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segunda-feira, 22 de junho de 2015




 
Fórum Econômico Internacional 
de S. Petersburgo (SPIEF 2015)

20/6/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Vladimir Putin fala na abertura do SPIEF 2015

Os cães das sanções e do medo ocidental ladram, enquanto a caravana eurasiana passa.
Nenhum caravanserai poderá jamais competir com a 19ª edição do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo [St. Petersburg International Economic Forum (SPIEF)]. Milhares de líderes de empresas globais – inclusive europeus, mas nenhum norte-americano; afinal, o presidente Putin seria “o neo-Hitler” – representando mais de mil empresas/corporações internacionais, inclusive os presidentes da British Petroleum, da Shell Holandesa e da Total, chegaram à cidade em grande estilo.
Por todos os lados, painéis fascinantes – incluindo sessões sobre os BRICs; a Organização de Cooperação de Xangai (OCX); a(s) Nova(s) Rota(s) da Seda; a União Econômica Eurasiana (UEE); e, claro, o tema de todos os temas, “A Formação [orig. making] do Século Pacífico-Asiático: Reequilibrar o Leste”, em que falou o Primeiro-Ministro australiano, Kevin Rudd.
Como se podia prever, houve muito suspense sobre o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICs, com grandes novidades a serem divulgadas na Cúpula dos BRICs, mês que vem, em Ufa. O brasileiro Paulo Nogueira Batista, novo vice-presidente do banco, espera entusiasmado a primeira reunião dos diretores.
E noutro tema chave – deixando de lado o dólar norte-americano – coube a Anatoliy Aksakov, presidente da Comissão Parlamentar do Parlamento Russo para Política Econômica, Desenvolvimento Inovador e Empreendedorismo, chegar logo ao que interessa:
Precisamos completar a transição, até fazermos todos os nossos pagamentos recíprocos em moedas nacionais, e acreditamos que já se encontram preparadas todas as condições para que assim seja.
Não é movimento só retórico. Adiante, apenas alguns dos negócios fechados no Fórum SPIEF. Como se poderia prever, verdadeiro show por todos os cantos do Oleogasodutostão.
●– Os dutos para o gasoduto do Ramo Turco pelo fundo do Mar Negro começarão a ser instalados ainda este mês, mais tardar em julho, segundo Alexander Novak, Ministro de Energia da Rússia.

Oleogasoduto - Ramo Turco (em azul)

●– O presidente da Gazprom, Aleksey Miller e o Ministro de Energia da Grécia, Panagiotis Lafazanis, praticamente fecharam negócio para a extensão do Ramo Turco até a Grécia. Estão “preparando o devido memorando intergovernamental”, segundo a Gazprom.

Oleogasoduto Turquia - Grécia
●– A Gazprom também anunciou que construirá um duplo gasoduto, da Rússia até a Alemanha, pelo Mar Báltico, em parceria com a E.ON alemã, a Shell anglo-holandesa e a austríaca OMV.
Oleogasoduto Ramo Norte (North Stream) será duplicado
Em outro front eurasiano crucial, a Índia assinou o projeto de acordo para criar uma zona de livre comércio com a União Econômica Eurasiana. A Ministra do Comércio da Índia, Nirmala Sitharaman, estava eufórica:
São duas grandes regiões, qualquer coisa que façam juntas com certeza levará a resultados ainda maiores.
Oh, como vão longe os dias de Bandar Bush e suas ameaças de que atiçaria os jihadistas contra a Rússia!
Em vez disso, aconteceu uma reunião sob todos os aspectos notável, entre o Presidente Putin e Mohammad bin Salman, o vice-príncipe coroado saudita e atual Ministro da Defesa (o homem que comanda a guerra no Iêmen). Foi resultado lógico de Putin estar em contato, há semanas, com o novo chefe da Casa de Saud, rei Salman.
A Casa de Saud informou polidamente que se tratou de discutir “relações e aspectos da cooperação entre os dois países amigos”. Fatos em campo incluíram discussão, entre os ministros do petróleo saudita e russo, para um amplo acordo de cooperação; assinatura de seis acordos sobre tecnologia nuclear; e o Imponderável Supremo: Putin e o vice-príncipe coroado discutindo preços do petróleo. Podemos estar diante do fim da guerra do preço do petróleo movida pelos sauditas?
Mohammad bin Salman e Vladimir Putin (19/6/2015)

