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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Qual é o grande negócio entre Rússia e sauditas?           




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Pepe Escobar, RT          

Tradução pelo Coletivo Vila Vudu           



 DOHA – Na selva de espelhos que cerca a tragédia síria, persiste um fato de mil facetas: apesar dos muitos graus de separação, os sauditas ainda falam com os russos. Por quê? 

Uma razão chave é que a perenemente paranoica Casa de Saud sente-se traída pelos seus protetores norte-americanos, os quais, no governo de Obama, parecem ter desistido de manter isolado o Irã.

Os sauditas não conseguem compreender intelectualmente o vai e vem incoerente das políticas de Washington movidas pela eterna disputa de poder entre neoconservadores sionistas e o velho establishment. Não surpreende que se sintam tentados a pularem para o lado russo da cerca. Mas para que isso aconteça, há vários preços a pagar.

Falemos, para começar, sobre petróleo. Em termos de energia, um negócio de petróleo com a Casa de Saud significaria muito para a Rússia. Um acordo aí produziria renda extra de petróleo para Moscou de cerca de $180 bilhões/ano. O resto do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) de fato não conta: Kuwait é protetorado dos EUA; Bahrain é área de férias dos sauditas; Dubai é coruscante operação de lavagem de dinheiro de heroína. Os próprios Emirados Árabes Unidos não passam de milionários pescadores de pérolas. E o Qatar, como disse o inesquecível ‘Bandar Bush’, é "300 pessoas e uma rede de TV", plus uma empresa aérea bem decente que patrocina o time do Barcelona.

Riad – paranoia incluída – tomou atentas notas da suposta "política" do governo Obama, de derrubar a Arábia Saudita servindo-se de uma suposta bonanza de gás natural do Irã, que supostamente substituiria o gás que a Gazprom fornece à Europa. Nunca acontecerá, contudo, porque o Irã precisa de pelo menos $180 bilhões em investimentos de longo prazo para modernizar sua infraestrutura de energia.

Moscou por sua vez anotou atentamente como Washington bloqueou o Ramo Sul. Está tentando bloquear também o Ramo Turco – mas pode dar em nada, depois da recente eleição de Erdogan na Turquia. Além do mais, Washington anda pressionando Finlândia, Suécia, Ucrânia e a Europa Oriental para se armarem ainda mais na OTAN, contra a Rússia.


O rei vai até Vlad


Do ponto de vista da Casa de Saud, três fatores se destacam. 1) Um senso geral de 'alerta vermelho', porque foram privados de um relacionamento exclusivo com Washington, o que incapacita os sauditas para modelarem a política exterior dos EUA no Oriente Médio; 2) ficaram muitíssimo impressionados com a rápida operação russa de contraterrorismo na Síria; e 3) passam a temer como praga a atual aliança russo-iraniana, se ficarem sem meios para influenciá-la.

É o que explica que conselheiros do rei Salman tanto tenham pressionado a ideia de que a Casa de Saud tem muito melhor chance de controlar o Irã em todos os campos – do "Siriaque" ao Iêmen –, se construir relação mais próxima com Moscou. De fato, é possível que o rei Salman visite Putin ainda antes do fim do ano.

Por outro lado, a prioridade de Teerã é vender a maior quantidade possível de gás natural. Isso faz do Irã concorrente natural da Gazprom (não já, enquanto a maior parte das exportações extras serão dirigidas para a Ásia, não para a Europa). Em termos de gás natural, não há concorrência entre russos e sauditas. Com o petróleo, a história é outra: uma parceria russo-saudita faria sentido no quadro de uma redução da OPEP – desde que consigam algum acordo quanto à tragédia da Síria.

Uma das histórias jamais contadas da recente correria diplomática relacionada à Síria, é o quanto Moscou tem trabalhado em silêncio, nas coxias, para amolecer Arábia Saudita e Turquia. Já estava acontecendo quando os ministros do Exterior de EUA, Rússia, Turquia e Arábia Saudita reuniram-se antes de Viena.

