terça-feira, 15 de setembro de 2015

DE ‘MANIFESTANTE’ A LÍDER POLÍTICO

Percurso de um revolucionário Houthi*


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12/9/2015, Nawal al-Maghafi
Tradução Vila Vudu





SANAA. Vendo Ali Al-Emad entrar no hotel Sheba em Sanaa, cercado por uma legião de seguidores, relembrei nosso primeiro encontro em 2011, e a sua ascensão meteórica – como a dos Houthis – nos cinco anos seguintes. Lembro que nos tornamos amigos e de minha viagem para documentar o crescimento dos Houthis, a partir do final da 6ª guerra em Saada in 2011, até o presente, com já quase todo o norte do Iêmen controlado por eles.

Era tarde da noite, em setembro de 2011 na Praça Tahir (“Mudança”) em Sanaa, quando pela primeira vez entrevistei 
Ali Al-Emad numa pequena barraca iluminada por velas. Falamos sobre a revolução e fiz-lhe a mesma pergunta que fazia a todos os manifestantes que encontrava na praça: Por que está aqui? Praticamente todos os manifestantes haviam respondido a mesma coisa: "Porque queremos mais democracia". Ali Al-Emad, não. Respondeu de outro modo.
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Pai e filho, em manifestação pró houthis, em Sanaa


Falou-me sobre os Houthis e a luta deles, a luta intermitente contra o governo desde 2004 e as operações militares unilaterais da Arábia Saudita contra os Houthis, ao longo da fronteira com o Iêmen em 2009, quando o país ainda era governado pelo presidente Ali Abdullah Saleh, autocrata e aliado dos EUA há muito tempo.


Apesar de a população do Iêmen ser majoritariamente sunita, os Houthis praticam uma religião derivada do Islã xiita conhecida como zaidismo. No início da invasão dos EUA ao Iraque em 2003, Hussein al-Houthi, líder daquela comunidade moveu-se rapidamente para capitalizar a ira popular, e lançou uma rebelião contra o governo de Saleh. Al-Houthi foi assassinado logo depois, mas em 2004 seus seguidores, a maioria dos quais com base na área ao norte, em Saada, continuaram a luta, até que, em 2010, foi assinado um cessar-fogo.


Lembro-me de ver os panfletos e cartazes na barraca de Ali na Praça Tahir [em Sanaa, Iêmen], todos com o slogan/grito-de-guerra dos Houthis:


Deus é grande 
Morte aos EUA 
Morte a Israel 
Deus não ama os judeus 
Até a Vitória do Islã


Só muito depois eu viria a compreender por que tanto ódio contra os EUA, naquela comunidade.


Aquele primeiro encontro com Al-Emad acendeu minha curiosidade sobre os Houthis, mas quando pedi que me levasse a Saada, ele respondeu simplesmente "Você pode tentar". Minha confusão foi logo resolvida, quando vi que éramos parados e interrogados em muitos dos postos de controle ao longo da estrada para Saada. Alguns daqueles postos eram controlados por seguidores de Saleh; os outros, pelos Houthis. Ao mesmo tempo, Saleh não queria saber de jornalistas trabalhando para divulgar o 'lado' dos Houthis daquela história. Mas Ali me cobria, pode-se dizer, bem literalmente: viajei metida numa burca-véu que parecia uma barraca – sem mostrar nem os olhos – o que se revelou excelente solução para esconder meu equipamento de filmagem.


Ali também mandou um jovem Houthi, de metralhadora AK47 pendurada ao ombro, para me acompanhar até Saada e fazer-me passar pelos pontos de controle dos Houthis. Quando digo "jovem", é precisamente isso: teria no máximo 14 ou 15 anos. Por mais que ver um adolescente armado tenha-me parecido chocante quando o conheci, logo percebi que havia muitos deles, nas áreas do Iêmen controladas pelos Houthis.


Durante minha viagem a Saada, ouvi incontáveis depoimentos de famílias que perderam pais, mães, filhos, filhas, ao longo das recentes seis guerras. Por onde passei vi restos das armas e munições que Saleh e os sauditas usaram contra a população local. Muitas delas, armas fabricadas nos EUA – evidência que, só ela, já explicaria o antiamericanismo tão disseminado por lá.


