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domingo, 15 de novembro de 2015

Acostumados a obedecer em silêncio                


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Manlio Dinucci    REDE VOLTAIRE

Tradução de José Reinaldo Carvalho  Editor do site Vermelho                           


Um comboio de caminhões de contêineres especiais partiu em 26 de outubro da base italiana de Poggio Renatico (Ferrara), onde foi constituído o Centro de deslocamento de comando e controle aéreo da Otan, primeira unidade desse gênero.

Depois de percorrer mais de 2.500 quilômetros através da Áustria, República Checa, Polônia, Lituânia e Letônia, contando também com o apoio militar da Alemanha, chegou à base letã de Lielvārde, na fronteira do território russo, reestruturada justamente para acolher os drones Predator e outros engenhos aéreos militares estadunidenses.

É lá, com equipamentos sofisticados transportados da Itália, que foi ativado o Dars, “ponta de lança” do Centro de deslocamento da Otan de Poggio Renatico. Até 27 novembro, no quadro do exercício militar semestral Ramstein Dust, o Dars efetuará “missões aéreas ao vivo e simuladas no espaço aéreo báltico”, ou seja, exercício de guerra contra a Rússia. Sob as ordens do general italiano Roberto Nordio, comandante do Centro de deslocamento da Otan de Poggio Renatico, ele mesmo sob as ordens do general estadunidense Franck Gorenc que dirige o Comando aéreo da Otan, e este sob as ordens de outro general estadunidense, Philip Breedlove, Comandante supremo aliado na Europa nomeado, tal como seus antecessores, pelo presidente dos Estados Unidos.

Enquanto parte de Poggio Renatico a missão aérea para o Báltico nas proximidades da fronteira com o território russo, a primeira efetuada fora do território italiano, ainda de Poggio Renatico são dirigidas as operações aéreas táticas da manobra militar Trident Juncture 2015, com a participação de mais de 160 caças-bombardeiros, aviões para abastecimento em voo, helicópteros e drones que operam a partir de 15 bases aéreas na Itália, Espanha e Portugal.

A manobra militar Trident Juncture é um exercício de guerra dirigido manifestamente contra a Rússia que – segundo declarou em Trapani Birgi o vice-secretário da Otan, o estadunidense Vershbow, invertendo os fatos – “anexou ilegalmente a Crimeia, apoiando os separatistas na Ucrânia e entrou na guerra da Síria ao lado de Assad”, criando “uma situação potencialmente mais perigosa do que a da guerra fria”. Depois que a União Soviética desapareceu, apresentada na época como potência agressiva cujo objetivo era invadir a Europa ocidental, criaram agora em Washington o novo “inimigo”, a Rússia, pondo em prática na Europa a política de “dividir para reinar”.

E a Otan (que se estendeu a todos os países do antigo Pacto de Varsóvia e a três da antiga União Soviética) se mobiliza em preparativos de guerra que provocam inevitavelmente contramedidas militares do lado russo.


Resultado de imagem para european vassalsA Itália se encontra de novo na primeira linha, com um governo que obedece às ordens de Washington e uma maioria parlamentar que segue o velho ditado (hoje em desuso mesmo entre os Carabineiros) “usi obbedir tacendo” (“obedecer em silêncio”) [1]. A oposição parlamentar (à parte algumas vozes dissonantes) acaba frequentemente fazendo o jogo daqueles que nos estão levando à guerra. Emblemático o recente documento de um partido da oposição, no qual não se menciona a Trident Juncture nem a Otan, mas onde se atribui o dramático retorno da guerra à Europa em primeiro lugar aos sonhos de glória e de hegemonia da Rússia e, em ordem decrescente, da França, Reino Unido, Turquia e também, por último, Estados Unidos. Sem uma palavra sequer sobre as graves responsabilidades do governo italiano que, por trás das falsas declarações tranquilizadoras, contribui para os preparativos de guerra da Otan em direção ao Leste e ao Sul. Ignorando que, por intermédio da Otan e dos pactos secretos estipulados internamente com as oligarquias europeias, Washington influi não somente sobre a política externa e militar, mas sobre as orientações políticas e econômicas da União Europeia.

É impossível pensar numa nova Europa sem se libertar da pressão sufocante da Otan.



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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

MSM e o urso
                     

Michael Jabara Carley         

Postado originalmente em: REDE VOLTAIRE         

Tradução de Marisa Choguill           


O professor Michael Carley examina o tratamento da Rússia e do Presidente Putin pela mídia atlantista. Ele observou o absurdo dos temas principais, nos artigos e em desenhos animados, e questiona a liberdade de imprensa no Ocidente.

Sou professor de história e ensino cursos, entre outros tópicos, sobre a Rússia e a URSS. Eu tento explicar para meus alunos como os russos veem a si e à sua história, e como a Mídia Convencional de Massa ocidental (MCM) [do inglês MainStream Media – MSM) apresenta a Rússia a seus leitores. Claro, a MSM está de olho no Presidente russo, Vladimir V. Putin, mas a Rússia em si também é um alvo

Como isso é possível? Após o colapso da União Soviética, em 1991, a Rússia caiu de joelhos, sua economia destruída pelos russos aspirantes a se tornarem ocidentais, os chamados liberais, aplicando tratamentos de "choque". A ideia era afastar o povo russo rapidamente do socialismo; mas, os liberais só conseguiram arruinar as economias pessoais de russos comuns, que perderam as suas poupanças duas vezes na década de 1990. Não importa, esse é o preço a pagar se você quer ser como nós no ocidente, e a MSM poderia ter avisado. E quem não quer ser como nós?

O Presidente Boris Yeltsin, que chegou ao poder pelo desmembramento da URSS, foi apresentado no Ocidente como um herói. Na verdade, ele era um corrupto alcoólico agindo como o bobo da corte para o presidente Bill Clinton. "Bom e velho Boris", disse Clinton, quando Yeltsin enviou tanques contra a Casa Branca russa em 1993 e manipulou as eleições em 1996 com a ajuda da embaixada dos EUA em Moscou. Você faz o que você tem que fazer, teriam comentado os funcionários do governo americano. Yeltsin manteve seu "poder", enquanto o tinha, mostrando sua gratidão aos EEUU ao se comportar como amigo de Clinton quando ele visitou Washington. Ele foi um excelente material para a MSM; não foi tão bom do ponto de vista de Moscou. Você se lembra do primeiro filme da série Star Wars, quando a princesa Leia foi capturada pelo malvado verme gigante Jabba o Hutt, que a manteve na correia? Yeltsin não era, certamente, a bela princesa Leia, mas a correia era real o suficiente.

