segunda-feira, 2 de junho de 2014

O que significa(ria)
o excepcionalismo sem o excepcional?

 

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu.

O governo de Obama quer conseguir seu “pivô para a Ásia” – é o plano dele para reagir ao crescimento da China –, sem usar força militar. Não vai funcionar. Países locais, que os EUA querem usar como ‘procuradores’, temem que, sem ameaça crível de que os EUA darão cobertura militar aos respectivos rabos deles, com as bombas atômicas norte-americanas, não haverá limite ao que a China pode fazer e fará para proteger o próprio quarteirão. Estão cobertos de razão.

Por isso os EUA viram-se metidos em confusão braba na recente conferência de segurança em Cingapura:

“Mas, uma vez que o secretário de Defesa Chuck Hagel visitou aquela cidade-estado para uma conferência de segurança com todas as partes interessada na 6ª-feira, a tão falada política para a Ásia pareceu estar virando, isso sim, briga de rua, com os EUA tendo, ao mesmo tempo, de ter lado e 
 de fazer-se de juiz”.[1]

Mas por que, afinal, o que acontece no Pacífico, para lá do Havaí, seria assunto dos EUA? O que leva os EUA a intervir é nada além do tal “excepcionalismo” – a fissura por dominação global e o desejo por governar o mundo.

O recente discurso de Obama na Academia de West Point[2] foi saudado por Pat Lang como um chega-p’rá-lá contra neoconservadores e neoliberais, e um passo de volta à racionalidade na política exterior:

“A decisão sábia embora tardia do presidente, de não atacar forças armadas sírias; sua firme procura por solução negociada com o Irã, contra a pressão dos sionistas; sua relutância em meter o país nas profundas da crise ucraniana; e sua insistência em perseverar na retirada do Afeganistão, tudo isso aponta para uma volta ao tipo de política externa racionalista que os EUA seguiram depois da 2ª Guerra Mundial, até que a histeria da vida pós-11/9 varreu para longe qualquer consideração mais atenta de riscos e benefícios que comandava a política dos EUA.
 

O discurso político do presidente Obama em West Point anuncia o fim, em Washington, da política dominada pelo jacobinismo imperialista.”[3]

É passo nessa direção, mas não vai suficientemente longe. Esperto, em termos retóricos, é possível até que o discurso tenha dado um passo para afastar-se do uso financeiramente ruinoso de forças militares em larga escala, mas, apesar de restringir o uso de força militar, lá estava, no discurso, a velha conversa estúpida sobre o “excepcionalismo” e o desejo de “comandar”:

“Acredito no excepcionalismo dos EUA com cada fibra do meu ser. Mas o que nos torna excepcionais não é nossa capacidade para burlar as normas internacionais e o estado de direito; é nossa disposição para afirmá-los mediante nossas ações. [Aplausos]

(E por quê, diabos, alguém aplaudiria tais e tamanhamente óbvias mentiras?) Há uns cinco anos, Obama tinha visão bem diferente desses ‘temas’:

“Acredito no excepcionalismo dos EUA, como desconfio que os britânicos creiam no excepcionalismo britânico, e os gregos creiam no excepcionalismo grego.”[4]

Proclamar algum próprio extraordinário excepcionalismo, como Obama vive a fazer, sem o ânimo para usar meios excepcionais para resolver os problemas, não vai funcionar, por três razões. É pouco provável que corte o impulso para novas guerras; o mais provável é que gere mais danos, sem gerar qualquer efeito positivo; e levará os aliados a darem as costas ao autoproclamado excepcional.  Muito melhor seria não falar nem pensar, e esquecer totalmente as duas coisas: tanto o excepcionalismo quanto o uso de força militar. 

Não é bom sinal que Obama esteja outra vez a falar do excepcionalismo dos EUA como algo especialíssimo. Como observa Billmon:

“Se alguém crê que os EUA sejam “excepcionais”, seria natural crer que teriam o direito e o dever de comandar.
 

-
Se alguém assume que os EUA teriam o direito e o dever de comandar o mundo, pode-se logicamente concluir que se opor à liderança dos EUA seria moralmente errado...
 

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... e que os “valores” norte-americanos (definidos não importa como nem onde) seriam valores universais que o mundo pode(ria) e deve(ria) abraçar.
 

-
Daí em diante, nem é preciso grande salto para assumir que os valores norte-americanos podem e devem ser exportados – e, se necessário, impostos à bala.”[5]


E isso, diz Billmon, criará resistência natural e, portanto, novos inimigos e novas guerras. Se os EUA afastam-se do uso da força, é preciso que também se afastem dessa declaração irracional de um próprio “excepcionalismo”. O discurso de Obama é pura contradição, porque não faz nada disso.

Como Chinahand destaca, há outro problema com esse excepcionalismo contraditório de Obama. Até quando rejeita o uso direto de força militar, nem por isso passa a oferecer discurso de pacificação e continua a provocar danos tremendos, sem garantir qualquer resultado razoável:

Infelizmente, o lado B [orig.
 the flip side] da doutrina Obama [usar força militar só como último recurso] é que os EUA permanecem comprometidos com uma postura de promover o contraterrorismo e com uma ‘liderança’ norte-americana, i.e. declaram a capacidade para modelar eventos do outro lado do mundo, mesmo sem usar poder militar. 

