segunda-feira, 21 de abril de 2014

Estados Unidos e Arábia Saudita: um casamento sem amor.
Já está na hora de Estados Unidos e Arábia Saudita romperem o relacionamento.
Amanda Ufheil-Somers
King Abdullah of Saudi Arabia and President Obama

 Barak Obama e o Rei saudita, Abdullah


A aliança entre EUA e Arábia Saudita é um caso clássico de ”casamento sem amor”, pelo menos nas análises dos “terapeutas” do mundo da política externa.
A Grande democracia e a monarquia absoluta estão unidas por interesse mútuo na estabilidade do Golfo Pérsico, onde estão pelo menos a metade das reservas de petróleo e gás natural já comprovadas, mesmo que seus valores sejam conflitantes, ou pelo assim se pensa.
Os defensores dessa união profunda argumentam que as transgressões sauditas, que vão desde direitos humanos transgredidos, retórica sectária, financiamento de grupos terroristas radicais islâmicos – não devem ser levadas em conta ou perdoadas pela fidelidade provada há longo tempo. Essa estratégia corresponde à teoria diplomática de “nunca ir para a cama com raiva”.  
Durante a reunião com o Rei Abdullah no final de março passado, o presidente Barak Obama afirmou ao velho potentado que Washington continau comprometido com as sete décadas de “relacionamento especial”.
Os líderes do EUA permanecerão fiéis, mesmo com as divergências com Riad, principalmente quanto ao apoio às forças rebeldes na Síria, a repressão à Irmandade Muçulmana no Egito e as negociações em curso com o Irã sobre seu programa nuclear. Enquanto isso, o regime saudita está de flerte com outras potências, entre elas a China, o Japão e a India. Talvez isso não seja tão mau, afinal.
O comprometimento dos EUA com o regime saudita dominante no Golfo Pérsico tem um custo real. O reino tem usado seu poderio econômico, e o know how militar dos Estados Unidos para sustentar seus autocráticos regimes amigos no
Militares da Arábia Saudita ajudaram a esmagar revoltas populares no vizinho Barein em 2011. Bilhões de dólares foram emprestados ao Egito permitiram aos militares levantar uma economia fraca enquanto consolidavam seu poder aprisionando (ou pior) centenas de Irmãos Muçulmanos e ativistas da oposição secular.
Na Síria o reino árabe continua a insuflar o conflito, através de apoio financeiro e fornecimento de armas a várias milícias anti Assad, e tentam forças os EUA a levantarem o embargo do envio de armas anti aéreas aos rebeldes sírios.
Mesmo com a retórica de acabar com o derramamento de sangue, o regime saudita vê a guerra civil na Síria apenas como uma batalha na sua luta contra o Irã pela influência sobre a região. Interessa mais ao regime a continuação da guerra que até mesmo uma vitória dos rebeldes. A simples indicação de que administração Obama pode vir a ceder à pressão real para maior fornecimento de armas, é um mau presságio para a Síria e para as perspectivas de avanço diplomático nas relações com o Irã.
O Apoio incondicional e firme dos EUA é o que permite ao regime saudita usar esse cheque em branco para reprimir – de maneira brutal, normalmente – seus dissidentes domésticos. Mulheres, a minoria shiita e milhões de trabalhadores estrangeiros não tem sequer um vislumbre de direitos iguais e proteção da lei.
É difícil para os EUA afirmar que apóia movimentos pró democracia no mundo árabe, enquanto seus maiores aliados na região são decididamente autoritários e anti democratas.
Em janeiro passado, a Arábia Saudita ampliou sua própria definição legal de terrorismo, para incluir nela qualquer ato que perturbe a ordem pública ou insulte ao Estado. A lei sequer especifica que os atos tem que ser violentos para se enquadrar na legislação como terrorista, como ressaltou a Human Rights Watch. A legislação é tão propositalmente vaga que atualmente na Arábia Saudita, participar de um protesto ou simplesmente publicar um texto com críticas ao governo constituem terrorismo.
Censura violenta em casa e semear distúrbios permanentes no exterior são pilares muito duvidosos para a estabilidade. Se qualquer dessas bruxas for colocada à solta, a repressão e o caos fácil e literalmente levará a mais conflitos explosivos.  
Como em qualquer relacionamento disfuncional, a abordagem dos EUA para a Arábia Saudita parece ser tomada mais por hábito que por estratégia. É uma irresponsabilidade enorme olhar para o lado enquanto a Arábia Saudita esmaga qualquer desafio ao status quo opressivo.
Casamentos sem amor não tem futuro além de traição, amargura e desespero. É hora da separação para EUA e Arábia Saudita.

Amanda Ufheil-Somers é editora-assistente de Middle East Report.

trad: btpsilveira