Sendo dependente dos Estados Unidos, Yeltsin não obteve nada de Clinton além da sobrevivência pessoal. Enquanto isso, uma aliada soviética de longa data (e aliada ocidental também), a Iugoslávia, era destruída pela OTAN. Você se lembra da OTAN, não é, supostamente organizada para a defesa contra a URSS, mas então dirigida para a agressão em nome de uma falsa "responsabilidade de proteger"? Não houve nenhuma gratidão, eu comentaria de passagem, pelo papel da Sérvia na I Guerra Mundial, e da Iugoslávia durante a II Guerra Mundial, ou pela declaração de independência, do Marechal Josip Broz Tito, de Stalin. Com certeza, a gratidão não é um valor nas relações entre Estados.

O governo dos EUA deve ter estado incerto quanto a ser capaz de manter a Rússia na corrente de Jabba porque deu uma nova tarefa para a OTAN: cercar a Rússia, expandindo-a para o leste, ao contrário do compromisso de não fazê-lo que assumiu com o líder soviético Mikhail Gorbachev, outro animal de estimação da MSM. Era para criar um novo ‘cordão sanitário’, embora ninguém tenha clamado por um.

Finalmente, Yeltsin demitiu-se no final de 1999. Vladimir Putin foi eleito presidente no ano seguinte, e começou a integrar a Rússia, política e economicamente, ao resto da Europa. Apesar dos melhores esforços de Putin com o Presidente dos EUA George W. Bush, as relações russas com o ocidente não deram certo. Como um dos meus alunos descobriu ao fazer uma tese de mestrado sobre a MSM e Putin, o presidente russo caracterizou-se desde o início como um antigo agente da KGB, que pretendia trazer de volta a URSS – a última coisa na mente de Putin. Cartoons retrataram-no com martelos e foices em seus olhos, ou se transformando em Stalin. Outro o mostrava trazendo café da manhã ao mausoléu de Lenin. "Acorda, acorda, Vladimir Ilich", Putin teria dito.

Como pode o Ocidente (leia-se EUA) distorcer a imagem de Putin, e por quê? Em primeiro lugar, Putin não queria ajoelhar-se calmamente aos pés de Jabba o Hutt. Ele começou a reconstruir o poder econômico, político e militar da Rússia. A Europa ocidental raramente se sentiu à vontade com uma Rússia forte. A russofobia ocidental na verdade remonta pelo menos ao início do século XIX. Um líder confiante, independente de espírito, em Moscou, é o último russo que a MSM gostaria de abraçar. Putin é o touro, ou melhor, o urso na loja de porcelana. O homem ocidental com poder tem medo e odeia aqueles "outros" que se afastam de seus papéis de servos.


Putin começou a falar muito francamente sobre agressão quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 com um falso pretexto, e financiaram "revoluções coloridas" na Geórgia e na Ucrânia em 2003-04. Putin também não gostou quando o Presidente Bush saiu do IBM [Mísseis Anti-Balísticos; do inglês Anti-Ballistic Missile] no final de 2001, quando Putin estava tentando fazer amigos.

JPEG - 58.3 kbTemos que nos proteger contra o Irã, disse Bush. Não há nenhuma ameaça do Irã, Putin insistiu, nem nunca houve. Os russos suspeitavam que o Irã era apenas um disfarce para reforçar o cerco à Rússia pela OTAN (leia USA). Há um acordo agora com o Irã sobre questões nucleares; mas, o desenvolvimento e a implantação do IBM continuam em ritmo acelerado. As suspeitas russas quanto aos Estados Unidos parecem justificadas.

Putin também ousou desafiar abertamente a linha principal da ideologia política americana, o excepcionalismo dos EUA. Os Estados Unidos são a nação excepcional, como eles pensam, destinada a impor os seus valores e interesses sobre outros povos e nações, para seu próprio bem, quer queiram, quer não.

Uma coisa se pode dizer sobre a MSM: ela não gosta de contra-narrativa. "Nós somos um império, agora," disse Karl Rove, um dos neocons de Bush Jr., "e, quando agimos, criamos nossa própria realidade." A MSM, ele poderia ter adicionado, serve como o megafone do Império, reforçando as novas "realidades", tal como retratado no livro 1984, de Orwell. O problema era, e ainda é, que essas "realidades" não são realidade para a maioria das outras pessoas que vivem fora dos Estados Unidos e seus Estados vassalos. Quem é que liga para o que eles pensam, Rove de fato comentou; vamos continuar criando novas realidades "e vocês, todos vocês [aí fora], irão apenas estudar o que fazemos."


JPEG - 42.2 kbExaminemos o breve confronto Rússia-Geórgia em 2008. O presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, um fantoche covarde dos EUA, enviou seus soldados à Ossétia do Sul pensando que poderia ocupá-la antes de a Rússia reagir. Ele estava enganado e o exército georgiano foi derrotado. A MSM tratou a crise como um ato de agressão russa. O proverbial urso russo tornou-se a imagem favorita do cartunista americano. Um cartunista retratou o urso roendo um osso chamado Geórgia, encarando um minúsculo Bush Jr., como a dizer você não pode fazer na Geórgia o que fez no Iraque. Outro urso cerra Geórgia entre os dentes prestes a engoli-la. É uma imagem difundida no Ocidente. Os cartunistas dos EEUU parecem querer convencer seus líderes, pelo desenho, à luta de um grande urso russo a latir para o pequeno Bush Jr. Ou para o pequeno Barack Obama. "O que você vai fazer quanto a isso?" pergunta o urso asqueroso.


JPEG - 24.3 kbClaro, o agressor na Ossétia do Sul foi Saakashvili, incentivado por seus capangas dos EUA. Você pode fazê-lo, se você agir rápido o suficiente, parece ter sido a ideia americana. Para ser sincero, nem todos os cartunistas ocidentais entraram na onda dos EUA em relação à Geórgia; mas não demorou muito antes que a maioria deles pulasse para dentro do barco. Se você tiver qualquer dúvida, faça uma pesquisa online.

O ocidente não gostou das críticas de Putin à agressão da OTAN em 2011 contra a Líbia – haveria alguma outra palavra para isso? – e o linchamento de seu líder, Muammar Gaddafi. Em uma cena grotesca, a secretária de Estado Hillary Clinton, como um vampiro sedento, vangloriava-se das imagens de seu cadáver ensanguentado. Putin chamou o ataque da OTAN "ataque aéreo de democracia ". Essa foi uma metáfora gritante da hipocrisia ocidental. Não há nenhuma democracia na antes próspera Líbia; só ruínas, caos e furiosos grupos de violentos jihadistas Salafi [Salafi é uma palavra árabe que significa ‘sunitas seguidores da Salaf islâmica’, isto é, ‘dos ancestrais do Islam’, ‘das primeiras gerações islâmicas’ – nt]. Graças à OTAN, eles chegaram agora à Síria e ao Iraque. A MSM, aliás, critica a Rússia por apoiar a resistência da Síria aos monstros de Frankenstein do Ocidente, frequentemente contratados desde a guerra soviética no Afeganistão até os dias atuais para derrubar governos seculares independentes no Oriente Médio ou na Ásia. Se ao menos os jihadistas tivessem ficado na Síria e não tivessem ido ao Iraque para criar um Estado Islâmico (EI)... Ao enviar unidades da força aérea russa à Síria, Putin expeliu os EEUU e seus vassalos que estavam a apoiar os "moderados" do EI. Não há nenhum jihadistas moderado, claro; eles são uma invenção americana. Putin mostrou o blefe do ocidente, e de fato convidou os Estados Unidos a se voltar contra seus próprios aliados jihadistas. Em Washington, essa não será uma modificação fácil de fazer. Velhos hábitos são difíceis de quebrar.


