sexta-feira, 20 de junho de 2014

Desta vez não é uma conspiração da CIA?


O fiasco ISIS: na realidade, um ataque ao Irã.



por Mike Whitney

al-Maliki
Há alguma coisa que soa em falso em relação à cobertura da crise no Iraque. Talvez a forma pela qual a mídia a retrata, a mesma tediosa história repetidamente contada, com apenas pequenas alterações na narrativa. Por exemplo, eu li um artigo no Financial Times escrito pelo presidente do Conselho de Relações Exteriores, Richad Haass, onde ele diz que as forças militares de Maliki em Mosul “desapareceram”. Curiosamente, o editorial de Hass foi seguido por um artigo de David Gardener, que usou quase a mesma linguagem. Ele disse que “o exército desapareceu”. Daí decidi folhear os jornais um pouco e descobri que muitos outros jornalistas foram picados pelo inseto “desaparecido”. Notei que aconteceu também com vários outros veículos, incluindo Politico, NBC News, News Sentinel, Global Post, the National Interest, ABC News etc. Agora, a única maneira pela qual uma expressão não comumente usada como essa aparece com tal frequência, é se os diversos autores estivessem buscando suas palavras copiando uma autoridade central (como provavelmente o fizeram). Claro que o efeito foi o contrário do que se pretendia, isto é, estas histórias fabricadas de antemão deixam os leitores a coçar a cabeça e sentindo que alguma coisa suspeita está acontecendo.

Claramente, alguma coisa suspeita ESTÁ acontecendo. Não dá para acreditar em toda essa fábula de que 1.500 jihadistas assustaram 30.000 guardas de segurança iraquianos fazendo-os tirar as calças, jogar seus rifles fora, trocar de roupas e correr para as montanhas. Não sei o que realmente aconteceu em Mosul, mas eu digo a vocês: não foi isso. A história toda está cheirando mal.

Tudo o que aconteceu em Mosul cheira mal e então quase todos os jornalistas e peritos do MSM estão usando a história para desacreditar Maliki e sugerindo que talvez o Iraque esteja melhor sem ele. Haass já disse que isso mostra que toda a “lealdade do exército ao governo é só fachada”. Gardener falou que o fato sinaliza “uma rápida falência do estado”. Outro editorial de Nicolas Kristof ataca Maliki por outras razões, como sendo muito sectário.

Aqui, Kristof: “a decadência do Iraque não é uma falha do presidente Obama. Não é uma falha republicana. Eles têm alguma responsabilidade, mas, esmagadoramente maior é a falha do primeiro ministro do Iraque, Nouri Kamal al-Maliki.”

  Claro que Kristof não se compara ao porta voz imperial, Tom Friedman. Quando se trata de fanfarronices idiotas, Friedman ainda é o número um. Ele é o “jornalista especialista” que pode resumir tudo em apenas um artigo no jornal Sunday Times, intitulado “Five principles for Iraq” (Cinco princípios para o Iraque – NT): “O próprio primeiro ministro xiita do Iraque, Nuri Kalam al-Maliki, demonstrou que não gostaria de ver um Iraque democrático ou pluralista. Desde o dia 1, ele tem usado seu gabinete para instalar xiitas em postos chaves da segurança, desprezando políticos e generais sunitas e direcionando dinheiro para as comunidades xiitas. Em uma palavra, Maliki se mostrou um completo imbecil. Para além do cargo de primeiro ministro, Maliki também ocupa o Ministério da Defesa, do Interior, e de conselheiro da Segurança Nacional, colocando também seus comparsas no controle do Banco Central e do Ministério das Finanças. Maliki tinha como escolher: fazer um governo sectário ou inclusivo. Ele escolheu o sectarismo. Nada lhe devemos. (“Cinco princípios para o Iraque – Tom Friedman, New York Times).

Friedman matou no peito, hein? Falando em outras palavras, a razão pela qual o Iraque se tornou uma bandalheira geral, nada tem a ver com a invasão, a ocupação, os esquadrões da morte, com Abu Ghraib, a opção Salvador, a infraestrutura destruída, o ambiente poluído até as raízes, ou a guerra viciosa e sectária iniciada pelos Estados Unidos através de seu programa maluco de contrainsurgência. Não, não. A razão de ter o Iraque se transformado em lixo é o fato de que Maliki é sectário. Maliki malvado! Soa familiar?

Foi Putin na semana passada. É Maliki nesta semana. Quem será o próximo?