Viena foi crucial, não só porque o Irã estava à mesa pela primeira vez, mas também por causa da presença do Egito – por falar do Egito: já lá estava, imediatamente depois de descobrir novas reservas de petróleo, e já buscando um relacionamento reforçado com a Rússia.

O ponto absolutamente chave foi o seguinte parágrafo incluído na declaração final de Viena [
parágrafo 8, ing.]: "Esse processo político pertencerá aos sírios e será conduzido pelos sírios, e o povo sírio decidirá o futuro da Síria". 

Não por acaso, só a mídia russa e a mídia iraniana deram a esse parágrafo a merecida importância. Porque aí se determina a morte real da obsessão pela 'mudança de regime' – para grave desassossego dos neoconservadores nos EUA, de Erdogan e da Casa de Saud.

Nada disso significa que haja 100% de concordância na aliança Rússia-Irã, sobre a Síria. Essa semana, o comandante do Corpo de Guardas Revolucionários da República Islâmica [ing. IRGC], major-general Mohammad Ali Jafari explicou mais uma vez que o Irã não vê alternativa alguma a Bashar al-Assad para governar a Síria. Até reconheceu que Moscou talvez nem partilhe integralmente dessa certeza – que é exatamente o que a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da Federação Russa, Maria Zakharova, disse algumas vezes.

Mas esse não é o ponto principal. O ponto principal é a morte da opção "mudança de regime", que Moscou encaminhou e declarou. E com isso Putin ficou livre para projetar para mais longe sua estratégia tão altamente elaborada. 

Primeiro, telefonou a Erdogan na 4ª-feira, para parabenizá-lo pela consagradora eleição, dele e de seu partido AKP. Assim, agora, Moscou tem alguém com quem conversar em Ancara. Não só sobre a Síria. Também sobre petróleo.

Putin e Erdogan terão crucial encontro sobre energia na reunião do G20 dia 15 de novembro, na Turquia; e está marcada visita de Erdogan a Moscou. Podem apostar que o acordo sobre o Ramo Turco será – finalmente – assinado, ainda antes do final do ano. E no norte da Síria, Erdogan foi obrigado a entender, pelos fatos russos em solo e nos céus, que os esquemas dele para ter sua própria zona aérea de exclusão jamais decolarão.


Rastejando rumo a Meca


O que nos deixa com o problema muito maior: a Casa de Saud.

Há um muro de silêncio em torno da razão número 1 para a Arábia Saudita bombardear e invadir o Iêmen: para explorar os territórios de petróleo virgem do Iêmen lado a lado com Israel – nada menos que isso. Para nem falar da doideira estratégica de comprar briga com guerreiros temíveis como são os Houthis, que semearam o pânico entre aquelas patéticas 'forças' carregadas de mercenários chamadas "exército saudita".

Riad, seguindo seus reflexos filonorte-americanos, até recorreu à empresa Academi – 
ex-Blackwater –, contratada para reunir os mercenários suspeitos de sempre onde estivessem, até na Colômbia.

Já se suspeitava desde o início, mas agora já não há qualquer dúvida, que o ator responsável pelo caríssimo desastre militar dos sauditas no Iêmen é ninguém menos que o príncipe Mohammad bin Salman, filho do rei que, detalhe crucialmente importante, foi mandado pelo pai para falar com Putin cara a cara.

Para arrematar o torvelinho, o desastre no Iêmen desencadeou uma encenação super hardcore, de coxias, em Riad, envolvendo os que foram postos de lado no reino de Salman, especialmente o clã do  falecido rei Abdullah. Dizer que é confusão horrível é horrivelmente pouco.

O Qatar, entrementes, continua a choradeira, porque contava com a Síria como ponto de destino de seu muito ansiado gasoduto, para atender consumidores europeus, ou, no mínimo, como entroncamento crucial na rota até a Turquia.

