domingo, 29 de junho de 2014

Enquanto Washington continua a mentir, uma Guerra Fria renovada por vingança.

por Paul C Roberts
tradução: mberublue



Para o complexo exército/segurança dos Estados Unidos, a Guerra Fria foi por décadas uma fonte de muito dinheiro, desde 05 de março de 1946, quando do discurso de Churchill em Fulton, Missouri, ao estabelecer a “Cortina de Ferro”, até o final dos anos 80, quando Reagan e Gorbachev decretaram o fim da Guerra Fria. Durante esta, os estadunidenses ouviram falar ad nauseam sobre as “Nações Cativas”. As nações cativas seriam os Estados Bálticos e o bloco soviético, normalmente chamado, de forma resumida, de “Europa Oriental”.

Seriam estes países nações cativas porque suas políticas externas eram impostas por Moscou, da mesma forma que outras nações também cativas como Reino Unido, Europa Ocidental, Canadá, México, Colômbia, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Coréia do Sul, Taiwan, as Filipinas, a Geórgia e a Ucrânia, têm suas políticas externas impostas atualmente por Washington. Pretende ainda Washington expandir as suas próprias nações cativas cooptando o Azerbaijão, que formava antigamente parte da Ásia Central Soviética, Vietnam, Tailândia e Indonésia.

No transcorrer da Guerra Fria, os Estados Unidos tinham a Europa Ocidental e a Grã Bretanha como países soberanos e independentes. Fossem eles independentes ou não, certamente hoje não são. Estamos já há sete décadas passadas desde o final da Segunda Guerra Mundial e as tropas dos Estados Unidos ainda ocupam a Alemanha. Nenhum dos governos europeus tem coragem de propor qualquer coisa que seja diferente do que propõe o Departamento de Estado dos EUA.

Não muito tempo atrás, houve rumores e conversações tanto na Alemanha quanto no Reino Unido sobre sair da União Europeia, mas Washington entrou na conversa e declarou que estes países deveriam cessar tais assertivas porque não era do interesse de Washington que qualquer país saísse da União Europeia. A conversa cessou imediatamente. O reino Unido e a Alemanha são tão abjetamente vassalos de Washington que nenhum deles pode sequer fazer publicamente suposições sobre o próprio futuro.

Baltasar Garzon
Quando Baltasar Garzon, um juiz espanhol com autoridade judicial para investigação tentou indiciar membros do regime de George W. Bush por violação de leis internacionais por torturar detentos, foi imediatamente derrubado.

No livro Modern Britain (“guia” anedótico para entender a atual Bretanha - NT), Stephane Aderca escreve que o Reino Unido está tão orgulhoso de poder ser um “parceiro júnior” dos Estados Unidos, que o governo britânico aderiu a um acordo unilateral dos EUA, um tratado de extradição sob o qual basta que Washington faça uma mera declaração de “razoável suspeita” para que obtenha a extradição de pessoas do Reino Unido, mas este tem que demonstrar “causa provável” para a recíproca. Ser um “parceiro júnior” de Washington, relata Aderca, é uma espécie de compensação emocional para as elites britânicas, dando-lhes a sensação de que são importantes.

Sob as regras da União Soviética, a grande entidade que precedeu a Rússia atual, as nações cativas tinham performance econômica fraca. Sob as regras de Washington, estas mesmas nações cativas têm desempenho medíocre por causa da pilhagem movida por Wall Street e o FMI.

Giuseppe di Lampedusa
Como disse Giuseppe di Lampedusa, “As coisas têm grande chance de serem sempre as mesmas.” O saque promovido contra a Europa por Wall Street e que recaiu sobre a Grécia, Itália, Espanha, Portugal, Irlanda e Ucrânia, está agora centrada na França e na Grã Bretanha. As autoridades americanas estão exigindo do maior banco francês a quantia de 10 bilhões de dólares americanos sob a acusação forjada de que o banco estaria financiando comércio com o Irã, como se fosse problema de Washington com quem um banco francês resolve fazer negócios ou financiamentos.  Apesar da total subserviência da Grã Bretanha para com Washington o procurador geral do Estado de Nova Iorque instaurou um processo civil de fraude contra o Barclays Bank.