Como se já não bastasse, no front asiático o presidente executivo e superstar máximo, Jack Ma, do Grupo Alibaba, disse, sem meias palavras:
É mais que hora de os players do mercado investirem na Rússia.
Pequim, aliás, estima atualmente o valor dos contratos de negócios fechados e quase-fechados com a Rússia em torno de alucinantes US$ 1 trilhão. O Vice-Primeiro Ministro russo, Igor Shuvalov, disse que preferia estimativa mais “discreta”.
Bem... Seria ótimo se outras nações sancionadas e “isoladas” – por causa das “agressões” que cometem – conseguissem mostrar tal desempenho comercial.
E por onde andavam os Masters of the Universe?
Antes do fórum de São Petersburgo, Putin dedicou-se a distribuir uma mesma e invariável mensagem, sempre que cruzava com algum líder ocidental: falava sobre comércio bilateral; e em seguida lembrava o quanto as coisas poderiam estar muito, muito melhores. No Fórum, estava mais do que evidente que a política de sanções da União Europeia contra a Rússia é completo desastre – e decida o Conselho Europeu o que decidir, semana que vem.
Aqueles gênios da burocracia kafkeana na Comissão Europeia continuam a jurar que a Europa nada sofre. Quem acreditará nisso? Burocratas da Comissão Europeia, que só se preocupam com suas gordas aposentadorias, como mostra esse estudo feito na Áustria?
E houve também A Grande Reunião à margem do Fórum SPIEF: Putin com o Primeiro-Ministro da Grécia, Alexis Tsipras. A questão aqui não é, por exemplo, a Grécia vir a ser, amanhã, membro do grupo BRICS. Yves Smith, do blog Naked Capitalism pode ter acertado na mosca:
O risco objetivo de uma nova aliança Grécia-Rússia (...) é se os europeus estiverem suficientemente preocupados para arriscar uma mudança de curso.
Não há – até agora – qualquer indício de que venha a haver alguma mudança de curso. Mas a Chanceler de Ferro Merkel já anda jogando abertamente com a carta russa – tipo Moscou obter ponto onde apoiar o pé na União Europeia – para manter outras nações da União Europeia afinadas com a obsessão alemã com a “austeridade”.

Alexis Tsipras no SPIEF 2015


Quanto à Palavra Definitiva no Fórum, difícil bater o Primeiro-Ministro Tsipras: a Europa
(...) deve parar de ver-se como o centro do universo. Deve tratar de compreender que o centro do desenvolvimento econômico mundial está de mudança para outras regiões.
E havia algum verdadeiro Master of the Universe presente ao Fórum de São Petersburgo?
No mundo real, há várias instituições e conferências que servem de base para “coordenar” políticas. Mas os Masters of the Universe não participam delas. Puxam as cordas das marionetes que vão as reuniões – e tudo que decidem é coordenado por baixo.
Putin nada perdeu por não ter sido admitido ao G7 nos Alpes Bávaros (na verdade, um G1+ “parceiros aspirantes”). Logo adiante se encontrou com quem interessava encontrar-se.
Com o Banco Internacional de Compensações [Bank for International Settlements (BIS)], onde se reúnem os principais bancos centrais, Putin reúne-se uma vez por mês, para “objetivos de coordenação”. O Grupo Bilderberg, a Comissão Trilateral e Davos também se reúnem para objetivos de coordenação. Pode-se bem dizer que o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo é, hoje, o fórum chave de coordenação para a Eurásia. Os Masters of the Universe – verdadeiros ou autoiludidos – que esnobem quem quiserem. E aguentem as consequências.


Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.









Publicado em 22/06/2015 às 200h00 por Roberto Pires Silveira. Muito Obrigado à Redecastorphoto - http://redecastorphoto.blogspot.com.br
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terça-feira, 16 de junho de 2015

Ucrânia e o risco apocalíptico da ignorância ‘noticiada’
De como a ignorância pode levar ao apocalipse.


 Resultado de imagem para David Swanson,
16/5/2015, David Swanson, OpEd News

Vila Vudu's profile photo Tradução pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu


Não posso garantir que não tenha sido publicado livro melhor, esse ano, que Uckraine: Zbig's Grand Chessboard and How the West Was Checkmated [Ucrânia: o Grande Tabuleiro de Xadrez de Zbig, e como o ocidente recebeu xeque-mate], mas tenho certeza de que não houve livro mais importante que esse. 