O Irã, por sua vez, precisava de ambos, Iraque e Síria, para o gasoduto rival Irã-Iraque-Síria, porque Teerã não poderia depender de Ancara enquanto estivesse sob sanções dos EUA (situação que agora mudará, em pouco tempo). A questão é que, tão cedo, o gás iraniano não substituirá a Gazprom como principal fonte para a União Europeia. Se algum dia chegar a isso, ou perto, será terrível golpe contra a Rússia.

Em termos de petróleo, Rússia e os sauditas são aliados naturais. A Arábia Saudita não pode exportar gás natural; o Qatar pode. Para pôr as finanças em ordem – afinal, até o FMI sabe que estão na pista de alta velocidade rumo ao inferno – os sauditas teriam de cortar cerca de 10% da produção com a OPEP, em comum acordo com a Rússia; o preço do petróleo subiria acima do dobro do valor atual. Redução de 10% na produção renderia uma fortuna para a Casa de Saud.

Assim sendo, para ambas, Moscou e Riad, um acordo para elevar o preço do petróleo para $100 o barril, faria total sentido econômico. Pode-se dizer até que, nos dois casos, é questão de segurança nacional.

Mas não seria coisa fácil. O mais recente relatório da OPEP assume que uma cesta de cru não passará de $55 em 2015, com possibilidade de subir $5 por ano, chegando a $80 só em 2020. Aí está um 
estado de coisas que não serve nem a Moscou nem a Riad.

Ao mesmo tempo, fomentando todos os tipos da mais feroz especulação, o ISIS/ISIL/Daesh ainda consegue embolsar impressionantes $50 milhões mensais vendendo cru de campos sob seu controle em todo o "Siriaque" – segundo as melhores estimativas vindas do Iraque.

O fato de esse mini-petrocalifato conseguir trazer equipamento e especialistas técnicos "do exterior" para manter em operação seu setor de energia é coisa difícil de compreender. "Exterior", aí, significa essencialmente "Turquia" – engenheiros plus equipamento para extração, refino, transporte e produção de energia.

Mas uma das razões de estar acontecendo assim é que a Coalizão dos Oportunistas Finórios (COF) liderada pelos EUA – que inclui Arábia Saudita e Turquia – está hoje bombardeando a infraestrutura estatal de energia da Síria, não os domínios do mini-petrocalifato. Assim, os proverbiais "atores internacionais" estão na região para ajudar de facto o ISIS/ISIL/Daesh a vender cru a contrabandistas por coisa de $10 o barril.

Sauditas – e também a inteligência russa – já observaram a facilidade com que ISIS/ISIL/Daeshconsegue fazer operar equipamento norte-americano, cuja operação exige meses de treinamento; mas por ali, num instante, tudo é logo integrado à operação dos terroristas.

É evidentemente claro que os terroristas foram longamente treinados. Enquanto isso, o Pentágono já mandou e continuará a mandar militares de alta patente para todo o "Siriaque" com mensagem clara: se escolherem o lado da Rússia, nós não ajudaremos vocês.

ISIS/ISIL/Daesh, por sua vez, nunca, em tempo algum, fala de libertar Jerusalém. É sempre Meca e Medina.

Que ninguém se engane: há mais sinais do que a vista alcança, de um bom negócio entre Rússia e sauditas.

Pepe Escobar - é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.


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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Nord Stream-2: Funeral das potências de passagem 
         
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Tradução pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu            

O gasoduto "Nord stream-2" [Ramo Norte 2] finalmente fará da Alemanha o principal parceiro da Gazprom russa na Europa. Ucrânia, Polônia e os estados do Báltico, inspirados na luta pela independência frente ao gás russo, recusaram voluntariamente aquele papel.