De qualquer forma, existe uma razão para tudo o que aconteceu em Mosul, mesmo que eu não possa verificar a autenticidade. Verifique este post no blog Syria Perspectives:

“... Teórico de primeira hora do partido Ba’ath e braço direito de Saddam Hussein, ‘Izzaat Ibraaheemn al-Douri, nativo de Mosul ... procurou aliados em um Iraque pós Saddam muito hostil ... ainda no jogo e procurado para ser executado pelo governo de al-Maliki, al-Douri ainda controla uma vasta rede de sunitas iraquianos do partido Ba’ath que operam de maneira similar à velha Organização Odessa que ajudou a fuga de nazistas depois da Segunda Guerra Mundial ... ele ainda não tem uma estrutura de apoio necessária para hostilizar e derrubar al-Maliki, então ele fundou uma aliança esdrúxula no ISIS através dos gabinetes de Erdoghan e Bandar. Nossos leitores podem perceber que a invasão de Mosul foi realizada por antigos oficiais iraquianos ba’atistas, suspeitos de abandonar seus postos, largando para trás uma força militar de 52.000 homens sem qualquer liderança, forçando dessa maneira um completo colapso das defesas da cidade. Não é possível considerar como coincidência o planejamento da ação e a colaboração prestada.” (O núcleo do ISIS – uma espécie invasiva – Ziad Fadel, Syrian Perspectives).

Tenho lido variações da mesma explicação em outros blogs, mas não tenho como saber se isso corresponde à verdade ou não. Mas o que sei é que esta explicação é muito mais crível que a outra, porque traz profundidade e detalhes mais que suficientes, tornando o cenário bem plausível. A versão oficial – o “desaparecimento” – não tem nada disso. Ela apenas coloca uma versão fantasiosa na expectativa de que o povo acabe por acreditar, nem que seja na base da fé. Por quê? Só em razão de ter aparecido nos jornais? Pois esta é uma razão muito boa para não acreditar em nada.

militantes do ISIS
A lenda do “exército desaparecendo” é apenas mais uma das muitas versões inconsistentes na apresentação que a mídia faz de qualquer evento. Outra charada é a razão pela qual Obama assiste aos jihadistas bagunçarem o Iraque inteiro sem que ele mova uma palha para contê-los. Será mesmo que ninguém acha isso um tanto quanto estranho? Quando foi que um presidente em exercício nos Estados Unidos deixou de responder imediata e duramente a agressão similar?

Nunca. Os Estados Unidos sempre respondem. O padrão nunca muda. “Pare o que você está fazendo agora mesmo, ou vamos bombardeá-lo até que só restem pedacinhos.” Não é essa a resposta típica?

Claro que é. Mas até agora Obama não fez nenhuma ameaça. No lugar disso, ele condicionou seu apoio a al-Maliki ao dizer que o presidente encurralado precisa “começar a acomodar os sunitas através de participação em seu governo” antes que os Estados Unidos possam “dar uma mãozinha”. Que diabos de resposta claudicante é essa? Confira esta nota da MNI News:

O presidente Barak Obama alertou nesta sexta feira ao primeiro ministro iraquiano Nouri al-Maliki que os Estados Unidos precisam que ele comece a efetivar a participação sunita em seu governo, ou verão os Estados Unidos parar a ajuda que ele necessita, algumas tropas dos EUA no terreno para prevenir contra um ataque a Bagdá.

Obama enfatizou, em uma aparição ante as câmaras antes de sua mensagem do meio dia, que, embora esteja considerando as opções para uma intervenção militar nos próximos dias, o movimento inicial deve ser de Maliki. (Obama adverte o Iraque de Maliki, procurando a acomodação de sunitas – MNI)

Alguma vez na vida você já leu absurdo igual? Imagine se, vamos dizer, as hordas jihadistas reunam-se a apenas 50 milhas de Londres e estejam ameaçando invadir a qualquer momento a cidade. Será que Obama dirigiria ao primeiro ministro David Cameron a mesma mensagem?

“Ora, Dave... gostaria mesmo de ajudar vocês, mas antes disso, vocês têm que colocar alguns desses terroristas em seu governo. Tudo bem, Dave? É apenas para mostrar alguma ação afirmativa com os terroristas.”

Parece (e é) uma insanidade, uma loucura, mas é isto que Obama quer que Maliki faça. Então, que se passa? Por que, em vez de ajudar, Obama fica fazendo ultimatos? Talvez a agenda de Obama seja diferente da de Maliki, e os acontecimentos que estão em curso atualmente lhe beneficiem...

