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segunda-feira, 20 de abril de 2015


Noam Chomsky: EUA é o maior país terrorista do mundo.
por Euro News

tradução mberublue è Pequeno comentário do tradutor: resolvemos traduzir esta entrevista concedida por Noam Chomsky pela atualidade dos assuntos e por ser Noam Chomsky quem é, apesar de ser a Euro News o que é.

18 de abril de 2015 – Information Clearing House – Euro News – entrevistadora: Isabelle Kumar, entrevistado: Noam Chomsky è (Perguntas em caracteres romanos e respostas em itálico – NT)

Resultado de imagem para Noam Chomsky
O filósofo Noam Chomsky

Isabelle Kumar: O mundo em 2015 parece ser um lugar muito inseguro, mas se você olhar para o todo, sentir-se-ia otimista ou pessimista sobre a situação atual?

Noam Chomsky: Na cena global estamos caminhando para um precipício e determinados a cair nele, através de radicais reduções da capacidade para uma sobrevivência decente.

IK: Que precipício é esse?

NC: Há dois atualmente, um deles a catástrofe ambiental que é iminente e estamos sem tempo suficiente para lidar com o problema. Quando fazemos alguma coisa, fazemos a coisa errada, e o outro tem a ver com os últimos 70 anos, que seja a ameaça de uma guerra nuclear, que na realidade está crescendo. Se você prestar atenção aos dados, é um milagre que tenhamos sobrevivido até agora.

IK: Primeiro, o problema ambiental. Temos perguntas oriundas de frequentadores de nossa mídia social, que estão enviando seus questionamentos e são montes deles. Recebemos, por exemplo, uma pergunta de Enoa Agoli: quando você olha para o problema ambiental através da lente de um filósofo, o que você pensa sobre a mudança climática?

NC: A espécie humana está aqui há cerca de mais ou menos 100.000 anos e neste instante está face a face com um momento único em sua história. Esta espécie está agora em uma posição em que deve decidir muito rapidamente, em algumas gerações, se o experimento autointitulado “vida inteligente” continuará a existir ou está determinado à autodestruição? Quero dizer aqui que a esmagadora maioria dos cientistas reconhece que grande parte dos combustíveis fósseis deveriam ser deixados no solo, isso se quisermos realmente que nossos netos tenham um futuro decente. Mas a estrutura institucional de nossa sociedade pressiona cada vez mais agudamente para que se extraia cada gota. Os efeitos, as consequências para os seres humanos e os efeitos já preditos sobre a mudança climática estão às nossas portas e são catastróficos. Trata-se da corrida para o precipício que já mencionei.

IK: Já que falamos de guerra nuclear, podemos ver um panorama no qual se alcançou um acordo preliminar com o Irã. Isso lhe dá pelo menos um raio de esperança de que o mundo possa se tornar um lugar mais seguro?

NC: Sou favorável às negociações com o Irã, mas tais negociações estão profundamente equivocadas. Há dois Estados cuja voracidade no Oriente Médio está produzindo agressões, violência, atos terroristas e ações ilegais constantemente. Os dois são Estados nucleares e possuem blindagem contra ataques nucleares. E suas armas nucleares não estão sendo levadas em conta.

IK: A quem exatamente você está se referindo?

NC: Aos Estados Unidos e a Israel. Dois dos maiores estados nucleares no mundo. Entendo que é por essa razão que em pesquisas internacionais, levadas a efeito por agências de pesquisas dos próprios Estados Unidos, este aparece lembrado como a maior ameaça à paz mundial por grande margem. Nenhum outro país chega sequer perto. É interessante notar que a mídia dos Estados Unidos se recusa a publicar estes resultados, o que não os faz desaparecer.

IK: Você não tem muita consideração com o Presidente dos Estados Unidos, Barak Obama. Mas este acordo não faz com que você o veja em termos um pouco melhores? O fato de que ele está tentando reduzir o risco de uma guerra nuclear?

NC: Bem, na verdade ele não está. Ele acaba de dar início a um programa de um trilhão de dólares para modernizar o sistema de armas nucleares dos Estados Unidos, o que significa expandir o sistema de armamento nuclear. Esta é uma das razões pelas quais o relógio do juízo final, criado pelo Boletim dos Cientistas Atômicos foi, apenas duas semanas atrás, colocado dois minutos mais perto da meia noite. A meia noite significa o fim. Assim, estamos agora a apenas três minutos da meia noite, o que é o mais perto nos últimos trinta anos, desde o início dos anos Reagan, quando estivemos assustadoramente perto da guerra nuclear.

IK: Você mencionou Israel e Estados Unidos relacionados ao Irã. Agora, o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Natenyahu obviamente não quer que o acordo nuclear com o Irã funcione, e ele disse...

NC: Interessante... deveríamos nos perguntar por que.

IK: Por que?

NC: Nós sabemos porque. O Irã gasta muito pouco com equipamentos militares, mesmo pelo padrão da região, muito menos que os Estados Unidos. A estratégia do Irã é defensiva, projetada para segurar um ataque o tempo suficiente para que a diplomacia possa agir, e os Estados Unidos e Israel, dois estados bandidos, não podem tolerar um estado dissuasivo. Nenhum analista estratégico que tenha um cérebro que funcione minimamente pensa que o Irã usará uma arma nuclear. Mesmo que seja capaz disso, o país seria simplesmente vaporizado e não há qualquer indicação de que os clérigos que dirigem o país, não importa o que se pense deles, querem ver tudo o que têm destruído.