Das cerca de 17 mil bombas nucleares que há no mundo, EUA e Rússia possuem cerca de 16 mil. Os EUA flertam furiosamente com a 3a. Guerra Mundial, o povo norte-americano não tem nem ideia de como ou por quê, e os autores Natylie Baldwin e Kermit Heartsong explicam tudo muito claramente. Agora me digam: pode haver coisa em que vocês gastem seu tempo, mais importante que isso? 


Esse livro tem boas chances de ser o mais bem concebido e escrito que li esse ano. Lá estão todos os fatos relevantes – os que eu já conhecia e muitos de que nem suspeitava – expostos de forma concisa e em perfeita ordem. E tudo isso, a partir de uma visão de mundo bem informada. Não tenho nada a reclamar, o que é novidade total em todas as resenhas de livro que escrevi em toda a minha vida. Acho estimulante e encorajador encontrar autores tão bem informados, capazes de captar a significação da informação que buscam e encontram.


Praticamente metade do livro é usada para expor o contexto em que se desenrolam os eventos recentes na Ucrânia. É útil para compreender o fim da guerra fria, o ódio irracional contra a Rússia que invadiu a elite norte-americana, e os padrões de comportamente que se repetem, dessa vez em tonalidade e volume muito mais altos. 


Agitar fanáticos armados no Afeganistão e Chechênia e Geórgia, e tomar por alvo a Ucrânia para uso assemelhado: eis um contexto ‘de notícias’ que ninguém jamais encontrará na CNN. 


A parceria dos neoconservadores (que armaram e provocaram a violência na Líbia) com os guerreiros ‘humanitários’ (que acorreram para garantir a ‘mudança de regime’): eis um precedente e um modelo do qual a National Public Radio (NPR) não falará. A promessa que os EUA fizeram, de não expandir a OTAN para os 12 novos países bem ali, junto à fronteira russa, o afastamento dos EUA, que se separaram do Tratado Anti-Mísseis Balísticos (“TratadoABM”) e a corrida para implantar “mísseis de defesa” – esse é o contexto que jamais ocorreria à rede Fox News ‘noticiar’ como fatores ou elementos significativos. 


O apoio dos EUA a governos de oligarcas criminosos, dispostos a vender recursos do povo russo, e a resistência do governo russo contra esses ardis – aí estão relatos já quase incompreensíveis, se você é consumidor de muitas ‘notícias’ e de ‘noticiosos’ ‘jornalísticos’. Mas lá estão, no livro, explicados e bem documentados por Baldwin e Heartsong.


O livro inclui excelente contextualização para que se avaliem usos e abusos das lições de 
Gene Sharp e as ‘revoluções coloridas’ instigadas pelo governo dos EUA. Arremate final é, me parece, tantos aí, na mídia e pelo mundo, sempre a reconhecer e pregar a importância da ação não violenta, para o bem ou para o mal. A mesma lição lá está também (dessa vez para o bem) na resistência civil às tropas ucranianas na primavera de 2014, e na atitude de (alguns) soldados que se recusaram a atirar contra civis.


A Revolução Laranja na Ucrânia em 2004, a Revolução Rosa na Geórgia em 2003, e Ucrânia II em 2013-2014 são todas bem claramente recontadas, incluindo cronologia detalhada. É realmente impressionante a quantidade de informação que nós, norte-americanos médios (e eleitores voluntários) ignoramos completa e absolutamente. 


Líderes ocidentais reuniram-se repetidas vezes em 2012 e 2013, planejando o golpe contra a Ucrânia. Neonazistas ucranianos foram enviados à Polônia para cursos intensivos de golpe contra um estado democrático. ONGs e mais ONGs, que operavam a partir da embaixada dos EUA em Kiev organizaram ‘seminários’ para treinamento de golpistas.
 

Dia 24/11/2013, três dias depois de a Ucrânia ter recusado um acordo com o FMI, que incluía recusar-se a romper relações com a Rússia, os manifestantes começaram a enfrentar a polícia em Kiev. Os manifestantes agiram sempre com violência, destruíram prédios e monumentos, lançaram coquetéis Molotov, mas o presidente Obama ordenou ao presidente da Ucrânia que não reagisse com excessiva força. (Que impressionante contraste com o tratamento que Obama ordenou contra o Movimento Occupy! Ou os tiros, numa rua próxima do Senado dos EUA, contra uma mãe que fez uma curva abrupta com seu carro, onde levava o filho bebê, e que pareceu ‘ameaçadora’ aos policiais.)


