segunda-feira, 23 de junho de 2014

Khamenei fala sobre o Iraque: "EUA são responsáveis pela crise no Iraque". "EUA criaram ISIL" [22/6/2014, MK Bhadrakumar e falas traduzidas]



Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu.


@castorphoto - @btpsilveira – Coletivo de Tradutores Vila Vudu
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Khamenei fala sobre o Iraque


MK Bhadrakumar


O supremo líder do Irã, aiatolá Ali Khamenei, quebrou no domingo o seu silêncio sobre os desenvolvimentos no Iraque. A Agência Fars de Notícias (agência semioficial) noticiou que Khamenei formulou quatro pontos principais:

a) “As potências ocidentais hegemônicas, especialmente os EUA,” são responsáveis pela crise no Iraque.

b) Os EUA instigaram a crise para tentar inverter os resultados das recentes eleições parlamentares no Iraque, e “dominar o Iraque e impor no poder governantes que obedeçam aos EUA.”

c) Sobre o que dizem funcionários dos EUA que tentam apresentar o conflito no Iraque como guerra sectária, o Aiatolá disse: “O que aconteceu no Iraque não é guerra entre xiitas e sunitas, e os principais elementos por trás das sedições no Iraque são hostis aos crentes sunitas e aos que creem na independência do Iraque, tanto quanto são hostis aos xiitas.”


d) Teerã opõe-se a intervenção estrangeira no Iraque [vide íntegra da fala de Khamenei, traduzida, na nota, ao final (NTs)].
[i]

timing dessa fala é importante.
Khamenei falou dois dias depois de o presidente Barack Obama dos EUA ter ordenado o envio de um contingente de 300 conselheiros militares para Bagdá. Evidentemente, Teerã fez análise de amplo espectro da situação do Iraque e entendeu que Washington está operando para tentar fazer ‘mudança de regime’ em Bagdá, derrubando o primeiro-ministro Nouri Al-Maliki.

Teerã chegou à conclusão de que, sim, há mão norte-americana diretamente por trás do que está sendo apresentado ao mundo como levante de um grupo Estado Islâmico do Iraque e Levante [ISIL], mas envolve elementos que pertencem ao velho “Despertar” [orig. ‘Awakening’], que os serviços de espionagem dos EUA criaram durante o período da ocupação.

Interessante, também, que o comandante dos Basij iranianos (força paramilitar criada pelo Imã Khomeini, ligada ao Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos e que se reporta diretamente ao Supremo Líder), general Mohammad Reza Naqdi (assessor muito próximo de Khamenei e experimentado oficial de inteligência) tenha divulgado hoje em Teerã a surpreendente descoberta de que a inteligência dos EUA “atraiu e traiu” alguns comandantes ex-Ba’athistas do exército iraquiano em Mosul, em movimento que os arrastou para posição em que foram derrotados.

A fala de Khamenei aparece hoje, como um choque de realidade. Implica reconhecer, definitivamente, que nenhum tipo de diálogo significativo entre Washington e Teerã é possível agora, porque o Irã absolutamente não confia nas intenções dos norte-americanos no Iraque.

Teerã está em total e efetiva oposição, contra o jogo dos EUA para derrubar Maliki, cujo grupo emergiu como o maior dentre os eleitos nas recentes eleições parlamentares, obtendo 98 das 328 cadeiras com direito a voto no Parlamento do Iraque.

Bem claramente, Khamenei jogou água fria na conversa dos ‘especialistas’ e ‘jornalistas’ norte-americanos, de que haveria ali, ao alcance da mão, virando a esquina, a possibilidade de uma aliança EUA-Irã, sobre o Iraque.