IK: Apenas mais uma questão sobre este assunto e veio através da mídia social, de Morten A. Andersen. Ele pergunta: “você acredita que os Estados Unidos jamais assinariam um acordo que traria perigo, em primeiro lugar, para Israel?”

NC: Os Estados Unidos estão a todo instante promovendo ações que são muito perigosas para o Estado de Israel. A saber, o apoio incondicional às políticas israelenses. Pelos últimos 40 anos, a maior ameaça enfrentada por Israel veio de suas próprias políticas. Se você olhar 40 anos atrás, e falo de 1970, Israel era um dos países mais admirados e respeitados em todo o mundo. Havia muitas atitudes favoráveis para com o país. No início dos anos 70s Israel tomou uma decisão. Tinha que fazer uma escolha e preferiu trilhar o caminho da expansão em detrimento da segurança com todas as perigosas consequências que esta decisão provocou. Consequências estas que atualmente são óbvias. Além de mim, outras pessoas escreveram sobre isso. Se você prefere expansão à segurança isso vai levar você em direção à degeneração interna, ódio, oposição, isolamento e por último, a possível destruição. Apoiando essas políticas, os Estados Unidos estão contribuindo para as ameaças que Israel encara hodiernamente.

IK: O que me leva então ao tema do terrorismo. Porque é uma praga global e muita gente, e penso que posso incluir você mesmo, afirmarão que é um tiro pela culatra da política de guerra ao terror dos Estados Unidos ao redor do mundo. Até onde podem ser os Estados Unidos e seus aliados responsabilizados pelo que vimos atualmente em termos de terrorismo pelo mundo afora?

NC: Não se esqueça de que a pior campanha terrorista do mundo é, de longe, aquela levada a efeito por e orquestrada em Washington. É uma campanha global de assassinatos. Nunca antes houve uma campanha terrorista nesta escala.

IK: Quando você fala de campanha de assassinatos...?

NC: As ações com o uso de drones – é exatamente o que isso quer dizer. Sobre grande parte do globo os Estados Unidos estão sistemática, pública e abertamente – não há qualquer segredo no que estou dizendo, nós sabemos disso – está levando a efeito uma campanha regular para assassinar pessoas que o governo dos Estados Unidos suspeita que possa prejudicá-lo algum dia. E isso é, na realidade, como você mencionou, uma campanha que gera mais terror, pois quando você bombardeia uma vila no Iêmem e mata algumas pessoas – as quais talvez sejam as pessoas que você quer, talvez não – e mais algumas pessoas que moram ou que aconteça se encontrarem nas vizinhanças – como você acha que os sobreviventes reagirão? Eles querem vingança.

IK: Você descreve os Estados Unidos como o principal país terrorista. Onde se encaixa então a Europa neste quadro?

NC: Bem, esta é uma questão bem interessante. Assim, por exemplo, já existe um estudo feito recentemente. Penso que foi realizado pela Open Society Foundation... a pior forma de tortura é a “entrega extraordinária”. Entrega extraordinária significa que você prende uma pessoa da qual você tem uma suspeita qualquer, e a envia para o seu ditador favorito, talvez Assad ou Kadaffi ou Mubarak para ser torturada, esperando que surja disso alguma coisa. Isto define a maravilhosa entrega extraordinária. Obviamente, os ditadores do Oriente Médio participam, e estas pessoas foram enviadas para lá para serem torturadas. Também a Europa participa. A maioria da Europa participa. Inglaterra, Suécia e outros países. De fato, só existe uma região no mundo onde nenhum país participou: a América Latina. Esse fato é dramático. Não participou apenas porque hoje a América Latina está livre dos laços que a prendiam ao controle dos Estados Unidos. Quando a América Latina era dominada pelos EUA, há não muito tempo atrás, ela foi um dos centros mundiais de tortura. Agora, não participam da pior forma de tortura que existe, que é a entrega extraordinária. A Europa participa. Quando os mestres rugem, os servos obedecem.

IK: Então a Europa é serva dos Estados Unidos?

NC: Não tenha dúvidas. São muito covardes para ter qualquer posição de independência.

IK: Onde se enquadra Vladimir Putin nesta paisagem? Ele é pintado como se fosse uma enorme ameaça à segurança. Ele é?

NC: Como muitos líderes, ele é uma ameaça para a população de seu próprio país. Praticou ações ilegais, obviamente. Mas descrevê-lo como sendo um monstro enlouquecido, dizer que ele tem problemas mentais e que sofre de Alzheimer, que é uma criatura vil e maldosa, trata-se de fanatismo Orwelliano do tipo padrão. Quero dizer, o que quer que você pense sobre suas políticas, elas são compreensíveis. A ideia de que a Ucrânia pode se juntar a uma aliança militar ocidental seria inaceitável para qualquer líder russo. Isso remete para 1990, quando do colapso da União Soviética. Havia uma questão muito importante sobre o que aconteceria com a OTAN. Gorbachev concordou em permitir que a Alemanha fosse reunificada e se juntasse à OTAN. Foi uma concessão e tanto, mas havia uma contrapartida: que a OTAN nunca mais se expandiria sequer uma polegada para o leste. Esta foi exatamente a frase usada naquela ocasião.