Provavelmente são corretas as acusações assacadas contra o Barclays PLC. Mas como a maioria do bancos americanos, provavelmente tão culpados como o Barclays não foram acusados de nada, a acusação dos Estados Unidos contra o Barclays siginifica que os grandes fundos de pensões e mutuais devem abandonar o banco, porque poderiam ser acusados posteriormente de negligência, caso mantivessem as contas em um banco acusado de fraude civil.

Claro que o resultado dessas acusações contra bancos estrangeiros feitas pelos Estados Unidos não poderia ser outro. Acontece então que bancos como o Morgan Stanley e Citigroup ganham vantagem competitiva, e acabam por açambarcar o mercado desses valores em seus próprios dark pools (resumidamente, mercado privado que negocia valores mobiliários, mas fora do alcance dos investidores comuns, do público em geral. Quando há liquidez nestes mercados ocultos ao público, é chamada de “dark pool liquidity”. O nome significa que esse tipo de comércio é escondido do público em geral, como se estivesse mergulhado em uma piscina de água turva – [NT]).

Então, o que isso tudo significa? Certa e claramente, estamos presenciando o uso da lei dos Estados Unidos para criar hegemonia financeira para as instituições estadunidenses. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos (sic) teve provas por cinco anos da participação do Citigroup na fixação da taxa de juros LIBOR, mas nem chegou perto de sequer pensar em uma acusação.

Os governos comprados e já pagos dos estados europeus fantoches de Washington são tão corruptos que os líderes permitem que Washington mantenha o controle sobre seus países, para o avanço da hegemonia financeira, política e econômica dos Estados Unidos.

Em seu próprio benefício, Washington está organizando o mundo contra a Rússia e a China. Em 27 de junho, os estados fantoches de Washington que compreendem a União Europeia deram à Rússia um ultimato. Salta aos olhos o absurdo desse ultimato. Militarmente, os fantoches de Washington são inofensivos. A Rússia pode exterminar a Europa em alguns minutos. Daí, nós temos a situação esquisita em que o mais fraco dá um ultimato ao mais forte.

Governos europeus
A União Europeia, em obediência às ordens de Washington, disse para a Rússia que acabe com a oposição ao governo fantoche de Washington em Kiev, no sul e no leste da Ucrânia. Mas, como qualquer pessoa com um mínimo de instrução sabe, incluindo a Casa Branca, Downing Street nº 10 (residência oficial e gabinete do Primeiro Ministro Britânico, funcionando como sede do governo – [NT]), Merkel e Hollande, a Rússia não é responsável pelas agitações separatistas no leste e sul da Ucrânia. Estes territórios sempre foram parte da Rússia e somente foram adicionados à República Soviética da Ucrânia pelo Partido Comunista Soviético quando a Ucrânia e a Rússia faziam ambas parte de um mesmo país.

Agora, esses russos querem voltar a fazer parte da Rússia porque foram ameaçados pelo governo fantoche instalado por Washington em Kiev. Washington está determinado a forçar Putin a uma ação militar, a qual pode ser usada para justificar ainda mais sanções, e nesse intento não quer resolver a situação, e sim piorá-la.

O que será que Putin fará? Ele tem 72 horas para se submeter a um ultimato de uma coleção de países marionetes que ele pode destruir a qualquer momento, ou prejudicar seriamente somente com a interrupção do fluxo de gás natural da Rússia para a Europa.

Historicamente, esse tipo de desafio estúpido ao poder pode resultar em más consequências. Mas Putin é um humanista a favor da paz. Ele não desistirá voluntariamente de sua estratégia de mostrar à Europa que as provocações não vêm da Rússia e sim de Washington. A esperança de Putin e da Rússia, é que a Europa eventualmente compreenda que está sendo usada de forma vil por Washington.

