domingo, 22 de junho de 2014

SIL-DAASH e o Califato do Levante: libertar a Palestina?

Franklin Lamb 
Traduzido por  Coletivo de tradutores Vila Vudu

Ninguém precisa ser vidente para compreender que a “Primavera Jihadi” em curso está acelerando os planos e talvez o destino dos islamistas nessa região, com a crescente ajuda de nacionalistas nos vários países, inclusive remanescentes do Partido Baath do Iraque.
Essa é a opinião de mais de uma dúzia de ardentes apoiadores do Estado Islâmico no Iraque e Levante (ISIL) – grupo conhecido localmente pela sigla em árabe DAASH – cujo comando autorizou-me, há seis meses, a entrevistar seus apoiadores, para discutir pontos que o comando considerou pouco precisos em artigo que escrevi sobre ações do DAASH em Raqqa, Síria. Naquele artigo, escrevi que o DAASH estava vendendo tesouros arqueológicos sírios, como estavam vendendo petróleo sírio e, em alguns casos também comida roubada em armazéns, em ‘leilões’ improvisados, ao estrangeiro que oferecesse melhor preço; e que não faltavam interessados.

O “S” final da sigla ISIL tem relação com a palavra “al-Sham”, em árabe, que tem sido usada em vários sentidos, como tradução de “Levante”, “Síria” e, até, “Damasco”. Mas a sigla em árabe,DAASH inclui a expressão “Levante”, que, por sua vez, significa “Leste do Mediterrâneo” e inclui Chipre, Palestina, Jordânia, Síria e o sul da Turquia.

ISILISIL ou DAASH acaba de anunciar que Raqqa, o único dos 14 governoratos que o grupo controla na Síria é agora a capital de seu emergente “califato” – até agora uma faixa de terra que cobre boa parte do leste e norte da Síria e o oeste e o norte do Iraque. O Emir será o líder e principal estrategista do grupo, sucessor de Abu Mus‘ab Zarqawi, o Dr. Abu Bakr al-Baghdadi.

Entre as pessoas que entrevistei longamente há simpatizantes, estudantes de política e da ‘primavera’ islamista na Síria e Iraque, além de uns poucos sujeitos sombrios e discretíssimos que me foram indicados como recrutadores de jihadistas, alguns deles trabalhando para uma dita nova unidade especializada do DAASH, criada no início de 2013,  e dedicada exclusivamente à luta contra o regime sionista que ocupa a Palestina. A “Unidade Al-Quds” (ing. AQU) do DAASHtrabalha atualmente para ampliar sua influência nos mais de 60 campos de concentração de palestinos de Gaza, por toda a Palestina Ocupada, até a Jordânia, e do Líbano ao norte da Síria. Em toda essa área, eles trabalham para obter apoio para a ação de libertar a Palestina, que está em preparação.

O grupo DAASH acredita, conforme me disse um de seus mais conhecidos e respeitados intelectuais e professores-conselheiros, que a Ummat al-Islamiyah (Comunidade Islâmica), passou a apoiar a ação armada do DAASH. Foi também o que me disse, dia 18/6/2014, um funcionário do Foreign Office dos EUA: que a Casa Branca estima que aproximadamente 6 milhões de sunitas iraquianos apoiam o DAASH. O apoio exclui a obsessão sectária, os hábitos e práticas antissociais e a violência desmedida no território sob controle do DAASH. Mas a organização islamista crê que hoje conta com massivo apoio regional para uma “revolução dos oprimidos” em rápida expansão na região. Grande número de pessoas nessa região parecem, sim, apoiar os sucessos  do grupo, apesar de rejeitarem a história de brutalidade – que me foi ‘explicada’ como ação com objetivos políticos imediatos.

Os intelectuais do DAASH contam com que, com o tempo, a opinião pública recuperará a notável história do movimento, desde 2003, quando Abu Mus‘ab Zarqawi saiu da prisão na Jordânia e partiu para o Afeganistão, onde ganhou notável experiência e a confiança de Osama Bin Laden, e então entrou no Iraque, para sua luta de Jihad contra os EUA.