Outro dia, Kiev recebeu a explicação de por que o novo gasoduto russo sob o Mar Báltico será implementado, apesar de Kiev opor-se tanto: "Quando dizemos que não seria projeto econômico, mas puramente projeto político que teria como alvo a Ucrânia, todos esquecemos que o projeto envolve empresas europeias. A Gazprom tem só 51%" – 
disse à European Truth uma fonte na Comissão Europeia envolvida nas negociações com a "Gazprom".
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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Mais uma vitória de Putin − Gasoduto “Ramo Sul” será construído com a Áustria


25/6/2014, [*] Tyler Durden, ZeroHedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entradas e saídas de gasodutos na Ucrânia
Nunca foi segredo que o prêmio para quem controle a Ucrânia é a posse da vasta infraestrutura do gasoduto que parte da Rússia e chega à Europa. Mas, dado que todo o gás pertence, em primeiro lugar, à [empresa russa] Gazprom, realmente não importa se Kiev tinha posse do gás que enchiam os dutos que levavam o gás para a Europa; nem se, como é hoje o caso, a Ucrânia seria apenas um duto de transferência do gás totalmente russo, entregue a países europeus, sem que gás algum permanecesse na Ucrânia, hoje destroçada pela guerra civil.

Afinal de contas, a Ucrânia absolutamente não consegue mais comprar gás russo, porque não tem crédito nem dinheiro para pagar adiantado; mas, se roubar gás destinado à Alemanha e outros países, a Ucrânia estará simplesmente antagonizando seus novos “melhores amigos” na OTAN, os quais são, todos, clientes da [russa] Gazprom.

Não, o gasoduto que emergiu no papel de estrela principal no conflito na Ucrânia nada tem a ver com a Ucrânia, mas é gasoduto que percorre várias centenas de quilômetros do sul da Ucrânia – o chamado Projeto Ramo Sul (orig. South Stream Project) – que deixa o litoral sul da Crimeia no Mar Negro russo, cruza o Mar Negro e atravessa Bulgária, Sérvia, Hungria, e termina na central de distribuição de gás em Baumgarten, Áustria, de onde partem gasodutos de distribuição para toda a Europa Central, principalmente para a Alemanha.

O projeto, de 2007, foi concebido para não passar pela Ucrânia e servir como alternativa para o agora congelado gasoduto Nabucco apoiado por EUA e Europa; e recolheria o gás do Cáspio (principalmente do Azerbaijão e do Turcomenistão) e atravessaria a Turquia, antes de emergir na Bulgária, de onde seguiria a via europeia do Ramo Sul até a central austríaca de distribuição e dali adiante. Mapa a seguir:

Oleogasodutos que abastecem a Europa
(clique na imagem para aumentar)

Não surpreendentemente, foi a central de trânsito do Ramo Sul, a Bulgária, que começou a criar problemas para Putin, apesar de Putin ter conseguido “atropelar” o projeto Nabucco (quando, em junho de 2013, o presidente da gigante austríaca de energia OMV, Gerhard Roiss, anunciou que o projeto estava “superado”, depois que o consórcio turco Shah Deniz preferiu o Gasoduto Trans-Adriático (mapa no fim do parágrafo) ao Nabucco, como rota de exportação para suprir a Itália, em vez da Áustria).

Oleogasoduto Trans Adriático
(clique na imagem para aumentar)

Lembrem que aconteceu em janeiro, quatro meses antes de o governo ucraniano ser derrubado: o primeiro-ministro da Bulgária – país que mantém relação especialíssima de amor & ódio com os EUA, e relação na qual os EUA adorariam injetar mais ódio – Plamen Oresharski, surpreendentemente ordenou a suspensão dos trabalhos no gasoduto Ramo Sul, por recomendação da união europeia. A decisão foi anunciada depois de conversações entre Oresharski e senadores norte-americanos.