JPEG - 49.1 kbO evento que realmente desencadeou a fúria da MSM contra Putin e Rússia foi a crise da Ucrânia. Para o ocidente, foi culpa da Rússia, agressão da Rússia, especialmente a reunificação com a Crimeia, esquecendo-se de que os EUA e seus satélites da UE iniciaram a presente crise apoiando um golpe de estado fascista em Kiev. Faça uma pesquisa on-line: a imagem do urso russo perigoso é onipresente. Ele forçou os crimeanos a votar a favor da reunificação russa. Que absurdo e quão longe da realidade se pode chegar? Como se os crimeanos quisessem abraçar a junta fascista em Kiev...

O urso russo é também retratado comendo um peixe chamado Ucrânia. "Sinto-me ameaçado", grunhe o urso, vestindo uma ‘ushanka’ [uma espécie de gorro amarrado ao queixo, cobrindo as orelhas, típico da Rússia –nt] estampada com a foice e o martelo.

   
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Ainda outro urso, mostrando os dentes afiados, oferece chocolates Valentine [com referência ao Dia dos Namorados – nt] para uma babushka [mulher idosa – nt] assustada vestindo um casaco onde aparece escrito ‘Leste da Ucrânia’. "Seja minha... ou então" é a legenda. A mensagem é tão ultrajante que se começa a rir. Mas, depois de refletir, a imagem não é engraçado de forma alguma pois mostra a extensão com que a MSM virou a realidade de cabeça para baixo.

JPEG - 58.8 kbHá ainda um artigo recente na revista Time, o que poderia ser mais MSM do que a revista Time, lamentando "a perigosa ascensão da linha-dura do Kremlin", os assim chamados ‘siloviki’, poderosos funcionários, como se não houvesse nenhum governo ocidental desse tipo. É o roto falando do esfarrapado. Estes novos bandidos de Moscou "dominam a vida política na Rússia", de acordo com a revista Time, "[e]... contribuem... para com... uma atmosfera de paranoia e agressividade." A revista Time nos oferece um verdadeiro dicionário de clichês ocidentais absurdos sobre a Rússia. O megafone da MSM do agressor acusa o "outro" de agressão. É um velho truque, aliás, muitas vezes usado pelos Estados Unidos. Quanto à "paranoia", olhe para um mapa. Quem está tentando cercar quem? Quem ameaça a quem? Quem gasta quase tanto em armamentos quanto todos os outros Estados do planeta Terra combinados? Não é a Rússia.

A novilíngua orwelliana [novilíngua: refere-se à linguagem propagandística preconizada por Orwell – nt] é agora a norma no Ocidente e especialmente nos Estados Unidos. Acabei de ler discursos do Obama. A Rússia e a China são "outros" criminosos. Seria tal objetivação dos adversários dos EUA uma preparação para a guerra? Ouvindo Obama, você nunca saberia que os EUA intermediaram um golpe de estado fascista em Kiev, cometeram atos flagrantes de agressão contra o Iraque e a Líbia, entre outros Estados, ou que ele armam os jihadistas Salafi na Síria. Os de fora e os dissidentes que expõem as mentiras são ignorados, ridicularizados, enegrecidos. Os delatores são presos. E Putin, um homem marcado, se é que há um, está condenado acima de todos os outros por ter ousado, como a criança na fábula de Andersen, a expor o Imperador sem roupas. "Vocês entendem o que fizeram?" – Putin perguntou recentemente na ONU. Nyet, Gospodin Prezident, eles não entendem. Costumava-se dizer que a verdade vai aparecer; mas, não tenho tanta certeza de que irá, pelo menos em tempo de ser algo mais do que um ponto de debate entre os historiadores, como sugeriu Karl Rove, tarde demais para fazer diferença.


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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O tempo está se esgotando para os apologistas da Pax Americana             



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Rostislav Ischenko  __  REDE VOLTAIRE  
            
Tradução de Marisa Choguill              



Desde que a guerra na Síria demonstrou a inferioridade do armamento dos EUA comparado ao da Rússia, a questão do fim da hegemonia americana deve ser revista. De acordo com Rostislav Ischenko, Washington precisa rapidamente tomar as decisões certas. Se Washington não conseguir superar suas próprias divisões imediatamente, perderá o controle dos eventos.

O paradoxo da atual crise global é que, nos últimos cinco anos, todas as Nações relativamente responsáveis e independentes têm feito esforços tremendos para salvar os Estados Unidos do desastre financeiro, econômico, militar e político que avulta. E isto apesar dos movimentos igualmente sistemáticos de Washington para desestabilizar a ordem mundial, corretamente conhecida como a "Pax Americana" ("paz americana").

Desde que a política não é um jogo de soma-zero, isto é, perda de um dos participantes não implica necessariamente em ganho para o outro, este paradoxo tem uma explicação lógica. Uma crise surge dentro de qualquer sistema quando há uma discrepância entre a sua estrutura interna e a soma total dos recursos disponíveis (ou seja, aqueles recursos eventualmente provarão ser inadequados para o sistema funcionar normalmente e como de costume).

Há pelo menos três opções básicas para lidar com esta situação:  Através da reforma, quando a estrutura interna do sistema evolui de forma a melhor corresponder aos recursos disponíveis; Através do colapso do sistema, quando o mesmo resultado é alcançado através da revolução; Através da preservação, quando os ‘inputs’ [entradas, dados] que ameaçam o sistema são eliminados pela força, e as relações dentro do sistema são cuidadosamente preservadas numa base de relação desigual (seja entre classes, estratos sociais, castas ou nações).


O método de preservação foi tentado pelas dinastias Ming e Qing na China, bem como a de Tokugawa Shogunate no Japão. Foi utilizado com sucesso (no século XIX) antes da era da globalização capitalista. Mas, nenhuma dessas civilizações orientais (embora bastante robustas internamente) sobreviveu à sua colisão com a civilização européia, tecnologicamente mais avançada (e, portanto, mais militarmente e politicamente poderosa). O Japão encontrou sua resposta no caminho da modernização (reforma) na segunda metade do século XIX, a China passou um século imersa no pântano da dependência semi-colonial e sangrentas guerras civis, até que a nova liderança de Deng Xiaoping foi capaz de articular sua própria visão de reformas de modernização.