Fui levada à fortaleza superprotegida dos Houthis em Saada e tive oportunidade de encontrar alguns dos principais comandantes houthis. “Nunca permitiremos que se repita o cenário de Ali Abdullah Saleh" – disse-me Mohammed Badreddine Al-Houthi. Fui tão profundamente impressionada pela evidente sinceridade daquelas palavras, pronunciadas em tom firme, desafiador, que para mim foi um choque quando, anos depois o vi dar as costas e renegar praticamente tudo que me dissera, quando imperativos políticos deslocaram os retóricos.


Em outubro de 2012, não muito tempo depois de eu ter retornado de Saada, e com ondas de choque da Primavera Árabe ainda reverberando pela região, Saleh foi deposto. Foi rapidamente substituído por Abd Rabbu Mansour Hadi, há muito tempo seu vice-presidente, numa transferência pacífica de poder orquestrada pelos países do Golfo e pelos EUA-ocidente.

Mas os Houthis não apreciaram nada daquilo e rejeitaram publicamente a iniciativa do Golfo, apesar de ter resultado na remoção de Saleh, arqui-inimigo deles. Viram ali, sobretudo, movimento de conluio entre Arábia Saudita e EUA – realmente, os principais apoiadores da iniciativa –, para sequestrar a revolução iemenita, principalmente quando tantos, na elite militar, principalmente membros do Partido Islah (Fraternidade Muçulmana) que apoiara as seis guerras contra os Houthis foram preservados nos mesmos cargos e posições, com os mesmos privilégios de antes. Apesar da queda de Saleh, a liderança Houthi entendeu que não acontecera qualquer mudança realmente importante.


Quando chegaram as primeiras notícias da derrubada de Saleh, telefonei a Ali – como a outros amigos dos dias da Praça Tahrir –, para dar-lhe parabéns. Ali disse que, embora muitos manifestantes já tivessem recolhido as barracas e deixado a praça, ele e seus companheiros Houthis lá permaneciam, para exigir a deposição de toda a elite iemenita governante. Insistiu que ainda eram necessárias muitas mudanças.


Em 2013, para surpresa de muitos observadores locais e em todo o mundo, os Houthis emergiram como atores chaves na Conferência Diálogo Nacional, CDN [ing. National Dialogue Conference (NDC)], iniciativa que envolvia representantes de diversas comunidades iemenitas. O objetivo era pôr o país numa nova trilha, adotar nova Constituição e organizar eleições democráticas. Mas, como iniciativa do CCG que era, a CDN estava sendo paga pelas monarquias do Golfo, apoiadas evidentemente pelos EUA. Assim sendo, os Houthis, pela participação no diálogo, pareciam estar implicitamente aprovando a transferência de poder para Hadi, apesar das repetidas críticas e condenações públicas.


Durante 2013, a popularidade dos Houthis cresceu significativamente entre a população do Iêmen. Não por causa da ideologia religiosa, mas, isso sim, por causa da percepção crescente de que eles "puseram algo de novo sobre a mesa" – e, também, por causa do crescente e alarmante vácuo político. O apoio aos Houthis subiu acentuadamente, especialmente porque a população via que o governo de transição não estava respondendo às necessidades do povo.


Nos cinco anos desde a queda de Saleh, os Houthis cresceram e são hoje movimento político nacional amplo. Eles se autodenominam Ansar Allah [Aliados de Deus] – e atualmente combatem contra o governo e também contra a Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA). Os apoiadores esperam poder enfrentar a corrupção crescente e restaurar a estabilidade que desapareceu do Iêmen desde a Primavera Árabe. Contudo, por mais que os Houthis confrontem políticos corruptos e suas práticas, como parte da "campanha do seu comitê revolucionário", eles também desperdiçaram bilhões da economia iemenita, por erros de administração e decisões econômicas equivocadas.


