domingo, 22 de junho de 2014

Ardei, Homens de Preto, ardei



Vamos logo ao que interessa. Como a coleção primavera-verão Zara, completa, com rifles de assalto último tipo, tênis de passeio Nike branquinhos novinhos em folha e Toyotas-zero-quilômetro com o tanque cheio, cruzando o deserto sírio-iraquiano: os BBJB, Bad-Boys Jihadistasin Black.
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Era uma vez (faz pouco tempo!), o governo dos EUA só ajudava “terroristas do bem” (na Síria), em vez de “terroristas do mal”. Era eco de outro tempo (menos recente) quando os EUA só apoiavam “Talibã do bem”, não “Talibã do mal”.

Mas, então... O que aconteceu, se até os ditos ‘especialistas’ da Brookings Institution já cacarejaram que o Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL) é, sim, o pior grupo jihadista do planeta (afinal, foram expulsos da al-Qaeda)? Será que são tão péssimos que, nos termos da lógica pervertida do duplifalar, já estariam alcançando a neonormalidade?!

Desde o ano passado, segundo o duplifalar do governo dos EUA, “terroristas do bem” na Síria são a gangue da Frente al-Nusra, descendente da al-Qaeda; o príncipe (tombado em desgraça) Bandar bin Sultan, codinome Bandar-Bush; e a Frente Islâmica, subgrupo, de fato, da Frente al-Nusra de várias frentes. Mas ambos, a Frente e o ISIS juraram lealdade a Ayman "o Doutor" al-Zawahiri,capo perene da al-Qaeda e duro-de-matar.

Tudo isso nos deixa o problema de saber o que os BBJB – Bad-Boys Jihadistas in Black do ISIS, soldados degoladores e astros de passarela & foto, reunião (ou amontoado) de sunitas tribais de linha duríssima e “remanescentes” (lembram-se de Rumsfeld em 2003?) do partido Ba’ath – realmente querem.

Interrompemos esse desfile pela passarela do deserto, para anunciar que eles NÃO invadirão Bagdá. Mas, sim: estão ocupadíssimos acelerando a balcanização – e eventual partilha de ambos os estados, Síria e Iraque. Não são criação da CIA (como é que Langley nunca pensou nisso?!); são, de fato, filhos bastardos do cartão de (infindável) crédito do (caído em desgraça) Bandar Bush.

O fato de que o ISIS NÃO esteja diretamente na folha de pagamento da CIA-Langley não implica que a estratégica do ISIS seja essencialmente diferente da agenda do Império do Caos. O governo Obama pode até estar enviando alguns poucos marines para proteger as piscinas da maior embaixada do universo, do tamanho do Vaticano, e mais uns poucos “conselheiros militares” para “retreinarem” o Exército (em dissolução) do Iraque. Mas são uma gota de Coca-Zero no deserto ocidental iraquiano. Não há sinal de que Obama esteja a ponto de autorizar “apoio cinético” contra o ISIS, apesar de Bagdá já ter autorizado.

Ainda se Obama pirar-total e/ou inventar uma nova lista de itens humanos a serem pulverizados por seus drones (“ação militar focada”), sempre será pouca coisa & diversionismo. O que interessa é que as agendas do ISIS e da Av.Beltway continuam idênticas: livrar-se do primeiro-ministro do Iraque al-Maliki (não por acaso o novo bicho-papão nas páginas da imprensa-empresa nos EUA); pôr fim à influência político/econômica do Irã sobre o Iraque; apagar, de cabo a rabo, o Acordo Sykes-Picot; e estimular mais “dores do parto” (lembram-se de Condoleezza?) em vastas áreas onde sunitas tribais linha duríssima já atropelaram o poder central e governam.

Para o Império do Caos, o ISIS é o agente provocador que lhes caiu do céu (presente de Alá?): perfeito instrumento fantasiado com balaclava para manter em ritmo de Operação Liberdade Duradoura, para sempre, a Guerra Global ao Terror.

A cereja do bolo (azedo) é que a casa de Saud negou oficialmente que esteja apoiando o ISIS.
[1]Parece ser verdade, já passando por cima da carcaça de Bandar Bush. Pista para entender a narrativa oficial da Casa de Saud e Casa de Thani sobre o ISIS: não têm nada a ver com o que está acontecendo no Iraque. Tudo lá é organizado pelos “remanescentes” do partido ba'athista. 
Evêm-aí, isso sim, é mais golpe de mudação de regime...
O ângulo mais amplo, que tudo abarca, é o do Irã, porque todo o drama, inteiro, é sobre “conter” o Irã. 