Washington tem centenas de ONGs financiadas pelos Estados Unidos na Rússia, escondidas atrás de vários disfarces, como por exemplo, “direitos humanos”, e Washington pode liberar esses ONGs contra Putin à vontade, como já fez nos protestos conta a eleição de Putin. As quintas colunas de Washington acusaram Putin de ter roubado as eleições, mesmo após várias pesquisas mostrarem que Putin foi o vencedor claro e indiscutível das eleições.

Em 1991, os russos ficaram, em sua maior parte, muito contentes em se libertar do comunismo e olharam para o ocidente como um aliado para a construção de uma sociedade civil baseada na boa vontade. Esse foi o erro da Rússia. Como as doutrinas de Brzezinski e Wolfowitz deixam bem claro, a Rússia é o inimigo cujo crescimento e influência devem ser combatidos a qualquer custo.

O dilema de Putin é que ele está preso entre o profundo desejo de chegar a um acordo com a Europa e o desejo desta e de Washington de demonizar e isolar a Rússia.

Putin corre o risco de que seu desejo de acordo seja explorado por Washington e apresentado à União Europeia como sinais de fraqueza e falta de coragem. Washington está dizendo a seus vassalos europeus que o recuo de Putin ante as pressões da Europa comprometerão seu status na Rússia e no momento certo Washington liberará suas centenas de ONGs para levar Putin à ruína.

Foi o que aconteceu na Ucrânia. Com Putin trocado por um russo submisso e muito bem recompensado, apenas a China permanecerá como um obstáculo para a hegemonia dos Estados Unidos no mundo.


Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

Tradução: mberublue


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Duas análises curtas numa análise longa
 28/6/2014, Mindfriedo

 
The Vineyard of the Saker 
tradução Vila Vudu
Maliki

(1) A queda de Mosul foi boa para os milicianos xiitas?

Até o início de 2014, os EUA vinham pressionando Maliki para que ‘contivesse’ as milícias xiitas. O argumento era que os xiitas poderiam desestabilizar o próprio governo; que eram aliados do Irã; e que estavam acumulando experiência de combate na Síria. O governo do Iraque formou brigadas, como “Lobo” (comandada por Abu Al Walid, comandante combatente em Tal Afar), “Tigre” e “Escorpião”, para conter a ameaça que aquelas milícias xiitas poderiam ser – mas, sobretudo, como uma ferramenta para manter organizados os sunitas. 

Outras medidas incluíram fechar a fronteira do Iraque com a Síria e suspender voos diretos. Essas duas medidas pareceram visar aos jihadistas sunitas, mas visavam de fato a conter o fluxo de combatentes xiitas. Maliki tampouco ficou muito satisfeito com essas medidas. E a segunda não passou de gesto simbólico do governo iraquiano, porque os voos entre Irã e Damasco prosseguem normalmente. A ameaça dos EUA, de criar uma zona aérea de exclusão sobre a Síria, visava a tentar impedir esses voos. Os voos de vigilância aérea sobre o Iraque e a ocupação pelos jihadistas da fronteira Iraque-Síria visam exclusivamente a tentar deter o fluxo de combatentes xiitas. 

O envio de norte-americanos para o Iraque, depois da queda de Mosul, visa principalmente a monitorar os xiitas, muito mais que os sunitas. 

Os norte-americanos conhecem as revoluções sunitas e sabem como inverter a ganga. Mantêm contatos com anciãos sunitas e com ex-Ba’athistas que podem usar para ‘domar’ qualquer insurgência sunita. O problema dos EUA são os xiitas, que eles absolutamente nunca conseguiram controlar. O que você não controla sempre o amedronta.

Os EUA estavam também interessados em usar clérigos xiitas moderados, como Sistani, para conter o ímpeto dos grupos de jihadistas xiitas. Mas isso mudou, agora, em certa medida. A conclamação de Sistani às armas foi a melhor tática para aumentar o recrutamento que as milícias xiitas poderiam ter esperado. Sistani disse especificamente que os jovens deviam alistar-se no exército. Os jovens captaram a mensagem de que devem lutar, mas alistaram-se nas milícias xiitas. Os jovens não são bobos e sabem quem vence e quem perde guerras por ali. 