Com as coisas escapando do controle no início de 2015, o presidente Hadi renunciou, e os Houthis o mantiveram, com alguns de seus auxiliares, como refém, em prisão domiciliar. Estive no Iêmen naquele momento, e foi experiência realmente surreal ver o vastíssimo apoio manifestado aos Houthis, no caminho de Saada até Sanaa, em tão curto período de tempo. Da noite para o dia, os grafitis pró-Houthi pareciam brotar pelas paredes das vielas apertadas por toda Sanaa; novos pontos de controle foram estabelecidos, e os já existentes eram rapidamente cobertos de cartazes com slogans pró-Houthis.


Claro, é importante registrar que os Houthis jamais teriam chegado até onde chegaram não fosse a impressionante sequência de erros de Saleh e Hadi. Sobretudo, tribos e grupos de militares leais a Saleh, que se recusaram a lutar militarmente contra os Houthis, de Saada até Sanaa, pavimentaram essencialmente o caminho para os avanços do grupo.


Emergiu assim, portanto, uma bem improvável aliança entre Saleh e os Houthis, selada pelo inimigo comum: o Partido Islah, da Fraternidade Muçulmana. Muito rapidamente porém se tornou evidente que os Houthis estavam sendo engolidos pelas pressões e demandas gigantescas de exercer o poder e controlar partes substanciais do território iemenita. Pareciam ter-se metamorfoseado, como movimento; e já ambicionavam mais do que serem simplesmente reconhecidos: queriam crescer e dominar – possibilidade que, com o apoio de Saleh, sabiam que era bem real. Parece, contudo, que não deram muita atenção à questão de o que fazer depois.


No final de fevereiro de 2015, o presidente Hadi escapou da prisão domiciliar e voou para Áden, onde cancelou a renúncia e declarou ilegítimo o governo dos Houthis. Foi quando começou a verdadeira guerra. Os Houthis seguiram Hadi, e Áden foi sitiada. Hadi fugiu do país, para reaparecer, duas semanas depois, em Riad. Pouco depois, os sauditas iniciaram a terrível campanha de bombardeios ininterruptos que continua até hoje.


Já perto de se completarem três meses desses ataques, em março de 2015, a ONU organizou conversações de paz em Genebra, da qual participaram delegados do governo no exílio na Arábia Saudita e outros grupos do Iêmen, inclusive os Houthis. Foi ali que, pela segunda vez, encontrei-me cara a cara com Ali Al-Emad.


Meus colegas jornalistas e eu passáramos todo o dia à espera no saguão do hotel, pela chegada da delegação dos Houthis, e pouco se sabia de por que estariam atrasados ou quem viria. Fácil adivinhar minha surpresa ao ver Ali, meu amigo que eu vira de camiseta e calças jeans da barraca da Praça Tahir, entrando para a conferência da ONU, como chefe da delegação dos Houthis.


Ao reconhecê-lo, na saída do elevador, fiquei confusa. O que estaria fazendo em Genebra? Vi toda a imprensa saltar na direção dele, câmeras miradas sobre ele e microfones à frente, na esperança de recolherem alguma frase exclusiva…


Ele me reconheceu e fez um aceno com a cabeça. "Olá, Ali... Você foi promovido..." – comecei a dizer. – "Mr. Ali, por favor", ele me corrigiu. Entendi que já não era "meu amigo da Praça Tahrir". Alcançara uma posição de poder que ninguém, e ele próprio menos que todos, poderia ter imaginado; posição para a qual – muitos poderiam dizer – ele absolutamente não tinha qualificação para ocupar. O rapaz da Praça Tahrir, que me falara tão apaixonadamente sobre o sofrimento dos Houthis, e há tão pouco tempo, agora era Mr. Ali, presidente do Comitê Revolucionário, repentinamente distanciado dos demais cidadãos pelas armadilhas do poder, de secretários particulares, compromissos e agendas.


Vendo Ali, senti que aquela conversão pessoal capturava perfeitamente o surpreendente crescimento dos Houthis. Ninguém esperava que crescessem tanto.

À minha pergunta sobre a aliança dos Houthis com Saleh, Ali respondeu resposta ensaiada: o Congresso Geral do Povo [ing.General People's Congress (GPC)] é partido político e, como tal, tem interesse em se aliar a qualquer partido que vise aos melhores interesses do Iêmen. Insisti: "mas Saleh fez seis guerras contra vocês!"


