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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Depois que Merkel acabar de destruir a Alemanha, e Cameron, a Europa; e depois que Obama tiver perdido sua guerra contra o Kremlin, Putin será o último homem à tona (e a Rússia estará livre dos oligarcas).          


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John Helmer, Dance with bears     

Tradução pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu          

"É artigo de provocação. Mas, se você acompanhou a imprensa-empresa anglo-europeia durante os dois últimos anos, sabe que Putin já teria de ter sido destruído. Sanções ocidentais, preços muito baixos para o petróleo foram medidas concebidas para encurralar Putin contra a parede e obrar mais uma 'mudança de regime', nesse caso no Kremlin, ou, no mínimo, para enfraquecer Putin de tal modo que os EUA pudessem dar início a mais um daqueles seus enredos para "mudar o tabuleiro do jogo estratégico", que em geral deixam, por onde passem, um rastro de estados destruídos.

Mas Putin, presidente de um país de segundo escalão em termos econômicos, e apesar de ter sempre lutado contra adversários mais pesados que ele, em termos geopolíticos, desequilibrou-os a ponto de deixá-los zonzos e, agora, até já organizou uma coalizão no Oriente Médio que, pelo andar da carruagem, arrancará dos EUA um objetivo para cuja conquista vários governos norte-americanos apostaram grande parte da própria reputação, além de muito dinheiro, a saber, arrancar Assad da presidência da Síria. 

Como Putin fez tudo isso? Como é possível? O que aconteceu?"

(3/11/2015, 
Naked Capitalism, (ing.), Ives Smith, introdução ao artigo que abaixo se lê)
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Desde que os EUA iniciaram a queda de regimes-dominós em Kiev em fevereiro 2014, já derrubaram o regime polonês, e o francês está condenado – presidente François Hollande será derrotado por qualquer um dos candidatos que concorrem contra ele, inclusive Marine Le Pen da Frente Nacional. O primeiro-ministro britânico David Cameron pode adiar sua prestação de contas, mas para efeito europeu, não dentro de casa. A chanceler alemão Angela Merkel tem menos apoiadores a cada dia que passa. Quando Merkel cair, levará com ela a União Europeia (UE) em ruínas.

A Rússia, sob ataque eterno de EUA, Alemanha, França e Grã-Bretanha na guerra para derrubar o presidente Vladimir Putin, é agora o único país europeu cujos eleitores manifestam mais apoio aos próprios governantes, não menos, que antes. É também o único com capacidade para resistir contra a imigração não desejada; para converter sua economia de modo a que gere crescimento economicamente sustentável; e para derrotar, pela força, os inimigos do próprio povo russo. A guerra para 'proteger' a Europa contra a Rússia está destruindo, em velocidade impressionante, a Europa. 

Quando há guerra internacional, o capital internacional é obrigado a virar nacional. Historicamente, essa transformação foi implantada pela pirataria naval de tipo elizabetano, pelos bloqueios napoleônicos, por negociação com os estatutos inimigos, ou por sanções de tipo "EUA". Durantes esses episódios, o capitalismo internacional deixa de existir, exceto como mercado negro ou contrabando. A regulação (reforma) dos mercados internacionais passa a ser subordinada dos interesses do capital nacional, de modo que os compadres da nação impõem-se sobre reformadores internacionais.

As sanções de EUA e UE do tipo imposto desde março de 2014 (individual, setorial, cirúrgicas, invisíveis) representam um dos fronts da guerra EUA-UE contra a Rússia. Esse tipo de guerra breca a internacionalização do capital, como quando o comércio de commodities é precificado em dólares norte-americanos; os bancos dos EUA fazem a lavagem; e sistemas como SWIFT, Visa e Mastercard transferem o dinheiro. A Rússia (China e Índia também) passa(m) a ter de nacionalizar as próprias instituições, instrumentos e apparatchiki do capital.