Agora, o governo iraquiano está confiando naquelas milícias para conter o DAASH. O governo iraquiano não restringirá o treinamento de combatentes no Irã nem o livre fluxo deles entre Síria e Iraque; e se oporá a qualquer pressão, pelos EUA, para fechar aquele fluxo. É o que se pode ver nos elogios que Maliki fez aos ataques aéreos sírios no Iraque, aos quais normalmente qualquer primeiro-ministro teria de opor-se. 
Diferentes dos combatentes sunitas do DAASH (chechenos, afegãos, sauditas, marroquinos, europeus, etc.) os combatentes xiitas são predominantemente árabes, do Iraque e do Levante que o DAASH tanto quer ‘salvar’. Os árabes sunitas e as tribos sunitas estão aliados ao DAASHpor conta de um sentimento de terem sido deixados de fora (em parte, efeito da propaganda; em parte, frustração genuína). Mas essa é dificuldade com a qual terão de viver. O poder que um dia tiveram hoje já não têm e ele não voltará. Quanto mais lutarem, mas Bagdá se converterá em cidade xiita e maior será a frustração dos sunitas. Muitos dar-se-ão conta disso; mas alguns continuarão cada dia mais radicais, por ação da propaganda saudita. 

Enquanto isso, as milícias se converterão nos novos Fremen contra os Sadukar (DAASH) do Império (Anglo-sionista), à espera de seu Muad'Dib (Mahdi).
[1] 

O duro, difícil ambiente do Iraque e a ameaça que cresce contra as milícias xiitas as manterão sempre alertas e atentas, sempre em estado de prontidão, mais bem treinadas e mais fortes a cada dia, aprendendo valiosas lições que só a luta ensina e superando o DAASH sunita em habilidades, talento, profissionalismo e moral.

(2) Milicianos xiitas são mais ‘ferozes’ que sunitas (wahhabi)?

Uma velha piada do tempo colonial. Os britânicos queriam formar uma brigada muçulmana. Perguntaram aos muçulmanos: quais de vocês são os mais ferozes? Os muçulmanos, meio sem entender a pergunta dos ‘Tommys’ responderam: “nossos açougueiros são ferocíssimos.” E os britânicos organizaram a brigada de muçulmanos açougueiros ferozes. 

Quando os combates começaram, os açougueiros não punham o pé fora das trincheiras. O comandante ‘Tommy’ berrou: “Por que não avançam? Vão à luta!” 

E o kassab [açougueiro] respondeu: “Ah, meu amigo, amarre eles e traga até aqui, que nós cortamos em pedaços!”

Eis os combatentes do DAASH: açougueiros para aterrorizar os cordeiros. 

Ontem assisti a vídeos dos jihadistas. Nada agradável, mas necessário.

Em primeiro lugar, o profissionalismo: 

Toda e qualquer milícia xiita que combate na Síria é militarmente bem organizada. Têm brigadas; as brigadas têm batalhões de lança-foguetes, fogo de morteiro e grupos de assalto. Cada milícia tem uniformes limpos e insígnia. Sabem trabalhar numa estrutura de comando, às vezes sob ordens do exército sírio. As armas usadas são quase idênticas. AKMs, AMDs, PMKs, SVDs, lança-morteiros de mão e RPGs (quase idênticos). 


Os militantes sunitas/wahabbistas são ‘ferozes’, mas operam sem qualquer organização militar, sem uniformes, sem equipamento militar padrão. O Exército Sírio Livre é mais profissional e tem alguma estrutura. Mas os jihadistas são só confusão e profissionalismo zero. É o que se vê também na dificuldade do DAASH para controlar os próprios aliados, com brigas internas por qualquer pequena diferença, incapacidade para impedir que os milicianos cometam atrocidades (que, às vezes, são usadas como tática), e a incapacidade para lutar de modo sustentado em qualquer tipo de confronto. 