DAASH parece estar usando apelos sectários no Iraque e Síria, mais ou menos como fez Zarqawi, quando teve de enfrentar a crescente milícia xiita, imediatamente depois da invasão e ocupação do Iraque pelos EUA.

Mas os apoiadores do DAASH dizem que, hoje, o grupo já recebeu o reforço de mais de uma dúzia de grupos sunitas – como o Exército da Ordem Naqshbandia. Esse grupo, JRTN em árabe, e como é conhecido localmente, foi criado em 2007 imediatamente depois da execução de Saddam Hussein, e é formado de oficiais leais ao governo de Saddam Hussein, inclusive oficiais de inteligência e soldados dos seus Guardas Republicanos. Se essa aliança entre o DAASH e o JRTNsunita se mantiver e fortalecer-se, os sunitas contribuirão com milhares de combatentes que têm raízes sociais profundas e vigorosas na comunidade.

Um membro do JRTN com quem conversei me disse: “Com os muçulmanos sunitas sob o mesmo teto, o DAASH pode resolver suas diferenças sobre modos de interpretar o Islã entre diferentes grupos da mesma Ummah. Mas, antes de tudo, precisamos da vitória, que nos dará o que todos desejamos e buscamos. Depois, se nossos parceiros Baathistas decidirem que querem ser guardiões seculares do nacionalismo árabe sunita, a questão poderá ser discutida. Mas terá de ser depois.

A página oficial do Exército Naqshbandi (JRTN) apresenta uma conclamação à irmandade de todos os grupos, datada de 1/1/2014: “A todos nossos irmãos e famílias de todas as tribos e facções, aqui declaramos: vocês não estão sós nesse campo de batalha.”

O grupo DAASH insiste que já está menos ativo na matança de todos que trabalhem para o governo da Síria ou do Iraque, inclusive dos coletores de lixo, prática bárbara que alienou a população sunita; e que o número de apoiadores vem crescendo desde que começaram a oferecer serviços sociais essenciais, já como ação de um proto-Califato. “São os sionistas que nos chamam de mascarados e assassinos sociopatas. Mas somos diferentes disso e muito mais complexos e muito mais representativos dos grupos de querem justiça, do que nos pintam. Seríamos talvez mais bárbaros, mais assassinos mais sociopatas, que os terroristas sionistas que promoveram os massacres de Dier Yassin, duas vezes em Shatila em Qana, e mais dúzias e dúzias de outros massacres? Depois que libertarmos a Palestina, a história nos julgará.”

Há alguns anos, a CIA e outras entidades estimavam que a ocupação sionista na Palestina entraria em colapso em menos de uma década. Essa semana, membros do grupo DAASH me disseram que podem completar o serviço em 72 meses.

Sobre os eventos que cercam a tomada de Mosul e outras exibições-shows de brutalidade de massa que as televisões e as mídias sociais divulgaram, o ISIL diz que são ações de guerra, feitas com um propósito, o mesmo que outros atores estatais e não estatais têm buscado ao longo da última década: levar 90% dos 1,5 bilhão de muçulmanos sunitas a se libertarem da opressão que 10% de muçulmanos xiitas lhes impõem.

Ouvi várias razões pelas quais os palestinos devem manter viva a esperança de que o ISILconseguirá a vitória a favor da causa deles, onde todos os ditos apoiadores de alguma Resistência, árabes, muçulmanos e ocidentais, fracassaram horrivelmente e sempre acabaram por favorecer o regime dos ocupantes sionistas, aterrorizando ainda mais a Palestina.

“Todos os países nessa região estão jogando a carta sectária como antes, por muito tempo, jogaram a carta Palestina. A diferença é que o ISIL é sério sobre a Palestina, e os outros grupos jamais foram. Telavive cairá tão rapidamente quanto caiu Mosul, quando chegar a hora” – disse-me um apoiador do grupo DAASH. Outro senhor completou: “o DAASH lutará onde ninguém mais quer lutar.”