É o que parece, com certeza. Basta olhar o que Friedman diz logo em seguida no mesmo artigo. Ajuda a esclarecer algumas coisas. Disse ele:

Qassem Suleimani
“Pode ser que o Irã, assim como seu astuto comandante da Guarda Revolucionária Força Quds, General Qassem Suleimani, não seja tão esperto, afinal. Foi o Irã que armou seus aliados xiitas com bombas de formato especial que mataram e feriram tantos soldados americanos. O Irã nos quer fora. Também foi o Irã a pressionar Maliki para que não assinasse um tratado com os Estados Unidos que daria às nossas tropas cobertura legal para permanecer no Iraque. O objetivo do Irã era a hegemonia regional. Bem, Suleimani: “A confusão é sua.” Agora suas forças estão dispersas na Síria, Líbano e Iraque, enquanto as nossas estão voltando para casa. Tenha um bom dia.” (Cinco princípios para o Iraque, Tom Friedman, New York Times)

É interessante, não é? Basicamente, Friedman admite finalmente que todo esse fiasco é sobre o Irã, que se tornou o grande vencedor no jogo da guerra do Iraque. Naturalmente, isso irrita profundamente o pessoal em Washington, Tel Aviv e Riad. Como a irritação não tem fim, cozeram este plano pateta para remover Maliki totalmente ou pelo menos cortar rente suas asas. Não é o que está acontecendo? É por isso que Obama aponta uma arma para a cabeça de Maliki e lhe diz que tem que comer um saco de sal antes de ser ajudado pelos Estados Unidos.  Porque ele está decidido a enfraquecer a força hegemônica do Irã em Bagdá.

Friedman também aponta que o acordo do Estado das Forças poderia permitir que as tropas americanas permanecessem no Iraque. Como al-Maliki rejeitou o acordo, Washington se enfureceu e preparou o picadeiro para esta última farsa. Por bem ou por mal, Obama quer porque quer reverter essa decisão. É apenas a forma pela qual Washington toca seus negócios, torcendo braços e quebrando pernas. O mundo inteiro sabe disso.

Para entender o que acontece hoje em dia no Iraque, temos que aprender um pouco de história. Em 2002, a administração Bush encarregou a Rand Corporation “de desenvolver e dar forma a uma estratégia de pacificação de populações muçulmanas nos locais onde os Estados Unidos têm interesses comerciais ou estratégicos.” O plano desenvolvido se chamou “Estratégia dos Estados Unidos para o mundo muçulmano depois de 9/11” – o qual recomendava que os EUA, “alinhem sua política aos grupos xiitas que pretendem mais participação nos governos e mais liberdade política e expressão religiosa. Se esse alinhamento puder ser edificado com sucesso, irá erguer uma barreira contra movimentos radicais islâmicos e construir a fundação de uma posição estável dos Estados Unidos no Oriente Médio.”

Os Bushies decidiram seguir esse plano maluco que provou ser um erro tático monumental. Ao lançar todo o poder de sua força no apoio aos xiitas, eles dispararam uma rebelião sunita massiva que iniciou cerca de 100 ataques por dia contra soldados dos Estados Unidos. Por sua vez, estes ataques levaram os EUA a uma contrainsurgência selvagem que levou à morte dezenas de milhares de sunitas e reduziu o país a ruínas. Os ataques cruéis de Petraeus se ocultavam por trás da cortina de fumaça de uma enganosa política de Relações Públicas em uma guerra civil sectária. Foi uma guerra genocida contra o mesmo povo que agora Obama tacitamente apoia em Mosul e Tikrit.

Neste caso, houve uma grande mudança da política, certo? O fato de que os EUA têm uma abordagem de ficar longe do ISIS parece sugerir que a administração Obama acabou por abandonar a estratégia Rand completamente e neste instante, procura maneiras de apoiar os grupos sunitas em seu esforço para derrubar o regime de Assad em Damasco, enfraquecer o Hizbollah e diminuir o poder do Irã na região. Apesar de ser estratégia ao mesmo tempo implacável e desprezível, ao menos faz algum sentido, na lógica perversa da expansão imperial, o que o plano Rand nunca fez.