Resultado de imagem para Merkel and TymoshenkoA justificativa introdutória para as sanções dos EUA como ataque contra o "círculo íntimo" em torno de Putin não passou de camuflagem para uma estratégia para tentar mudar o regime na Rússia – e nunca foi campanha para sanear os abusos do capital internacional, evasão de impostos, corrupção. A perseguição extrajudicial, pelos EUA, contra capitalistas corruptos e apaniguados é tática de guerra, não política empresarial nem, menos ainda, doutrina jurisprudencial. Aplica-se contra "inimigos" como Dmitry Firtash, mas não contra "amigos" como Yulia Tymoshenko.

A divulgação, semana passada, dos memorandos redigidos por advogados do governo dos EUA, para o presidente Barack Obama, justificando o assassinato planejado de Osama bin Laden em maio de 2011, confirma o que é óbvio, na guerra contra a Rússia. "Havia também um trunfo" – o New York Times noticiou. – "Por mais que os advogados acreditassem que Mr. Obama estivesse obrigado a cumprir a lei doméstica, eles também acreditavam que ele podia decidir violar a lei internacional e autorizar uma ação clandestina, disseram alguns funcionários."

A força não é a única violação da lei doméstica dos EUA que pode ser empregada em terra estrangeira. O suborno é tradicional arma de estratégia de estado; claro que não é monopólio, nem do Kremlin, nem da Casa Branca. O antigo império romano, e o império bizantino que o sucedeu, três vezes mais longo, ilustram o óbvio. Pagar para neutralizar os inimigos, ou persuadi-los a ser amigáveis, é muito mais objetivamente efetivo, previsível, menos arriscado que mobilizar exércitos enormes capazes de conter rebeliões locais, fazer incursões transfronteiriças ou invadir. Para ter ideia clara do custo das infindáveis guerras dos EUA no Afeganistão e Iraque, leiam 
isso.

É igualmente óbvio que exércitos e armas não podem defender fronteiras e territórios em profundidade, sem sistemas internos operantes para arrecadar impostos para pagar o que custam os exércitos e as armas. Nos anos finais da União Soviética, o Politburo em Moscou tentou, sem sucesso, intervenções armadas na Lituânia, depois no Azerbaijão. Mas rapidamente desistiram da opção de força, e abandonaram o esforço para impor o poder direto. Demoraram ainda mais até serem persuadidos a abandonar os meios para manter intacta a zona do rublo de estados ex-soviéticos, mediante um único banco central e um sistema comum de financiar o rublo. 

Depois que a União Soviética colapsou, em lugar dos controles militares, administrativos e financeiros do velho sistema, o Kremlin usou (criou) os oligarcas russos para restaurar uma medida considerável da sua antiga influência. Não tão diretamente nem tão obviamente potentes como o Partido Comunista, a segurança da KGB, o aparato do Gosbank e os comandos do Exército Vermelho haviam sido antes de 1991; mesmo assim, os oligarcas funcionaram bem para restaurar a influência pessoal com as elites governantes centro-asiáticas, obtendo assim meios únicos para antecipar e neutralizar tantas ameaças aos interesses do estado russo quantas pudessem estar em cogitação. Os russos conseguiram fazer isso pagando em dinheiro – a preços que não passavam de minúscula fração do velho preço soviético. 

Os EUA empregaram exatamente os mesmos meios, dentro da Federação Russa e dentro da União Soviética. O caso do 
processo, pelo governo dos EUA de James Giffen, por ter subornado altos funcionários no Cazaquistão, é exemplar. A defesa de Giffen ante uma corte federal em New York, que o acusava de subornar e corromper funcionário estrangeiro, foi que Giffen agira com mandado da CIA. O juiz federal acolheu a defesa e encerrou o processo: "Nada há a discutir. O Sr. Giffen foi importante fonte de informação para o governo dos EUA e portador de informação secreta saída da União Soviética, durante a Guerra Fria. Fez voluntariamente o que fez e foi dos raros norte-americanos com acesso continuado e confiável aos mais altos níveis do oficialato soviético. (...) Esse relacionamento, construído ao longo de uma vida, foi perdido no dia em que ele foi preso. Esse calvário tem de acabar. Como o Sr. Giffen poderá recuperar sua reputação? Essa corte dá o primeiro passo, reconhecendo os serviços por ele prestados."  