Há agora um pedido, da Comissão Europeia, depois do qual suspendemos os trabalhos que estavam em andamento. Eu mesmo ordenei a suspensão “Outros procedimentos serão decididos depois de novas consultas com Bruxelas – Oresharski disse a jornalistas, depois de conversar com John McCain, Chris Murphy e Ron Johnson durante visita que fizeram à Bulgária.

Naquela ocasião, McCain, comentando a situação, disse que “a Bulgária deve resolver os problemas do [gasoduto] Ramo Sul, em colaboração com colegas europeus”. E acrescentou que na atual situação, queriammenos envolvimento russo.

Os EUA decidiram que querem pôr-se em posição de excluir todos os que querem excluir países nos quais os EUA tenham algum interesse; não há absolutamente nenhuma racionalidade econômica. Os europeus são muito pragmáticos, estão procurando fontes de energia – recursos de energia limpa, que a Rússia pode fornecer. Mas o problema com o [gasoduto] Ramo Sul é que ele não se encaixa na política da situação, disse Ben Aris, editor de Business New Europa, à RT.

Foi também em janeiro, quando autoridades da União Europeia (UE) ordenaram à Bulgária que suspendesse a construção de sua conexão com o gasoduto, planejada para transportar gás natural russo através do Mar Negro até a Bulgária e dali em diante para o leste da Europa.Bruxelas quer o projeto congelado, à espera de uma decisão sobre se violaria as regras sobre concorrência na UE para um único mercado de energia. Entende que o Ramo Sul não respeita as regras que proíbem produtores de controlarem também o acesso aos dutos.

Aí, claro, está a questão, porque, como a Europa tantas vezes teve de aprender pela via difícil, sua super dependência da Rússia para a produção e para o trânsito do gás implica que não tem qualquer meio para pressionar o Kremlin – o que os recentes eventos na Ucrânia só fizeram confirmar.

Projeto Ramo Sul (South Stream) em azul
Projeto (falido) Nabucco (em vermelho)
Agora, Putin apenas cimentou a realidade que não tem tanto a ver com quem controla o trânsito da energia pelos dutos, mas com quem controla a Europa: EUA ou Rússia. “Os EUA opõem-se ao projeto do gasoduto russo Ramo Sul, porque querem fornecer gás à Europa, como únicos fornecedores, eles mesmos”, disse o Presidente Putin, na 3ª-feira (24/6/2014). Chamou a situação de “mera disputa concorrencial”.

[Os EUA] têm feito de tudo para quebrar esse contrato. Nada há aqui de excepcional. É mera disputa concorrencial. Nessa disputa, usam-se também instrumentos políticos – disse o presidente da Rússia, depois de conversar com o presidente da Áustria, Heinz Fischer, em Viena.

Estamos em conversações com nossos parceiros num contrato comercial, não com estranhos ou terceiros. Nossos amigos dos EUA estão infelizes por causa do Ramo Sul... Bem... Também ficaram infelizes em 1962, quando o projeto “gás em troca de gasodutos”, com a Alemanha, estava começando. Agora, estão outra vez infelizes. Mas nada mudou, exceto que os EUA querem fornecer gás à Europa, como únicos fornecedores, eles mesmos. Se acontecesse como os EUA prefeririam, o gás norte-americano não seria mais barato que o gás russo – gás de gasoduto é sempre mais barato que gás liquefeito – disse Putin.

O que, por sua vez, nos leva ao auge da disputa política em torno do Ramo Sul, quando, hoje cedo, em mais um tento a favor do Kremlin, a Áustria, um dos países mais estáveis e respeitados na Europa, com crédito padrão AAA, deu a aprovação final ao projeto do tal “controverso” projeto de gasoduto russo. A aprovação é claro sinal de desafio à União Europeia. É, simultaneamente, aceno de boas vindas ao presidente Putin da Rússia em sua chegada, agora, à Áustria – país neutro e cliente consumidor, há muito tempo, da energia que Moscou lhe fornece.