Mesmo quando evitam usar o poder militar, há muitos meios pelos quais os EUA podem paralisar um adversário que lhes interesse paralisar. Há sanções econômicas; há guerra financeira, econômica e comercial que se faz pelo sistema da banqueiragem internacional; há a subversão, mediante a Internet, apoio a partidos dissidentes e grupos insurrecionais; e há guerras por procuração. Há o Comando Conjunto das Operações Especiais [orig.
 Joint Special Operations Command, JSOC]. E, claro, há os drones. 

...

Em outras palavras,
 os EUA reservam-se o direito de cruelmente e contraproducentemente F*DER qualquer país, servindo-se para isso de qualquer meio exceto o envolvimento físico direto das forças armadas norte-americanas. 


E isso significa muitas, muitas Sírias a mais. 


...

Pergunta: De um ponto de vista ético, será política melhor, mais humana, destripar lentamente um país, usando procuradores que simplesmente mandam seus soldados para brutalizar os locais com rapidez e eficiência e o façam com boa chance de contar com supervisão internacional?


Se se considera a Síria, acho que a resposta é não. Nada disso é ou jamais será eticamente recomendável.


Em termos práticos, temo que a Doutrina Obama não decolará como questão de geopolítica realista.


Ao retirar da mesa a possibilidade de ação militar dos EUA no caso de objetivos de baixa prioridade, afasta-se também todo o caráter de contenção da máquina militar dos EUA.”[6]


É verdade, afasta-se sim. E é bom, mesmo, que se afaste. Não há qualquer necessidade de os EUA conterem a China nos negócios chineses locais, a menos que algum doido ‘invoque’ o tal ridículo papel ‘excepcional’ dos EUA. Os EUA não só devem não usar em larga em escala o poder militar: devem também parar de declarar que teriam algum papel especial no mundo.

Há um terceiro problema com essa conversa de ser ‘excepcional’, se o autoproclamado excepcional deixa de usar força militar excepcional. Outros países em coalizão, ainda que inclinados a trabalhar em harmonia com os EUA, não gostam de ser mandados para lá e para cá, como se fossem criancinhas. Se os EUA não querem usar sua força militar excepcional, que interesse esperam que algum dos aliados dos EUA venha a ter por deixar-se liderar pelos EUA?!

É bem pouco provável que o desejo de mandar em tudo e todos, sem o desejo de usar os meios para mandar, venha a gerar mais desejo de obedecer e trabalhar como subordinados, entre os aliados de qualquer coalizão com os EUA.

Se os EUA não querem expor-se aos riscos físicos de mandar e fazer-se obedecer, como reagirão os japoneses, os sul-coreanos e os vietnameses, agora que já são apareceram chamados de “crianças”, DUAS VEZES,[7] em matéria de primeira página do New York Times?

“Funcionários do governo Obama alertaram privadamente seus contrapartes japoneses a pensar muito cuidadosamente antes de agir, e a evitar qualquer ação que encurrale a China.
 


“Como
 crianças correndo no pátio da escola, estão correndo com tesouras na mão” – disse Vikram J. Singh, que até fevereiro foi vice-secretário assistente da Defesa para o Sul e Sudeste Asiático e, hoje, é vice-presidente para segurança nacional do Center for American Progress. 


...

Hagel e o maior contingente militar à mão [...] passaram horas falando de delegação em delegação, para assegurar que em nenhuma circunstância aqueles contingentes seriam enviados a agir.


“Bons professores sabem que o melhor é conseguir que
 as crianças comportem-se bem desde o começo, em vez de ter de viver a apartar brigas” – disse Andrew L. Oros, professor associado de ciência política do Washington College em Chestertown, Md., e especialista em Leste da Ásia.


As “crianças” já entenderam que os EUA não têm interesse algum em provocar a China. Todas aceitaram ser lideradas pelos EUA, desde que a ‘liderança’ viesse acompanhada de suprema força. Sem a suprema força, esses países não mais aceitarão fazer o papel de “as crianças” nos jogos de poder dos EUA. Pequenos e desunidos demais para, sozinhos, conterem a China, todos terão naturalmente de acomodar-se ao crescimento da China e ao nascimento do século eurasiano.[8]

Seria bom para o mundo se os EUA finalmente encontrassem meio para voltar a alguma política externa realista, que se abstivesse de ameaças militaristas e de usar a força. Mas enquanto o excepcionalismo é cultuado como doutrina, as contradições inerentes entre a declaração de excepcionalismo e a nenhuma disposição para usar a força (financeiramente ruinosa), a alardeada ‘excepcionalidade’ continuará a rasgar ao meio a política de que Obama fala. Para dar passo efetivo de volta ao realismo, é preciso esquecer as duas coisas: a força militar e a fantasia de excepcionalidade. *****


[8] 18/5/2014, Pepe Escobar: “Nasce o século eurasiano − Rússia e China fazem o Oleogasodutostão”, Tom Dispatch, trad. em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/05/pepe-escobar-nasce-o-seculo-eurasiano.html