IK: Então a Rússia tem sido provocada?

NC: Bem, o que aconteceu? A OTAN instantaneamente incorporou a Alemanha Oriental e então Clinton tratou de expandir a OTAN diretamente até as fronteiras da Rússia. Agora, o governo ucraniano, estabelecido depois de um golpe que derrubou o governo precedente, fez o parlamento votar a adesão à OTAN, com uma aprovação de 300 a 8 ou coisa semelhante.

IK: Mas você pode entender porque eles gostariam de se unir à OTAN, você pode ver por que o governo de Petro Poroshenko muito provavelmente vê a união com a OTAN como a proteção de seu país?

NC: Não, não, não, não. Não se trata de proteção. É certo que a Crimeia foi tomada apenas depois do golpe que derrubou o governo anterior. E a união com a OTAN não protege a Ucrânia e sim a ameaça com uma guerra em grande escala. Neste momento, não se trata de proteção. O ponto é: o que temos é uma ameaça estratégica muito séria contra a Rússia, contra a qual qualquer líder russo tem que reagir. É muito fácil de entender.

IK: Porém quando olhamos a situação da Europa, existe outro fenômeno interessante tomando lugar. Vemos a Grécia movendo-se em direção ao leste, potencialmente, assim como vemos o partido PODEMOS que ganha poder na Espanha. E há a Hungria. Você vê que existe um potencial para a Europa iniciar por si mesma um alinhamento maior com os interesses russos?

NC: Dê uma olhada no que está acontecendo. A Hungria não se encaixa, é uma situação inteiramente diferente. O partido Syriza assumiu o poder levado por uma onda popular que afirmava que a Grécia não mais deveria sujeitar-se às políticas de Bruxelas e aos bancos da Alemanha que estavam destruindo o país. O efeito das políticas de Bruxelas e dos bancos era na verdade fazer crescer imensuravelmente o débito grego em relação à sua capacidade de produzir riqueza; provavelmente metade dos jovens gregos está desempregada e provavelmente 40% da população vive abaixo da linha da pobreza. A Grécia está em ruínas.

IK: Então seu débito deve ser anulado?

NC: Sim, da mesma forma que foi feito em relação à Alemanha. Em 1953, quando a Europa perdoou a maioria dos débitos germânicos. Apenas por isso foi a Alemanha capaz de reconstruir o país devastado pela guerra.

IK: Mas então, e quanto aos demais países da Europa...?

NC: A mesma coisa.

IK: Posso concluir então que Portugal deve ter seu débito anulado, assim como a Espanha?

NC: Quem contraiu esse débito? A quem se deve tais quantias? Em grande parte, as dívidas foram contraídas por ditadores. Como na Grécia, onde uma ditadura apoiada pelos Estados Unidos contraiu grande parte do débito grego. Penso que essa dívida é ainda mais brutal que a ditadura, e não deve ser paga, pois se trata daquilo que em direito internacional é chamado de “dívida odiosa”, introduzida na legislação internacional principalmente pelos Estados Unidos, quando isso era de seu interesse. Muito do restante dos débitos, chamados de contribuições para a Grécia não passaram de contribuições para os bancos franceses e alemães, que decidiram emprestar dinheiro com baixo interesse e risco extremo e agora se veem face ao risco de não serem pagos de volta.

IK: Agora, eu gostaria de fazer a seguinte questão, enviada por Gil Gribaudo que pergunta: Como pode a Europa se transformar contra os desafios existenciais que enfrenta atualmente? Porque, sim, temos uma crise econômica e também o crescimento do nacionalismo e você também descreveu algumas falhas culturais que foram criadas através da Europa. Como você vê a Europa a transformar-se em algo melhor?

NC: Os problemas enfrentados pela Europa são sérios. Alguns destes problemas são causados pelas políticas impostas pelos burocratas em Bruxelas, a Comissão Europeia, etc., enfrentando a pressão da OTAN e dos grandes bancos a maioria dos quais da Alemanha. Apenas do ponto de vista de seus elaboradores estas políticas fazem algum sentido. Por um lado, eles querem ser pagos pelos empréstimos de risco, e investimentos arriscados que fizeram e por outro lado, estas políticas estão destruindo sistema de bem estar social dos Estados, do qual aliás, eles nunca gostaram. Mas o sistema de bem estar social é uma das maiores contribuições europeias para a sociedade moderna, mesmo que os ricos e poderosos nunca tenham gostado dele e o fato de que estas políticas o estão erodindo é bom, pelo menos do seu ponto de vista. Há ainda outro problema na Europa. O continente é extremamente racista. Eu sempre considerei que, de fato, a Europa é ainda mais racista que os Estados Unidos. Tal situação não era tão notada na Europa porque as populações europeias no passado sempre tenderam a ser muito homogêneas. Assim, se todos tem cabelos louros e olhos azuis, então você não verá racistas, mas assim que a população começa a mudar, o racismo põe o focinho fora da toca. Muito rapidamente. Este é um dos sérios problemas culturais na Europa.