Este ponto nos leva à conclusão de que um sistema pode ser preservado somente se ele estiver protegido contra qualquer influência externa indesejada, ou seja, se ele controlar o mundo globalizado.
A contradição entre o conceito de escapar da crise, que tem sido adotada pela elite dos EUA, e o conceito alternativo — proposto pela Rússia e apoiado pela China, em seguida, pelas outras nações do grupo BRICS, e, agora, uma grande parte do mundo — baseia-se no fato de que os políticos em Washington tomaram decisões a partir da premissa de que eles seriam capazes de totalmente controlar o mundo globalizado e orientar o seu desenvolvimento na direção que eles desejassem. Portanto, face à falta de recursos para sustentar os mecanismos que perpetuassem a sua hegemonia global, eles tentaram resolver o problema suprimindo energicamente os potenciais adversários para realocar recursos globais a seu favor.

Se tivessem sidos bem-sucedidos, os Estados Unidos teriam sido capazes de reprisar os acontecimentos do final da década de 1980-início da década de 1990, quando o colapso da União Soviética e do sistema socialista global sob o seu controle permitiu que o oeste escapasse da crise. Nesta nova fase, a questão é que não se trata simplesmente de realocar recursos a favor do Ocidente como um todo coletivo, mas unicamente a favor dos Estados Unidos. Esta mudança ofereceu ao sistema uma pausa que poderia ser usada para criar um regime para preservar relações desiguais, durante a qual o controle definitivo da elite americana sobre os recursos de energia, matérias-primas, finanças, e recursos industriais salvaguardá-la-ia do perigo de implosão interna do sistema, enquanto a eliminação de centros de poder alternativo protegeria o sistema de violações externas, tornando-o eterno (pelo menos por um período historicamente previsível).

A abordagem alternativa postulou que a totalidade dos recursos do sistema poderia ser esgotada antes que os Estados Unidos conseguissem gerar os mecanismos para perpetuar sua hegemonia global. Por sua vez, isso vai levar à tensão (e distensão) das forças que garantem a repressão imperial das nações existentes na periferia global, para o benefício do centro baseado em Washington, o que mais tarde suscitará o inevitável colapso do sistema.

Duzentos, ou mesmo cem anos atrás, os políticos teriam agido sob o princípio de que "o que está caindo, deve-se também empurrar" e se preparado para distribuir a herança de outro império em ruínas. No entanto, a globalização não só da indústria e do comércio mundial (que foi alcançada no final do século XIX), mas também a finança global, provocou o colapso do império americano através de uma política extremamente perigosa e cara para todo o mundo. Falando sem rodeios, os Estados Unidos poderiam ter enterrado a civilização sob seus próprios destroços.

Consequentemente, a abordagem russo-chinesa fez questão de oferecer a Washington uma opção de compromisso que endossa a erosão gradual, evolutiva da hegemonia americana, além da reforma incremental das relações internacionais financeiras, econômicas, militares e políticas com base no atual sistema de direito internacional.

A possibilidade de uma "aterragem suave" foi oferecida à elite dos Estados Unidos da América [1], a qual preservaria a grande parte da sua influência e ativos, enquanto gradualmente adaptando o sistema para melhor corresponder aos presentes fatos da vida (alinhando-o à reserva de recursos disponíveis), levando em conta os interesses da humanidade e não apenas de seu "escalão superior", como exemplificado pelas "300 famílias" que estão na verdade diminuindo para não mais de trinta.

No final, é sempre melhor negociar do que construir um mundo novo sobre as cinzas do velho. Especialmente porque houve um precedente global de acordos semelhantes.

Até 2015, a elite dos EUA (ou pelo menos aqueles que determinam a política dos EEUU) tinha certeza de que possuía força financeira, econômica, militar e política suficiente para paralisar o resto do mundo, preservando a hegemonia de Washington enquanto privando todos, incluindo (em sua fase final) mesmo o povo americano, de qualquer soberania política real ou direitos econômicos. Os burocratas europeus foram importantes aliados para essa elite – ou seja, o setor da burguesia cosmopolita, compradora da elite da UE, cujo bem-estar dependia de uma maior integração transatlântica (isto é, sob controle dos Estados Unidos) das entidades da UE (em que a premissa da solidariedade atlântica tornou-se dogma geopolítico) e da OTAN, embora isto estivesse em conflito com os interesses dos membros da União Europeia.

No entanto, a crise na Ucrânia, que se arrasta muito mais do que o inicialmente previsto, o impressionante surto de energia política e militar da Rússia ao mobilizar-se para resolver a crise Síria [2] (algo para o qual os EUA não tiveram uma resposta adequada) e, mais importante, a criação progressiva de entidades financeiras e econômicas alternativas que questionam a posição do dólar como moeda mundial de fato [3], forçaram um setor da elite da América, que é passível de comprometer-se, a despertar (por mais de 15 anos essa elite foi efetivamente excluída da participação em todas as decisões estratégicas).

As últimas declarações de Kerry [4] e Obama [5] – que hesitaram entre a vontade de considerar um acordo mutuamente aceitável em todas as questões contenciosas (até a Kiev foram dadas instruções "para implementar Minsk") e a determinação de continuar a política de confronto – são prova da crescente batalha que está sendo travada em Washington.

É impossível prever o resultado desta luta – muitos políticos de alto status e famílias influentes ataram seus futuros a uma agenda que preserva a dominação imperial para que ela seja renunciada sem dor. Na realidade, bilhões de dólares e dinastias políticas inteiras estão em jogo.

No entanto, podemos dizer com certeza absoluta que há uma determinada janela de oportunidade durante o qual pode ser feita qualquer decisão. E uma janela de oportunidade está se fechando que permitiria aos EUA fazer uma aterragem suave com alguns ‘trade-offs’ [compromissos, condições] básicos. A elite de Washington não pode escapar do fato de que eles estão enfrentando problemas muito mais graves do que aqueles de 10 a 15 anos atrás. Agora, a grande questão é como eles irão aterrizar, e embora esse pouso seja mais difícil do que poderia ter sido, e virá com custos, a situação ainda não é um desastre.

Mas, os EEUU precisam pensar rápido. Seus recursos estão encolhendo muito mais rápido do que os autores do plano de preservação imperial tinham esperado. À sua perda de controle dos países do BRICS pode ser adicionada a incipiente mas ainda razoavelmente rápida perda de controle sobre a política da UE, bem como o início das manobras geopolíticas entre as monarquias do Oriente Médio. As entidades financeiras e econômicas criadas e postas em marcha pelas nações do grupo BRICS estão a desenvolver-se em conformidade com a sua própria lógica, e Moscou e Pequim não serão capazes de retardar seu desenvolvimento enquanto aguardam que os EEUU descubram de repente sua capacidade de negociação.