Teerã também entendeu que pode haver esforço conjunto por trás do levante aparente do ISIL no norte do Iraque, e esforço que pode estar envolvendo os EUA e seus aliados do Golfo. Não há dúvidas de que o Irã deu a devida consideração ao fato de que o secretário de estado dos EUA John Kerry deu rápida passada pelo Cairo hoje,
[1] de repente, sem mais nem menos, imediatamente depois da extraordinária viagem também ao Cairo, que fez o rei Abdullah da Arábia Saudita,[2] declaradamente para dar os parabéns a Abdel Fattah al-Sisi recém eleito. (O rei Abdullah, homem de saúde muito frágil, jamais viaja.) 
De fato, em comentário à parte, no domingo, o presidente do Conselho de Providências do Irã e ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani repetiu que o “golpe” [orig. the “plot”] no Iraque foi “urdido pelo ocidente, especialmente pelos EUA” e que “mãos ocultas” de “certos países regionais e de fora” apoiam o ISIL[ii] [vide íntegra da fala de Rafsanjani, traduzida, na nota, ao final (NTs)].








NOTAS E TEXTOS CITADOS TRADUZIDOS
[i] “Supremo Líder Culpa o Ocidente por Crise no Iraque
e Opõe-se a Intervenção Estrangeira” – 
22/6/2014, Agência Fars, Teerã
http://english.farsnews.com/print.aspx?nn=13930401001024

Teerã (FNA) – O supremo líder da Revolução Islâmica aiatolá Seyed Ali Khamenei responsabilizou os EUA e outras potências ocidentais pela crise pela qual está passando o Iraque, e manifestou sua oposição a qualquer intervenção externa naquele país muçulmano.

“Na questão do Iraque, as potências ocidentais hegemônicas, especialmente os EUA, buscam aproveitar-se da ignorância e do viés nas posições de vários elementos sem poder para decidir” – disse o aiatolá Khamenei em encontro com o chefe do Judiciário, Sadeq Amoli Larijani, e outros altos funcionários do Judiciário iraniano, em Teerã, nesse domingo.

O Supremo Líder destacou que os inimigos visam a privar a nação iraquiana de tudo que conseguiu realizar depois que as forças dos EUA retiraram-se do país; a mais importante dessas realizações foi construir um sistema democrático.

“Os EUA não gostaram do resultado das eleições, com alto comparecimento de eleitores e o povo escolhendo os próprios governantes, porque os EUA querem dominar o Iraque e pôr no poder gente que obedeça aos EUA.”

O Aiatolá Khamenei referiu-se ao que disseram funcionários dos EUA que tentam apresentar o conflito no Iraque como guerra sectária, e disse: “O que aconteceu no Iraque não é guerra entre xiitas e sunitas, e os principais elementos por trás das sedições no Iraque são hostis aos crentes sunitas e aos que creem na independência do Iraque, tanto quanto são hostis aos xiitas.”

Disse que o Irã opõe-se a intervenção estrangeira no Iraque: “Acreditamos que o governo e a nação iraquiana e a liderança religiosa do país são capazes de pôr fim à sedição e, se Deus quiser, conseguirão fazê-lo.”

Depois dos recentes ataques terroristas levados a efeito pelo Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL) muitos oficiais iranianos culparam as potências ocidentais, especificamente os EUA, pela crise no Iraque.

Em comentários importantes no sábado, o comandante da Força Basij [voluntários] do Irã, general-brigadeiro Mohammad Reza Naqdi destacou que a recente crise no Iraque foi resultado da colaboração de grupos terroristas com membros do Partido Ba’ath e operações de espionagem dos EUA.

“Os norte-americanos revelaram seus golpes depois do fracasso dos grupos seus preferidos nas eleições parlamentares no Iraque, e entraram em cena para ‘maquiar’ o fracasso deles próprios, naquelas eleições” – disse Naqdi em Teerã.

Disse que o norte do Iraque foi rendido por grupos terroristas, depois que vários comandantes do exército do Iraque foram traídos pelos EUA e enviaram unidades para que se unissem ao ISIL.

Naqdi disse que enganar os comandantes iraquianos, alguns dos quais foram forças do antigo Partido Ba’ath, teria sido impossível sem a atividade e a coordenação das agências de espionagem.