IK: Eu gostaria de terminar, porque o tempo se tornou curto, com uma questão de Robert Light em um tom mais positivo. Ele pergunta: O que lhe dá esperanças?

NC O que me dá esperanças são algumas das coisas das quais falei. Da América Latina, por exemplo. Há uma significância histórica no que acontece ali. Estamos prestes a ver isso se confirmar na Cúpula das Américas (a entrevista aconteceu antes da reunião de chefes de Estado – NT) que acontecerá no Panamá. Em encontros hemisféricos recentes, os Estados Unidos ficaram completamente isolados. É uma mudança radical em relação a 10 ou 20 anos atrás, quando os Estados Unidos impunham (os assuntos latino americanos). De fato, a razão pela qual Obama fez gestos de amizade em direção a Cuba, foi uma tentativa de romper o isolamento dos Estados Unidos nas Américas. Ocorre que quem estava isolado não era Cuba. Eram os Estados Unidos. Talvez a tentativa venha a falhar. Vamos ver. Os sinais de otimismo na Europa são os partidos Syriza e PODEMOS. Esperemos que haja, finalmente, uma revolta popular contra as políticas de destruição econômica e esmagamento de direitos sociais que resultam da burocracia e dos bancos, e isto é muito esperançoso. Tem que ser.

IK: Noam Chomsky, muito obrigado por ter estado conosco.

Fonte: Euro News.

Noam Chomsky - é um linguista, filósofo e ativista político norte-americano, professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts . Seu nome está associado à criação da gramática gerativa transformacional. Fonte: wikipedia.
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domingo, 6 de julho de 2014




4/7/2014, [*] Noam Chomsky, 4th mídia

“Noam Chomsky: America’s Real Foreign Policy – A Corporate Protection Racket”

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

— Que “proteção criminosa” devo chamar para as corporações de petróleo?
— As Forças Armadas dos EUA!
Há uma “versão padrão recebida”, comum na academia, em pronunciamentos do governo e no discurso público, segundo a qual o primeiro dever de qualquer governo é prover segurança; e que a principal preocupação dos EUA e seus aliados, desde 1945, sempre foi a “ameaça russa”.

Há vários meios para avaliar-se essa doutrina. Pode-se começar por responder uma pergunta óbvia: O que aconteceu quando a ameaça russa desapareceu, em 1989? Resposta: nada aconteceu; tudo continuou como antes.

Pouco depois, os EUA invadiram o Panamá matando, provadamente, milhares de pessoas e instalando ali um regime-cliente. Essa era prática rotineira nos domínios dominados pelos EUA. Mas esse caso não foi rotineiro: pela primeira vez, um grande ato de política exterior não se explicava por qualquer tipo de suposta ameaça russa!


Panamá - Soldados dos EUA assassinaram
friamente milhares de civis
Daquela vez, inventaram-se e foram distribuídos vários e vários pretextos fraudulentos para aquela invasão, que se desmontaram instantaneamente, logo ao primeiro exame. A imprensa-empresa tudo louvava entusiasticamente, aquele grande feito de derrotar o Panamá. Não se preocupava com a evidência de que os pretextos eram ridículos, que o ato em si não passava de violação gravíssima da lei internacional, que estava sendo execrado em muitas partes do mundo, especialmente na América Latina.

Panamá - Tanque dos EUA invadiu perigosa... Lavanderia
A imprensa-empresa também ignorou o veto dos EUA contra proposta de Resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenaria os crimes cometidos por soldados dos EUA durante a invasão. Todos os demais votantes votaram unanimemente a favor da condenação aos EUA; a Grã-Bretanha absteve-se; e os EUA vetaram. Rotina. E ficou tudo por isso mesmo (o que também é rotina).

De El Salvador à Fronteira Russa

O governo de George H.W. Bush lançou nova política de segurança nacional e orçamento para a defesa, em reação ao colapso do inimigo global. Não fazia sentido algum. Como da primeira vez, mobilizaram-se falsos pretextos. Eram outros pretextos, mas eram igualmente falsos pretextos. É que, como depois se viu, era necessário manter um establishment militar quase tão grande quanto o do resto do mundo, tudo somado, e muito mais avançado na sofisticação tecnológica – mas não para defender o país contra uma inexistente União Soviética. A desculpa, dessa vez, foi a crescente “sofisticação tecnológica” de potências do 3º Mundo.

Intelectuais disciplinados compreenderam que não se recomendava que se lançassem em ridículo total, e, portanto, mantiveram-se em silêncio.

Pentágono - Centro da "Protection Racket" dos EUA
Os EUA, insistiam os novos programas, tinham de manter sua “base industrial de defesa”. A frase é eufemística, para falar em geral de indústria high-tech que depende pesadamente de vasta intervenção estatal para pesquisa e desenvolvimento, quase sempre mascarada como se fosse atividade a serviço do Pentágono. É o que economistas continuam a chamar de “economia de livre mercado” dos EUA.

Uma das cláusulas mais interessantes dos novos planos tinha a ver com o Oriente Médio. Ali, ficava decidido, Washington tinha de manter forças de intervenção que tomariam como alvo uma região crucial, cujos “principais problemas não podem ser entregues à porta do Kremlin”. Ao contrário dos 50 anos de mentiras anteriores, confessava-se discretamente que a principal preocupação não eram os russos, mas o que se chama “nacionalismo radical”, quer dizer: qualquer nacionalismo independente que os EUA não controlem completamente.