O ponto de não retorno vai passar de uma vez por todas em 2016, e depois disso a elite dos EUA já não mais será capaz de escolher entre as disposições do compromisso e do colapso. A única coisa que ela então será capaz de fazer será bater a porta ruidosamente, tentando arrastar o resto do mundo atrás de si para o abismo.


[1] “The Foreign Policy of Russia: A New Phase”, by Sergey Lavrov, Voltaire Network, 17 December 2007.
[2] “KALIBRating the foe: strategic implications of the Russian cruise missiles’ launch”, by Vladimir Kozin, Oriental Review (Russia), Voltaire Network, 14 October 2015.
[3] “Grandmaster Putin’s Trap”, Dmitry Kalinichenko, Oriental Review, December 25, 2014.
[4] “Interview With Askar Alimzhanov of Mir TV”, John Kerry, November 2, 2015.
[5] “Speech by Barack Obama at 70th UN General Assembly”, by Barack Obama, Voltaire Network, 28 September 2015.


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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A face escondida da Administração Obama        

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Thierry Meyssan          
Tradução por ALVA publicado originalmente em Rede Voltaire                   

A Administração dos Estados Unidos está profundamente dividida e raros são aqueles que obedecem a Barack Obama, que está mais preocupado em estabelecer um compromisso medíocre entre as diferentes facções que em impor o seu próprio ponto de vista. Depois de ter eliminado o clã Petraeus-Clinton, que sabotava os seus esforços, o presidente descobre que Feltman e Power prosseguem as suas artimanhas. Thierry Meyssan retraça aqui a carreira da embaixatriz dos E.U. na ONU, Samantha Power, e do seu marido, o professor de direito e teórico da ditadura suave, Cass Sunstein.

Como instalar uma ditadura com luva de veludo.

O presidente Obama discute com o seu amigo, o «paternalista liberal» (sic), Cass Sunstein e a esposa deste, a «idealista maquiavélica» (resic) Samantha Power.

Nomeada Representante permanente dos Estados Unidos no Conselho de Segurança em 2013, a embaixatriz Samantha Power é a líder dos «falcões liberais», espécie de alter-ego dos «neoconservadores» na promoção do intervencionismo do «Império Americano». Durante a sua audiência de confirmação no Senado, ela exclamou: «Este país é o maior país da Terra. Eu jamais me desculparei em nome da América!» [1] .

A juventude de Samantha Power

Nascida no Reino Unido em 1970 e criada na Irlanda, ela emigrou com a idade de 9 anos para os Estados Unidos, tendo a sua mãe abandonado o seu pai pianista para se casar novamente com um médico rico. Depois de ter feito brilhante estudos em direito em Yale, ela tornou-se jornalista desportiva na CNN, um canal de notícias internacional cuja redação abrigava membros do 4º Grupo de Operações psicológicas de Fort Bragg [2].

Ela entra no Carnegie Endowment for International Peace como assistente de Morton Abramowitz, na altura igualmente administrador da National Endowment for Democracy (Fundação Nacional para a Democracia- ndT), o lado legal da CIA.

Durante a guerra da Bósnia e Herzegovina torna-se repórter do Boston Globe, The Economist, New Republic, US News e World Report. Ela encontra então Richard Holbrooke, o qual se tornou seu mentor. Hoolbroke montou a independência da Bósnia e Herzegovina, então chefiada por Alija Izetbegović, na sequência de uma guerra desejada pelos Estados Unidos com o objetivo de desmembrar a Iugoslávia. Samantha Power não podia ignorar que Izetbegovic se tinha rodeado de três conselheiros: para a diplomacia o neoconservador Richard Perle, para a comunicação o lobista francês Bernard-Henri Lévy, e para as questões militares o islamita saudita Osama bin Laden [3].

A imprensa não era suficiente para ela. Ela retomou os seus estudos em Harvard, na Escola Kennedy de Administração Pública (Kennedy School of Government- ndT), onde ela cria, em 1998, o Centro Carr para a Política de Direitos Humanos. Samantha Power interpreta a expressão «Direitos do Homem» no sentido anglo-saxónico do termo : proteger as pessoas dos potenciais abusos do poder de Estado. Como Hiperpotência, o Império deverá atribuir-se uma política de Direitos do Homem e preparar os seus funcionários para isso.

Esta concepção opõe-se culturalmente à dos países latinos que falam, em sentido contrário, de «Direitos do homem e do cidadão». Não se trata para eles de limitar os poderes do Estado, mas de questionar a sua legitimidade. Não pode, pois, existir nesta questão «política de Direitos do homem», uma vez que os Direitos do homem significa a afirmação do Povo na política.

O Centro Carr é financiado pela Fundação do antigo empresário Gregory C. Carr e pela Fundação do libano-saudita Rafik Hariri.

Em 2001, Power participa como consultor na Comissão Internacional para a Intervenção e a Soberania dos Estados criada pelo Canadá. É o início da noção de «responsabilidade de proteger». Os peritos avançam com a ideia que para prevenir massacres tais como os de Srebrenica ou do Ruanda, o Conselho de Segurança deveria poder intervir quando já não há Estado organizado.

No ano seguinte, Samantha Power publica a sua obra mestra: Um problema Infernal : a América e a Era do Genocídio (A problem from Hell : America and the Age of Genocide). Este livro, particularmente difícil, seria galardoado com o Prêmio Pulitzer. Muito embora ele se inicie com o genocídio arménio para terminar naquele em que os Albaneses teriam sido vítimas no Kosovo, ele gira essencialmente em torno da questão do extermínio dos judeus da Europa pela Alemanha nazi e da doutrina jurídica de Raphael Lemkins.

Lemkins foi procurador em Varsóvia durante o período entre-guerras. Como perito na Sociedade das Nações, ele denunciou os crimes de «barbárie» cometidos pelo Império Otomano contra os cristãos (de 1894 a 1915) — entre os quais os Arménios —, depois pelo Iraque contra os Assírios (1933). Durante a Segunda Guerra Mundial, ele escapou às perseguições nazis contra os judeus exilando-se nos Estados Unidos, onde ele se tornou conselheiro no Departamento de Guerra. Toda a sua família, que ficou para trás, foi assassinada. Progressivamente, ele forjou o termo «genocídio» para designar uma política visando eliminar um grupo étnico específico. Finalmente tornou-se conselheiro do procurador norte-americano no Tribunal de Nuremberg que condenou vários dirigentes nazis por «genocídio».

