sexta-feira, 23 de maio de 2014

Putin contra o camarada Lobo

Duelo na Ucrânia...


 
por Mike Whitney



“O camarada lobo sabe o que comer e não pede licença a ninguém”
– o presidente russo referindo-se aos Estados Unidos.

A crise na Ucrânia tem suas raízes em uma política que remonta há 20 anos. Sua origem pode ser rastreada até um artigo de Zbigniew Brzezinski, em 1997, na Foreign Policy Magazine (Revista de Política Externa), intitulado “A Geostrategy for Eurásia” (Uma geoestratégia para a Eurásia), onde defende que os Estados Unidos precisam estabelecer-se firmemente no Ásia Central a fim de manter sua posição de única superpotência mundial. Mesmo que muitos leitores estejam familiarizados com a forma de pensar de Brzezinski em relação a estas questões, podem estar perdidos quanto ao que ele fala sobre a Rússia, o que seria muito esclarecedor, já que o recente incremento da violência tem mais a ver com a guerra por procuração movida contra a Rússia que com a Ucrânia em si mesma. Eis o que diz Brzezinski:

A forma pela qual se auto definirá a Rússia tem muito a ver com o papel que desempenhará a longo prazo na Eurásia...  Mais do que tentar readquirir o status de potência global, a Rússia deve priorizar a sua própria modernização. Dado o tamanho do país e sua diversidade, um sistema político descentralizado somado à economia de livre mercado provavelmente se mostrará a melhor opção para liberar o potencial criativo do povo russo, assim como de seus vastos recursos naturais. Uma confederação russa que não fosse tão rígida, composta de uma Rússia Europeia, uma República Siberiana e uma República do Extremo Oriente, poderia inclusive tornar mais fácil o cultivo de relações econômicas mais estreitas com seus vizinhos. Cada um dos estados confederados se habilitaria então para a exploração de seu próprio potencial criativo local, sufocado ao longo dos séculos pela mão pesada da burocracia moscovita. Ao mesmo tempo, uma Rússia descentralizada seria menos suscetível aos movimentos do império. “Zbigniew Brzezinski, Uma geoestratégia para a Eurásia – Relações Exteriores, 76:5, setembro/outubro de 1997.”

Então, essa é a meta política dos Estados Unidos: criar uma “Confederação russa frouxa”, com uma economia que poderia ser incorporada ao sistema baseado no mercado dos EUA?

Veja como é fácil para Brzezinski fatiar a Rússia em pequenos, mínimos estados sem poder para ameaçar a expansão imperial dos EUA. Indubitavelmente Brzezinski tem a visão de uma Rússia vendendo a baixo preço seus “vastos recursos”... em petrodólares, lógico! Para em seguida reinvesti-los em Títulos do Tesouro Americano tornando ainda mais ricos os usurários corruptos de Wall Street e Washington. Antevê ainda uma Rússia que abdicará de seu papel histórico no mundo e não terá voz ativa na elaboração da política global. Ele imagina uma Rússia cabisbaixa e conformada que facilitará as ambições imperiais dos Estados Unidos na Ásia, até o ponto mesmo em que deverá pagar para reprimir seu próprio povo em nome dos oligarcas dos Estados Unidos, fabricantes de armamento, magnatas do petróleo e o 1%. Vejamos um parágrafo da peça composta por Brzezinski que faz um resumo das metas de Washington na Ucrânia, na Rússia e o que mais aparecer. As seguintes palavras foram apropriadamente colocadas em negrito:

“SEGURANÇA TRANSCONTINENTAL”

“Institucionalizar a forma e definir a substância de um sistema de segurança trans-Eurásia pode vir a se tornar a maior iniciativa de arquitetura política do próximo século. A base de uma nova estrutura de segurança transcontinental poderia ser um comitê permanente composto dos maiores poderes da Eurásia mais os EUA, a Europa, a China, o Japão, a Confederação Russa e a Índia, que poderiam discutir coletivamente os assuntos inerentes à estabilidade da Eurásia. O surgimento de um sistema transcontinental pode gradualmente aliviar os EUA de seus encargos, mesmo que alocados por uma geração ou mais em seu papel decisivo como árbitro da Eurásia. O sucesso geoestratégico desse empreendimento seria a medida apropriada para o legado deixado pelo papel dos EUA como a primeira e única superpotência global”. Zbigniev Brzezinski, “Uma geoestratégia para a Eurásia”, Relações Exteriores.