Tudo isso tinha evidente conexão com a visão padrão, mas passou despercebido – ou, talvez: por isso mesmo, passou despercebido.

Queda do Muro de Berlim
Outros eventos importantes aconteceram imediatamente depois do fim do Muro de Berlim, fim da Guerra Fria. Um deles aconteceu em El Salvador, país que recebia a maior ajuda militar dos EUA em todo o mundo – exceto Israel-Egito, que são caso à parte – e com os piores registros de desrespeito aos direitos humanos do planeta (essa correlação também é frequente e bem direta).

O alto comando salvadorenho ordenou que a Brigada Atlacatl invadisse a Universidade Jesuíta e assassinasse seis destacados intelectuais latino-americanos, todos eles jesuítas, inclusive o reitor, Fr. Ignacio Ellacuría, e testemunhas (a governanta da residência do reitor e a filha dela). 

A Brigada acabava de voltar de treinamento avançado contrainsurgência no John F. Kennedy Special Warfare Center and School do Exército dos EUA, em Fort Bragg, North Carolina, e deixou um rastro de milhares das vítimas de sempre ao longo da campanha de terror liderada pelos EUA em El Salvador – parte de campanha de terror e tortura mais ampla, por toda a região.

Tudo, rotina. Tudo ignorado e virtualmente esquecido nos EUA e pelos aliados, tudo, como sempre, rotina. Mas isso nos diz muito sobre os fatores que dirigem a política, se nos damos o trabalho de observar o mundo real.

Mikhail Gorbachev (2013)
Outro evento importante aconteceu na Europa. O presidente soviético Mikhail Gorbachev concordou com permitir a unificação da Alemanha e que a Alemanha fosse integrada como membro à OTAN – aliança militar hostil. À luz da história recente, foi a mais surpreendente das concessões. Mas tinha havido uma troca: o presidente Bush e o secretário de Estado James Baker haviam concedido que a OTAN não seria expandida “uma polegada, para o Oriente”, falando da Alemanha Oriental. Imediatamente depois de firmado o acordo, os dois expandiram a OTAN para a Alemanha Oriental.

Gorbachev ficou obviamente ultrajado. Mas quando reclamou, Washington explicou-lhe que a coisa não passara de compromisso verbal, acordo de cavalheiros, sem força alguma. Se fora suficientemente tolo a ponto de acreditar na palavra do presidente e do secretário de Estado dos EUA, problema dele.

Isso também era rotina, como rotina eram também a silenciosa aceitação e a aprovação da expansão da OTAN, nos EUA e, em geral, no ocidente. O presidente Bill Clinton então expandiu ainda mais a OTAN, direto para junto das fronteiras da Rússia. Hoje, o mundo encara grave crise que é, em medida não pequena, resultado dessas políticas.

A sedução de saquear os mais pobres

Outra fonte de provas são os registros históricos que vão chegando ao conhecimento público. Esses registros contêm dados reveladores dos reais motivos da política de estado dos EUA. A história é rica e complexa, mas alguns temas têm persistentemente o papel dominante. Um deles foi claramente articulado numa conferência para o hemisfério ocidental que os EUA convocaram, no México, em fevereiro de 1945, na qual Washington impôs “Uma Carta Econômica para as Américas” [orig. An Economic Charter of the Americas] que visava a eliminar o nacionalismo econômico “em todas as suas formas”. Havia uma condição “não dita”: o nacionalismo econômico ficava aprovado, até recomendado, para os EUA, cuja economia depende vitalmente de massiva intervenção do estado.

Em 1965 as Forças Armadas dos EUA, "corajosamente",
invadiram a República Dominicana
A eliminação do nacionalismo econômico para os outros entrou em agudo conflito com a posição dos latino-americanos naquele momento, posição que funcionários do Departamento de Estado descreveram como “a filosofia do Novo Nacionalismo [o qual] abraça políticas que visam a assegurar melhor distribuição de riqueza e a melhorar os padrões de vida das massas”.  

Como outros analistas políticos norte-americanos acrescentaram, “os latino-americanos estão convencidos de que os primeiros beneficiários do desenvolvimento dos recursos de um país deve ser o povo daquele país”.

Claro que não podia ser. Para Washington, os “primeiros beneficiários” têm de ser os investidores norte-americanos, com a América Latina preenchendo a função de dar-lhes os meios. Não poderia haver, como os governos Truman e Eisenhower deixariam bem claro, “desenvolvimento industrial excessivo” que viesse a abalar os interesses dos EUA.

O Brasil, por exemplo, poderia produzir aço de baixa qualidade com o qual as empresas norte-americanas não precisavam preocupar-se; mas a produção seria considerada “excessiva”, se entrasse em concorrência com as empresas norte-americanas.

Preocupações semelhantes ressoaram no período do pós IIª Guerra Mundial. O sistema global que era dominado pelos EUA estava ameaçado por o que documentos internos chamam de “regimes radicais e nacionalistas” que respondem a pressões populares por desenvolvimento independente. Essa foi a preocupação que motivou os golpes que derrubaram os governos parlamentaristas do Irã e da Guatemala em 1953 e 1954, além de vários outros golpes (Brasil, 1964 – Nrc).