Para Samantha Power, Raphael Lemkins abriu uma via que os Estados Unidos deveriam seguir sempre. Apenas o senador William Proxmire (um parente dos Rockefeller) manteve a sua luta até à ratificação pelo Senado, em 1986, da Convenção para a prevenção e repressão do crime de genocídio. Como única potência global, os Estados Unidos têm agora o dever de intervir lá onde os «Direitos do homem» o exijam.

No entanto, em momento algum Power se interrogou sobre a responsabilidade dos Estados Unidos nos massacres contemporâneos; fosse a responsabilidade direta (Coreia, Vietnã, Camboja de 1969 a 75, Iraque de 1991 a 2003) ou indireta (Indonésia, Papua, Timor Leste, Guatemala, Israel e África do Sul). A «responsabilidade de proteger» forneceu a justificação teórica de uma penada, pela «guerra humanitária» no Kosovo. O que o professor Edward Herman resume: «Para ela, os Estados Unidos não são o problema, são a solução».

A «responsabilidade de proteger» tornou-se um «dever moral» de intervir em todo o Estado que Washington acuse de praticar ou de planejar um genocídio. Para lançar a guerra já não é necessário que o Estado esteja falhando, basta apenas um pretexto.
Ainda em 2002, Samantha Power dá uma entrevista para o seriado vídeo da Universidade de Berkeley, Entrevistas com a História. A uma pergunta sobre a reação desejável dos Estados Unidos se o conflito israel-palestina endurecesse e tornasse possível um genocídio, ela preconiza o envio de uma potente força militar para separar os dois campos. Esta resposta foi instrumentalizada para a acusar de não tomar o partido de Israel por antisemitismo. Ela teve, então, que solicitar a ajuda de personalidades judaicas americanas, como Abraham Foxman da Liga AntiDifamação (Anti-Defamation League), para a safar desta má jogada e redourar a sua imagem.

Samantha Power entra, entretanto, para o governo. Ela integra por um breve período, em 2003, a equipe de campanha do general Wesley Clark. O antigo comandante supremo da Otan no Kosovo lutava então pela investidura democrata à eleição presidencial.

Em 2005-06, ela é convidada por um senador que acaba de sair do nada, Barack Obama. Este jovem advogado é um protegido do antigo conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, e do seu patrocinador David Rockefeller. Samantha Power é informada sobre o projeto para fazer deste jovem homem negro o próximo presidente dos Estados Unidos da América. Ela decide demitir-se das suas funções em Harvard e juntar-se à sua equipe para se tornar a sua secretária de Estado

Em 2006, Obama empreende uma estranha viagem parlamentar à África, que na realidade é uma missão da CIA para lançar as bases de uma mudança de regime no Quénia, país do qual ele é originário [4]. Samantha Power é encarregada de preparar a deslocamento e sobretudo a etapa dos campos de refugiados do Darfur.

Ela participa amplamente na redação da Audácia da Esperança: Apreciações sobre a Recuperação do Sonho Americano (The Audacity of Hope: Thoughts on Reclaiming the American Dream), o livro que dará a conhecer Barack Obama ao público norte-americano e lhe abrirá a via da Casa Branca.

Agora, figura incontornável da intelligentsia imperialista, Samantha Power apropria-se da figura do brasileiro Sérgio Vieira de Mello. Este diplomata foi Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos do Homem, antes de ser assassinado no Iraque, em 2003, quando ele esperava tornar-se secretário-geral. Ela consagra-lhe, em 2008, uma biografia: Chasing the Flame: One Man’s Fight to Save the World (Manter a chama: Sérgio Vieira de Mello e a luta para salvar o mundo- ndT)(sic). Ela influencia um outro oportunista, o francês Bernard Kouchner, que sucedeu a de Mello como representante especial do secretário-geral da ONU no Kosovo (1999-2001), depois foi escolhido por Washington como ministro dos Negócios Estrangeiros de Nicolas Sarkozy (2007-2010).
Samantha Power milita no seio de organizações intervencionistas, nomeadamente o International Crisis Group do bilionário húngaro-americano George Soros, e na Genocide Intervention Network (tornada United End Genocide).

Samantha Power e Cass Sunstein

No contato com Barack Obama, ela conheceu um de seus amigos, o professor Cass Sunstein, nascido como ela num 21 de setembro, mas dezesseis anos mais velho. Ele ensinou durante muito tempo em Chicago, onde ele se ligou ao jovem político, depois partiu para Harvard onde o seu escritório está a um quarteirão do que Samantha habitava. São ambos possuídos pela ambição e fariam qualquer coisa para serem notados. Em julho de 2008, casam-se na Irlanda, ela a católica e ele o judeu cabalista. Juntos, eles vão formar o que o jornalista populista Glenn Beck chamará o «casal mais perigoso da América»

Autor prolixo —Cass Sunstein escreve vários livros, por ano e numerosos artigos de opinião nos principais jornais—, ele tem uma opinião sobre tudo, tanto sobre os impostos como sobre os direitos dos animais. Ele é de longe o acadêmico mais citado na imprensa dos EUA [5]. E por boas razões: Ele tem-se pronunciado sistematicamente pelo poder do Estado contra os cidadãos, seja para apoiar as comissões militares Bush em Guantanamo ou para lutar contra a primeira emenda (liberdade de expressão). Em outras palavras, enquanto Samantha Power exalta ‘Direitos humanos’ e se torna a referência intelectual sobre o assunto, o marido Cass Sunstein se opõe com vigor e se torna a referência legal. Seu fornecido oposto com a mesma paixão que é útil para eles e eles podem defender qualquer coisa.

Em outras palavras, enquanto Samantha Power exalta os «Direitos do homem» e se torna a referência intelectual na matéria, o seu marido Cass Sunstein opõe-se a isso vigorosamente e torna-se, quanto a tal, a referência jurídica. Eles podem defender qualquer coisa e o seu oposto com a mesma paixão desde que isso lhes seja útil.

Sunstein publica à época com o economista comportamentalista Richard Thaler ‘Golpes de impulso’ – como melhorar as decisões em matéria de saúde, de riqueza e de felicidade (Nudge : Improving Decisions about Health, Wealth, and Happiness). Os autores estudam as influências sociais que levam os consumidores a fazer escolhas erradas. Ao fazer isso, eles desenvolvem uma teoria sobre como usar essas mesmas influências sociais para os fazer tomar «boas escolhas». É o que eles chamam de «paternalismo liberal», um paradoxo que timidamente se refere a um método de manipulação das massas.

Em setembro de 2015, o presidente Obama fará do «paternalismo liberal» a sua nova política e dará à sua administração instruções para multiplicar os «golpes de impulso» [6].