A propaganda:

 
Pode não parecer óbvio para todos, mas os combatentes xiitas são levados à luta por algo que amam e prezam muito, i.e., o AhlulBayt [o “Povo da Casa” ou a “Família da Casa” (do Profeta)]. Os wahabbitas, por sua vez, em praticamente tudo que fazem, são movidos por ódio: ódio dos valores ocidentais, dos santos, dos xiitas, dos cristãos, dos judeus, de tudo que, para eles, é necessariamente sujo e corrompido.

A propaganda jihadista é baseada numa mensagem puritana. Exige que o sunita abra mão de um sistema de crenças que ele conserva há gerações (embora muitos sunitas pareçam estar-se separando, de antigos conceitos do Walis [Aquele em que se crê] e Wasilah [os meios de acesso a Deus], mais depressa do que uma stripper, de seus panos “modestos”). Os xiitas, por outro lado, estão convocados a trabalhar a favor de algo em que sempre acreditaram e acreditam. 

Grupo etário:

 
Muitos jihadistas são homens jovens. Muitos morrem jovens. Mas rápida pesquisa na internet mostrará que a idade mínima para a iniciação de um combatente DAASH é dez anos. Entre os xiitas, exceto no caso dos escudos humanos de Khomeini, a idade mínima nunca foi inferior a 18 anos; e a idade média dos combatentes xiitas é 22 anos. 

Suporte financeiro:


Nesse quesito os xiitas sempre perderam, desde os primeiros dias do Islã. Os sunitas conservaram para eles toda a riqueza e marginalizaram os xiitas. O Iraque pode alterar esse desequilíbrio. A riqueza do petróleo do Iraque e do Irã xiitas pode em breve ultrapassar a da Arábia Saudita. Mas, por hora, ricos, só os sunitas. As sanções contra o Irã têm o objetivo de criar dificuldades específicas, que impeçam o enriquecimento do país. 

Propaganda:


É estranho que os vídeos do DAASH sejam praticamente sempre, horrendos. E os mesmos vídeos que são usados pelo DAASH ou pela Al-Qaeda para recrutar novos seguidores-milicianos, são usados também pelos seus inimigos (seres humanos racionais) como contrapropaganda. Os vídeos de milícias xiitas jamais mostram atrocidades. Na maioria dos casos são centrados no culto do martírio. Os norte-americanos tentam super noticiar alegadas atrocidades que teriam sido cometidas por milícias xiitas; mas não funciona, porque os xiitas não acreditam em nada que lhes venha de fonte norte-americana. 

Dois exemplos recentes de efetividade em combate:

 
1) A retomada de Beirute pelo Hezbollah, em maio de 2008. Os homens de Hariri não aguentaram nem as primeiras sacudidas. Mas, sim, concordo: Beirute não é Trípoli. Contraexemplo, aqui, poderia ser Mosul. Mas Beirute é cidade mais misturada e complexa; e Mosul é, mais, uma cidade sunita baathista. Além do mais, a retomada de Beirute foi ação militar; e Mosul só foi tomada porque houve uma traição e colusão pré-combinadas. E

(2) outro exemplo foi Qusayr em 2013. Jihadistas entrincheirados, com total apoio de estados árabes, da Turquia e do Ocidente, quebraram as próprias fileiras e fugiram. O Hizbollah pagou preço alto; e a Síria pulverizou quase toda a cidade de Qusayr; mesmo assim permanece o fato de que os jihadistas desertaram e fugiram. Para compreender, basta comparar esse quadro e Bint Jabil em 2006. Forças no mínimo iguais ou muito superiores, se se considera o arsenal à disposição de Israel e contra o Hizbollah; e o Hizbollah literalmente pôs Israel em fuga; o Hizbollah humilhou Israel. Por onde Israel deixa uma via de fuga, mais combatentes unem-se à luta. 

Importante, também, a autoavaliação que o Hezbollah produziu, do próprio desempenho (criticaram dois dos próprios comandantes, porque estavam no mesmo local, à mesma hora). Qusayr realmente assustou o Império Anglo-sionista. A queda de Mosul os está petrificando de medo. *****


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sábado, 28 de junho de 2014

Uma nova recessão e talvez um novo mundo, finalmente livre da arrogância de Washington?


por Paul Craig Roberts
tradução: mberublue.