Golpe de Estado no Irã em 1953
No caso do Irã, uma preocupação principal foi o impacto potencial da independência iraniana sobre o Egito, então em torvelinho contra a prática colonial britânica. Na Guatemala, além do crime da nova democracia que dava poder à maioria camponesa e invadia possessões da United Fruit Company — o que já seria ofensa suficiente – Washington preocupava-se com a agitação nos meios trabalhistas e a mobilização popular em ditaduras apoiadas pelos EUA nos arredores.

Nos dois casos, as consequências chegam até os nossos dias.

Literalmente, não houve um dia, desde 1953, em que os EUA não tenham torturado o povo do Irã. E a Guatemala ainda é uma das câmaras de horror do mundo. Até hoje há maias que fogem dos efeitos das campanhas militares quase-genocidas no país, patrocinadas pelo presidente Ronald Reagan e seus mais altos representantes. Como um diretor da Oxfam, médico guatemalteco, relatou recentemente:

Há deterioração dramática do contexto político, social e econômico. Ataques contra defensores de Direitos Humanos aumentaram 300% no último ano. Há clara evidência de que é estratégia bem organizada pelo exército e pelo setor privado. Ambos capturaram o estado, para manter o status quo e impor o modelo econômico extrativista, empurrando os povos nativos dramaticamente para fora de suas terras, que vão sendo ocupadas pela grande indústria de mineração, African Palm e fazendas de cana-de-açúcar. Além disso, o movimento social, que defende as terras e os direitos dos nativos foi criminalizado, muitos líderes estão presos e muitos outros foram assassinados.

Nada se sabe sobre isso nos EUA, e até a causa óbvia desses fatos também é mantida ocultada.

Foster Dulles (E) e Dwight Eisenhower  (1956)
Nos anos 1950s, o presidente Eisenhower e o secretário de Estado John Foster Dulles explicaram claramente o dilema que os EUA enfrentavam. Reclamaram de que os comunistas gozavam de vantagem injusta. Os comunistas podiam “apelar diretamente às massas” e “obter o controle dos movimentos de massa, coisa que nós não podemos fazer. Eles falam diretamente aos pobres e sempre querem saquear os ricos”.

Isso, sim, é problema. Os EUA sempre encontraram dificuldades para falar diretamente aos pobres e mostrar aos pobres sua doutrina segundo a qual os ricos podem saquear os pobres.

O exemplo cubano

Exemplo claro do padrão geral foi Cuba, quando afinal se tornou independente em 1959. Em poucos meses começaram os ataques militares contra a ilha. Pouco depois, o governo de Eisenhower decidiu, secretamente, mudar o regime em Cuba. Em seguida, John F. Kennedy tornou-se presidente. Queria dedicar mais atenção à América Latina. Então, logo no início do governo, criou um grupo para desenvolver políticas, sob a coordenação do historiador Arthur Schlesinger, que resumiu suas conclusões para apresentar ao presidente que chegava.

Cuba - Baia dos Porcos
Como Schlesinger explicou, o mais ameaçador, de haver uma Cuba independente, era “a ideia de Castro de o país tomar as questões nas próprias mãos”. Desgraçadamente, era ideia que muito atraía as massas na América Latina, onde “a distribuição de terra e de outras modalidades de riqueza nacional favorecem muito as classes proprietárias, e onde os pobres e oprimidos, estimulados pelo exemplo da Revolução Cubana, já começam a exigir oportunidades para uma vida decente”. Para Washington, só problemas. E o dilema de sempre. 

Como a CIA explicou: 

A extensiva influência do  “castrismo” não é função do poder cubano (...) a sombra de Castro mostra-se grande porque as condições sociais e econômicas na América Latina convidam a fazer oposição a qualquer autoridade e encorajam a agitação para mudança radical.

E a Cuba de Castro oferece modelo para isso. Kennedy temia que a ajuda russa pudesse fazer de Cuba uma “vitrine” do desenvolvimento, o que daria vantagem aos soviéticos em toda a América Latina.

Cuba - Baia dos Porcos, praias
O Conselho de Planejamento Político do Departamento de Estado alertou que: 

(...) o perigo básico que enfrentamos com Castro está (...) no impacto que a simples existência de seu governo tem sobre o movimento esquerdista em muitos países latino-americanos (...). O simples fato é que Castro representa desafio bem-sucedido aos EUA, negação de toda nossa política hemisférica de quase um século e meio 

Queria dizer: desde a Doutrina Monroe de 1823, quando os EUA declararam sua intenção de dominar o hemisfério.

Naquele momento, o objetivo imediato era conquistar Cuba, mas não era possível por causa do poder do inimigo britânico. Ainda assim, o grande estrategista John Quincy Adams, pai intelectual da Doutrina Monroe e do Destino Manifesto, informou aos seus colegas que, com o tempo, Cuba lhes cairia no colo, pelas “leis da gravitação política”, como a maçã cai da árvore. Em resumo: o poder dos EUA aumentaria e o da Grã-Bretanha encolheria.