Na esfera russa de influência, o sistema dos oligarcas (incluindo as corporações estatais de energia) foi bem-sucedido na proteção dos interesses estratégicos do Kremlin na Armênia, Uzbequistão, Turcomenistão, Cazaquistão, Tadjiquistão e Quirguistão. Não foi tão bem- sucedido, embora ainda garantindo apoio positivo, na Bielorrússia. E foi malsucedido na Geórgia e na Ucrânia.

Nesses países, dado que os EUA optaram por usar a força – não importa que sob forma de guerra 'híbrida' ou de guerra 'por procuração' – o Kremlin foi obrigado a contrarreagir também pela força. A derrota da força dos EUA na Geórgia, em agosto de 2008, levou os EUA a usarem força muito maior na Ucrânia em 2014. 

Na Ucrânia, o substancial confisco de bens, os controles sobre oferta de energia e o clientelismo político que Rússia, seus bancos estatais e os oligarcas russos haviam estabelecido ali, mostraram-se mal protegidos e impotentes quando os EUA usaram força para derrubar o regime do presidente Victor Yanukovich. Depois que aconteceu, dentro do Kremlin Putin perdeu o efeito de equilíbrio de seus "internacionalistas" e facções "empresariais", e foi obrigado a seguir o curso previsto e mapeado, não pelos siloviki (como são conhecidos em geral), mas pelo Estado-maior e pelos serviços de inteligência. Consequência disso foi uma revolução silenciosa que ninguém fora da Rússia percebeu. 

O sistema russo oligárquico (também conhecido como capitalismo clientelista russo [orig. Russian crony capitalism]) decidiu, primeiro, manter no poder um presidente fraco, corrupto, cliente dos EUA: Boris Yeltsin. Na sequência, o sistema oligárquico mostrou-se bem adequado para projetar o poder econômico russo para o exterior, e para fazer expandir o apoio doméstico a Putin, depois que ele eliminou as ameaças instaladas na linha de frente dos oligarcas – Vladimir Gusinsky, Boris Berezovsky e Mikhail Khodorkovsky. O sistema era volátil e competitivo, mas estável. Até que os EUA usaram de força para fazer acontecer uma mudança de regime na Rússia. 

Daquele momento em diante, tornou-se óbvio que o sistema carecia de poder político nos países e mercados nos quais os oligarcas russos haviam tentado convencer o Kremlin de que seriam poderosíssimos. Mikhail Fridman tinha, continua a ter, patrimônio valioso na Ucrânia, mas zero de poder político, na hora de fazer as contas, ano passado. Roman Abramovich e Alisher Usmanov estão entre os homens mais ricos que vivem no Reino Unido – mas se provaram impotentes, quando o capital britânico uniu forças com os EUA para atacar Putin. Alexander Lebedev é dono de dois jornais e de um canal de televisão em Londres, mas seu filho Evgeny usa esses veículos para morder a mão que o alimentou. Mikhail Prokhorov, Alexander Abramov e Vagit Alekperov, os oligarcas que têm o maior capital aplicado nos EUA, não conseguem manifestar a mesma capacidade de resistir que outros de seus pares em outros países, quando o governo ou o Congresso dos EUA vira hostil.

Esses oligarcas provaram-se mal adaptados para guerrear. Isso, porque foram internacionalizando seu capital e, ao fazê-lo, foram-se tornando reféns dos instrumentos de guerra que hoje EUA e europeus estão usando.

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Rogozin e Glazyev

Três figuras do mundo político russo compreenderam tudo isso e o declararam publicamente: o vice-ministro da Defesa Dmitry Rogozin
; o às vezes conselheiro presidencial Sergei Glazyev; e o coronel Igor Girkin proponente da guerra na Novorrússia. Os três aparecem nas listas de EUA-UE de nomes postos sob sanções. 

Com o colapso do comércio internacional de commodities e o corte nos financiamentos internacionais para eles, o endividamento dos oligarcas resultou na virtual nacionalização daqueles patrimônios por bancos estatais russos. Individualmente, os oligarcas continuam, enquanto Putin e os serviços de segurança entenderem que se comportam com lealdade e patriotismo; e sob a condição de que aceitem o novo papel, como avalistas do Estado, não como capitalistas empreendedores. 