Basta você conseguir ler o Washington Post,[2] para ter certeza: é a mesma regurgitação ‘jornalística’ de sempre sobre “provas” de que “o Irã e seus aliados sírios” muito “cooperaram” com o ISIS, e de que Bashar al-Assad da Síria mantém uma “parceria comercial” com o ISIS. E não esqueçam o quanto eles precisam de mais guerra, guerra, guerra: há aí à frente um “Irã nuclear” em luta contra um “mundo árabe sunita”; e o grande coringa continua a ser a al-Qaeda. 

Quanto à propaganda neoconservadora de ‘denúncia’ de que o governo dos EUA estaria na cama com Teerã contra o ISIS... esqueçam: mais uma vez, é puro jornalismo para desinformar. 

O general Mohammad Reza Naqudi, comandante dos Guardas Revolucionários do Irã, aproximou-se muito da verdade, quando disse que “grupos takfiri e salafistas em vários estados regionais, especialmente na Síria e no Iraque, são apoiados pelos EUA”; e que “os EUA estão manipulando os terroristas takfiri para comprometer a imagem do Islã e dos muçulmanos”. E foi o que disse também o presidente do Parlamento (Majlis) Ali Larijani: “É perfeitamente óbvio que os norte-americanos e demais países aqui à nossa volta são responsáveis pelo que hoje se vê no Iraque. (...) O terrorismo converteu-se em ferramenta que as grandes potências usam para promover seus objetivos.” 

O que realmente interessa ver em tudo isso é que Teerã identificou o desfile do ISIS em sua passarela do deserto, pelo que ele de fato é: uma armadilha.

Além do mais, o Irã também está convencido de que Washington não romperá com seus vassalos na Casa de Saud. Tradução: Washington permanece comprometida com a velha-guarda da Guerra Global ao Terror. 

Na prática, isso sim, Teerã já está apoiando – e também com “conselheiros” em campo – uma miríade de milícias xiitas que estão sendo deslocadas para proteger Bagdá e, especialmente, as cidades sagradas dos xiitas, Najaf e Karbala. 

Os EUA, entrementes, na volta dos neoconservadores mortos-vivos, insistem na vomitação do tema preferido deles: Maliki Maliki Maliki. Nada do que se passa hoje no Iraque tem qualquer coisa a ver com a Operação Choque e Pavor, nem com a invasão, nem com a ocupação, nem com a destruição do país praticamente todo; nem tem nada a ver com Abu Ghraib; nem com a guerra sectária que se vê hoje, absoluta e completamente incitada por Washington (Dividir para Governar, tudo outra vez). Nada disso. A culpa é de Maliki. Então... Maliki tem de ser posto para fora de lá!

Quando tudo fracassa – ao custo de trilhões de dólares – o manual dos neoconservadores manda resetar e voltar ao modelão-padrão: mudação de regime.

Aos trancos, por um sunistão linha duríssima
Tudo é oculto e impalpável sobre o líder do ISIS Abu Bakr al-Baghdadi, também conhecido como Abu Dua, nascido em Samarra em 1971, “remanescente” de Saddam mas – e mais importante – ex-prisioneiro de uma prisão do governo dos EUA em Camp Bocca, de 2005 a 2009, além de ex-líder da al-Qaeda-no-Iraque. Não é segredo no Levante que os Homens de Preto do ISIS foram treinados em 2012 por instrutores norte-americanos numa base secreta em Safawi, no deserto ao norte daquela ficção disfarçado de país, a Jordânia, para que, adiante, pudessem lutar fantasiados como ‘rebeldes’ aprovados pelo ocidente, na Síria. 

Foi al-Baghdadi quem mandou um grupo de Homens de Preto para montar a Frente al-Nusra (“terroristas do bem”, lembram-se?) na Síria. É provável que tenha rompido com a Frente no final de 2013, mas continuou a mandar sobre vasta porção de deserto, do norte da Síria ao oeste do Iraque. É o novo Osama bin Laden (a bênção que nunca para de cair dos céus, sempre e sempre), Emir mais do que com certeza de um califato islamicamente correto no coração do Levante. 

