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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

ATAQUES DE PARIS: lições dos ataques de MUMBAI & MADRI
            

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Shelley Kasli – publicado originalmente em REDEVOLTAIRE               
Tradução Marisa Choguill                                       

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Quase dez anos após os ataques de Mumbai, ainda não se sabe com certeza quem os patrocinou. Só sabemos agora que as vítimas não só foram escolhidas ao acaso, mas um grupo de personalidades Indo-US foi particularmente atingido. Apesar de o antigo Secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger não estar mais na cena, sua equipe ainda residente em um dos hotéis atacou. Este caso deve encorajar-nos a não fazer conclusões precipitadas sobre os atentados em Paris.


Desde que os terroristas atacaram Paris na noite de 13 de novembro de 2015, em uma série de ataques coordenados — consistindo de tiroteios em massa, atentados suicidas e tomada de reféns – comparações foram feitas entre os ataques de Paris e os ataques de Mumbai de 2008 por analistas em todo o mundo. Michael Leiter, ex-diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, disse que os ataques demonstraram grande sofisticação, não vista em um ataque em cidade desde os ataques de Mumbai de 2008, e que isso mudaria a forma como o Ocidente considera a ameaça.

Bruce Riedel, diretor do Projeto Inteligência, com base n Instituição Brookings de organização de políticas públicas em Washington, DC, afirmou que os ataques de Paris foram modelados conforme os ataques de Mumbai de 2008. Mumbai tem sido estudada por ambos, terroristas e contra-terroristas, porque estabeleceu um padrão de ouro para como um pequeno grupo de fanáticos suicidas pode paralisar uma cidade grande, atrair a atenção mundial, e aterrorizar um continente. Os ataques Paris e Mumbai usaram pequenos bandos armados de terroristas atacando simultaneamente e sequencialmente contra vários alvos frágeis em área urbana.

No entanto, após dar uma olhada mais profunda nos ataques de Mumbai de 26/11 de 2008, encontramos fatos ainda ignorados ou nunca tomado em consideração por nossas agências investigativas e muitas perguntas cruciais que permanecem ainda sem resposta até hoje. A esse respeito, primeiro, todos os aspectos dos ataques de Mumbai precisam ser entendidos completamente para sermos capazes de desenhar qualquer paralelo conclusivo com os ataques de Paris em termos de motivo por trás dos ataques e seus autores.

Os ataques de Mumbai de 2008 em si foram uma continuação de uma série de ataques na Índia, incluindo os atentados de trem de Mumbai de 2006, que foi uma continuação dos bombardeios do trem de Madrid em 2004.

Ataques terroristas de Mumbai e Madrid: Análise Comparativa

Poucos especialistas em segurança da Índia estão cientes, e ainda um menor número de políticos, têm qualquer ideia de incidentes semelhantes de diversas magnitudes, e semelhante modus operandi, a ocorrer em todo o mundo.

Só para dar um exemplo, dois anos antes das explosões de trem de Mumbai, ocorreu um incidente em uma das principais capitais ocidentais. Como o conhecimento dos nossos líderes – políticos e burocratas –não vai além do conhecimento de países de língua inglesa, o mais perto que alguém na mídia chegou foi dos atentados de Londres, um ano antes, sobre o qual agora provou-se que a polícia de Londres exagerou na reação e matou um inocente; e, para encobrir sua ineficiência, teceu a história de um atentado terrorista. No entanto, estamos satisfeitos por comparar o que aconteceu na Índia com o que ocorreu em 9/11, tendo as consequências deixado um rastro de destruição que se alastrou a muitos países por atos de guerra absurda e subsequente terror que foi admitido pelo Presidente Bush como um erro e por Condoleezza Rice como uma falha enorme de inteligência. O real evento terrorista de 9/11 agora é exposto como um incidente, que pode não ostentar qualquer origem de terrorismo islâmico. O exame deste caso junto com as atuais explosões em Mumbai na investigação das razões nos ajudará na formação de uma estratégia para orientar nossas agências de segurança em uma nova direção.