Resistência da velha guarda, como a de Igor Zyuzin da [empresa] 
Mechel, contra a compra de sua mineradora e siderúrgica falidas pelo Sberbank, é a exceção que ajuda a verificar a regra. Mais exemplar é o caso de Oleg Deripaska que recentemente converteu a Rusal, monopólio de alumínio, de exportadora global de minérios, para fábrica integrada verticalmente para o mercado doméstico de minério de bauxita para fabricar estruturas de janelas; detalhes, aqui. 

E há também o caso de Alexei Mordashov. A última vez que Putin convocou os oligarcas para dar-lhe ordens quanto a o que fazerem, foi num jantar no Kremlin dia 19/12/2014. Aqui está 
a lista de convidados; Mordashov estava sentado alfabeticamente à direita de Putin. Um mês depois, dia 19/1, ele se encontrou com Putin (imagem) no Kremlin para discussão mais íntima. 

A transcrição parcial de gravações do Kremlin mostra Mordashov dizendo a Putin que está feliz por estar atualmente focado na Rússia. – De fato, como diz, ele está fazendo mais dinheiro por causa disso. "Ano passado, aumentamos levemente o volume de nossa produção: a produção de aço subiu 2%. De modo geral até se diria que tivemos bons indicadores, primeiros do mundo em termos de fatores importantes como lucratividade da produção e volume líquido de endividamento. Ao mesmo tempo, trabalhamos bem no exterior, mas chegamos à conclusão de que nosso futuro está primariamente aqui, na Rússia, no mercado russo, e nossa produção aqui é mais eficiente. Vendemos a divisão norte-americana e estamos quase totalmente focados em nossas empresas russas. Isso levou a nível bem considerável de lucros." Para saber dos vários bilhões de dólares que Mordashov investiu nos EUA, não na Rússia, e logo perdeu, leiam 
aqui. 

"Acreditamos que nosso futuro está primariamente aqui, na Rússia, no mercado russo" – disse ele, mas só quando já não tinha escolha se não acreditar precisamente nisso. "No momento, há muitas conversas sobre tempos difíceis e tal. Mas penso que o que está acontecendo agora, apesar de algumas sérias dificuldades, também representa bom potencial para crescimento. Em outras palavras, o que está acontecendo é uma correção séria nos indicadores macroeconômicos, mas por outro lado esses eventos estão tornando mais competitiva a produção nacional."

Mordashov não faz essas viagens até o gabinete de Putin para trocarem figurinhas. Quase sempre, vai pedir licença para gastar algum dinheiro fora da Rússia; para saberem o que aconteceu depois que Putin atendeu ao pedido dele, em maio de 2006, 
clique aqui. Dia 19 de janeiro passado, parece não ser exceção. A transcrição do Kremlin é interrompida com Putin dizendo: "Bom. Obrigado." Será que Mordashov, na continuação, disse que queria gastar mais de um bilhão de dólares na compra de ações de Tui, grupo de turismo listado na Bolsa de Londres, com sede na Alemanha? O porta-voz de Mordashov em Moscou não responde, mas há sinais surgindo na Alemanha de que Mordashov pediu permissão e Putin permitiu.

Segundo matérias de jornais alemães, que têm sido repetidas na imprensa de negócios em Moscou, em agosto Mordashov pediu autorização da agência alemã de regulação antitrustes, para comprar 12% das ações do grupo Tui, que se acrescentariam aos 13% que ele já tinha. A matéria alemã 
surgiu dia 21 de agosto; a russa, dia 4 de setembro. Mordashov informou ao governo alemão que está atuando mediante uma empresa de Chipre, de nome Unifirm. A proposta de compra de 71 milhões de ações de Tui custariam a Mordashov £859 milhões (1,3 bilhão de dólares) a preços atuais de mercado. Sem revelar o custo, ele contou a um jornal de Moscou: "Posso e quero [ampliar minha parte das ações], me parece. Acho que não ultrapassarei o limite de 30%, a partir do qual teria de fazer uma oferta aos acionistas. O pacote que desejo é de 20% a 25%, dependendo da situação." É o maior investimento único de oligarca russo fora da Rússia, que Putin autorizou pessoalmente desde que anunciou publicamente que estava proibindo precisamente esse tipo de investimento. O que virá depois disso?