Finalmente, foi liberado hoje (25/06) um número final para o real Produto Interno Bruto dos Estados Unidos no primeiro trimestre de 2014. O número não é o de um crescimento de 2,6% predito pelos economistas boca-de-burro em janeiro deste ano. O número é um DECLÍNIO do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos para -2,9%. O crescimento negativo de -2,9% noticiado por si só já é um eufemismo, pois somente foi alcançado pela subestimação da inflação ocorrida durante o período. Durante o regime Clinton, a Boskin Commission (grupo de estudos nomeado pelo Senado dos Estados Unidos em 1995 para medir a inflação – NT) manipulou o cálculo da inflação para enganar os beneficiários da Seguridade Social em seus ajustes do custo de vida. Qualquer cidadão, ao adquirir comida, combustível ou seja o que for, sabe que a inflação está muito mais alta que os números oficiais fornecidos pelo governo.

É bem possível que a queda real do PIB no primeiro trimestre seja de três vezes o número oficial.

De qualquer forma, a diferença entre a previsão de crescimento de 2,6% feita em janeiro e o declínio no final de março, de 2,9% é enorme.

Qualquer economista de verdade e que não esteja sendo pago por Wall Street, pelo governo ou pelo establishment, sabe que a previsão de crescimento de 2,6% era uma safadeza. Com exceção do 1%, o rendimento do povo americano não cresceu e o único crescimento real que aconteceu foi o dos empréstimos a estudantes, já que muitos dos que não conseguem encontrar um emprego voltam-se de forma errônea para a crença de que “educação é a resposta”. Em uma economia que se baseia na demanda de consumo, a falta de aumento nos rendimentos e no crédito significa que a economia não crescerá.

A economia dos EUA não pode crescer porque, incentivadas por Wall Street, as corporações transferiram a economia dos Estados Unidos para uma economia offshore (empresas offshore são aquelas entidades comerciais ou financeiras que se localizam em domicílio diverso do país de seus proprietários e não sujeitas, portanto, às leis desse país. “Economia offshore”, como denomina o autor, seria uma economia grandemente localizada fora do país, por motivos comerciais, como mão de obra mais barata e isenções fiscais, por exemplo – NT). São feitos fora do país os produtos manufaturados dos Estados Unidos. Preste atenção nas etiquetas de suas roupas, sapatos, sua comida e utensílios de cozinha, seus computadores, qualquer coisa. Trabalhos profissionais dos Estados Unidos, como engenharia de software, migraram para fora do país. Uma economia com economia fora do país não é uma economia. Tudo acontece bem na nossa frente, enquanto os bem pagos figurantes mentirosos do mercado declaram que os americanos são beneficiados por dar seus empregos da classe média americana para a China ou a índia.

Tenho mostrado essas mentiras por uma ou duas décadas, e é por isso que há tempos não sou convidado para falar para universitários americanos ou para associações financeiras americanas. Os economistas gostam muito do dinheiro que recebem para mentir. A última coisa que querem em seu meio é uma pessoa que fale a verdade. Um declínio oficial de -2,9% no primeiro trimestre significa que o segundo trimestre também verá um declínio do PIB. Uma recessão é definida como dois trimestres consecutivos de PIB negativo.

Pense nas consequências de uma recessão. O significado é o de que anos de Quantitative Easing (Flexibilização Quantitativa – política monetária fora do convencional, onde ocorrem compras massivas de valores mobiliários por um Banco Central ou governo com a intenção de reduzir juros e aumentar a oferta de moeda. Considerada atualmente financeiramente perigosa pelo risco de aumento da inflação e redução do crédito [o que diminuiria a produção], se os bancos resolverem estocar o excesso de moeda gerado por essa política financeira – NT) falharam em reativar a economia. Significa ainda que anos de déficits fiscais Keynesianos não conseguiram reativar a economia. Nem as políticas fiscais nem as monetárias tiveram sucesso.  O que pode reativar a economia?