Por isso, temos de começar o exame do primeiro ataque em Mumbai – as explosões do trem. Exatamente dois anos antes das explosões do trem de Mumbai, na quinta-feira, 11 de março de 2004, durante a hora do rush, de manhã, entre 06:30 e 07:00, 8 a 10 explosões ocorreram em Madrid, Espanha, em que exatamente 200 pessoas foram mortas e perto de 800 a 1000 feridas. Embora os meios de comunicação ocidentais ingleses tenham culpado os terroristas da al Qaeda ou os separatistas bascos (primeiro alegaram que os autores eram membros do Euskadi Ta Askatasuna [ETA], que significa Pátria Basca e Liberdade), em algumas poucas horas a polícia espanhola e os grupos da Inteligência Europeia detectaram que o bombardeio eram na verdade uma operação de falsa bandeira na desavença de geopolítica em curso entre a velha Europa e os países anglicanos para perturbar o turismo espanhol a nível regional e, no plano político, um aviso para o recém-eleito governo socialista não sair da coalizão iraquiana, o que havia sido uma promessa eleitoral do Partido Socialista, e para lembrá-lo de que o "terrorismo islâmico" ainda era uma ameaça.

Primeiro, precisamos examinar o motivo, no caso da tragédia espanhola, onde não há terrorismo de fronteiras como temos na Índia. A maioria das pessoas repete a mesma velha pergunta “Porquê?”, e por que na Espanha?

Horas depois do atentado do trem espanhol, antes mesmo de as agências de investigação começarem a juntar as evidências, cada uma das agências locais da mídia, seguindo a liderança do onipotente New York Times, relatou que entre oito e dez dispositivos explosivos tinham sido detonados a bordo dos comboios espanhóis durante a hora do rush; mas, surpreendentemente, nenhum deles mencionou bombistas suicidas. Esta é uma omissão impossível, porque todos nós sabemos que cada carro, ou ônibus, avião ou trem, explodido em qualquer lugar por "terroristas muçulmanos", invariavelmente é atacado por ’homens-bomba’. Como sabemos disso? Porque oNew York Times ou o London Observer sempre o dizem. Não importa se é um caminhão em Bagdá, um ônibus em Tel Aviv, um carro em Moscou ou um comboio na Chechênia, o vilão da obra, para os meios de comunicação ocidentais, é sempre o suicida muçulmano onipresente. Como ele está ausente, no caso do bombardeio espanhol, a culpa então foi lançada na ETA. A cuidadosa polícia espanhola excluiu ambos por razões próprias.

A fim de explorar o motivo por trás de Madrid, precisamos voltar brevemente no tempo para meados de 2002, quando o primeiro-ministro Australiano, John Howard, estava encontrando dificuldades para convencer os cidadãos australianos a ‘acompanhar os EUA até o fim’ e entrar na cruzada contra o fundamentalismo islâmico, a assim chamada ’guerra ao terror’. Muitos poucos americanos devem estar cientes de que, há dois anos, mais de 90% dos australianos foram contrários a se unir às forças de coalizão em sua luta contra o Iraque. A maioria dos Aussies apontou corretamente que, embora milhares morressem todos os anos em acidentes rodoviários e assaltos domésticos, ninguém tinha já sido morto na Austrália por um terrorista.

Certamente, esses cidadãos ’comuns’ que disseram ’não’ para a guerra precisavam aprender a lição de que os terroristas’ muçulmanos’ eram reais e onipresentes. Em início de outubro de 2002, coincidentemente, uma lição estava pronta a ser dada quando uma sofisticada operação terrorista multidirecional foi lançada contra os turistas australianos em férias na popular ilha de Bali. Mais de 200 pessoas morreram e mais de 1.000 foram seriamente feridas. Será que tais números precisos começam a chamar a atenção para outro sobre a operação de Madrid? Ou ao número de baixas nas explosões de trem em Mumbai? Ou o número de pessoas que morreram no recente ataque terrorista em Mumbai? Sempre está perto de 200 mortos e 1000 feridos. Essas coincidências são muito estranhas e de fato matematicamente precisas.

Ao longo dos dezoito meses seguintes na Espanha, as coisas ficaram ainda pior do que já estavam na Austrália. Onde 90% dos australianos se opôs a intervenção militar no Oriente Médio, o número na Espanha subiu para 96%. Finalmente, o popular governo socialista prontamente pulou fora do Iraque.

