quarta-feira, 23 de abril de 2014






A OTAN vai de Viagra

Ao completar 65, a OTAN deveria agir de acordo com a idade. Em vez de urdir trapaças no leste, faria melhor escrevendo um livro de memórias e diminuindo de tamanho.
Por John Feffer, em 09 de abril de 2014.



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O Secretário Geral da OTAN Anders Fogh Rasmussen em foto com as Forças Especiais no Afeganistão.
A aliança pode ter abocanhado um bocado além do que pode digerir com as tensões entre a Rússia e o Ocidente.

Foto ISAF Media/Flickr
A OTAN acaba de completar 65 anos de idade. É a idade da aposentadoria, especialmente se for levado em conta que se trata de uma aliança estruturada há muito tempo, e que prosperou durante longo período. A guerra do Afeganistão acabou. Os países europeus em sua maioria só pensam em reduzir seus gastos militares. Os Estados Unidos, teoricamente, estão engajados em um pivoteamento para o Pacífico.
A mensagem deve ter sido recebida pela OTAN. Alguém em Bruxelas já deve estar encomendando um grande bolo, fazenda a lista de convidados, preparando para quedas dourados para o alto escalão e tratando de pintar “missão cumprida” nas bandeirinhas de enfeite. Talvez um asilo para militares reformados da aliança em algum lugar da Florida, quem sabe. Estagiários já devem estar procurando saber onde foram parar o Tratado de Varsóvia e SEATO para ver se cabe mais alguém nas adjacências.
O problema é que a OTAN resiste há tempos à aposentadoria. A OTAN tira do colete novos mandatos desde a queda da Cortina de Ferro, “raison d’etre” (razão de ser, n. do trad.) da existência da aliança. Primeiro, “redescobriu” um motivo militar durante o colapso da Iugoslávia. Logo em seguida, teve envolvimentos em “operações fora de área”. 11 de setembro foi o motivo perfeito para ações fortes da coalizão no Afeganistão e a Líbia foi uma oportunidade muito boa de testar a doutrina  da “responsabilidade de proteger”. Também houve um constante fluxo de membros aspirantes que gostariam de abrigar-se sob o guarda chuva no caso de chuva.
Há cinco anos, quando a OTAN celebrou seu 60º aniversário, escrevi uma nota sobre a antecipação da reforma. O fracasso da campanha no Afeganistão acabou por meter uma cunha entre os Estados Unidos e seus parceiros europeus. A Europa estava considerando seriamente reforçar suas próprias capacidades no campo militar e o projeto mais ambicioso da OTAN - tornar-se uma força global, com a adesão de parceiros em todo o mundo - estava dia a dia sendo vista como cada vez mais insustentável.
Quando jovem, na Guerra Fria, a OTAN não se envolveu em operações militares. Na era pós Guerra Fria como a defesa coletiva dos membros da aliança acabou por se tornar irrelevante dada a ausência do maior inimigo, a OTAN justificou sua existência através de combate. “Ela luta com uma crise de identidade parecida com a de Hamlet: atacar ou não atacar” – escrevi na época. “A guerra do Afeganistão apenas colocou em evidência esse paradoxo. Afinal, todo mundo questionará seus propósitos, se a aliança não se envolver em operações militares. Mas, se for à guerra de maneira total e for mal sucedida, todo mundo questionará sua eficiência.”
Atacar ou não atacar, eis a questão...
Cinco anos depois, justamente quando os níveis de testosterona pareciam no seu nível mais baixo, a OTAN está de volta. A crise na Ucrânia é para ela o equivalente ao Viagra. “Você está na idade onde não é mais possível desistir”, proclama a propaganda e a OTAN foi nocauteada por esse soco de copywriter.
Mesmo que não haja acordo quanto a quem colocou as pílulas do azulzinho no armário de remédios da OTAN, eu acho que se trata de um trabalho de equipe, com os Estados Unidos e a Rússia desempenhando os papéis de “bom médico” e “mau médico”. Os EEUU pediram à OTAN para que saísse mais, encontrasse novos amigos, considerasse adquirir novos relacionamentos, fosse mais expansiva... A Rússia não gostou do curso desse tratamento e, chateada, favorece uma intervenção cirúrgica radical, mesmo que em outro paciente, para colocar a OTAN novamente a seus pés. De repente, a OTAN ressurgiu, e com as preocupações de sua juventude. Velar pelos machos alfa e proporcionar segurança a todo o rebanho.