Nada, exceto forçar o retorno da economia que as corporações antiamericanas levaram para fora, o que requer um governo que tenha credibilidade. Infelizmente, o governo dos Estados Unidos perde credibilidade desde o segundo mandato de Clinton. A credibilidade não mais existe. Nada.

Atualmente não existe qualquer lugar no mundo onde se acredite no governo dos Estados Unidos, com exceção dos zumbis americanos sem cérebro que lêem e assistem a “mídia convencional”. A propaganda política manipulada de Washington dominou a mente dos estadunidenses, mas em qualquer outro lugar do mundo, produz gargalhadas e escárnio.

As perspectivas cambaleantes da economia dos Estados Unidos levaram dois grandes lobbies de negócios – A Câmara de Comércio dos Estados Unidos e a Associação Nacional de Fabricantes (ou o que restou delas) a entrar em conflito com a ameaça do regime de Obama, que pretende novas sanções contra a Rússia.

De acordo com o Bloomberg News, a partir de amanhã (26 de junho – o que realmente aconteceu - NT), as associações de negócios começarão a postar anúncios do New York Times, Wall Street Journal e Washington Post em oposição a novas sanções contra a Rússia. As organizações comerciais dos Estados Unidos dizem que as sanções contra a Rússia prejudicarão seus lucros e significarão mais desemprego para os estadunidenses.

Dessa forma, duas grandes organizações de comércio e finança dos Estados Unidos, o que significa dizer grandes doadores de campanhas políticas, finalmente juntaram suas vozes às dos homens de negócios da Alemanha, da França e da Itália.

Fora o público norte-americano que sofreu a lavagem cerebral da mídia, todos sabem que a “crise da Ucrânia” não passa de um trabalho engendrado por Washington. Homens de negócios europeus e dos Estados Unidos perguntam: “por que devemos sacrificar nossos lucros e nossos trabalhadores por causa da propaganda política mentirosa de Washington contra a Rússia (?)”.

Para isso, Obama não tem resposta. Talvez a sua escória neocon representada por Victoria Nuland, Samantha Powers e Susan Rice possa apresentar uma resposta. Obama pode contar com o New York Times, Washington Post, Wall Street Journal e Weekly Standard para explicar porque milhões de norte-americanos devem sofrer para que o roubo que Washington pratica contra a Ucrânia não seja ameaçado. As mentiras de Washington aumentam com Obama. A chanceler alemã Angela Markel é uma completa prostituta de Washington, mas a indústria alemã está dizendo à puta de Washington que para eles, tem muito mais valor seus negócios com a Rússia que o sofrimento que terão que passar por causa dos motivos do império de Washington. Os homens de negócios franceses estão inquirindo a Hollande quais as suas propostas para os milhares de trabalhadores franceses que fatalmente perderão seus empregos na França caso Hollande resolva seguir os ditames de Washington. As empresas italianas estão lembrando ao governo de seu país – se é que a Itália tem um – que os estadunidenses são pessoas grosseiras e sem finesse e que as sanções contra a Rússia significam um golpe diretamente contra o setor econômico mais reconhecido e organizado da Itália – o setor de produtos de luxo de alto padrão.

As divergências entre Washington e os dois governos joguetes de Washington na Europa estão se espalhando. A última pesquisa realizada na Alemanha mostra que três quartos da população alemã rejeitam de forma permanente a instalação de bases da OTAN na Polônia e nos Estados Bálticos. A antiga Checoslováquia, atual Eslováquia e a República Checa, mesmo sendo estados membros da OTAN não mais aceitam a OTAN e as tropas dos Estados Unidos em seus territórios. Recentemente, um ministro da Alemanha disse que para satisfazer Washington é preciso lhe dar uma rodada de sexo oral, sem benefício algum em retorno.

