segunda-feira, 21 de abril de 2014

ESTE É O NOSSO PARTIDO!

            Os iranianos tem o direito soberano de escolher a quem bem entenderem para representá-los na ONU. Só que um grupo de texanos tem o direito de escolher a própria Ivy Leaghe Meathead (ironia com um grupo de oito universidades privadas do nordeste dos Estados Unidos, elitistas e profundamente WASP’s – brancos, anglo-saxões e protestantes) que quiserem para representá-los no Congresso.


Por JOHN FEFFER em 16 de abril de 2014.

Acabei de ouvir: houve uma mudança no modo de pensar dos Estados Unidos em relação a Jens Stoltenberg, novo mandatário da OTAN. O Congresso dos EEUU acaba de aprovar uma resolução que tem o efeito de, na prática, impedir sua nomeação. Parece que quando Jens era ainda rapaz, teria atirado pedras na embaixada dos EEUU em Oslo. Dessa forma, ele constitui uma ameaça para a “Segurança Nacional Americana” e o Congresso tinha que tomar uma posição justa.

Não, pera, ouvi mal. Os EUA não estão bloqueando o novo chefe da OTAN. Na realidade, é a presidente do Brasil, Dilma Roussef, que, além de ser búlgara, por si só um motivo de suspeita, ainda por cima era membro de um movimento clandestino marxista na década de 1960. Seu visto já foi revogado, porque o Congresso não quer que ela fale na ONU.

Saco! Errei de novo. Não foi Dilma Roussef. Trata-se do dissidente chinês Xu Youyu. Embora sendo um dos signatários da Carta 08, que apela pela reforma política e democratização na China, descobriu-se que ele era um membro da Guarda Vermelha quando jovem, e todos nós sabemos o quanto radicais e perigosos eles eram. Por isso mesmo, aplausos para o Congresso dos EEUU que está bloqueando por unanimidade seu ingresso no país.

Não, não Xu Youyu? Oh, você disse Xi Jinping? Puxa, eu freqüentemente tenho esses nomes chineses misturados. Bem, é claro, o Congresso dos EUA não deve deixar Xi Jinping vir aqui. Ele é o chefe do Partido Comunista mais poderoso do mundo! Ele era um comunista na sua juventude. E seu pai era um figurão comunista também. Anti-americanismo é executado claramente em suas veias. Não podemos deixar que pessoas assim nos Estados Unidos!

Que? Não era Youyu? Ah! Xi Jinping? Uai, eu sempre misturo esses nomes chineses. Bom. Mas é claro que o Congresso dos Estados Unidos deve impedir que Jinping venha aqui. Ele é nada mais, nada menos, que o chefe do Partido Comunista mais poderoso do planeta! Aliás, seu pai também era um figurão comunista. Tá na cara que anti americanismo corre em suas veias! Não podemos deixar pessoas assim entrar nos Estados Unidos!...

Se tudo isso parece um absurdo para você, espere até saber da arrogância “Tea Party” de Ted Cruz, republicano do Texas. Cruz patrocinou, no Senado, semana passada, um projeto de lei que exige que o Irã anule sua escolha de Hamid Aboutalebi como enviado à ONU. Aparentemente, aos vinte anos, Aboutalebi teria trabalhado como tradutor, ajudando os estudantes iranianos que fizeram reféns americanos em 1979. Evidentemente, traduzir é atividade arriscada, “traduzir é trair”, como diz o ditado italiano. Suspeito que Tec Cruz considera o bilingüismo fundamentalmente anti norteamericano (por que diabos você foi fazer isso, companheiro Aboutalebi, optar por falar uma língua que não seja INGLÊS?).