A guerra norte-americana – incluindo o front ucraniano, o front sírio e o front no Norte da África – não pode continuar a ser sustentada por muito tempo na Europa, porque os custos são altos demais para os orçamentos nacionais pagarem e para o eleitorado tolerar. A crise dos refugiados demonstra que o respingamento dessas guerras norte-americanas está quebrando qualquer tipo de acordo e consenso político europeus, ameaçando portanto todos os partidos governantes e muitos dos partidos de oposição por toda a Europa. O sistema Putin de governar é mais bem adaptado agora, que o sistema europeu, para guerra prolongada, apesar doa altos custos domésticos. 

O clientelismo no governo dos EUA também é prática pouco adaptável à atual situação. Isso, porque nenhum governante norte-americano consegue implementar o que quer que decida fazer, seja aos amigos seja aos inimigos, e, assim, os EUA não têm como combinar com os aliados os seus gambitos de guerra (como, antes, foi possível combinar, no Afeganistão, no Iraque e na Líbia). Pelo mesmo motivo, nenhum acordo de paz que os EUA negociem com rivais ou adversários será jamais estável.

John Helmer


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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Segunda Guerra Mundial:
A Guerra Desconhecida



por Dr. Paul Craig Roberts


Em minha coluna de seis de junho, “As mentiras só aumentam...” mencionei que Obama e o primeiro ministro britânico, o cão de colo de Obama, da mesma maneira que Bush tinha seu cão de colo britânico, Tony Blair, conseguiram celebrar a derrota do nazismo alemão no aniversário dos setenta anos da Normandia sem mencionar os russos.

Salientei o fato de que, como bem sabem os historiadores e pessoas instruídas, o Exército Vermelho já tinha derrotado o nazismo alemão bem antes que os Estados Unidos sequer estivessem aptos a participar da guerra. Com certeza a invasão da Normandia não foi o fato que derrotou os nazistas. O que na realidade a invasão da Normandia evitou foi que o Exército Vermelho se derramasse por toda a Europa.

Como já ressaltei em outras colunas, alguns norte americanos, se não muitos, têm crenças que não são baseadas em fatos, mas em emoções. Então, eu sabia que minha coluna deixaria pelo menos uma pessoa furiosa... e ficou. JD, do Texas, escreveu para me elucidar. Foram “nossos rapazes americanos” e mais ninguém, que ganharam aquela guerra. JD nem tem conhecimento de que os russos estiveram na mesma guerra.

Antes de fazer o papel de palhaço, JD poderia ter consultado uma enciclopédia, ou um livro de história, ao mesmo entrar na internet e consultar a Wikipedia. Mas não. Ele preferiu descarregar sua raiva em mim. JD é o exemplo perfeito da política externa dos Estados Unidos: intrometer-se em cada luta da qual você não sabe patavinas, fazer um grande escarcéu e ficar com os créditos da luta que outros vencerão.

De repente me dou conta de que a Segunda Grande Guerra aconteceu há tanto tempo que restam poucas pessoas vivas que se lembram dela e a esta altura até mesmo esses poucos provavelmente recordam a versão de propaganda política que eles têm ouvido a cada comemoração do Memorial Day e 04 de Julho desde 1945. Não é de se admirar que nem Obama nem Cameron ou os idiotas que escrevem seus discursos não saibam coisa alguma sobre a guerra que estão a comemorar.

Propaganda política sempre foi o nosso forte. A diferença é que hoje, em pleno século 21, nós só temos a propaganda política. Mais nada. Só mentiras. Mentiras se tornaram a especialidade dos norte americanos. Tal como é, o mundo real é desconhecido para a maioria dos norte americanos.

Em 1973 a televisão britânica exibiu uma série de documentários que relatam a Segunda Grande Guerra. Dos 28 episódios, em apenas três deles e em uma parte de um quarto episódio reconhecem a participação russa na guerra. Do ponto de vista britânico a vitória foi Anglo Americana.