“As ações recentes dos norte-americanos no Iraque não são campanha de guerrilha; eles lá só conduziram operações de espionagem.”

Disse que o objetivo da crise criada pelo ISIL, por ex-Ba’athistas e pela agência de espiões dos EUA no Iraque é semear a discórdia entre muçulmanos xiitas e sunitas iraquianos.

Mais cedo, Naqdi havia dito que os recentes ataques pelos terroristas do ISIL no Iraque são novo golpe pelos EUA, para criar discórdia entre o povo iraquiano.

“A cena que eles criaram no Iraque é o resultado das tentativas dos EUA, por trás das cortinas, para semear discórdia, e com certeza os norte-americanos são o principal agente por trás daqueles eventos” – disse na cidade de Ramsar, no norte do Iraque, na 4ª-feira.

Disse também que os EUA e seus aliados dão tal importância ao petróleo do Iraque que fariam qualquer coisa que possam para proteger seus interesses nesse campo.

No início do mês, o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã [ing. SNSC] Ali Shamkhani, em encontro com o primeiro-ministro do Governo Regional do Curdistão Iraquiano (KRG) Nechirvan Barzani, também responsabilizara estados ocidentais e regionais pela atual crise no Iraque.

“A atual crise no Iraque é resultado da intromissão e da colaboração de inimigos da nação iraquiana, que tentam impedir que o desejo e a determinação do povo iraquiano ganhem expressão política e convertam-se em ações” – disse  Shamkhani, em reunião em Teerã.

Conclamou os curdos, xiitas e sunitas iraquianos a unirem-se e defender o país, de modo a que seja possível restaurar a paz, a tranquilidade e a segurança, afastando o perigo do terrorismo que se espalha pela região. *****


[ii] “Rafsanjani diz que Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL) é golpe urdido pelo ocidente, especialmente pelos EUA”
22/6/2014, Agência Fars, http://english.farsnews.com/newstext.aspx?nn=13930401000586

Teerã (FNA) – O presidente do Conselho de Providências do Irã Akbar Hashemi Rafsanjani disse que Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL) é golpe urdido pelo ocidente, especialmente pelos EUA.

“Os atos de terrorismo do ISIL agridem toda a região” – disse  Hashemi Rafsanjani.

Repetiu que mãos ocultas – países regionais e outros – criaram e estão apoiando os terroristas do ISIL, e que geraram situação muito complicada na região.

Disse, de recentes desenvolvimentos no Iraque, que “Os movimentos e atos do grupo terrorista no Iraque são muito graves e exigem estudo profundo e detalhado, e vigilância.”

Em importantes comentários distribuídos no sábado, um alto funcionário do Legislativo iraniano criticou pesadamente o presidente Barack Obama dos EUA, por imiscuir-se nos assuntos internos do Iraque e ‘ordenar’ ao primeiro-ministro Nouri al-Maliki que desistisse de retomar o cargo, no futuro governo.

“O Iraque é país democrático, houve eleições recentemente para o Parlamento, e o futuro governo será formado conforme a escolha popular. Assim sendo, nenhum país e nenhuma pessoa tem direito de imiscuir-se em assuntos internos do Iraque” – disse à Agência de Notícias Fars o deputado e presidente da Comissão de Segurança Nacional e Assuntos Externos do Parlamento, Kazzem Jalali.

Disse também que os EUA, que estão financiando e apoiando os grupos terroristas, criaram a atual situação no Iraque, tentam fugir da própria responsabilidade e, agora, tentam jogar a culpa sobre outros.

Jalali manifestou profunda lástima, agora que a política de “duas caras” dos EUA em matéria de terrorismo já gerou os crimes e cenas criminosas a que o mundo está assistindo na Síria e no Iraque. *****

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Postado por Roberto Pires Silveira
Via Redecastorphoto. - @castorphoto – @btpsilveira – Coletivo de Tradutores Vila Vudu