Todo o ISIL parece desprezar o regime sionista e seu exército, e parece disposto a dar-lhes combate em futuro próximo, apesar das armas nucleares que os sionistas têm. “E o senhor pensa que não temos acesso a equipamentos nucleares? Os sionistas sabem que temos, e se soubermos com certeza que os sionistas preparam-se para usar as armas deles, não hesitaremos em atacar primeiro. Depois que os sionistas partirem, a Palestina terá de ser descontaminada e reconstruída, como já se fez em áreas onde houve dispersão de elementos radiativos.”

Apoiadores do DAASH dizem que o grupo tem procurado líderes tribais e outros notáveis locais e todos têm discutido as diferenças que os separam e procurado os conselhos tribais. O DAASH diz que conta com o apoio da Igreja Católica Romana, e que, quando Mosul foi capturada semana passada, eles não agrediram moradores cristãos nem suas igrejas. Nisso receberam o apoio do arcebispo Giorgio Lingua, núncio apostólico (enviado do Papa) no Iraque, que disse a veículos de imprensa essa semana: “Os guerrilheiros que estão no controle em Mosul até agora não cometeram nenhuma violência nem qualquer depredação contra igrejas católicas naquela área.”

Vai-se tornando bem claro para seguidores do DAASH com quem conversei, que eles entendem que o grupo construiu administrações locais bem organizadas nas áreas sob seu controle, incluindo o sistema judicial de corte islâmica e forças policiais locais não hostis, a favor da segurança e da saúde pública. Também é evidente que, para essas pessoas, o DAASH agiu acertadamente ao fechar lojas que revendiam alimentos estragados nos souks e supermercados, destruir estoques de cigarros e punir com pena de chicoteamento indivíduos que maltratassem os próprios vizinhos, além de confiscar remédios falsificados e das sentenças de morte por apostasia.

Apoiadores do DAASH dizem que, tão logo uma determinada região é “libertada”, eles começam a investir nos serviços públicos (como no novo souk em Raqqa), instalam novas linhas de eletricidade e dão início a sessões de treinamento para ensinar as pessoas técnicas de faça-você-mesmo, para que as próprias pessoas possam cuidar mais rapidamente de reconstruir a infraestrutura da região onde vivam e a própria casa. O DAASH tem divulgado que tem conseguido pôr em prática um programa de recuperação de ruas e estradas, já repôs em circulação um sistema de ônibus públicos de baixo custo para os usuários, criou um programa ‘verde’ para reconstruir praças e plantar árvores e flores, ajuda os agricultores nas colheitas e mantém uma organização sustentada por doações (zakat) de caridade.

ISIL já estabelecera grande número de escolas religiosas para crianças, inclusive para meninas, onde estudam o Corão e recebem prêmios em competições de recitação, ao mesmo tempo em que também oferecem ‘dias de diversão’ para os mais pequenos, com sorvete à vontade para todos e brincadeiras. Para os mais velhos, o ISIL mantém escolas de formação para novos imãs e pregadores. Nas mesquitas, divulgam-se os horários das aulas de estudo do Corão e das orações. Desenvolvimento mais preocupante que esses é que o ISIL também mantém campos de treinamento e instrução para escoteiros (‘soldados mirins’).

Vários veículos das mídias sociais e algumas testemunhas oculares confirmam que o grupoDAASH desenvolve efetivamente seus programas de bem-estar e saúde pública, opera fábricas de pão e distribui frutas e legumes gratuitos a famílias necessitadas, entregando os bens a quem os procure e, também, mediante um restaurante gratuito que fornece comida em Raqqa e uma agência de adoção, que encontra famílias dispostas a acolher os órfãos nas áreas onde vivam.