Os ataques de Mumbai de 26/11–encontro importante & assassinatos

Falando à CNN-IBN em relação aos recentes atentados em Paris, o Comissário da Polícia Conjunta de Mumbai (Lei e Ordem) Deven Bharti disse que "prime facie, a semelhança está na escolha de múltiplos alvos, no tiroteio indiscriminado, e no uso de DEIs [dispositivos explosivos improvisados].

"Esse tipo de ataque foi primeiramente realizado em Mumbai e hoje foi improvisado em Paris," disse Bharti.

Ele acrescentou que o modus operandi parece ser semelhante em ambos os ataques. Notadamente, há várias semelhanças estranhas entre os ataques de Mumbai em 26/11 e os ataques de Paris. Em ambos os casos, os autores usaram fuzis e bombas. Além disso, em ambos os incidentes, os terroristas atacaram alvos frágeis como restaurantes e outros lugares lotados.

O que gostaríamos de salientar aqui é que os alvos de ataques de Mumbai não eram meramente ‘alvos frágeis’ mas ‘alvos estratégicos’, especificamente os alvos no Taj Hotel, bem como o chefe da EAT [Esquadrão Anti-Terror] e sua equipe, que foram assassinados.

Os ataques no Taj, nos Hotéis Oberoi e na Nariman House em Mumbai foram peculiares e é bem possível que os alvos nesses três estabelecimentos tenham sido indivíduos de alto valor e os ‘quem é quem’ das agências de inteligência ocidentais. Para melhor compreender nossas próprias necessidades de segurança, precisamos olhar para a situação através de um novo prisma. O antigo ditado latino "Qui Bono", ou seja, "Quem se beneficiou do ato?", e a trilha econômica, é o que precisa ser seguido. Em caso de terrorismo global, intercalado com terrorismo patrocinado pelo Estado ou casos de nações democráticas, apoiar o terrorismo patrocinado pelo Estado, para ganhos de geopolítica, é uma questão para a qual se precisa perguntar: "Quem está se beneficiando mais?" Será útil levar em consideração os benefícios econômicos de longo alcance e as mudanças de política desejadas pelos manipuladores desses grupos e nações, os quais podem proporcionar uma visão verdadeira sobre a natureza do terrorismo real global, em vez de cair em consonância com a ideia de benefícios emocionais teóricos imediatos para algumas organizações terroristas.

Desde o início do novo milênio, o governo (à direita) da Aliança Democrática Nacional [ADN] indiana deu uma guinada de 180 graus abandonando a Política Não-Alinhada e movendo-se abertamente para o campo de EUA-Grã-Bretanha-israel. Depois disso, o governo da Aliança Progressiva Unida [APU] (à esquerda) também pareceu estar lentamente seguindo a política que começou com a ADN.

Em um nível mais elevado de geopolítica, a pergunta que precisamos fazer é: são os atentados de Mumbai, assim como os atentados espanhóis, um aviso para a coalizão governista mudar o curso de sua política, seja ela interna ou externa?

Então, quem na verdade atacou o Taj Hotel?


JPEG - 28.4 kbAgora, se o que Ajmal Kasab disse é verdade, então, de entre os dez terroristas que se infiltraram na India, quatro foram mortos e um foi capturado vivo. Mas, e os 5 que escaparam? Será que todos os militantes morreram? Ou é correto dizer, como muitos analistas assinalaram, que havia na verdade 30 pessoas envolvidas nos ataques? Quem precisamente realizou esses ataques no Taj, no Oberoi e na Nariman House simultaneamente, coincidindo com a eliminação de Hemant Karkare, chefe do Esquadrão Anti-Terror (EAT)?

Os dois alvos, o EAT e os três edifícios que foram selecionados, são diagonalmente opostas em natureza e textura. O primeiro definitivamente não é a favor do submundo ou das agências de inteligência estrangeiras que desejam penetrar a Índia usando organizações militantes de direita como camuflagem.

