quarta-feira, 4 de junho de 2014

Guerra psicológica nos mercados financeiros: o acordo sino-russo do gás.

 
por Madhi Darius Nazemroaya
GlobalResearch, 01 de junho de 2014.
Tradução - mberublue



Já havia negociações há tempos para um acordo de gás natural entre a Rússia e a China. Por que a gritaria quando finalmente aconteceu?
Quanto aos acontecimentos mundiais, é prudente que a pessoa olhe para além das manchetes. Muitos destes acontecimentos são, de forma sensacionalista, grosseira e tacanha, desarticuladas e mal interpretadas por uma espécie de novilíngua, combinadas a uma visão estreita. O anúncio de um mega acordo energético que representa cerca de 36.8 bilhões de metros cúbicos (1.3 trilhões de pés cúbicos) de gás natural fechado entre a Federação Russa e a República Popular da China em 21 de maio é apenas mais um exemplo disso.


Apesar de não se tratar nem sinalizar nada de novo em termos políticos ou econômicos, nem significar um estreitamento dos laços entre os dois países, o acordo atingido por Moscou e Pequim está sendo visto dessa maneira.

De qualquer maneira, de uma ou de outra forma, as notícias destacam e distorcem a natureza do acordo energético sino-russo e a grande maioria delas enfatiza este acontecimento em particular apenas nos seus termos puramente políticos. Na realidade, com perdão do trocadilho, este acordo já está no gasoduto há algum tempo e tanto Pequim quanto Moscou tem falado e estão em negociação sobre algum tipo de acordo de exportação/importação de gás natural há dez anos. Qualquer um que estivesse seguindo essas negociações (realmente importantes) saberia disso e identificaria no ato a forma sensacionalista, distorcida e desarticulada com que se relata atualmente o acordo do gás.

Especialistas e meios de comunicação hostis a Moscou estão apresentando o acordo como um sinal de que a Rússia tem planos de apertar os parafusos sobre o fluxo de energia que manda para a União Europeia. Usam então esta suposição para argumentar por uma diversificação urgente das fontes de energia da União Europeia, encorajando seus líderes a reduzir seus laços econômicos com a Rússia e promover o começo de uma “revolução do gás de xisto” a ser promovida pelos Estados Unidos com a exploração das reservas de gás natural e petróleo através do processo de fracionamento hidráulico.

Por outro lado, especialistas e meios de comunicação que claramente apóiam a Moscou retratam o acordo do gás entre a Gazprom e a Corporação Nacional de Petróleo da China (China National Petroleum Corporation – CNPC) como uma movimentação do Kremlin para minimizar as perdas econômicas e direcionar seus negócios para o leste a partir de quando foi confrontado com sanções econômicas e desrespeito diplomático pelo ocidente em relação à Ucrânia e a península da Criméia.


Reclassificar uma tendência existente.

Sem dúvida, o acordo sino-russo de gás indubitavelmente não marca o começo de uma política de “olhar para o oriente” ou de “desdolarização”. A precipitação da crise ucraniana também não causou uma aliança estratégica entre a Rússia e a China que germinou como consequência da crise. Qualquer coisa que tentar mostrar o contrário não passa de sensacionalismo projetado pelas fontes midiáticas e especialistas desinformados que fazem vista grossa sobre fatos reais que acontecem entre Rússia e China. Em vez disso, há por parte desses veículos de mídia e especialistas ou um déficit de compreensão abrangente dos fatos que estão moldando o mundo, relatados e analisados por eles, ou eles tentam uma malversação que enquadre tais fatos a uma conveniência aos seus atuais interesses políticos.

De qualquer maneira, nada há de novo em tudo isso.

Primeiro, não há novidades no acordo firmado entre a Gazprom e a CNPC. Segundo, desde quando os Estados Unidos e a OTAN atacaram a República Federal da Iugoslávia em 1999 que a Rússia e a China se tornaram parceiros na estratégia de se opor aos sonhos dos EUA por um mundo unipolar.