Como a Agência Reuters noticiou:

(...) os principais executivos da Gazprom russa e da OMV austríaca selaram o acordo para construir um trecho do gasoduto Ramo Sul até a Áustria, país que firmemente defendeu o projeto ante a oposição que lhe fez a Comissão Europeia.

Oleogasodutos "Santo Graal" - Rússia e China
(clique na imagem para aumentar)
Em outras palavras, apenas um mês depois de Putin ter assinado o contrato “Santo Graal” com Pequim,  ele não apenas conseguiu formalizar essa conquista russa em pleno território europeu, com mais um gasoduto – e gasoduto que absolutamente nada tem a ver com a Ucrânia (o que é importante por várias razões, mas, sobretudo, porque é o que se pode chamar de um “Plano B”), mas também obteve massiva vitória política, conseguindo cavar uma fissura no coração da Eurozona, com a Áustria desafiando abertamente os seus pares europeus e se posicionando ao lado de Putin.

Desnecessário dizer, a Comissão Europeia está furiosíssima, aos gritos de que o Ramo Sul descumpriria normas e leis que protegem a livre concorrência na UE, porque não garantiria acesso também a terceiros. O gasoduto Ramo Sul, como dito acima, também contraria a política da UE de diversificar fontes, para reduzir o muito que a Europa depende da Rússia.

Mas o presidente da OMV, Gerhard Roiss, em surpreendente momento de realpolitik clarividente, só fez, de fato, reconhecer que, no que tenha a ver com o futuro da energia na Europa, Putin é mais importante que Mario Draghi.

Numa conferência de imprensa depois de assinar o contrato, Roiss disse:

A Europa precisa do gás russo. A Europa mais precisará de gás russo no futuro, porque a produção de gás na Europa já está caindo (...)Creio que a União Europeia também sabe disso.

É claro que sabem disso. A questão é que não querem admitir, porque a admissão sela o destino da Europa como estado-vassalo da Rússia, em matéria de energia. Como sonho “cheirado” em “gases” de má qualidade (perdoem o trocadilho), a alternativa seria a Europa receber gás natural liquefeito dos EUA.

Sobre isso, ninguém menos que o presidente da Cheniere Energy,Charif Souki disse em abril, quando perguntado se o terminal da Cheniere “conseguiria salvar” os países do leste europeu da dependência da Rússia, que:  

(...) é lisonjeiro que alguém suponha que sejamos capazes de tal coisa, mas é total loucura. É talnonsense, que não acredito que alguém realmente acredite nisso.  

É claro que não acreditam, mas tudo é política. E na política sempre se trata de adquirir mais poder, ou de se submeter ao poder de outros. Hoje a Áustria adquiriu mais poder; ao desertar do campo de seus pares europeus pode ter iniciado um processo que leve ao racha da própria Eurozona; e com Vladimir Putin a manobrar o cordame.


O projeto pôs a indústria europeia contra os políticos da UE e dividiu os apoiadores do Ramo Sul −gasoduto que se estende da Alemanha por toda a Europa Central e Sudeste da Europa pesadamente dependentes da Rússia − dos demais estados-membros da UE.

Em visita de trabalho de um dia a Viena, que mereceu críticas na UE, Putin falou dos laços comerciais muito estreitos que ligam a Rússia à Áustria, o primeiro país europeu que assinou, em 1968, acordos de longo termo de fornecimento de gás com Moscou.

Disse que a Áustria é parceiro “importante e confiável” para a Rússia, que é o terceiro maior parceiro comercial da Áustria fora da UE depois de EUA e Suíça.

O presidente austríaco Heinz Fischer também defendeu o projeto do [gasoduto] Ramo Sul: “Ninguém conseguiu me explicar – nem consigo explicar ao povo austríaco – por que um gasoduto que corta a União Europeia e vários países-membros da OTAN deveria ser proibido de andar por 50 km em território austríaco”.

Ah! Para registrar: o presidente da Áustria disse também que é “contra sanções contra Moscou” (para o caso de a Europa tentar aprovar por unanimidade sanções contra a Rússia a propósito da Ucrânia).