Para o governo Soviético, isso não ficou bem. Seus arquivos de filmes sobre a guerra foram oferecidos ao ocidente. Em 1978 uma série composta de 20 episódios de 48 minutos foi exibida em um documentário norte americano de televisão, narrado por Burt Lancaster. O título do documentário era: “A guerra desconhecida”.

Criados ouvindo propaganda política como são os cidadãos americanos, com certeza a guerra era para eles uma completa desconhecida.

O documentário “A guerra desconhecida” foi como uma revelação para os norte americanos porque demonstra sem margem para dúvidas que os nazistas da Alemanha perderam a Segunda Grande Guerra no front russo. Dos 20 episódios, “Os Aliados”, isto é, os Anglo Americanos e a França livre aparecem apenas no de número 17. Mas um em vinte não passa da proporção correta para a participação do ocidente na derrota da Alemanha Nazista.

Se você pesquisar na internet, encontrará “A guerra desconhecida” com apenas uma entrada na Wikipedia. Pode ser que a série ainda esteja disponível no YouTube. Ela foi retirada do ar quando a União Soviética invadiu o Afeganistão, uma besteira que ocorre repetidamente, provocada por beócios em Washington. Para Washington, era mais importante demonizar a União Soviética que qualquer verdade histórica ser apresentada. Por isso, a verdade documentada na série “A guerra desconhecida” foi expulsa da TV dos Estados Unidos. Posteriormente, o documentário reapareceu no History Channel.

Em meu artigo de 06 de junho eu disse, de acordo com o consenso entre historiadores, que a Alemanha Nazista perdeu a guerra em Stalingrado. Neste artigo: http://www.globalresearch.ca/70-years-ago-december-1941-turning-point-of-world-war-ii/28059 o historiador Dr. Jacques R. Paulwels diz que a Alemanha perdeu a guerra 14 meses antes, na Batalha de Moscou em Dezembro de 1941. É uma boa argumentação. Concorde-se ou não com ele, os fatos que apresenta são reveladores para os “americanos excepcionais, indispensáveis” que acreditam piamente que sem eles, nada acontece.

A invasão da Normandia, em junho de 1944 aconteceu 2,5 anos depois que a Alemanha perdeu a guerra na Batalha de Moscou. Como os historiadores tornaram claro, em junho de 1944 a Alemanha tinha bem pouco com o que lutar. Tudo o que sobrou do exército alemão estava no front oriental.

Na comemoração dos setenta anos da invasão da Normandia, na França, Obama informou ao seu capacho francês, o presidente Hollande, que ele, Obama, o governador do país excepcional, não se sentaria à mesa para jantar com Putin, o russo. Norte americanos são bons demais para comer na companhia de russos. Daí, Hollande tinha que promover dois jantares. Um para Obama, outro para Putin. A comida francesa ainda é muito boa, graças ao banimento dos alimentos geneticamente modificados e provavelmente Hollande não se importou. Eu mesmo gostaria de estar nos dois jantares, mesmo para comer sozinho.

Como geralmente acontece com toda a notícia que é realmente importante, o jantar para Putin e o que significa não foi objeto da atenção da mídia presstituta americana, a maior coleção de putas que há no mundo. Se não me falha a memória, normalmente os russos são deixados de lado nas comemorações sobre a Normandia. Afinal de contas, a guerra foi ganha no ocidente, o que é que os russos têm a ver? Nada, é claro. “Nossos rapazes” fizeram tudo, como bem me informou JD. Russos? Que russos?

Ocorre que desta vez a França convidou Putin para as celebrações. Putin não foi orgulhoso. Compareceu. Nas horas de folga, Putin conversou com políticos europeus, e esses políticos tiveram a oportunidade de ver uma pessoa real, não uma farsa ambulante como Obama.

A superioridade flagrante da diplomacia russa sobre a de Washington é clara como água para todos. A posição de Putin é: “estamos juntos nisso. Podemos resolver as coisas”. A posição de Washington é: “obedeça ou será bombardeado até voltar à idade da pedra”.