O que está acontecendo atualmente no Iraque foi antecipado por Seymour Hersh em 2007, no seu artigo “The Redirection.” (O redirecionamento) O autor Tony Cartalucci,  em seu próprio artigo, faz uma ótima resenha desta peça. Diz ele:

“O redirecionamento” “documentos ... dos Estados Unidos, Arábia Saudita e Israel, na intenção de criar e posicionar extremistas sectários em toda a região para confrontar o Irã, a Síria e o Hizbollah no Líbano. Hersh aponta que estes “extremistas sectários” ou eram a Al Qaeda ou eram vinculados à Al Qaeda. O exército ISIS que se move para Bagdá é o resultado final desse conspiração, um exército que se move e opera com impunidade total, ameaçando derrubar o governo sírio, purgar as forças pro Irã no Iraque e também ameaçando o próprio Irã através de criação de pontes que mantenham a salvo tanto a OTAN quanto a Al Qaeda em paraísos na Turquia, no Norte do Iraque e até as próprias fronteiras iraquianas... Isso é de fato uma reinvasão do Iraque para atender a interesses ocidentais – mas desta vez sem a participação direta das forças ocidentais – e sim com uma força ocidental por procuração, da qual o ocidente procura desesperadamente negar qualquer conhecimento ou conexão.” (America’s Covert Re-Invasion of Iraq, Tony Cartalucci, Information Clearinghouse)

Devagar vamos chegando ao fundo da questão, certo? Agora talvez já sejamos capazes de identificar a política que guia todos esses eventos. O que sabemos com certeza é que os Estados Unidos precisam quebrar a força iraniana no Iraque. Mas a pergunta é: como eles planejam conseguir isso?

Bem. Eles poderiam se utilizar de seus velhos amigos, os ba’athistas com os quais têm estado em contato desde 2007. Pode até dar certo. Em seguida, para que a mistura tenha credibilidade, terão que adicionar alguns jihadistas.

Bem. Mas significam estes fatos que Obama está apoiando ativamente ao ISIS?

Não. Não necessariamente. Outras agências de inteligência já têm conexão com o ISIS, que podem não precisar de apoio direto dos EUA. (Nota: muitos analistas dizem que o Estado Islâmico do Iraque e al-Sham [Islamic State of Iraq and al-Shan – ISIS] recebem generosas doações da Arábia Saudita e Qatar, ambos convictos aliados dos Estados Unidos). De acordo com o London’s Daily Express: “por meio de aliados como a Arábia Saudita e o Qatar, o ocidente (tem) apoiado vários grupos rebeldes que então, se transformaram no ISIS e outras milícias ligadas à Al Qaeda (Daily Teleghraph, 12/06/2014).

O que importa, no que concerne a Obama, é que os objetivos estratégicos do ISIS coincidem com os dos Estados Unidos. Ambos querem maior representação política para os sunitas, ambos querem minimizar a influência política do Irã no Iraque e ambos apóiam um plano suave de divisão que o antigo presidente do Conselho de Relações Exteriores, Leslie H. Gelb, chamou de “a única estratégia viável para corrigir o erro histórico (do Iraque) em movimento para a criação de três estados, o que solucionaria a situação: curdos no norte, sunitas no centro e xiitas no sul.” Este é o motivo pelo qual Obama não atacou ainda a milícia, mesmo que tenham marchado até a 50 quilômetros de Bagdá. Ocorre que os EUA se beneficiam com o desenvolvimento da situação até agora.

Vamos resumir:

Dependendo da situação, o governo dos Estados Unidos, “apóia” ou “não apóia” o terrorismo?
Sim.

As agências de inteligência fornecem armas e apoio logístico às organizações terroristas na Síria?
Sim.

A CIA também?
Sim.

O governo Obama deu sinais de que gostaria de ou se livrar de Maliki ou diminuir de muito o seu poder?
Sim.

Acontece assim porque a atual disposição fortalece a influência regional do Irã?
Sim.

O ISIS acabará por invadir Bagdá?
Não. (Trata-se apenas de mero palpite, mas espero que alguma coisa já tenha sido tratada entre a equipe de Obama e os líderes do partido Ba’ath. Caso Bagdá realmente estivesse em perigo, provavelmente Obama agiria de forma diferente, com maior seriedade.)

A Síria e o Iraque serão fracionados?
Sim.

O ISIS é uma criação da CIA?
Não. De acordo com Ziad Fadel, "ISIS é criação de um homem que sozinho jogou com a Al-Qaeda como um iô-iô. Bandar bin Sultan."

É possível que o ISIS receba ordens de Washington?
Provavelmente não, mesmo levando-se em conta que suas ações parecem coincidir com objetivos estratégicos dos EUA. (Este é o ponto!)

A relutância de Obama quanto a lançar um ataque contra o ISIS indicam que ele pretende enfraquecer o poder do Irã no Iraque, redesenhar o mapa do Oriente Médio e fazer nascer Novas regiões politicamente irrelevantes dominadas por senhores da guerra e líderes tribais?
Sim, sim e sim.


MIKE WHITNEY é um escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por um reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, um massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle editionRecebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com.


Tradução: mberublue