Em 1898, o prognóstico de Adams se realizou. Os EUA invadiram Cuba, sob o disfarce de “libertadores”. Na verdade, impediram que a ilha se tornasse independente da Espanha e a converteram em “colônia virtual”, como disseram os historiadores Ernest May e Philip Zelikow. Cuba permaneceu nessa situação até janeiro de 1959, quando se tornou independente. Desde então, é alvo de guerras terroristas movidas pelos EUA, e que começaram nos anos Kennedy, e de tentativas de estrangulamento econômico. Não por causa dos russos.

Parte da força invasora capturada em 1961
na Baia dos Porcos, Cuba
A política dos EUA para Cuba tornou-se cada vez mais dura; e ainda mais sob governo Democrata, inclusive sob Bill Clinton, que conseguiu ultrapassar Bush pela direita, nas eleições de 1992. Nesse quadro, os eventos acima listados deveriam ter afetado a validade da doutrina, na discussão da política externa e dos fatores que incidem sobre ela. Mas, não. Nada disso. Outra vez, o impacto dos fatos sobre a teoria foi mínimo.

O vírus do nacionalismo

Tomando emprestada a terminologia de Henry Kissinger, o nacionalismo é “um vírus” cujo “contágio pode disparar”. Kissinger, aí, falava do Chile de Salvador Allende. O vírus, no caso, era a ideia de que podia haver via parlamentar para algum tipo de democracia socialista. O modo de enfrentar tamanha ameaça foi destruir o vírus e vacinar todos que pudessem ter sido contaminados; a solução típica foi impor em todos os casos os mais mortíferos estados de segurança nacional. Foi feito assim no Chile em 1973  (imitando o golpe MILICANALHA no Brasil/1964 - Nrc). Mas é importante perceber que esse tipo de pensamento permanece vivo em todo o mundo.

Forças Armadas chilenas bombardeiam o palácio
de "La Moneda" em 11/9/1973
Foi esse, por exemplo, o pensamento que havia por trás da decisão de opor-se ao nacionalismo vietnamita no início da década dos 1950s e apoiar o esforço da França para reconquistar sua ex-colônia. Temia-se que o nacionalismo vietnamita independente pudesse ser um vírus que contaminaria as regiões circundantes, inclusive a Indonésia, riquíssima em recursos.

Poderia até levar o Japão – chamado de “superdominó”, por John Dower, especialista em Ásia – a tornar-se o centro de uma nova ordem industrial e comercial independente do tipo que o Japão imperial havia lutado então recentemente para estabelecer.

Tudo isso, por sua vez, significaria que os EUA teriam perdido a guerra pelo Pacífico, opção que não se considerava em 1950. O remédio era claro – e foi usado com bastante sucesso: o Vietnã foi virtualmente destruído e foi cercado por ditaduras militares que mantiveram o “vírus” cercado e contiveram o contágio.

Em retrospecto, McGeorge Bundy, Conselheiro de Segurança Nacional de Kennedy-Johnson, considerou que Washington deveria ter terminado a Guerra do Vietnã em 1965, quando a ditadura de Suharto foi instalada na Indonésia, com massacres terríveis, que a CIA comparou aos crimes de Hitler, Stálin e Mao. Mas o massacre para empossar Suharto foi saudado com incontida euforia nos EUA e no ocidente em geral, porque o “espantoso banho de sangue”, como a imprensa-empresa o comemorava eufórica, pôs fim a qualquer ameaça de contágio e abriu os ricos recursos da Indonésia aos exploradores ocidentais. Depois de isso estar feito, a guerra para destruir o Vietnã já foi supérflua, como Bundy reconheceu, retrospectivamente.

O legado de Suharto, apoiado pelos EUA, na Indonesia
O mesmo é verdade na América Latina, nos mesmos anos: um “vírus” depois do outro foi viciosamente atacado e destruído ou enfraquecido a ponto de mal sobreviver. A partir do início dos anos 1960s, uma praga de repressão foi imposta em todo o continente, uma história de violência sem precedentes no hemisfério, que se estendeu também para a América Central nos anos 1980s, no governo de Ronald Reagan, assunto ainda vivo na memória que não é preciso rememorar aqui.

Muito disso tudo foi assim também no Oriente Médio. As relações especialíssimas entre EUA e Israel ganharam a forma que hoje têm em 1967, quando Israel aplicou golpe violentíssimo contra o Egito, o centro do nacionalismo árabe secular. Ao fazê-lo, Israel protegeu a Arábia Saudita, aliada dos EUA, então engajada em conflito militar contra o Egito, no Iêmen.

A Arábia Saudita, é claro, é o estado islâmico fundamentalista mais radical, e também é estado missionário, que gasta somas astronômicas para difundir doutrinas salafistas wahhabistas além de suas fronteiras. Vale a pena lembrar que os EUA, como, antes deles, a Inglaterra, tenderam sempre a apoiar o Islã fundamentalista contra o nacionalismo secular, que sempre foi percebido como ameaça mais grave de independentismo e de contágio (o “vírus”, não esqueçam).

O valor do segredismo

Muito há para dizer, mas o registro histórico demonstra muito claramente que a doutrina padrão tem pouca serventia. A segurança, no sentido normal, não é fator na formação política. Repito: no sentido normal de “segurança”. Mas, para avaliar a doutrina padrão, é preciso perguntar o quê significa “segurança”. “Segurança” para quem?