E por falar de Ucrânia, as coisas ficaram realmente bizarras em Viena, quando o presidente da Câmara de Comércio da Áustria relembrou Putin de que parte da Ucrânia pertencia à Áustria em 1914. Ao que Putin respondeu de bate-pronto “Mas... O que você está querendo dizer? Diga logo: qual é sua proposta?” – o que levou às gargalhadas a elite comercial presente. Mais um pouco, sacomé, Putin estará contando piadas, na Europa, sobre a anexação da Hungria.

E aí está, para que todos vejam, no caso de alguém ainda não ter percebido: o que está acontecendo na Ucrânia não passa de piada para os corretores do poder na Europa, a “elite comercial”. A decisão já está tomada há muito tempo: Putin não encontrará nenhuma objeção vinda dessa dita “elite”, faça o que fizer em relação ao tal país irrelevante e devastado pela guerra. Exceto, claro, as objeções “televisivas” da CIA e dos EUA, no teatrinho montado para consumo do mínimo denominador comum.

50% do projeto conjunto Ramo Sul-Áustria pertencerá à Gazprom – maior produtora russa de gás – e 50% pertencerá ao Grupo OMV da Áustria, maior empresa austríaca de petróleo e gás.

O presidente da Áustria disse que, se alguém criticar a Áustria, terá também de criticar outros países-membros [da UE] e suas empresas.

Espero que nunca chegue o momento em que um país como a Áustria não possa manter conversações com país-parceiro que tenha intensas relações conosco e não esteja em posição de negociar com a EU – disse o presidente austríaco.

Sabemos que diálogo desse tipo não contradiz qualquer decisão da UE.

Quis dizer com isso que ninguém, na Europa, pode meter-se a dizer a Putin o que fazer.

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Alexei Miller (Gazprom) e Gerhard Roiss (OMV) (E) assinam contrato de construção 
do Projeto Ramo Sul (South Stream) em 24/6/2014
Quanto às questões logísticas do gasoduto, agora que o acordo já está assinado, serão resolvidas a seu tempo: o presidente da Gazprom, Alexei Miller disse que está em contato semanal, quando não diário, com o Comissário Europeu de Energia, Guenther Oettinger, cuidando da aprovação do projeto do Ramo Sul.

Resolvemos os problemas à medida que surgem; e agora o problema de construir o gasoduto está a um passo de ser solucionado – disse Miller.

O acordo do gasoduto não trata da questão do acesso de terceiros, o que a lei da União Europeia exige, para impedir que o proprietário de uma fonte de energia monopolize seus canais de distribuição. Roiss, da OMV, disse que a questão tem de ser negociada com Bruxelas. Roiss disse que:

(...) a parte austríaca do gasoduto, planejada para ser construída em 2016 e começar a entregar gás no início de 2017, será construída em perfeito acordo com a lei europeia. (...)

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Obviamente... Putin quer dividir a União Europeia. Nada de novo. É o que os russos sempre fazem, quando estão encurralados – disse o ministro de Relações Exteriores da Suécia Carl Bildt em entrevista à televisão, na 2ª-feira (23/6/2014).

Bem, bem, Mr. Bildt... a Rússia ainda consegue semear muita discórdia na União Europeia, é claro, se o país mais estável do bloco acaba de alinhar-se ao lado de Putin e diz a todos os próprios “parceiros” europeus, Merkel e Cameron incluídos, um grande “fodam-se”. Quanto à sua avaliação completamente errada de quemestá “encurralado”, deixemos-prá-lá: afinal, como outro político europeu de destaque “no bloco”, Jean-Claude Juncker, já nos explicou, quando a coisa fica realmente séria “no bloco”, “o bloco” tem de mentir.
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[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem doromance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).

Postado por Roberto Pires Silveira, via RedeCastorphoto
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