Durante a campanha de 2007-08, Sunstein redigiu com Adrian Vermeule, para as universidades de Chicago e de Harvard, uma tese que se vai impôr como doutrina à administração Obama contra as «teorias da conspiração» –- ou seja, contra a constatação da retórica oficial –- e que inspirará ulteriormente o presidente François Hollande e a Fundação Jean-Jaurès [7]. Em nome da defesa da «Liberdade» face ao extremismo, os autores definem é um programa para aniquilar esta oposição:

«Nós podemos facilmente imaginar uma série de respostas possíveis.

Descrição: - 1. O governo pode interditar as teorias da conspiração. 

Descrição: - 2. O governo poderia impor uma espécie da taxa, financeira ou outra, sobre aqueles que difundem tais teorias. 

Descrição: - 3. O governo poderia engajar-se numa contrapropaganda para desacreditar as teorias de complô. 

Descrição: - 4. O governo poderia envolver setores privados credíveis a engajar num contradiscurso. 

Descrição: - 5. O governo poderia envolver-se na comunicação informal com as terceiras partes e apoiá-los na ação» [8].

A ditadura de luva de veludo está em marcha.

Cass Sunstein será nomeado pelo presidente Obama para chefiar a OIRA, um gabinete da Casa Branca encarregue de simplificar as formalidades administrativas.

Ele passará o primeiro ano a fazer outras coisas: encontrar argumentos económicos para justificar a necessidade de lutar contra a difusão de carbono na atmosfera, o que provocaria o aquecimento climático. Uma boa notícia para o Presidente Obama, o qual, enquanto trabalhava para o antigo Vice-presidente Al Gore e seu parceiro financeiro David Blood, havia elaborado os estatutos do Clima Exchange Ltd e os da bolsa de comércio de emissões de carbono em Chicago; argumentos que serão retomados pelo Presidente francês François Hollande, e seu ministro Laurent Fabius, afim de preparar a Cop 21 (Conference on climate change) e enriquecer os seus amigos [9].

Samantha Power, de universitária da moda a mulher de poder

Regressemos à campanha eleitoral. Numa entrevista ao periódico Scotsman, Samantha Power descreve a rival de Obama à investidura democrata, Hillary Clinton, como um «monstro» capaz de emporcalhar falsamente seja quem for para ganhar um lugar (alusão à polémica eleitoral sobre a NAFTA ). O incidente obrigou à renuncia. Posteriormente o seu mentor Richard Holbrooke (que encobriu o genocídio em Timor Leste) servirá de intermediário entre as duas mulheres para reparar o imbroglio.

Durante o período de transição presidencial, ela trabalha com o futuro assessor de Segurança Nacional Thomas Donilon, e com Wendy Sherman, sobre a transição no Departamento de Estado. Mas, finalmente é Hillary Clinton —64 anos antiga primeira dama e ex-senadora— e não a jovem Srª Power-Sunstein quem se tornará a secretária de Estado do presidente Obama.

Samantha Power tornou-se assistente especial do presidente e diretora do Gabinete dos Assuntos Multilaterais e Direitos do Homem da Casa Branca. Ela fez nomear um antigo assistente de Madeleine Albright, David Pressman, como Diretor a área dos Crimes de guerra e de Atrocidades no Conselho de Segurança Nacional. Ele tinha criado com John Prendergast uma organização para popularizar a ideia de genocídio acontecido no Darfur, Not On Our Watch, e tinha recrutado celebridades de Hollywood como George Clooney ou Matt Damon. Na mesma linha, ela consegue convencer o Presidente Obama a criar um Conselho de Prevenção de atrocidades, agrupando diversas agências norte-americanas [10]. Estranhamente, este organismo jamais publicou qualquer relatório e contentou-se com um único “briefing” ao Congresso. Sabemos apenas que ele se congratulava aí com a operação bem-sucedida no Quénia, o que nos remete para a viagem organizada pela CIA e por Samantha para o senador Obama a África ; mudança de regime que, longe de evitar um genocídio, se fez à custa de massacres tribais cuidadosamente planificados. Finalmente, este Conselho parece ter-se evaporado assim que o Estado Islâmico começou a limpeza étnica do Sunistão iraquiano [11].

Em outubro de 2009, ela redige o essencial do discurso de Obama para a recepção do Prémio Nobel da Paz. Ela desenvolve aí o conceito de uma ética de geometria variável : um presidente deve usar a força e não pode, infelizmente, agir como um Mahatma Gandhi ou Martin Luther King Jr.

É no Conselho de Segurança Nacional que ela trava conhecimento com o assistente de Hillary Clinton, o qual prepara a «Primavera Árabe», o antigo «pro-cônsul americano» no Líbano, Jeffrey Feltman. Trata-se de derrubar os regimes laicos árabes (Tunísia, Egito, Líbia, Síria e Argélia), sejam ou não aliados dos Estados Unidos, e colocar no poder os Irmãos Muçulmanos. Quando Muammar el-Kaddafi declara que o seu país está a ser atacado pela al-Qaeda, desloca o seu exército para Benghazi afim de retomar as bases militares que os terroristas tinham tomado, e, anuncia enfaticamente que, se eles não renderem, fará correr «rios de sangue», Samantha Power tem um discurso preparado. As agências de notícias ocidentais fazem crer que o país está a enfrentar uma revolta popular e que el-Kaddafi se prepara para matar a sua própria população. É, pois, necessário que os Estados Unidos Membros atuem para prevenir o genocídio que se anuncia. Rapidamente, a guerra contra a Líbia, planeada desde 2001, é posto em marcha. A operação custará a vida a 160.000 pessoas e fará deslocar mais de quatro milhões outras.

Embaixatriz na Onu e líder dos falcões liberais

Durante o seu segundo mandato, Barack Obama tenta livrar-se dos promotores de guerras que conspiram nas suas costas. Fez deter, algemado, o diretor da CIA, o general David Petraeus, e afasta Hillary Clinton. O secretariado de Estado tão cobiçado está novamente vago, mas o Presidente Obama nomeia para ele John Kerry —70 anos, senador há 28 anos e antigo candidato à presidência dos Estados Unidos—. Samantha Power —43 anos, nenhum cargo eletivo— consegue, no entanto, ser nomeada embaixatriz na ONU.

Power mostrara-se até aqui fiel, apoiando as «Primaveras árabes», mas aceitando o acordo com a Rússia na conferência de Genebra. Na ONU, ela reencontra o antigo assistente de Hillary Clinton, Jeffrey Feltman, que se tornou o diretor dos Assuntos políticos da Organização, quer dizer o verdadeiro patrão das Nações Unidas. Após a sua nomeação, em junho de 2012, Feltman organiza secretamente a sabotagem do Comunicado de Genebra para a Secretária de Estado [12]. O homem é hábil e não vai tardar a dar a volta à ambiciosa embaixatriz Power e a juntá-la ao seu campo, à revelia do novo secretário de Estado, John Kerry.

