domingo, 27 de abril de 2014


          


A Alemanha mais dividida
que nunca sobre o conflito ucraniano

 
Thomas Schnee – 24 de abril/14

            Um texto noticioso com interessante leitura nas entrelinhas. A convergência de interesse entre a grande indústria alemã e a Rússia – e também a China – é bem conhecida e muito importante no desenrolar da presente situação. Se “a guerra é a continuação da política por outros meios”, devemos igualmente recordar a firmação de Lenin de que “a política é economia concentrada”.
            
Os grandes “patrões” da Alemanha estão à beira de uma crise de nervos. A crise que opõe a União Européia e os Estados Unidos à Rússia ameaça os negócios pacientemente desenvolvidos num país onde a lógica política perturbar muito frequentemente as regras dos negócios (business no original). Em 2013 a Alemanha vendeu produtos e serviços à Rússia no valor de 67 bilhões de euros (67 milhares de milhões no original), ou seja, mais 10% que em 2012. Além disso, as 30 empresas do DAX – o índice da bolsa alemã – empregam aí 46.000 pessoas. “Perante a deterioração da situação, as empresas alemãs receiam muito que a União Européia venha a curto prazo impor sanções econômicas ainda mais duras à Rússia”, lamenta-se o secretário-geral das Câmaras de Comércio e da Indústria alemã, Martin Wansleben.
Putin Reabilitado.
            
O receio é de tal monta que, desde um mês, os grandes patrões alemães  se lançaram numa operação de comunicação e diplomacia “paralela” destinada tanto a restabelecer o diálogo com Moscou como a desacreditar a política de sanções de Bruxelas e Washington. “Não temos a intenção de inflectir a nossa estratégia de longo prazo por causa de turbulências de curto prazo”, afirmava ainda há pouco o diretor da gigante Siemens, Joe Kaeser. Este, que aparentemente reduz a crise na Criméa a uma simples intempérie, vinha na ocasião de um encontro com Vladimir Putin em pessoa. “Com luz verde da Chancelaria”, acrescentou aos jornalistas.
Angela Merkel
  Kaeser deverá ser seguido pelo diretor de ferrovias alemãs Rudger Grube que, oficialmente, irá defender em Moscou um projeto de ligação ferroviária. Grube conta igualmente com a bênção da Sra. Merkel, que não quer que as relações com a Rússia “se rompam”.

            Perante a opinião pública nacional, a posição em face do urso russo está bem resumida no vibrante apelo lançado em março por Gabor Steingart, diretor do “Handelsbaltt”, o maior diário econômico alemão. “Não fiquem indignados! O presidente Vladimir Putin não é o infame agressor que o Ocidente descreve”, explicava na primeira página este influente formador de opinião. Para ele, Vladimir Putin é o único homem capaz de garantir a estabilidade daquilo que foi outrora o “bloco do leste”. Seria, portanto, “estúpido” e “destinado ao fracasso” aplicar-lhe sanções econômicas.

            A estratégia “subterrânea” dos executivos transita através dos poderosos lobbies que são o Fórum Germano-Russo e a “Comissão-leste da economia alemã”. Encontra apoio igualmente em veneráveis figuras políticas como os ex-chanceleres da social democracia alemã,  Helmut Schmidt e Gerhard Schroeder.

Expansão para Leste.

            Schmidt considera que a atitude de Putin em relação à Criméia é ”completamente compreensível”. Coloca mesmo em dúvida, aliás, a noção de “nação ucraniana”. Posições que são inteiramente partilhadas por Schroeder, velho amigo de Putin e grande promotor do gasoduto Nord-Stream entre a Rússia e a Alemanha. Apesar do recente anúncio da chancelaria alemã de que pretende tornar o país menos dependente do gás russo, “a Alemanha não tem qualquer desejo de se afastar da Rússia. Existe mesmo a vontade de reforçar ao máximo a imbricação econômica dos dois países. Trata-se de desenvolvimento da estratégia de integração a leste elaborada e seguida desde Kohl e Schroeder, lembra Ewaldo Bocks, perito na questão russa e um dos principais “think tanks” alemães de política externa.

            O problema é que esta estratégia, centrada essencialmente na aproximação econômica, se preocupou pouco com os dados da geopolítica. Hoje, o conflito ucraniano está na iminência de desfazê-la em estilhaços.

O texto original se encontra em http://www.odiario.info/?p=3255

Postado por Roberto Pires Silveira em 26 de abril/14