domingo, 8 de junho de 2014

As mentiras só aumentam...


 
por Paul Craig Roberts


Se por acaso ainda houvesse alguma dúvida de que os líderes do ocidente vivem em um mundo de faz-de-conta fantasioso elaborado a partir de suas mentiras, a reunião do G-7 e a celebração do 70º aniversário do desembarque na Normandia acabou com a dúvida.
As besteiras que foram gritadas nessas ocasiões bastam para explicitar quem é quem. Obama, com seu cãozinho de colo Cameron ao lado, descreveu o desembarque da Normandia em 06 de junho de 1944 como sendo “a maior força de liberação que o mundo já conheceu” e fez com que os Estados Unidos e a Grã Bretanha ficassem com todo o crédito da derrota de Hitler.  Nem a mais leve menção sobre a União Soviética e o Exército Vermelho, que por três anos, ainda antes do desembarque da Normandia já estavam lutando e derrotando a Wehrmacht.

alemães em Stalingrado
A derrota alemã na Segunda Guerra Mundial aconteceu na batalha de Stalingrado, que foi travada no espaço de tempo entre 23 de agosto de 1942 até 03 de fevereiro de 1943, quando a maioria dos remanescentes do poderoso Sexto Exército Alemão se rendeu, incluindo 22 generais.

A verdadeira maior força de invasão já montada no planeta Terra foi a que invadiu a Rússia, através de uma frente de batalha de mil e seiscentos quilômetros. Três milhões de tropas alemãs de primeira linha; 7.500 unidades de artilharia, 19 divisões panzer com 3.000 tanques e 2.500 aviões deslocaram-se pela Rússia por 14 meses.

Em junho de 1944, três anos depois, restava bem pouco dessa força. O Exército Vermelho a tinha mascado. Quando os assim chamados “aliados” (um termo que aparentemente exclui a Rússia) chegaram à França, enfrentaram bem pouca resistência. As melhores forças que ainda restavam para Hitler estavam engajadas no front russo, que desabava dia após dia, conforme o Exército Vermelho se aproximava de Berlim. 

a Alemanha foi o Exército Vermelho. Americanos e britânicos só se arriscaram depois que a Wehrmacht estava exausta e em farrapos e podia oferecer fraca resistência. Stalin acreditava que Washington e Londres ficaram na espera até o último minuto, deixando a maior parte do trabalho de derrotar a Alemanha com a Rússia.

Cineastas de Hollywood e escritores de best-sellers, naturalmente, enterraram os fatos bem fundo. Os americanos produziram todo o tipo de filme, como “Uma ponte longe demais”, que retratam acontecimentos pontuais e insignificantes, mesmo sendo heróicos, como pontos de virada da guerra. Não obstante, os fatos reais são claríssimos. A guerra foi vencida no front oriental pela Rússia. Filmes de Hollywood são divertidos, mas não passam de nonsense.

A Rússia mais uma vez está sendo escanteada pela “comunidade internacional” porque os planos de Obama para se apoderar da Ucrânia e expulsar a Rússia de suas bases no Mar Negro deram com os burros n’água. A Criméia tem sido parte da Rússia por mais tempo que a existência dos Estados Unidos. Khrushchev, um ucraniano, anexou a Criméia à República Socialista da Ucrânia em 1954 quando Rússia e Ucrânia faziam parte do mesmo país.  

Quando o governo ucraniano, fantoche de e imposto por Washington declarou que estava por abolir o uso da língua russa e mandaria prender ucranianos que tivessem dupla cidadania Ucraniana/Russa, e ao mesmo tempo começou a derrubar memoriais de guerra russos que foram consagrados à libertação da Ucrânia dos nazistas alemães, o povo da Criméia usou a câmara de votação e a urna para primeiro, se dissociar da Ucrânia declarando a própria independência e em seguida, para reunificar-se à pátria mãe.

Washington, assim como outros países do G-7, que seguem caninamente as ordens de Washington descreveram este ato de autodeterminação, que em nada se difere do ato de autodeterminação declarado pelas colônias britânicas na América, como se fosse um caso de “invasão e anexação pela Rússia”. Outros esforços semelhantes de separação de Kiev estão em curso em diversos territórios que hoje compreendem o leste e o sul da Ucrânia.  Washington tem equiparado o esforço de autodeterminação no leste ucraniano a “terrorismo” e encorajou seus fantoches em Kiev a usar violência militar contra manifestantes civis. A razão de chamar os manifestantes de “terroristas” é dar o OK para matá-los.

É muito esquisito para qualquer pessoa descobrir que o presidente dos Estados Unidos e os líderes dos estados da Europa ocidental declaram publicamente mentiras tão descaradas sobre o mundo. Há historiadores no mundo. O mundo tem pessoas esclarecidas com conhecimentos bem maiores que excedem de muito a mídia convencional também conhecida como Ministério da Propaganda Política, ou, como Geraldo Celente a chama, “a presstituta”. Seja lá como a chamamos, a mídia ocidental é uma coleção de putas bem pagas. Eles mentem por dinheiro, por convites para jantares festivos, e convites para grandes contratos com bons honorários para escrever livros com enormes adiantamentos.