Esqueçam Osama no Hindu Kush; a coisa agora é muito mais sexy

Um sunistão linha duríssima entre o norte curdo do Iraque e o sul xiita, nadando em petróleo, que se estende de Aleppo, Rakka e Deir ez-Zor na Síria, entre os dois rios – Tigre e Eufrates – com Mosul como capital, devolvida ao papel ancestral de eixo de transmissão entre os rios gêmeos e o Mar Mediterrâneo. Sykes-Picot comerá o próprio pé, de raiva. 

Obviamente, al-Baghdadi jamais conseguiria montar sozinho esse festim fantástico. É onde entra seu auxiliar “remanescente” de Saddam e teórico do partido Ba'ath, o extraordinário Izzaat Ibrahim al-Douri, filho precisamente da estratégica Mosul. E, principalmente, sobretudo e todos, entra também o Conselho Geral Militar dos Revolucionários do Iraque – espantosa organização “secreta” que tem as gingas dos infernais Lionel Messi e Luiz Suarez somadas e está driblando todo o aparelho de inteligência ocidental, inclusive a Panopticon-orwelliana Agência de Segurança Nacional dos EUA.[3] 

Bem... Não chega a ser tudo isso, assim, completamente, porque a coalizão das vontades do ISIS e ba'athistas foi negociada por ninguém menos que Bandar Bush – quando ainda estava na ativa e com a contribuição crucial de um passe da lateral que lhe veio do primeiro-ministro Ergodan, da Turquia. Não há aí nem jamais alguém conseguirá encontrar aí ‘a mão’ de Washington, porque, aí, a Av. Beltway não piou. 

O que o Conselho Geral Militar dos Revolucionários do Iraque conseguiu reunir é nada menos que todos os “remanescentes” da boa velha resistência iraquiana do início dos anos 2000s, os principais xeiques tribais, misturou-a com o ISIS, e  criou o que bem se pode chamar de um “Exército da Resistência” – aqueles, os BBJBBad-Boys Jihadistas in Black & suas pick-upsToyotas branquinhas, feitos da matéria da qual hoje se escrevem as lendas, pois conseguiram obrar o milagre de não serem detectados pela rede de satélites da Agência de Segurança dos EUA. Os rapazes da máscara preta e tênis branco & fuzil & Toyotas-zero estão tão, tão, tão na moda, que têm até página “no Face” com 33 mil "curti”.[4] 

Balkanização ou morte

Enquanto isso, a agenda do Império do Caso continua sem se alterar. A balcanização já é fato. O ministro de Relações Estrangeiras do Iraque, Hoshyar Zebari (que é curdo), pediu a “cooperação” da guerrilha curda (Peshmerga) ao exército iraquiano, para manter Kirkuk, rica em petróleo, bem longe do ISIS. Operando com precisão de relógio, os Peshmergas anexaram Kirkuk, para todas as finalidades práticas. O Grande Curdistão já nos acena de perto. 

O Grande Aiatolá Sistani, também para todas as finalidades práticas, lançou uma jihad sunita contra o ISIS. Por seu lado, o líder do Conselho Islâmico Supremo do Iraque, Sayyid Ammar al-Hakim, praticamente ressuscitou aquele formidável corpo de paramilitares, o Badr – muito próximo do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã. São corpos militares contra os quais o ISISnão tem a mínima chance. E Muqtada al-Sadr está lançando suas “Brigadas da Paz”, para proteger as cidades santas xiitas e também igrejas cristãs. Reina a guerra civil. 

Enquanto isso, na Terra de Oz, o Pentágono com certeza conseguirá obter fundos extras para sua cruzada perene que visa a salvar a civilização ocidental contra o terror islamista. Afinal, um neo-Obama bin Laden (em balaclava) espreita no mato. 

Embora a maioria dos iraquianos rejeitem a balcanização, os sunitas continuam a acusar os xiitas de trabalharem a favor dos iranianos, e os xiitas continuam a acusar os sunitas de serem uma 5ª Coluna a favor da Casa de Saud. O ISIS continuará a receber montanhas de dinheiro de ricos “doadores” sauditas. O governo dos EUA continuará a armar os sunitas contra os xiitas na Síria e (provavelmente) manterá seus “ataques militares focados” a favor dos xiitas e contra sunitas no Iraque. E foi assim que “Dividir para Governar” enlouqueceu completamente. 


Notas

[3] Ver também, na mesma linha dessa reflexão: 21/6/20014, “O fiasco ISIS/ISIL: na realidade, um ataque ao Irã”, Mike Whitney, Counterpunch, trad. Mberublue, em  http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014_06_01_archive.html [NTs].