A Rússia acolhe seus estados clientes. Washington não. Putin disse que está disposto a trabalhar para resolver as coisas com o corrupto bilionário imposto por Washington para governar a Ucrânia, enquanto Washington forçou os búlgaros a parar os trabalhos de construção do gasoduto South Stream. Este gasoduto para transporte de gás natural, evita a Ucrânia e passa sob o Mar Negro indo até a Bulgária. Como a Ucrânia, novo estado fantoche de Washington não pagou nem paga sua dívida bilionária (em dólares) de gás natural à Rússia e ameaça romper os gasodutos para a Europa com o propósito de roubar o gás que seria destinado aos europeus, a Rússia, apesar das sanções do ocidente, preparou-se para construir um novo gasoduto dirigido à Europa, com a finalidade de que os europeus não necessitem desligar as máquinas de suas indústrias, não congelem no inverno e não tenham a economia em colapso por necessidades energéticas não supridas.

Para Washington, o compromisso de Putin com a Europa não passa de uma ameaça e trabalha para evitar qualquer fluxo de energia da Rússia para a Europa.
Contrastando com a posição de Putin, a posição de Washington é: Não damos a menor importância para nossos fantoches europeus. Como o resto da humanidade, os fantoches europeus não contam e são dispensáveis, um mero dano colateral na guerra do país indispensável pela hegemonia mundial.

Tudo o que importa para Washington é causar algum tipo de dano para a Rússia, sem se importar com os danos causados aos seus regimes fantoches na Europa Ocidental e Oriental, o que inclui o imbecil governo polonês, talvez o único governo em cima do planeta Terra que seja ainda mais idiota que Obama.

Washington está tentando fortemente interromper as relações econômicas da Europa com a Rússia. Prometeu suprir à Europa com gás natural dos Estados Unidos, obtido através da exploração do gás de xisto. A promessa é mais uma mentira, como é mentira tudo o que Washington diz.

Em 20 de maio o jornal Los Angeles Times relatou que “as autoridades federais cortaram em 96% a expectativa de óleo recuperável no grande depósito de xisto de Monterey”. A formação de Monterey de petróleo de xisto contém cerca de dois terços da reserva total dos Estados Unidos e desta reserva, apenas 4% é recuperável. http://www.latimes.com/business/la-fi-oil-20140521-story.html

Quanto ao gás, William Engdahl relatou que, no melhor dos mundos, os Estados Unidos tem cerca de 20 anos de gás natural recuperável através do fracking, e que o preço desta extração será a degradação das águas de superfície e subterrâneas dos Estados Unidos. Especialistas assinalaram que a infraestrutura para transportar o gás natural dos Estados Unidos para a Europa ainda não existe e que demorará três anos para que essa infraestrutura seja construída. O que fará a Europa por três anos enquanto espera pela energia dos Estados Unidos para substituir a energia cortada da Rússia? A Europa ainda estará lá?

Que os vassalos europeus dos Estados Unidos tomem nota: Washington está preparado para destruir a economia de seus vassalos a fim de marcar pelo menos um ponto contra a Rússia.

Como é possível que até agora a Europa ainda não tenha entendido como pensa Washington? Aquele saco de dinheiro deve ser bem grande.

Como já disse aqui muitas vezes o Secretário Assistente de Defesa para Assuntos Internacionais de Segurança me falou anos atrás que Washington compra políticos europeus com sacos cheios de dinheiro. Resta saber se os “líderes” europeus estão dispostos a sacrificar seus povos e suas reputações para se tornarem cúmplices na guerra que Washington está planejando contra a Rússia, uma guerra que pode significar o fim da vida na Terra.

A Europa está sendo convocada. Se os líderes disserem a Washington “não acontecerá, esquece!” o mundo estará salvo.


Se, ao invés disso, os políticos europeus quiserem o dinheiro, o mundo estará condenado.

Os europeus seriam os primeiros a ir.



Dr. Paul Craig Roberts nascido em 03 de abril de 1939 é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da ReaganomicsEx-editor e colunista do Wall Street JournalBusiness Week e Scripps Howard News ServiceTestemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

Tradução: mberublue







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