Eu sei. Eles tentaram me recrutar.

Observe a forma restrita pela qual Washington define a “comunidade mundial”. A “comunidade mundial” consiste no G-7 o Grupo dos Sete. É isto. Sete países formam a chamada “comunidade mundial”, a qual, na visão de Washington, é composta de seis países e do fantoche de Washington, o Japão. A “comunidade mundial” é feita dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Alemanha, França, Itália e Japão. Todos os outros 190 paises não fazem parte da “comunidade mundial” de Washington. Pela doutrina neocon, sequer fazem parte da humanidade.

Toda a “comunidade mundial” não possui a população de apenas um dos países dela excluídos. Você pode escolher entre China e Índia. Não fiz os cálculos, mas provavelmente a massa terrestre da Rússia ultrapassa o total da massa terrestre da “comunidade mundial”.

Então, que diabos é essa “comunidade mundial”?

O conjunto dos países vassalos dos Estados Unidos forma a “comunidade mundial”. Alemanha, Inglaterra e França foram importantes no cenário do século 20. Suas histórias são objeto de estudos nas universidades. O padrão de vida de sua população é decente, embora não para todos. Seu passado é a razão de sua importância atual. Com efeito, estes países foram impulsionados pela história, ou pelo menos, pela história se tornaram importantes para o ocidente. O Japão, atualmente mero apêndice de Washington anela se tornar “ocidental”. É impressionante como pode um povo orgulhoso e guerreiro anular-se até o nada.

Bom. Como finalmente parei de gargalhar com a presumida desimportância da Rússia na derrota de Hitler, podemos retornar para a reunião do G-7. Desta vez o Grande Acontecimento da reunião foi a exclusão da Rússia, encolhendo o G-8 para tornar-se o G-7. 

É a primeira vez em 17 anos que a Rússia não tem permissão para participar da reunião do grupo do qual faz parte. Por quê?

A Rússia está sendo punida. Está sendo isolada dos sete países que o Idiota da Casa Branca houve por bem dizer que constituem a “comunidade mundial”.

Obama está bravo porque seu Conselho de Segurança Nacional e os idiotas que nomeou para o Departamento de Estado e para a ONU não têm educação ou conhecimentos suficientes para saber que a maior parte da Ucrânia consiste de antigas províncias russas habitadas por russos. Os imbecis ignorantes que Obama nomeou acharam que poderiam tomar a Criméia, expulsar a Rússia, tirando seu acesso ao Mediterrâneo, o que a tornaria incapaz de manter sua base naval em Tartur, na Síria, facilitando a invasão da Síria por Washington.

Tamerlão, o Grande
A Criméia tem sido parte da Rússia desde que a Rússia finalizou a reconquista dos tártaros. Eu me recordo da etnia Tártara ou Tartarlar, quando de minha visita a Timur, ao túmulo de Tamerlão o Grande, em  Samarkande (cidade do Uzbequistão. O nome quer dizer “cidade de pedra” – NT) há 53 anos. A cidade de Tamerlane atualmente foi convertida em um centro turístico. 53 anos atrás em vi um lugar desolado e em ruínas, com árvores crescendo por cima do topo dos minaretes.

Com o fracasso do plano de Obama de tomar a Ucrânia falhou, como se tornou comum em outros planos seus, os porta vozes de Washington para interesses privados resolveram aproveitar a oportunidade para demonizar Putin e a Rússia e restaurar a Guerra Fria. Obama e seus fantoches, ou vassalos, do Grupo dos 7, usaram a ocasião para ameaçar a Rússia com sanções reais, já que as sanções de fancaria da atual propaganda política não surtiram efeito. De acordo com Obama e seu cachorrinho de colo Cameron, Putin deve, sabe-se lá porque, evitar que a população russa da Ucrânia oriental proteste contra a subserviência a um governo neofacista em Kiev, apoiado por Washington e outros.

Supostamente Putin deveria abraçar fraternamente o oligarca, antigo ministro do governo derrubado pelo golpe patrocinado por Washington e colocado no cargo por falsos votos nos quais a participação da população votante da Ucrânia não passou de pequeno percentual do total. Putin deveria ainda beijar o oligarca corrupto nas duas faces, pagar as contas de gás natural da Ucrânia e esquecer todos os seus débitos. Adicionalmente, a Rússia em tese deveria repudiar o povo da Criméia, rever sua adição à Federação russa e entregá-los aos assassinos do Pravy Sektor (Setor da Direita – partido ucraniano neonazista – [NT]) para que sejam eliminados como vingança pela vitória russa contra a Alemanha nazista, pela qual muitos ucranianos ocidentais lutaram. Em troca de tudo isso, a OTAN e Washington colocarão muitas bases de mísseis nas fronteiras russas como forma de proteger a Europa de mísseis balísticos intercontinentais iranianos que não existem.