Os outros alvos mencionados, Taj e Oberoi hospedaram ’convidados ilustres’ durante a última semana de novembro de 2008. A maioria deles consistindo de coordenadores de inteligência no sul da Ásia. Alguns nomes que se hospedaram lá são: o antigo Secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger e membros de elite da Equipe Econômica Global na Índia, do Presidente eleito Barack Obama, que atenderam a "Conferência sobre a Política Externa Americana após as Eleições". organizada pela Confederação da Indústria Indiana (CII) e pelo Instituto Aspen Índia, em Mumbai.

O propósito dessa conferência na Índia, no Taj, era defender o projeto planejado do gasoduto Irã-Paquistão-Índia. Apesar de fortemente contestado pela administração Bush e pelo Inter-Serviços de Inteligência (ISI) do Paquistão, no passado, Obama tinha planejado torná-lo uma ’peça central’ em seu objetivo de alcançar a paz no sudeste asiático, e para o qual Kissinger afirmara: "o gasoduto será uma coisa natural a fazer e espero que o novo governo [chefiado por Obama] inicie discussões com o Irã".

Estriam esses convidados ilustres repensando como salvar as economias ocidentais decadentes com o auxílio da Índia? Como frequentemente acontece, um hábito da história é repetir-se; nos últimos 200 anos, sempre que o Ocidente estava em apuros, as Empresas da Índia Oriental (EIO) ou os subsequentes sócios diretores das EIO, roubaram da Índia recursos humanos e naturais para a sua sobrevivência. Nesse ’grande jogo’, eles mantiveram contidos outros agentes geopolíticos. Desde antes da última década, sob as administrações APU e ADN, a política externa e a política econômica interna indiana está chegando perigosamente perto dos interesses econômicos dos EUA-britânico-israelense, vistos por outros agentes da geopolítica como uma invasão. Teriam os outros agentes geopolíticos visto essa reunião como uma penetração de seu território?
As áreas de inteligência, contra-inteligência, e proteção dos recursos econômicos nacionais não é um jogo para todos. A Índia está apenas acordando para isso, enquanto que o ocidente e outros agentes geopolíticos são veteranos. É um jogo jogado pelas regras desses jogadores veteranos e nós não podemos defini-las; mas, temos que entender e jogar por elas.

O livro "A Arte da Guerra", escrito por Sun Tzu, que é considerado por muitos a bíblia da estratégia, diz: "Suponha o que o inimigo espera que você faça e faça exatamente o oposto para ganhar a guerra". A citação parece enganosamente simples; mas, tem implicações na sobrevivência dos governos e impérios de grande envergadura.

Nessa perspectiva, seria insensato ceder à armadilha do inimigo, seja ela os recentes ataques de Paris ou os ataques de Mumbai de 2008. Como é o caso com muitos dos grupos terroristas, eles são controlados não só pelos Estados que patrocinam o terrorismo, mas também pelas nações que patrocinam os Estados que patrocinam o terrorismo. Portanto, apesar de que todas as provas eventualmente levam à fronteira ocidental do norte da Índia, aprender quem instiga esses grupos, suas ações, seu modus operandi e seu histórico anterior nos guiaria a fazer o que nós, como um país soberano neutro do Terceiro Mundo deve fazer. Esperamos virar logo nessa nova direção.


Tradução
Marisa Choguill


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terça-feira, 17 de junho de 2014

Estratégia de crescimento da Espanha: sexo, drogas e contas marotas.



domingo, 15 de junho de 2014.

por Don Quijones.


A milagrosa recuperação econômica da Espanha é uma miragem, uma ilusão coletiva engendrada nas mentes febris, porém altamente imaginativas dos ministros do governo, economistas e contabilistas que projetam na consciência coletiva realidades oficiais.

Cristobal Montoro
Quando se trata de contabilidade criativa, poucos podem competir com o ministro da finanças do país, Cristobal Montoro, que nesta semana revelou seu último esquema para “fazer crescer” a economia, a saber, a inclusão dos comércios de prostituição e drogas ilegais como parte do produto interno bruto.  Esta nova contabilidade safada adicionou mais 20 novos bilhões de euros para o PIB do país, o que equivale a um aumento de 2%. Automaticamente isso também diminuirá o rácio (relação, geralmente percentual, entre dois números – [NT]) do déficit público para o PIB, bem assim como o déficit de orçamento, o que tornará possível para a Espanha “alcançar” a meta deficitária fixada pela Troika, de 6,5%.

