segunda-feira, 14 de setembro de 2015

OTAN-ificação
incipiente do conflito sírio


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12/9/2015, Conflicts Forum Weekly Comment, Equipe de Conflicts Forum, 4-11/9/2015


Tradução do Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

O Chefe de Gabinete aposentado do Secretário de Estado durante o mandato de Colin Powell, Lawrence Wilkerson, na conferência sobre The Travails of Empire [Trabalhos do Império], relata como os EUA tornaram-se cúmplices efetivos da manutenção de um equilíbrio de poder no Oriente Médio desde quando Roosevelt reuniu-se com o rei Abdul-Azziz (em 1945, num navio de guerra, nos Grandes Lagos Amargos). A primeira manifestação da doutrina foi (em parceria com os britânicos) derrubar o governo de Mossadegh no Irã ("40% do dinheiro dos britânicos naquele momento vinha do petróleo anglo-iraniano" [o mesmo que Mossadegh ameaçava nacionalizar]). O Xá foi instalado no poder e o 'equilíbrio' foi preservado por mais 26 anos – diz Wilkerson.


"Mas...Como?! Como?!... – E aconteceu que os iranianos cansaram-se daquilo" – Wilkinson continuou. Assim (pós-1979), "nós restabelecemos o 'equilíbrio' jogando os árabes contra os persas: Bagdá e Teerã tornaram-se inimigas viscerais, e assim nós mantivemos o equilíbrio".


Nesse ponto, Wilkerson relata que as coisas estavam nesse pé quando ele próprio entrou em cena: o sentimento prevalecente (que era também o dele naquele momento) era que os EUA deviam deixar que um lado matasse o outro: "Empurramos os dois extremos para o centro [na guerra Irã-Iraque]". Mas quando pareceu que o Irã poderia vencer, os EUA decidiram assumir o lado do Iraque. Mas quando, na sequência, fomos obrigados a remover Saddam Hussein, nosso equilíbrio "foi para o inferno". E assim, diz Wilkerson, "afinal, tivemos de determinar que [para os EUA] permanecer na região era um perigo: poderia acontecer de os mais disparatados elementos se coligarem numa grande oposição contra nós; então decidimos sair, e saímos."


O que tem isso a ver com a Síria? Tem muito. Assim como a decisão de fazer explodir a oposição 'visceral' entre árabes e persas – armando os dois lados e empurrando-os um contra o outro –, estava condenada a terminar em desastre e caos, não em algum 'equilíbrio regional administrável', assim também hoje, como tantas vezes acontece, as lições da história parecem ter sido esquecidas rapidamente.


O meme de facilitar algum 'equilíbrio' entre grupos beligerantes igualmente desprezados, os dois, pelos EUA-ocidente (i.e. Saddam versus Khomeini) – não parece ser tentação a que os EUA-ocidente consiga resistir.


Hoje, líderes europeus (especialmente na Grã Bretanha e na França) de certo modo estão criando uma 'equivalente de malevolência' entre "bombardear intensivamente" o presidente Assad, e também bombardear um ISIS assassino, para sugerir que nenhum dos dois lados poderia prevalecer – bem ao jeito do espírito reinante em Washington ao tempo do conflito Irã-Iraque, espírito o qual, segundo Wilkerson, era de que, quando o último persa estivesse diante do último iraquiano num cenário de fim de guerra, os norte-americanos "devíamos dar a cada um uma pistola de duelo."


Para sermos justos, é verdade que Wilkerson hoje lastima aquele passado e suas atitudes naquele momento; e que, em
entrevistas posteriores, já atribuiu tudo aquilo a uma recaída no Orientalismo ocidental. Seja como for, esse neo-Orientalismo ainda continua como fator forte, de importância crescente na política europeia – destacado hoje diariamente pelo fluxo massivo de refugiados para a Europa. Há outras vozes também, que falam de repensar aquele passado, e é possível que essas vozes venham a prevalecer (evidência disso é, por exemplo, a recente mudança de posição na União Europeia, que agora já diz que o presidente Assad tem de permanecer no governo da Síria durante qualquer 'transição').


O presidente da Comissão para Assuntos Exteriores no Parlamento Britânico, Crispin Blunt, é um dos que destaca que "nenhuma abordagem da questão ISIS será completa, se não houver política coerente em relação ao regime em Damasco e um acordo para a Síria". Blunt
aconselha que "antes de nos engajarmos em diplomacia multilateral, o Governo e o Parlamento da Grã-Bretanha têm de achar coragem para conversar com franqueza sobre o futuro de Bashar al-Assad. Exigir que Assad 'saia', sem reconhecer as complexidades, não é modo aconselhável de conduzir política externa alguma. É tempo de reconhecer que dentre nossas prioridades e valores está a proteção à segurança humana, mediante uma solução política que ponha fim à violência, mesmo se criar alguns dilemas morais difíceis".