Diferente dos Talibã e outros regimes que se opõem com fúria paranoica a campanhas de vacinação, o grupo DAASH diz-se mais “moderno” e promove ativas campanhas de vacinas contra pólio em suas áreas, na luta para deter a dispersão da doença.

Os serviços sociais oferecidos pelo grupo DAASH obviamente não diminuem a violência mortal que seus militantes espalham por onde passam, mas sugerem que o grupo tem projeto social e que foi sensível aos interesses e preocupações da população de sunitas que se sentem oprimidos por governos de xiitas. Segundo um parente de al-Bagdadi, quase meio bilhão de dólares foram apreendidos do Banco Central de Mosul esse mês, para ajudar na campanha pela opinião pública e para corrigir “as informações distorcidas que a mídia comercial distribui”.

DAASH parece estar trabalhando na linha-clichê segundo a qual em qualquer guerra metade de tudo que se ouve/lê são mentiras ou boatos. O grupo condena o projeto de vários canais de televisão por satélite; diz que absolutamente não noticiam os fatos com objetividade, e só fazem distribuir rumores com viés sectário, precisamente para promover cada vez mais guerra sectária. (Nisso, parecem acertar em cheio.)

Apoiadores do grupo DAASH com os quais falei negam qualquer interesse em organizar ou treinar combatentes estrangeiros para atacar na Europa ou noutros pontos; dizem que seu objetivo é estabelecer um Califato do Levante e libertar a Palestina.

Sobre como, precisamente, o DAASH planeja libertar a Palestina, o Iraque – e, agora, também o governo Obama – já têm em mãos uma enciclopédia de informação sobre planos detalhados e táticas do DAASH – que serão discutidas com os ocupantes sionistas, segundo informação que recebi por e-mail, de funcionário do Congresso dos EUA. Ao que já se sabe, os suicidas-bomba (grandes números de voluntários sem treinamento militar, que se movimentem a pé e com coletes explosivos, ou dirijam carros-bomba), parece ser só a ponta de um iceberg gigante do que o DAASH planeja.

Quem descobriu aquela ‘enciclopédia’ de informações sobre o DAASH foi a inteligência iraquiana, menos de 48 horas antes da queda de Mosul. Ao que se sabe, os iraquianos prenderam um importante mensageiro do DAASH o qual, sob tortura, entregou mais de 160 pen-drives com grande quantidade de informação, a mais detalhada já encontrada sobre o DAASH. A inteligência dos EUA ainda trabalha para decodificar e analisar o material.

Como se podia adivinhar que aconteceria e aconteceu, no instante em que essa informação chegou ao Congresso, a deputada e agente israelense Ileana Ros-Lehtinen, ex-presidente da Comissão de Assuntos Exteriores da Câmara de Deputados dos EUA, e seus parceiros no AIPACpassaram a tentar obter cópias dos documentos para enviá-las à Embaixada de Israel e ao Mossad. O que se diz no Congresso é que o governo Obama tem interesse em discutir as informações com Israel, mas ainda não deu qualquer sinal de querer partilhar qualquer informação com o governo de Netanyahu.

Só o tempo dirá se o DAASH alcançará ou não seus objetivos. Muitos creem que, se conseguirem expulsar da Palestina o regime sionista, o grupo islamista conseguirá despertar e pôr em movimento correntes históricas profundas que, com certeza, serão muito diferentes da fantasia criada por Ehud Omert-Condeleeza Rice, de um “Novo Oriente Médio”.

Aconteça o que acontecer, é pouco provável que Iraque, Síria, Iêmen, Líbia, Líbano, dentre outros países da região, venham algum dia a se assemelhar ao que George Bush & Dick Cheney tinham em mente, e seus conselheiros neoconservadores ainda ativos ainda têm, quando batiam tambores-de-guerra a favor de os EUA invadirem Iraque e Líbia e, novamente querem mais guerra, agora, contra Síria e Irã.

postado por Roberto Pires Silveira