O que torna essa contabilidade necessária é que, apesar da brutal redução de custos, aumentos de impostos e outras formas de repressão financeira, o governo falhou em conter a maré da expansão do débito. A dívida pública da Espanha mais que dobrou de um mínimo de 42 por cento do PIB seis anos atrás para mais de 100% atualmente. Entretanto, o déficit orçamental continua em cerca de 7 por cento, quase o dobro do máximo fixado por Bruxelas.

A Espanha não é o único país da União Europeia a ter dificuldade para manter sob controle a sua dívida. Como relata a BusinessWeek, outros 17 países membros da União Europeia estão sendo monitorados pelo que Bruxelas chama de “procedimentos relativos aos déficits excessivos”. Nem a Espanha é o único país da União Europeia que se socorreu com a inclusão das receitas oriundas do comércio de sexo e drogas para alavancar seu PIB. O primeiro país a fazer isso foi a Itália, seguida logo depois pelo Reino Unido e em setembro deste ano todos os países da UE estarão obrigados por lei a “calcular” e incluir as receitas de procedimentos criminosos em seu balanço do PIB trimestral.


Contabilidade Criminosa


Alguns países como a Alemanha, Hungria, Áustria e Grécia, já têm incluído em seus cálculos receitas provenientes da prostituição legalizada. Isso também é verdade para as drogas nos Países Baixos, que associam receitas derivadas de drogas descriminalizadas como a maconha, com estimativas de drogas pesadas como a heroína.

A diferença entre a Espanha e os Países Baixos ou o Reino Unido, entretanto, é que nos Países Baixos tanto a prostituição quanto uma importante parcela das drogas comercializadas, mais especificamente a maconha, são não apenas legais como bem regulamentadas, o que quer dizer que os governos destes países faz o recebimento das receitas fiscais geradas e pode, ao menos, avaliar o total do valor financeiro dos mercados de prostituição e drogas com algo que se aproxima da precisão. Em contrapartida, na Espanha e no Reino Unido as drogas recreacionais continuam sendo consideradas ilegais. Na verdade, na Espanha, um país com a tradição de ter uma das legislações menos duras no mundo, o governo de Rajoy resolveu voltar no tempo através da introdução de sanções muito mais pesadas para a venda ou consumo de maconha e outras drogas.

Relata o jornal El País: como parte de uma controversa série de medidas tomadas com base na sua chamada “Lei de Segurança do Cidadão” o governo propõe agora triplicar a multa mínima pela posse de drogas em público (para 1001 euros) assim como a proibição do cultivo de maconha para uso privado (multada em até 30.000 euros) – apesar de permanecer legal o consumo em privado. Também será revogada a possibilidade de escapar das multas em troca de tratamento do vício.


Oportunismo e hipocrisia


Trata-se apenas de mero exemplo do oportunismo e hipocrisia descarados de um governo que pontifica de forma regular sobre assuntos de moralidade enquanto tenta escapar de uma pletora de acusações de corrupção. De um lado, criminaliza e pune de maneira intensa uma atividade – o consumo de maconha – que uma maioria de especialistas concorda atualmente que seria muito melhor solucionada se tratado como um problema de saúde, enquanto de outro lado aproveita a oportunidade para usar as verbas geradas por esta atividade – com estimativas aproximadas – para melhorar seus próprios indicadores econômicos, tentando assim preservar a fachada tão cuidadosamente erguida de uma recuperação econômica.

Em se falando de prostituição, ela é amplamente aceita e legalmente tolerada na Espanha. De fato, de acordo com recente artigo do UK Independent, a Espanha é hoje uma das capitais mundiais da prostituição.

A prostituição é tão popular (e socialmente aceita) na Espanha que um estudo das Nações Unidas relata que 39 por cento dos homens espanhóis já fizeram uso dos serviços de uma prostituta pelo menos uma vez, enquanto esta proporção é de 14 por cento na tolerante Holanda, ou na Bretanha, onde a proporção é relatada como algo entre 5 e 10 por cento. Leve-se em conta que se trata apenas daqueles homens que admitiram o fato.

