George Friedman erra. A Alemanha não é problema para a Europa: a Alemanha só é problema para os EUA, nessa sua ânsia démodée e pervertida de sempre querer dominar o mundo.


Notas da autora

[1] 29/5/2014, George Friedman, Germany – a Problem for Europe, Polski Radio (em polonês, mas a tradução do GOOGLE, embora fraca é legível)
[2] Entrevista de Rasmussen, publicada (al.) por Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung (Rasmussen: Nato muss sich ruesten, Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung, 4/5/2014, p. 1), “Rasmussen’s remarks at OTAN defense ministers session”, 3/6/2014.
[3] 14/4/2014, Keine Aufnahme Ukraine in die OTAN/Stuttgarter Zeitung.
[4] Kaim M. Partnerschaft Plus: Zur Zukunft der OTAN_Ukraine Beziehungen. SWP-Aktuell 38, Mai 2014.