Os rumos que os idiotas de Washington estão dando à OTAN podem pouco a pouco destruir a organização. Reze para que isso realmente aconteça. A desculpa para a existência da OTAN acabou com o colapso da União Soviética, 23 anos atrás. No entanto, Washington incrementou a OTAN, que cresceu para além das fronteiras da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Hodiernamente, a OTAN cobre do Báltico até a Ásia Central. Para que haja uma razão que justifique a constante e caríssima expansão da OTAN, Washington resolveu construir um novo inimigo: a Rússia.

A Rússia tem deixado muito claro que não pretende fazer da OTAN e de Washington seus inimigos. Mas o complexo exército/segurança dos Estados Unidos, que anualmente consomem um trilhão de dólares (USD 1.000.000.000.000) dos já pressionados pagadores de impostos estadunidenses precisa de uma desculpa que faça com que os lucros continuem fluindo.

Infelizmente, os imbecis em Washington escolheram um inimigo perigoso. A Rússia é uma potência com armas nucleares, um país de vastas dimensões e com uma aliança estratégica com a China. Apenas um governo que se afoga na própria arrogância e húbris ou um governo cheio de psicopatas e sociopatas escolheria tal inimigo.

O presidente russo, Vladimir Putin alertou a Europa de que a política de Washington para o Oriente Médio e Líbia não apenas se revelou num fracasso total, como prejudica fortemente a Rússia e a Europa. Os imbecis em Washington removeram os governos que contiveram os jihadistas. Agora, os jihadistas violentos estão desenfreados. Estão neste mesmo instante refazendo no Oriente Médio as fronteiras artificiais impostas pela Bretanha e pela França após o final da Primeira Grande Guerra Mundial. A Europa,assim como a Rússia e a China, todos tem populações islâmicas e agora devem se preocupar, porque a violência desencadeada por Washington poderá provocar a desestabilização de regiões da Europa, Rússia e China.

Ninguém, em qualquer parte do mundo, tem motivos para gostar dos Estados Unidos. Muito menos todos os estadunidenses, sangrados até a inanição para que Washington possa fazer paradas de exibição de poder pelo mundo afora. A taxa de aprovação de Obama é de minguados 41% e ninguém gostaria que ele permanecesse no gabinete, uma vez terminado seu segundo mandato. Contrastando com isso, dois terços da população russa querem que Putin permaneça como seu presidente depois de 2018.

Em março, a agência de pesquisa Public Opinion Research Center, informou que a taxa de aprovação de Putin chegava a 76%, e isso apesar da agitação contra ele, promovida pelas ONGs russas financiadas pelos Estados Unidos e instaladas às centenas como quintas colunas estabelecidas na Rússia por Washington durante as duas últimas décadas.

No topo dos problemas da política dos Estados Unidos o dólar americano encontra-se em perigo.  O dólar ainda se mantém com o nariz fora d’água Porque os mercados financeiros estão sendo pressionados pelos Estados Unidos a manter o seu valor, através da impressão desenfreada de suas próprias moedas para comprar dólares. Para que isso se mantenha, uma grande parte do mundo está sendo corroído pela inflação. Quando todo mundo finalmente abandonar essa política insana e correr para o ouro, a China estará com tudo.

Um dos conselheiros do presidente Putin, Sergey Glazyev, já disse ao presidente russo que apenas uma aliança que faça com que dólar americana perca seu valor pode fazer cessar as agressões de Washington. Esta é, há muito tempo, a minha própria opinião. Não haverá, não pode haver paz enquanto Washington puder continuar imprimindo dinheiro para financiar mais guerras.

Como já disseram os governantes chineses, está na hora de “desamericanizar o mundo”. Os líderes de Washington falharam completamente com o mundo, produzindo nada mais que mentiras, violência, morte e a promessa de mais violência. Os Estados Unidos são excepcionais apenas na medida em que Washington, sem qualquer remorso, destruiu em parte ou no todo, sete países apenas neste começo do século 21. Enquanto a liderança em Washington não for substituída por líderes mais humanos, a vida na Terra não tem futuro.


Paul Craig Roberts. (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

Tradução: mberublue



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