O plano é simples: Power deverá ganhar tempo com os Russos e os Iranianos, enquanto Feltman irá engodar a Arábia Saudita e a Turquia com um projeto de rendição total e incondicional da República Árabe Síria, e os generais Petraeus e Allen organizarão a guerra secreta para derrubar Bashar al-Assad. Se tudo correr bem, os EUA ficarão com a vitória, a Rússia será ejetada do Próximo-Oriente, o Irã mantido sob embargo, e o Presidente Obama será confrontado com o fato consumado.

Efetivamente, Samantha Power irá provocar a falha de todas as tentativas de solução política do conflito na Síria.

Na questão síria, Samantha Power trabalha desde cedo com a Syrian Emergency Task Force, a qual se apresenta como um grupo de Sírios, revolucionários, tentando sensibilizar os dirigentes dos Estados Unidos. Na verdade, ela é dirigida por Mouaz Mustafa, um Palestino membro da Irmandade Muçulmana, antigo assistente parlamentar de John McCain, e antigo jornalista da Al-Jazeera, trabalhando para o Washington Institute for Near East Policy (o think tank da AIPAC) e implicado nas manobras contra vários alvos da «Primavera árabe». Ele dirigiu a TV Sawatel, criada no Egito para instalar Mohamed Morsi no poder e, depois, dirigiu o Libyan Council of North America. Foi ele quem organizou a viagem de John McCain à Síria em maio de 2013, e o seu encontro com o futuro califa do Daesh [13].

Assim que a imprensa ocidental toma conhecimento do massacre de civis na ghoutta (área rural-ndT) de Damasco, por armas químicas, e o apresenta como uma ação do «regime de Bashar» contra a sua «oposição democrática», ela encontra, por fim, a ocasião de defender populações vulneráveis. Quando de uma conferência no Center for American Progress, ela advoga pela realização de «bombardeamentos limitados a fim de prevenir e de impedir o uso futuro de armas químicas». Mas, prevenida que este assunto é na realidade uma operação sob falsa bandeira dos serviços secretos turcos para implicar a Otan na guerra, ela recebe da Casa Branca instruções para não fazer nada. Entalada, entre o seu discurso humanitário, os seus compromissos junto de Feltman e a sua lealdade ao presidente, ela parte com o seu marido para um festival de cinema na Irlanda, enquanto o Conselho de segurança debate o assunto sem ela [14].

A bela retórica de direitos-do-homem de Samantha Power é um trunfo quando do ataque do Daesh no Iraque. Ela permite aos Estados Unidos forçar o eleito primeiro-ministro Nouri al-Maliki a demitir, sem ter de evocar a sua violação do embargo dos EU sobre a venda de armas iranianas, e a sua venda de petróleo à China sem passar pelo dólar. Também permite justificar a criação da Coligação Internacional anti-Daesh, a qual, é claro, seguindo as instruções de Feltman na ONU, e de Petraeus na KKR, em vez de bombardear a organização jiadista lhe lançará, de paraquedas, armas e munições durante um ano.

Samantha Power é entretanto forçada a pôr as suas cartas na mesa quando da intervenção militar russa na Síria. No decorrer de uma reunião do Conselho de Segurança Nacional ela advoga pela intervenção dos Estados Unidos, e entra em conflito com Robert Malley, o responsável pelo Próximo Oriente no Conselho. Robert Malley é o filho do jornalista francófono, e fundador da Afrique-Asie, Simon Malley, e de Barbara Malley, uma antiga colaboradora do FLN argelino. Ele milita contra o imperialismo US, mas defende uma liderança norte-americana junto com os Estados em desenvolvimento. Jogou um papel importante quando das negociações com o Irã. É um conhecido do presidente Bashar el-Assad, com quem se encontrou numerosas vezes e que conhece bem. Não é, pois, possível fazê-lo engolir a história do tirano-que-assassina-seu-próprio-povo. Malley sublinha que a República Árabe da Síria, apoiada pela Rússia, ganhou, e que é hora de fazer a paz. Power finge curvar-se, mas a CIA já começou uma nova guerra, desta vez para criar um Curdistão no norte da Síria, em cima de um território que é 70% não-curdo.

Como o seu esposo, o «paternalista liberal» Cass Sunstein, Samantha Power define-se por um paradoxo : ela proclama-se, sem rir, «idealista maquiavélica».

A reter : 

Descrição: - Os professores Samantha Power e Cass Sunstein formam um casal ambicioso, no qual cada parceiro assume, magistralmente, um discurso diametralmente oposto. No entanto, ambos se unem para defender o «Império americano» contra os cidadãos e contra os Povos. 

Descrição: - Para Samantha Power, é em nome dos «Direitos do homem» que tudo é permitido aos Estados Unidos. Enquanto que para Cass Sunstein, é em nome da «Liberdade» que o Estado se pode permitir tudo. Mas, o importante é que o discurso mascara a realidade.

Descrição: - A embaixatriz Samantha Power apoia, hoje em dia, o clã Clinton-Feltman-Petraeus-Allen no ataque à Rússia, ao Irão e à Síria. Enquanto o professor Cass Sunstein teoriza uma forma de ditadura suave. Ele convenceu o Presidente Obama a manipular as opiniões públicas censurando-as, ou a desacreditar a oposição, e a manipular os seus comportamentos, agindo para tal sobre o seu ambiente social.

Thierry Meyssan - Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).

[1] “This country is the greatest country on earth. I would never apologize for America!”
[2] “U.S. Army ’Psyops’ Specialists worked for CNN”, Abe de Vries, Trouw, February 21, 2000. English Version : Emperor’s Clothes.
[3] Wie der Dschihad nach Europa kam, Jürgen Elsässer, Np Buchverlag, 2005.
[4] « L’expérience politique africaine de Barack Obama », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 9 mars 2013.
[6] “Executive Order — Using Behavioral Science Insights to Better Serve the American People”, by Barack Obama, Voltaire Network, 15 September 2015.
[7] “O Estado contra a República”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 9 de Março de 2015.
[8] « Conspiracy Theories », Cass R. Sunstein & Adrian Vermeule, Harvard Law School, January 15, 2008.
[9] « 1997-2010 : L’écologie financière », par Thierry Meyssan, Оdnako(Russie), Réseau Voltaire, 26 avril 2010.
[10] “Presidential Study Directive on Mass Atrocities/PSD-10”, Voltaire Network, 4 August 2011.
[11] “Why Is Obama Suppressing the Atrocities Prevention Board?”, Amelia M. Wolf, The National Interest, August 27, 2014
[12] “Duas espinhas no pé de Obama”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 31 de Agosto de 2015.
[13] “John McCain, chefe de orquestra da «primavera árabe», e o Califa”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 18 de Agosto de 2014.


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