Deveria ser então um jogo de ganha-ganha para a Rússia...

O regime de Obama, usando suas muito bem pagas ONGs acabou por derrubar um governo democraticamente eleito, um governo que não era mais corrupto que qualquer outro da Europa ocidental, oriental ou que Washington.

Na Inglaterra, França, Alemanha e Itália, os idiotas que as comandam estão sacudindo seus punhos fechados na direção da Rússia, ameaçando com mais sanções, desta vez reais. Será que esses dementes realmente querem que seu próprio fornecimento de energia seja cortado? Não há perspectiva, apesar da propaganda política enganosa, de que Washington possa suprir a energia de que a indústria alemã depende, ou a da qual dependem os europeus para não congelar no próximo inverno.

Eventuais sanções contra a Rússia destruirão a Europa e terão pouco ou nenhum efeito sobre a Rússia. Esta já se movimenta, juntamente com China e o restante dos BRICS, para fora do mecanismo de pagamento em dólares.

Na realidade o que o Bobo da Casa Branca, o neoconizado Conselho de Segurança Nacional, a mídia presstituta e o Congresso estão a fazer é apoiar e dar suporte às suas políticas com base apenas na presunção e na arrogância, o que está levando os Estados Unidos para o abismo.

Um abismo assim é como um buraco negro. Você não consegue sair dele.

As mentiras de Washington são tão claramente flagrantes e transparentes que Washington está destruindo a própria credibilidade. Considere por exemplo o caso da espionagem levada a efeito pela NSA. Documentos revelados por Snowden e Greenwald tornam bem claro que Washington não apenas espionou líderes governamentais e o povo comum mas também empresas estrangeiras com o fito de privilegiar interesses comerciais e financeiros dos Estados Unidos. Nunca foi colocado em dúvida que os EUA roubam segredos comerciais chineses. Washington não apenas nega que os documentos apresentados provem alguma coisa, como posa de vítima e acusa cinco generais chineses de espionar empresas norte americanas.

Estas acusações descabidas e sensacionalistas têm apenas uma finalidade: propaganda política manipulada. De qualquer outra forma que se olhe, as acusações são totalmente sem sentido, se não simplesmente falsas. Claro que a China nem pensa em entregar cinco de seus generais para gáudio dos mentirosos em Washington, mas é uma oportunidade de ouro para a mídia presstituta desviar os holofotes da NSA e assestá-los na China, que vem a calhar para substituir a NSA como vilã.

Por que o Brasil, a China, a Alemanha e outros países espionados não emitem mandados de prisão contra os altos oficiais da NSA, contra Obama e contra os membros do Comitê de Fiscalização do Congresso? Por que permitem que os Estados Unidos sempre ataquem primeiro com sua propaganda manipulada para controlar as explicações?

O povo dos Estados Unidos é muito suscetível à manipulação política dos fatos. Parecem mesmo gostar disso. Pense no ódio instigado até agora contra o sargento Bowe Bergdhal, um soldado dos EUA recentemente libertado pelo Talibã em uma troca de prisioneiros. A comemoração que se realizaria em sua cidade natal festejando a sua libertação foi cancelada por causa da sede de sangue desencadeada pelo ódio com o qual a mídia presstituta atacou Bergdhal. A engenharia do ódio erguida pela mídia contra Bergdhal tem feito acontecer uma enxurrada de ameaças contra a cidade de Hailey, Idaho.

Mas afinal de contas, em que se baseiam os ataques contra Bergdhal? Aparentemente, a resposta é que Bergdhal, como a estrela do futebol americano Pat Tillman, que recusou um contrato de 3,6 milhões de dólares para se unir aos rangers do exército e entrar em combate pela liberdade no Afgeganistão, adquiriu um monte de dúvidas sobre a guerra. Originalmente, a morte de Pat Tillman foi atribuída a uma ação heróica e ao fogo inimigo. Depois, verificou-se que Tillman foi abatido por “fogo amigo”. Muitas pessoas concluíram que ele foi abatido porque o governo não precisa de um herói esportivo falando mal da guerra. Como agora Bergdhal está fora do alcance da batalha e do fogo amigo, ele tem que ser abatido pela imprensa, exatamente como a Rússia, China, Irã, Putin, Assad, o povo da Criméia e a população de língua russa na Ucrânia.


Nenhuma única virtude moral tem sido cultivada nos EUA, mas o cultivo do ódio e o ódio vão bem, obrigado.


Paul Craig Roberts - nascido em 03 de abril de 1939 é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da ReaganomicsEx-editor e colunista do Wall Street JournalBusiness Week e Scripps Howard News ServiceTestemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

Tradução: mberublue