O acordo do gás em si mesmo é parte de uma tendência e um processo que já se desenvolvem há vários anos.  Na realidade há uma década, a Federação Russa intentou aumentar seu comércio com a Ásia. Quanto à desdolarização, há muito tempo os governos da China e da Rússia anunciaram sua decisão de tentar essa via, negociando com suas moedas locais em vez do dólar. Em 2007, os governos de China e Rússia iniciaram a programação para a criação de um grupo de trabalho que visava a desdolarização do comércio bilateral através de um acordo formal. Em 2008, quando Vladimir Putin exercia o cargo de primeiro ministro russo, ele e seu homólogo chinês, o então primeiro ministro Wen Jiabao, estavam envolvidos neste processo. Acordos semelhantes existem entre Moscou e Pequim e seus outros parceiros da Eurásia.

O acordo do gás natural anunciado em Xangai foi elaborado em conjunto por tecnocratas dos dois países. É o resultado de um trabalho de anos de negociações insistentes – e não um acordo que surgiu de repente no espaço de poucos meses de trabalho. Também não se trata o acordo sino-russo de uma iniciativa da Rússia como esforço para fugir das sanções econômicas que são feitas a toda hora por Washington e seus parceiros.

De uma forma ou de outra, o negócio que atualmente é avaliado em US$ 400 bilhões seria fechado e assinado, independentemente das tensões entre Moscou e Washington sobre a crise que arde na Ucrânia.

Por causa das sanções econômicas contra a Federação Russa, a revelação da finalização do acordo, feita na última semana durante a cúpula reunida na Conferência sobre Interação e Medidas de Confiança na Ásia em Xangai teve destaque político e foi politicamente encenada, enfatizando cuidadosamente as ramificações trazidas pelo anúncio do acordo.

Mesmo sendo verdade que o negócio foi destacadamente tecnocrático, há forte possibilidade de que o preço de compra do gás tenha sofrido alteração por parte dos russos em relação ao que pediam anteriormente aos chineses, o que teria feito ambos os lados acelerarem o processo de fechamento do acordo, daí sim baseados em considerações políticas. Falando de outra forma, a guerra econômica desencadeada contra a Federação Russa pode sim ter apressado o fechamento do acordo com a introdução de variáveis ou objetivos políticos para o que até então era apenas uma questão tecnocrática para ambos os países.



O acordo do gás e a guerra psicológica.

A frase que importa neste instante é: confiança dos investidores. O que marcará definitivamente o acordo do gás é o fato de que a China e a Rússia têm de volta a arma da confiança dos investidores na guerra do mercado. Em larga medida, o anúncio do acordo fechado em Xangai é uma resposta da Rússia e da China aos Estados Unidos e seus aliados que estão estrategicamente tentando minar a confiança dos investidores na economia russa.

Em seu depoimento de 08 de maio ao Comitê de Política Externa da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos da América, Victoria Nuland, secretária assistente do Estado para assuntos da Europa e da Eurásia, afirmou o que segue, de uma declaração adrede preparada:

“A economia russa já está se curvando à pressão das sanções internacionais que lhe foram impostas. Sua classificação de crédito paira um pouco acima do status “junk” (lixo). 51 bilhões de dólares de capital externo saíram da Rússia desde o início deste ano e aproximadamente 61 bilhões de dólares durante o ano de 2013. Os títulos russos têm o rendimento negociado mais alto de toda a Europa, mais que a dívida de qualquer outro país. Com a queda do rublo, o Banco Central teve que elevar as taxas de juros por duas vezes e gastou cerca de 30 bilhões de dólares americanos de suas reservas desde o início do mês de março apenas para estabilizá-lo.”

Embora Nuland não tenha dito de forma clara que o povo russo era o alvo das sanções e dos danos colaterais destas, acabou por ficar muito claro entre os ouvintes que o alvo das sanções sempre foi na realidade o povo russo. O deputado Albio Sires, durante a palestra e algo candidamente, deixou bem claro que o povo russo “tem que sentir” as sanções, e mais: pediu provas para a administração Obama de que o povo estava sofrendo na pele o castigo das sanções econômicas que os Estados Unidos lhes impunham. Sires foi tranqüilizado por representantes do Departamento de Estado e do Tesouro dos EUA, que declararam que o povo russo “começará a sentir” a punição das sanções econômicas com o estrago no comércio entre a Rússia e a União Europeia, com a alta desenfreada do custo dos empréstimos e com a inflação se expandindo.