Não obstante, a política europeia parece estar em posição delicada na questão da Síria, a mais existencial das questões geoestratégicas (ainda mais, talvez, que os EUA). Afetada pelas correntes emocionais que cortam a Europa, entre imagens terríveis dos refugiados de um lado, e do sofrimento humano de outro, os líderes europeus não estão encontrando resposta para a crise dos refugiados; e a política oscila – acompanhando o pêndulo – entre a mais recente imagem dolorosa do suplício dos refugiados, ou do banho de sangue que continua na Síria e no Iraque.


Para ilustrar essa oscilação, basta comparar o que disse Blunt, e o que
disse o primeiro-ministro Cameron no Parlamento, na 4ª-feira: "Assad tem de sair, o ISIL/ISIS tem de sair; e qualquer coisa dessas exigirá não só gastar dinheiro, não só ajuda, não só diplomacia, mas, na evolução, exigirá emprego de força militar" – disse ele. Bem claramente, a declaração de Cameron não inclui nenhuma estratégia coerente, mas talvez a Europa, afinal, tenha, pelo menos, começado a mover-se, diferente dos EUA, que não deram um passo na guerra Irã-Iraque e mantiveram-se presos numa política fracassada de dupla contenção: naquele momento, Irã-Iraque; agora, Assad-ISIS.


O influxo de refugiados para a Europa com certeza afrouxou os nós (como, talvez, fosse o desejo de quem instigou os eventos). Mas os nós afrouxam-se agora; para melhor, ou para pior?


Os funcionários do governo turco que parecem estar agora
facilitando a saída de refugiados sírios de seus campos no sul da Turquia, com pico sem precedentes (e até agora ainda inexplicado) em agosto, com certeza contam com que o pêndulo europeu oscilará – como Cameron deixou bem claro – na direção de golpe para derrubar o presidente Assad (que parece ser o objetivo dos turcos desde o início do conflito).


Mas o sentimento predominante parece estar andando (embora precariamente) na direção contrária aos desejos dos turcos e de Cameron; e a favor dos realistas que argumentam que o governo sírio é aliado necessário em qualquer guerra contra o jihadismo militante.


O perigo aí, no momento em que Grã-Bretanha e França consideram iniciar ataques aéreos ("contra o ISIS") a partir do Iraque (partindo do sul, não do norte), é que efetivamente estarão convertendo grande parte da Síria em 'zona aérea de exclusão'. Novamente, Erdogan ficará satisfeitíssimo. O presidente Putin, não.


Como observamos semana passada, sobre
o precedente líbio, uma 'zona aérea de exclusão' implementada pela OTAN sob autorização da ONU foi sequestrada – na avaliação dos russos –, para servir como apoio a insurgentes anti-Gaddafi e dar-lhes suporte aéreo que durou vários meses, até que a Líbia foi afinal demolida.


Desde o início do conflito na Síria, os russos sempre deixaram claro que não tolerariam segunda versão do precedente líbio. Em 2013, funcionários russos fizeram inúmeras declarações em que formalmente se opuseram a qualquer 'zona aérea de exclusão' na Síria. Algumas declarações em termos muito fortes do próprio presidente Putin não deixaram dúvidas da firme decisão dos russos de ativamente se
oporem a esse desenvolvimento. Daí a decisão russa de intervir militarmente (limitadamente, na Síria) para impedir o ocidente de encenar outro 'avanço' da OTAN na Síria para apoiar seus insurgentes preferidos e que acabaria com o golpe para derrubar o estado sírio.


Pat Lang (ex-funcionário da inteligência militar dos EUA)
observa:


"Fui informado por minhas próprias fontes que a dissonância dentro das fileiras do governo Obama resultou no que, na minha opinião, é uma decisão estúpida de opor-se à intervenção militar russa na guerra civil síria.