A OTAN receberá uma transfusão de sangue novo como parte dessa tentativa de regeneração. O ex Primeiro Ministro norueguês, Jens Stoltenberg, novo Secretário Geral a assumir no próximo outono, talvez seja uma estranha tentativa. Anteriormente, ele já teve posições bem calmas sobre a OTAN, já participou de campanhas anti nucleares e até, há muito tempo, atirou pedras contra a embaixada dos Estados Unidos em Oslo, durante protestos contra a Guerra do Vietnã. É verdade que hoje ele segue um pouco mais a corrente principal em suas posições, mas no coração, ainda é um diplomata e não um guerreiro. Poderá ele reinventar a aliança?
Tente pensar em como poderia ele lidar com a divisão entra a OTAN e a Rússia, que se aprofunda, sobre a Ucrânia. “O atual Secretário Geral tem adotado uma resposta “hawkish” (dura, agressiva – nota do trad.) no confronto com a Rússia”, como explica o “Foreign Policy In Focus” (Política Externa em Foco – veja o site - http://fpif.org/) através do correspondente Ian Davis. Porém, quando a aliança resolver tentar melhorar suas relações com Moscou, como certamente terá que fazer, Jens poderá ser uma voz mediadora imprescindível. Ele tem, como Primeiro Ministro que foi, fortes ligações internacionais, habilidades bem desenvolvidas como negociador confiável e laços de amizade com Moscou. Negociou, por exemplo, um acordo com a Rússia, em 2010, que colocou fim em quatro décadas de disputa entre a Noruega e a Rússia sobre os limites de suas fronteiras marítimas no Ártico, construindo dessa forma uma sólida amizade com o então presidente Dmitry Medvedev.
Até este momento, a OTAN não tem nenhuma obrigação de vir em socorro da Ucrânia, no caso desta ser atacada, mesmo que algumas vozes, como a do presidente tcheco Milos Zemam, tentem incitar a aliança a reconsiderar esta posição, caso a Rússia se mova para o leste da Ucrânia. Por sua vez, Kiev se move de maneira muito prudente, e não quer dar motivos fáceis à Rússia. Afirma que pediu à OTAN apenas suprimentos não letais, não armas, e enfatiza sempre que não tem o status de membro do bloco, em obediência às leis do país. Isso não obsta que os falcões nos Estados Unidos insistam em abrir caminho para que a Ucrânia se junte à OTAN; pessoas realistas como Henry Kissinger dizem que isto simplesmente não está na mesa de negociações. Embora me doa dizer isso, Kissinger tem razão. O certo e sensato seria a Ucrânia e a OTAN manter contatos de baixo nível, sem consumar seu relacionamento.  
Até o estouro da crise da Ucrânia, a Europa estava em curva descendente em seus gastos militares (com um ou duas exceções, como a Polônia) “vivemos hoje em um mundo diferente daquele no qual vivíamos há um mês” – afirmação do atual chefe da OTAN, Anders Fogh Rasmussen. “Sou o primeiro a enfatizar que a Europa tem que fazer mais.” Fazer mais significa GASTAR MAIS. A OTAN quer que seus membros gastem pelo menos 2% de seu PIB em suas forças armadas. No ano passado a média da OTAN foi de 1,6%.
Exceções são abominadas em geopolítica. Os Estados Unidos, em vez de imitar o Japão em sua “constituição de paz”, pressiona o país asiática para que adquira uma estrutura militar “normal”. Em vez de apoiar a redução de gastos na Europa, EUA tem pressionado mais e mais os membros da OTAN para que “assumam seu encargo”. Deveríamos estar louvando os países europeus por suas reduções em gastos militares e exortando outras partes do mundo para fazer o mesmo. Na próxima semana, em 14 de abril, os participantes do quarto Dia de Ação Global sobre Gastos Militares (gdams) fará exatamente isso. Se você puder colaborar, pode organizar algum tipo de ação ou pedir a seus líderes que ajam neste sentido, dizendo ao mundo que estamos negligenciando coisas muito mais urgentes, para gastar demais com nossas forças armadas.
É importante que o Presidente Putin receba a mensagem em relação à OTAN. Quanto mais ele avança na Ucrânia, mais alegremente atenta a transatlântica aliança ficará. Novamente a Ucrânia responde com admirável moderação, ao lidar com o pequeno grupo de manifestantes pro russos em seus territórios orientais. Passada a Crise da Ucrânia, sem que haja uma nova escalada e seja preservada a integridade territorial atual do país, com eleições livres e justas no final de maio, a OTAN deverá abandonar o Viagra e novamente agir de acordo com sua idade. Está na hora de escrever memórias, diminuir de tamanho e deixar de trapacear no leste.


John Feffer é diretor do “Foreign Policy In Focus”.

Trad: btpsilveira