Glaser
As palavras de Nuland encontraram eco em Daniel Glaser, secretário assistente para terrorismo financeiro (grifo nosso [NT]) no Departamento do Tesouro, na mesma audiência no Capitólio. Deixaram ambos bem claro que o governo dos Estados Unidos estão trabalhando para impor custos econômicos severos aos russos que devem crescer como uma bola de neve. Glaser deixou bem claro porém, que é preciso tempo para que os danos infligidos à economia russa pelos EUA tenham reflexos políticos. A intenção é que a criação de uma recessão econômica na Rússia possa tornar o povo russo tão miserável que eles mesmos exigirão que o Kremlin se renda às imposições dos Estados Unidos.

Eis o depoimento de Glaser:
“As sanções, e a incerteza que certamente trarão ao mercado, terão impacto direta e indiretamente na já combalida economia russa. Com o aumento das sanções, não só os custos aumentarão como também a possibilidade da Rússia mitigar seus efeitos diminuirá. Os analistas de mercado já estão prevendo saídas pesadas e contínuas de capital estrangeiro e local, e um enfraquecimento das perspectivas de crescimento para este ano. O FMI reviu para baixo as expectativas de crescimento da Rússia para 0,2% este ano, sugerindo que não está fora de questão o surgimento de uma recessão.”

Ele também fez as seguintes observações:

  • ü  Desde o início de 2014, o mercado de ações da Federação Russa caiu cerca de 13%.
  • ü  Pesadas saídas de capital começaram a prejudicar a economia russa, o que teve como resultado a degradação da classificação do crédito soberano da Rússia pela Standard and Poors para BBB-, apenas um nível acima do que a S & P chama de “status de lixo” (junk status).

  • ü  Investidores em títulos russos exigem agora mais retorno, já que o investimento na Rússia envolve riscos maiores.

  • ü  O Banco Central da Rússia gastou quase 50 bilhões de dólares americanos, ou 10% de toda a sua reserva em moeda estrangeira para defender sua moeda (e seu valor) ante o ataque financeiro desfechado por Washington.

  • ü  Apesar da substancial intervenção do Banco Central Russo no mercado, a um aumento nas taxas de juros, a moeda nacional russa depreciou-se cerca de 8% desde o início de 2014.


O que Glaser parece ter “esquecido” de dizer é que a classificação supostamente má de BBB- à qual foi reduzida a economia russa pela S & P, é a mesma classificação dessa agência para outros dois parceiros dos russos no BRICS, que sejam a Índia e o Brasil, os quais não parecem estar tremendo de medo ou em pânico por causa disso. Também esqueceu que as análises feitas pela S & P, como a economia, não estão livres de manipulação por interesses políticos. A própria ênfase na classificação como sendo “um nível apenas acima do status de lixo” não passa de teatro deliberadamente destinado a causar alarme e medo.

O método de Washington contra a Rússia, claramente envolve estratégias para insuflar incertezas no mercado com a intenção de desestabilizar a Rússia ou, como Nuland colocou, “criar condições no mercado que tornem a Rússia cada vez mais vulnerável a ataques financeiros.” A guerra psicológica para minar a confiança na economia da Federação Russa usando manipulação financeira foi lançada e a oportunidade temporal do anúncio do acordo sino-russo do gás está ligada a isso.

um jab
Mesmo que o negócio já estivesse em negociações e independentemente da situação na Ucrânia, e que a Rússia está se voltando para a China como forma de obter apoio econômico contra a guerra financeira que está enfrentando, a revelação extremamente pública do acordo de energia fechado em Xangai foi um contraponto às ações de Washington contra a Rússia. Não apenas a realização finalizada do acordo sino-russo de gás indica que a Rússia tem alternativas econômicas, como o seu anúncio serviu como um “jab” psicológico para contrapor aos ataques financeiros do governo dos Estados Unidos contra a Rússia, destinados a minar a confiança dos investidores na economia russa. Supostamente, o que o acordo faz é tornar segura a confiança na economia russa, ao mostrar que a Rússia terá ganhos elevados pelos próximos 30 anos.

por Madhi Darius Nazemroaya Autor premiado e analista de geopolítica, Madhi Darius Nazemroaya é autor de The Globalization of NATO (Clarity Press) e de um livro a ser em breve lançado sobre a Guerra da Líbia e a recolonização africana. Também contribuiu para muitos outros livros com temas desde a crítica cultural até relações internacionais. É um sociólogo e pesquisador associado do Centro para Pesquisa sobre Globalização (Centre for Research on Globalization - CRG) e contribui com a Strategic Culture Foundation (SCF), Moscou, e membro do Scientific Committee of Geopilitica, Itália.

Tradução: mberublue