"Os amadores que trabalham na Casa Branca, no Conselho de Segurança Nacional e no Departamento de Estado continuam incapazes de compreender que o desaparecimento da estrutura do estado sírio levará inevitavelmente à criação de um estado dominado por jihadistas onde hoje existe a Síria. Não se sabe se esse estado será governado pelo Estado Islâmico ou pela Frente al-Nusra, mas o que já se vê bem claramente é que, em qualquer caso, a situação cancerosa resultante será o início do fim de qualquer tipo de moderação nos governos da região. O exemplo do triunfo do salafismo terá tal poderosa força de "arranque" sobre o material humano para potencial recrutamento e subversão que, em minha opinião, nenhum governo terá meios para lhe fazer frente.


"Para impedir isso, os russos parecem decididos a reforçar o governo sírio; e os EUA estão fazendo tudo que podem para impedir. Os EUA pressionaram governos para que não autorizassem sobrevoo de cargueiros russos a caminho da Síria, nos respectivos espaços aéreos. Tentaram também alguns meios pelos quais negar passagem a navios russos pelo Bósforo e Dardanelos. Que diabos Washington supõe que está fazendo?"


Isso, na avaliação de Conflicts Forum, assinala que o outro
meme do equilíbrio de poder' está entrando em cena – com Grã-Bretanha, França e Turquia juntas e com os EUA envolvidos, usando poder aéreo, o que torna todo o processo ainda mais parecido com o processo da OTAN na Líbia.


Enquanto o presidente dos EUA está timidamente cooperando limitadamente com a Rússia, começa a pulsar aquela outra bomba de nêutrons do 'equilíbrio do poder' da Guerra Fria: OTAN versus Putin. Todo e qualquer movimento da Rússia tem de ser respondido, como reflexo condicionado de tipo pavloviano – sem levar em conta qualquer atenção séria que, antes, os
interesses geoestratégicos ocidentais ainda mereciam.


Que o movimento agora é puxado pela OTAN, não por alguma avaliação ponderada do 'terreno' no Oriente Médio, fica bem claro no caso da Bulgária: ao mesmo tempo em que o governo búlgaro tenta persuadir a Rússia de que o gasoduto Ramo Sul de gás natural pode ser
ressuscitado, os búlgaros são pressionados para impedir que aviões russos cruzem seu espaço aéreo (ação que opera contra os principais interesses nacionais da Bulgária). E o mesmo vale para Grécia e Ucrânia.


Aí está precisamente o perigo da incipiente OTAN-ificação do conflito sírio: porá Rússia e EUA em campos adversários, não como estados que, embora discordantes em vários pontos, têm interesses comuns que os empurram na direção de encontrarem solução para a Síria. Os beneficiários desse tipo de efeito serão os jihadistas – de todas e quaisquer 'filiações'.


Post Scriptum: Caso alguém imagine que, de algum modo, alguma Frente al-Nusra pudesse ser considerada alguma espécie de 'meio termo' aceitável, esse
relatório do US Institute for the Study of War é esclarecedor:



"A Frente al-Nusra [al-Qae’da] é mais sutil e insidiosa que o ISIS, e é portanto mais difícil de conter ou derrotar. Enquanto o ISIS quer o controle direto, exposto, de cima abaixo, a Frente al-Nusra alavanca uma força militar de elite para conquistar aliados dentro da oposição síria armada e patrocina governos talhados localmente em áreas sírias não governadas. A Frente al-Nusra beneficiou-se muito da ausência de efetiva intervenção ocidental na Síria. Também se beneficiou da radicalização da oposição síria depois de setembro de 2013, quando a decisão dos EUA, de não intervir na Síria, desmoralizou grandes segmentos da oposição. A Frente al-Nusra recebe influxo de combatentes estrangeiros e fornece capacidades assimétricas de "forças especiais" às oposições armadas, garantindo vitórias destacadas nas campanhas dos rebeldes, mediante suas contribuições para esforços militares mais amplos (…) – [o que] aumentou a importância relativa da Frente al-Nusra para os combates. Com isso, a campanha militar da Frente al-Nusra ganhou significativa importância para outros grupos rebeldes. No final de 2014, o crescimento do ISIS mudou o cenário e o ambiente na guerra Síria e forçou mudanças significativas na disposição da Frente al-Nusra na Síria. Essas mudanças, com o tempo, podem começar a impactar sua rede de aliados rebeldes. Contudo, o sucesso da Frente al-Nusra no processo de fixar-se entre as fileiras rebeldes continua a assegurar à Frente o mesmo inabalável prestígio popular de curto prazo, apesar das ações cada vez mais agressivas. É bem pouco provável que a 'incorporação' da Frente al-Nusra dentro das fileiras rebeldes possa vir a recuar, sem pressão externa adicional."