A narrativa dos Houthis já havia mudado: Saleh não fizera aquelas seis guerras contra eles, mas o Partido Islah, da Fraternidade Muçulmana, que controlava a facção do exército encarregada de combater contra os Houthis. Resposta impressionante, mas que não enganaria ninguém. Afinal os Houthis sabiam, melhor que todos, que a rápida expansão e a ascensão teriam sido impossíveis sem o endosso e o apoio de Saleh.


Hoje, os houthis continuam sua luta para manter firme controle sobre todas as instituições em todo o Iêmen. Quanto mais rígido o controle, porém, mais rapidamente deixam escapar entre os dedos a lealdade popular.


Por mais que seus feitos militares sejam impressionantes e inquestionáveis, com notáveis talentos militares para vencer batalhas nas ruas de Sanaa, nada disso substitui as capacidades políticas e de organização indispensáveis para governar um país depois que as armas se calam. Os Houthis são talentosos artistas na arte da guerra e da guerrilha, mas têm-se mostrado completamente fora de suas capacidades nas duras lutas da política e da governança. Há hoje, sim, risco real de rápido e desastroso colapso, que ameaça arrastar com ele todo o país.


Durante minha recente visita ao Iêmen, em junho de 2015, percebi alteração clara nos sentimentos populares em relação aos Houthis por todo o país. Gente que os apoiava empenhadamente, porque acreditava no projeto de longo prazo dos Houthis está hoje decepcionada pela falta de visão deles, e pela nenhuma compreensão política das coisas.


Como me disse alguém, tarde da noite, numa reunião em que se mascava catinona [qaat-chewing], ouvindo os jatos sauditas a zunir nos céus de Sanaa: “Gostávamos deles quando vieram e derrubaram os preços do petróleo. Mas agora, com os ataques dos sauditas, o fogo antiaéreo dos Houthis e tal, tudo, até o combustível está tão caro... Não queremos mais os Houthis – nem Hadi, se você quer saber. – Só queremos que as coisas voltem a ser o que eram antes." 


Absolutamente não era voz isolada; praticamente todos com quem falei em Sanaa mostravam-se fartos da guerra, tão esgotados que, sim, considerarão até um retorno de Saleh. Pensando sobre esse desdobramento dramático, me ocorre que esse, talvez, fosse o desfecho que Saleh sempre buscou e em direção ao qual trabalhou.


Não voltei a ver Ali depois do rápido encontro, semana passada. Ao vê-lo andar pelo saguão do hotel, cercado de admiradores, penso se os Houthis estariam mesmo cogitando de deixar o norte, como há quem diga que farão, para retornar a Saada.


E se o desfecho pode ser esse, a ideia que não me sai da cabeça é "e depois?" O que fará Ali Al-Emad? *****


Entreouvido na Vila Vudu:


Jornais-empresas, jornalistas e jornalismos são doentiamente obcecados com achar que revolucionários 'não são capazes' de governar depois da vitória revolucionária. Por isso, tanta gente -- a tal da 'opinião pública', que não existe ou, se existe, coincide com a "opinião publicada" -- pensa que pensa a mesma coisa. Esse artigo não foge a essa regra. 


Resolvemos traduzir e distribuir, porque aí se encontram alguns fatos, satisfatoriamente bem organizados --, sem excessivo viés jornalístico deformante --, que absolutamente não se conhecem por aqui.
 

É só ler como se lê o 'jornalismo' brasileiro: recolhendo o que preste e des-lendo o besteirol metido a 'ético', a 'democrático', a 'ecológico', a 'feminista' à moda Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão), etc. -- besteirol que sempre, sempre, sempre, é jornalístico-conservador, jornalístico-reacionário, jornalístico-golpista etc.



* A Resistência Árabe não fala de "Houthis" – denominação dada pelos sauditas, a partir do nome de Hussein al-Houthi (com conotação, parece, depreciativa). A Resistência Árabe refere-se sempre à "revolução popular vitoriosa liderada pelo Movimento Ansar Allah, com a cooperação e a assistência do Exército iemenita e de vários grupos da população iemenita, seções e tribos, independentemente de tendências e seitas", como se ouve de Sua Eminência Nasan Nasrallah do Hezbollah. Adiante, no texto, há uma referência a essa denominação [NTs].