Corte Internacional de Justiça, Haia
Uma resposta é: segurança para o poder do estado. Há muitos exemplos. Consideremos um exemplo atual. Em maio, os EUA concordaram que apoiariam uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para que a Corte Internacional de Justiça, em Haia, investigasse crimes de guerra na Síria, mas sob uma condição: não poderia haver investigação nenhuma de qualquer possível crime de guerra cometido por Israel. Nem de crimes cometidos por Washington. De fato, ninguém nem precisaria declarar essa “proteção” aos EUA, porque os EUA são a única nação autoimunizada contra a ação de qualquer sistema legal internacional.

De fato, há uma lei do Congresso dos EUA que autoriza o presidente a usar força armada para “resgatar” qualquer norte-americano que seja levado a Haia para ser julgado: é a “Netherlands Invasion Act” [Lei da Invasão dos Países Baixos], como é às vezes chamada na Europa. Assim, mais uma vez, se comprova a importância de proteger a segurança do poder do estado.

Mas proteger a segurança do estado, contra quem? Pode-se muito bem argumentar que a principal preocupação do governo é proteger a segurança do estado e contra a própria população. Como sabe qualquer pessoa que se tenha dedicado a vasculhar arquivos, o segredismo, o chamado “sigilo” que protege o governo, raramente é motivado por legítima preocupação de segurança; praticamente em todos os casos o segredismo oficial visa, exclusivamente, a manter a população em total ignorância, sem saber do que se passa.

Samuel Huntington
E por boas razões, como explicou lucidamente o ilustre intelectual liberal e conselheiro governamental Samuel Huntington, professor de ciência de governo na Harvard University. Nas palavras dele:

Os arquitetos do poder nos EUA devem criar uma força que seja sentida, mas não seja vista. O poder permanece forte quando se guarda no escuro; exposto à luz do sol, começa a evaporar.

Huntington escreveu isso em 1981, quando a Guerra Fria voltava a esquentar, e explicou também que:

(...) você tem de vender [intervenção ou outra ação militar] de modo tal que crie a falsa impressão de que o que você combate é a União Soviética. É o que os EUA sempre fizeram, desde a Doutrina Truman.

São verdades simples, raramente reconhecidas, mas ajudam a ver por dentro do poder e das políticas do estado, e têm reverberações até nossos dias.

O poder do estado tem de ser protegido contra seu inimigo doméstico; em agudo contraste com isso, a população não tem como se proteger contra o poder do estado. Impressionante exemplo atual é o ataque frontal, mortal, que o governo Obama move contra a Constituição dos EUA, com seu programa de vigilância interna massiva. A coisa, é claro, justifica-se sob o argumento da “segurança nacional”. Mas é o que dizem virtualmente todos os estados para justificar todas as suas ações e, assim sendo, pouco significa ou informa.

Quando o programa de vigilância total da Agência de Segurança Nacional dos EUA foi desmascarado pelas revelações de Edward Snowden, altos funcionários correram a declarar que a vigilância total teria evitado 54 atos terroristas. No inquérito, o número já baixou para uma dúzia. Na sequência, um painel de alto nível criado pelo governo logo descobriu que, de fato, só um caso fora realmente “descoberto”: alguém mandara US$ 8.500 para a Somália. Foi o único “benefício” obtido dessa vasto ataque contra a Constituição e, claro, também contra milhões de outras pessoas em todo o mundo.

A atitude da Grã-Bretanha é interessante. Em 2007, o governo britânico contratou a colossal agência de espiões de Washington, para que “analisasse e recolhesse todos os números de celulares, fax, endereços de e-mails e IPs de qualquer cidadão/ã britânico/a que houvesse em seu banco de dados” – como o The Guardian noticiou. Dá indicação útil da importância relativa, aos olhos do governo, de o estado proteger a privacidade dos próprios cidadãos e das encomendas que Washington recebe.

Outra preocupação é garantir segurança ao poder privado.

Exemplo atual são os gigantescos acordos comerciais que estão sendo negociados, as “parcerias” Trans-Pacífico e Trans-Atlântico. Estão sendo negociadas em segredo, mas não totalmente em segredo. Absolutamente não são segredo para as centenas de advogados de corporações que estão redigindo as cláusulas e seus muitos detalhes. Não é difícil adivinhar quais serão os resultados, e os raros “vazamentos” que se conhecem sugerem que o que se espera e teme, sim, é o que acontecerá.

EUA, México e Canadá - Membros do NAFTA
Como o NAFTA e outros desses “pactos” e “parcerias”, não são acordos de livre comércio. De fato, sequer são acordos de comércio: são, em primeiro lugar, acordos que fixam os direitos dos investidores.

Mais uma vez o segredismo, o “sigilo”, é criticamente importante para garantir segurança à parte que interessa do eleitorado doméstico de qualquer governo: ao setor empresarial, chamado “corporativo”, às empresas privadas.
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[*] Noam Chomsky, nasceu Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense. É professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Seu nome está associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky. Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenômenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceituada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. Além da sua investigação e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário, havendo quem o associe ao anarcossindicalismo.



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