Mas o que deixou Cruz realmente chateado não foi isso. Ele sentiu que o Irã estava esfregando em nossa cara a crise dos reféns, de novo. “Nós, como país, temos que enviar às nações párias como o Irã a mensagem inequívoca de que não mais toleraremos esse tipo de provocação hostil”, disse Cruz

Mas Cruz esqueceu algumas coisas: que Aboutalebi é um experiente diplomata que já trabalhou em missões iranianas em lugares como Austrália, Bélgica e Itália. Mas o porrete do Texas jamais deixará o Irã ou qualquer estrangeiro dizer aos EUA o que fazer. Aparentemente, esqueceu que os EEUU simplesmente abandonou as relações políticas com o Irã desde a época do Xá. Mas isso ainda não é o ponto mais importante: ocorre que Cruz, que é formado em Direito pela Universidade de Harvard, negligencia que os iranianos tem o direito soberano de escolher a quem bem quiserem para representá-los na ONU, da mesma forma que os Texanos tem o direito de escolher qualquer representante da Ivy League “carne de pescoço” para representá-los no Congresso. Além disso, os Estados Unidos são obrigados segundo um acordo de 1947 com a ONU, a conceder vistos de entrada aos representantes diplomáticos.  

Seria apenas uma piada divertida, se isso tivesse parado em Ted Cruz. Mas ocorre que essa medida absurda ganhou o apoio unânime do Senado e da Câmara. Como assim, unânime? Não há ninguém disposto a parar esses brutamontes como Cruz e seu aliado Schumer? Schumer, por sinal, já ameaçou explodir com o acordo nuclear com o Irã, apoiando ainda uma nova rodada de sanções.

Pois é. O Congresso é estúpido e a estupidez é bipartidária. Daí a administração Obama, em vez de lembrar ao Congresso que sua autoridade é limitada ao território dos Estados Unidos, na verdade, comunicou ao Irã que não emitiria um visto para Aboutalebi. Não se esqueçam, o diplomata iraniano não estava vindo para cá para fazer lobby na rua K, ou algo assim tão sinistro. Estava simplesmente vindo trabalhar em uma organização que apenas por acaso está localizada em Nova York. O Irã, com razão, recusou retirar sua escolha. Teerã está neste momento buscando uma solução diplomática para o caso.

Você pode ficar surpreso o saber que, mesmo que Pyongyang não tenha relações diplomáticas com os Estados Unidos, até mesmo os norte-coreanos recebem visto para representar sua missão na ONU.  Ainda há pouco tempo atrás, a Coréia do Norte constava da lista de países acusados de apoiar o terrorismo. Os vistos concedidos para norte coreanos são bem restritos. Não podem, por exemplo, viajar além de um raio de 25 milhas de Manhattan (um privilégio que compartilham com os diplomatas do ONU da Síria e... sim, do Irã).  Mas mesmo assim ainda estão no país. Hesito em escrever isso. Vai que Ted Cruz descobre que há norte coreanos atualmente nos Estados Unidos e resolve patrocinar outro projeto de lei expulsando-os.

É claro que posso imaginar uma situação em que os Estados Unidos bloqueia de forma legítima a entrada de um enviado à ONU. Eu não gostaria, claro, que um assassino em série, ou um chefão do crime organizado fosse visto saindo tranquilamente da ONU. Também não gostaria que um ideólogo maluco qualquer, que negasse a simples existência da ONU ou ficasse excitado com a idéia de explodir 10 andares do Edifício das Nações Unidas (êpa! Pera... Esse era um maníaco norte americano, John Bolton). A não ser nesses casos extremos, eu deixaria que todos os diplomatas profissionais viessem para Nova York, independentemente de suas crenças políticas ou do que fizeram nos últimos vinte anos. Deixe que trabalhem na ONU com a experiência do multiculturalismo de Nova York, deixe que sejam hipnotizados pelas excelentes delicatessens da cidade. Ora, se um sanduíche de carne enlatada envolvida em centeio não fizer de você um americano, nada o fará.

 ‘A festa é minha e choro quanto quiser”, cantou Leslie Gore na década de 1960. É dessa forma que se sentem Ted Cruz e Charles Schumer ao ver o Irã estragar sua visão de mundo “nós contra eles”, concordando em negociar sobre seu programa nuclear. Também é desse jeito que o Congresso dos EEUU aparentemente se sentem sobre qualquer país que pretenda exercer seu direito soberano de nomear seus diplomatas. Finalmente, é assim que os Estados Unidos se sentem quanto às regras do mundo globalizado. A festa é nossa, o grupo é nosso e se você não gostar de nossas regras, você está fora.


John Feffer é o co-diretor do Foreign Policy In Focus.

Traduzido por btpsilveira em 21 04 2014