Tradução: Os Estados Unidos policiarão o mundo de perto, despacharão encrenqueiros e eliminarão quaisquer potenciais problemas onde quer que eles surjam. Será imposto o dogma sagrado do neoliberalismo (austeridade, privatizações, ajustes estruturais, reformas contra os direitos trabalhistas, etc) em todos os lugares e para todos os participantes. Além do mais, os parceiros “menores” como Europa, China, Japão, a Confederação Russa e Índia – deverão providenciar a segurança para seu próprio povo e às suas expensas para que os EUA “sejam aliviados de alguns de seus encargos”.

Que beleza, não é? Ainda por cima, você tem que pagar por seus próprios carcereiros.

Afinal de contas, o que diabos quer dizer “Segurança Transcontinental”? Não é apenas um eufemismo para “governo mundial”?

Na realidade, é tudo a mesma coisa. Mas temos mais de Brzezinski:

“A falha na expansão da OTAN ... destruiria o conceito de uma Europa em expansão ... ainda pior, poderia reacender as latentes aspirações políticas russas em relação à Europa Central.”
Essa declaração é estranhamente complicada. Primeiro, a ideia de uma Europa em expansão é apoiada por Brzezinski, que logo em seguida expressa sua preocupação de que a Rússia possa fazer o mesmo. Mais uma vez, o roto fala do esfarrapado.

O que resta claro como água é que, na concepção de Brzezinski a expansão da União Europeia e da OTAN ajudará as aspirações hegemônicas dos EUA. Isso é o que importa. Diz ele:

“A Europa é a cabeça de ponte essencial dos Estados Unidos na Eurásia ... uma Europa maior e a OTAN ampliada sevem aos interesses políticos dos EUA tanto no curto quanto no longo prazo ... uma Europa politicamente definida também é essencial para a assimilação da Rússia em um sistema de cooperação global.”

“Cabeça de Ponte”? Em outras palavras a Europa não passa de um meio para alcançar um fim. E o que seria afinal esse “fim”?

Dominação Global. É ou não é disso que ele está falando?

Claro que é.

A crise ucraniana é difícil de entender por causa da neblina impenetrável na qual a mídia envolve a política por trás dos acontecimentos, todo dia. Quando a neblina sobe, é fácil ver quem é a causa de todos os problemas. É o bom e velho país chamado Estados Unidos da América, promovendo uma farra a tiros, na terra alheia.

Nem a maioria dos ucranianos nem Putin querem a guerra. Todo esse imbroglio foi criado pelo Tio Sam e seus asseclas, na tentativa de interromper o fluxo contínuo de gás russo para a Europa, remanejar a OTAN mais um pouco para leste e quebrar a Federação Russa em pedacinhos. Esta é toda a verdade. Para conseguir seus objetivos esse homens insanos não se importam em destruir a Ucrânia e matar tudo o que se move, em um raio de 4.800 quilômetros de Kiev. Afinal, foi o que fizeram no Iraque, não foi? Certamente sim. Já mencionei que, de acordo com o Wall Street Journal desta semana “a produção iraquiana de petróleo alcançou seu mais alto nível nos últimos 30 anos.” Claro que com os suspeitos de sempre auferindo lucros imensos. A questão é que eles farão na Ucrânia o que já fizeram no Iraque, porque Washington não se importa com a carnificina, mas com seus eleitores. Com os massacres eles podem lidar.

Hillary Clinton

Mas Brzezinski não é o único a apoiar a atual política. Tem Hillary Clinton como companheira de viagem. Na verdade quem primeiro usou o termo “pivot” foi ela, quando era Secretária de Estado, em um artigo denominado “O século do Pacífico da América”. O artigo de opinião de Clinton descreveu um plano de reequilíbrio que em tese abriria novos mercados para as corporações dos Estados Unidos e para Wall Street, controlaria o fluxo de recursos vitais e “permitiria uma presença militar ampla” em todo o continente. Aqui está um trecho do seminal discurso de Clinton:

“A decisão sobre o futuro da política será tomado na Ásia, não no Afeganistão ou no Iraque, e os Estados Unidos estarão no centro da ação. Os EUA estão em um ponto de pivoteamento, pois a guerra do Iraque está no fim e está se iniciando a retirada das tropas do Afeganistão. Nos últimos dez anos, colocamos imensos recursos nesses dois teatros de guerra. Nos próximos dez anos, precisamos ser sistematicamente inteligentes em relação ao lugar onde investiremos nosso tempo e energia, de maneira que possamos sustentar nossa liderança, assegurar nossos interesses e fazer avançar nossos valores.  Uma das mais importantes tarefas do Estado Americano para a próxima década será então dar solidez a substanciais aumentos de investimentos – diplomáticos, econômicos, estratégicos e outros – na região da Ásia e do Pacífico ... O aproveitamento dinâmico do crescimento da Ásia é fundamental para os interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos e prioridade absoluta para o presidente Obama. A abertura dos mercados asiáticos proverá os EUA de oportunidades sem precedentes para investimentos, comércio e acesso a tecnologia de ponta ... As empresas americanas (precisam) entrar no mercado consumidor da Ásia, que é grande e está em crescimento ... A região asiática já é responsável por mais da metade da produção mundial e por cerca da metade do comércio global. Como estamos nos esforçando para atingir a meta do presidente Obama, de dobrar as exportações até o ano de 2015, estamos à procura de oportunidades para mais negócios na Ásia ... ao falar com líderes empresariais através do país, ouço sempre como é importante para os Estados Unidos expandir suas exportações e não perder as oportunidades de investimento no dinâmico mercado asiático.” (“América’s Pacific Century”, Secretária de Estado Hillary Clinton, Revista de Política Externa, 2011.

“O aproveitamento dinâmico do crescimento da Ásia é fundamental para os interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos e prioridade absoluta para o presidente Obama”?

Parece por acaso a fala de alguém que quer cultivar uma relação mútua de benefícios comuns com seus parceiros comerciais ou a fala de quem quer chegar, assumir tudo e comandar o espetáculo?
Tudo tem a ver com o dinheiro, até o plano de Washington de desviar a atenção do Oriente Médio para a Ásia. A própria Clinton sempre diz exatamente isso. Ela diz: “A região asiática já é responsável por mais da metade da produção mundial e por cerca da metade do comércio global ... mercados asiáticos ... proverá os EUA de oportunidades sem precedentes para investimentos, comércio e ... mercado consumidor da Ásia, que é grande e está em crescimento.”

Dinheiro, dinheiro, dinheiro. O potencial para mais e mais lucro é ilimitado e assim Madame Clinton quer fincar nossa bandeira exatamente no centro da ação, onde as empresas americanas possam acumular a grana sem temer represálias.

A mesma coisa é dita por Brzezinski em sua obra prima “The Grand Chessboard” (O grande Tabuleiro de Xadrez), de onde tiramos um pequeno excerto:

“O poder que dominasse a Eurásia dominaria duas entre as três regiões mais avançadas e economicamente produtivas do mundo. Um simples olhar que se lance ao mapa mostra que quem domina a Eurásia tem assegurada de forma quase automática a subordinação da África tornando o hemisfério ocidental e a Oceania (Austrália) politicamente periféricos ao continente central do globo. Quase 75 por cento da população mundial vive na Eurásia e a maioria da riqueza física mundial se encontra ali, ou nas suas empresas ou em seu subsolo. A Eurásia provê três quartos dos recursos energéticos conhecidos do mundo.” (Zbigniew Brzezinski “O Grande Tabuleiro de Xadrez: a primazia americana e seus imperativos geoestratégicos” página 31).


Cha-ching!
Começou a ter uma ideia? Trata-se de uma nova corrida do ouro! Após ter pirateado, agredido e saqueado até o último centavo a classe média dos EUA, deixando a economia aos farrapos, Brzezinski, Clinton et caterva estão migrando para pastos mais verdes  na Ásia Central, onde se localizam as maiores nações produtoras de petróleo do mundo, com as reservas ilimitadas da bacia do Mar Cáspio e ainda a cereja do bolo: zilhões de consumidores ávidos para comprar de tudo, começando por i-pads para matar o tempo, tudo, é lógico, fornecido pelas empresas corporativistas norte americanas. Cha-ching! (1)

Então, não se impressione com o dia a dia da Ucrânia. A luta que ali se desenrola nada tem a ver com “forças pró Kiev e ativistas antigovernamentais. É apenas mais uma fase do plano de conquista do mundo pelos Estados Unidos. Esse plano pretende levar a Rússia, de forma inevitável, a lutar contra o massacrante poderio militar dos Estados Unidos da América. É Davi contra Golias. É mãe Rússia contra o Grande Satã, Vlad Putin contra o Camarada Lobo.
A Ucrânia é apenas o primeiro round.

Por Mike Whitney.
é um escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por um reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, um massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition
Recebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com.



(1)   Cha-ching! Palavra onomatopaica de uso urbano nos EUA e que significa o barulho feito pela caixa registradora ao fechar. Usada em conversação para exemplificar grande lucro com o uso de poucos recursos. Exemplo: “comprei uma casa em leilão judicial por R$ 100.000,00 e acabei de vendê-la por R$ 380.000,00. Cha-ching!"

Tradução: mberublue