Ao contrário, na Holanda, as mulheres envolvidas no comércio do corpo, não têm direitos trabalhistas ou proteção da seguridade social. Elas estão condenadas a ganhar a vida precária que conseguem em um submundo econômico do assim chamado “Sistema D”, o gelo, termo Orweliano frequentemente usado hoje em dia para descrever a economia informal.

Assim como na Grécia, na Espanha a crise provocou um aumento massivo no comércio. De acordo com relatório do Departamento de Estado dos EUA sobre o tráfico de pessoas, existem atualmente na Espanha entre 200.000 e 400.000 mulheres trabalhando na prostituição, das quais cerca de 90 por cento vítimas de traficantes de pessoas. Alimentando o incremento da indústria do sexo estão vários fatores, nos quais se incluem fronteiras porosas, leis frouxas e o aumento do turismo de bordel. Desde 2010, a Espanha não tem qualquer legislação que faça distinção entre a imigração ilegal e o tráfico de pessoas ou para a prisão dos traficantes. Os serviços para as mulheres vítimas desse crime permanecem esparsos e raros, de acordo com especialistas.

Todo o exposto não é nada bom para as mulheres espanholas e estrangeiras que ali vivem no limite da agonia financeira. Quanto ao desesperado governo espanhol, o momento para a mudança nas práticas contábeis da União Europeia não poderia ser melhor. Quanto mais tempo as autoridades continuarem a fechar os olhos para o comércio do sexo, mais o novo componente do PIB espanhol poderá crescer. O governo Rajoy também pode esperar boas notícias de uma ótima performance do outro novo componente do PIB: a venda de drogas ilegais.

De acordo com alguns especialistas, a Espanha já é o maior narco estado da Europa. Nas palavras de Roberto Salviano, o premiado autor de Gomorra e Zero Zero Zero, a Espanha atualmente movimenta mais cocaína e haxixe que qualquer outro país da Europa: Por vinte anos a Espanha foi a porta de entrada européia para o comércio de cocaína. Todos sabem, e também os espanhóis, que a Espanha é o país onde os narco traficantes vão viver... Os políticos espanhóis sempre ignoram este grande problema, por conveniência.  Entre as primeiras pessoas que investiram na Espanha depois da queda do regime de Franco (os mafiosos italianos) estavam Antonio Bardellino, Nunzio de Falco e a organização de Tano Badalamenti. Não por outra razão, nos chamam de ”Costa Nostra”.

Em setembro deste ano, a renda de todas essas atividades produtivas, incluindo-se aí a produção da Costa Nostra e as vendas de drogas ilegais, prostituição e o mercado negro de cigarros e álcool, se tornarão elementos constitutivos do PIB, não apenas da Espanha, mas de toda a Economia Europeia. Podemos debater a moralidade de tudo isso até que a vaca tussa e o burro fale, mas uma coisa é inegável: a enorme conveniência do sincronismo da União Europeia.


A ilusão do crescimento


Nesta hora em que a economia formal está estagnada e a dívida pública explode para níveis verdadeiramente insustentáveis, a única arma que a União Europeia tem em seu arsenal é a contabilidade criativa. Raciocínio simples: enquanto puder ser mantida a fachada do crescimento econômico, os níveis de endividamento público – a única coisa que mantém fora da implosão a economia e o sistema bancário continental – podem continuar a crescer.

E qual o melhor caminho para preservar a fachada do crescimento que a inclusão de um componente que não apenas está crescendo a um ritmo sem precedente – a economia paralela (que compreende não apenas drogas e prostituição mas atividades geralmente não declaradas) que atualmente pode  muito bem representar um volume de 10 trilhões de dólares mundialmente – mas cujo crescimento é quase impossível de seguir e de calcular com um bom grau de precisão?

Na mais perversa e pervertida das ironias, a economia paralela, motivo de dores de cabeça para governos do mundo inteiro, pode neste momento estar prestes a salvar a sua pele, pelo menos por um pouco mais de tempo!



por Don Quijones. escritor freelance e tradutor em Barcelona, ​​Espanha.

Tradução: mberublue





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