Grupos financiados pelos EUA organizaram uma ‘oposição’ na Ucrânia, fundaram um canal de TV e promoveram a ‘mudança de regime’, vale dizer, o golpe. O Departamento de Estado dos EUA gastou coisa de $5 bilhões. A secretária-de-estado assistente, que escolheu e elegeu, só ela, os novos governantes da Ucrânia, levou sanduíches e bolinhos para os golpistas em plena praça. 


Quando aqueles mesmos golpistas da praça derrubaram o governo da Ucrânia, em fevereiro de 2014, os EUA imediatamente declararam legítimo o governo dos golpistas. Aquele novo governo extinguiu os partidos políticos, atacou, torturou e assassinou membros dos partidos depostos pelo golpe. O novo governo incluiu neonazistas desde o primeiro dia, e pouco depois passou a incluir também funcionários importados dos EUA.


O novo governo proibiu o idioma russo – primeira língua de muitos cidadãos ucranianos. Monumentos e memoriais russos foram destruídos. Populações falantes de russo foram atacadas e assassinadas.


A Crimeia, região autônoma da Ucrânia, com Parlamento próprio, foi parte da Rússia de 1783 até 1954, e votou publicamente a favor da manutenção dos laços com a Rússia em 1991, 1994 e 2008, e o Parlamento da Ucrânia votou a reincorporação à Rússia em 2008. Dia 16/3/2014, 82% dos crimeanos participaram de um Referendum, no qual 96% deles se manifestaram a favor de a Crimeia ser reintegrada à Rússia. 


Essa ação não violenta, sem sangue, democrática e legal, que não violou nem a Constituição nem qualquer outra lei ucraniana, e que foi atacada por violento golpe de Estado... é o que o ‘ocidente’ vive de ‘denunciar’, como se fosse alguma “invasão da Crimeia” pelos russos.


ATUALIZAÇÃO: “Na mais recente reunião do G7, a Rússia foi alvo da retórica mais ensandecida. O presidente dos EUA, Barack Obama, perguntou, sobre o presidente da Rússia, Vladimir Putin: “Será que ele continua a destroçar a economia de seu país e a manter o isolamento da Rússia, movido por um super orientado desejo de recriar as glórias do império soviético?” (12-14/6/2015, Vijay Prashad, “G7: Moedas a proteger, países a bombardear”,Counterpunch, traduzido em 
redecastorphoto).


Novorrussos, que tentaram tornar-se independentes, foram também atacados por militares ucranianos, um dia depois de John Brennan visitar Kiev e ordenar aquele crime. 


Sei que a Polícia do Condado de Fairfax, que nos manteve, eu e meus amigos, bem longe da casa de John Brennan na Virginia não sabiam nem uma linha do inferno que aquele homem havia lançado sobre gente inocente, a milhares de quilômetros dali. Mas tamanha ignorância é no mínimo tão perturbadora quanto qualquer ativa má intenção criminosa. 


Civis foram atacados por aviões e helicópteros de guerra durante meses, na mais terrível matança, como nunca mais se vira na Europa desde a 2a. Guerra Mundial. O presidente Vladimir Putin da Rússia repetidamente clamou por paz, por uma trégua, por um cessar-fogo, por negociações. Até que, finalmente, dia 5/9/2014, assinou-se um acordo de cessar-fogo.


Chama a atenção, na direção diametralmente oposta do que recebemos como ‘notícias’, que a Rússia não invadiu a Ucrânia em nenhuma das inúmeras vezes que os ‘noticiários’ ‘informaram’ que teria invadido. Somos pós-graduados em armas inventadas de destruição em massa, em ameaças míticas contra os cidadãos líbios, em acusações falsas de uso de armas químicas na Síria... Agora estamos sendo adestrados a acreditar em invasões que jamais aconteceram.
 

A “prova” da tal invasão foi cuidadosamente perdida em local incerto e não sabido, sem qualquer detalhe que a identificasse, caso alguém tropeçasse nela. Pois mesmo assim a farsa foi desmascarada.


O avião que fazia o voo MH17 foi derrubado: a culpa é da Rússia, mesmo sem provas. E, pior, mesmo contra todas as provas que adiante se exibiram. Os EUA sempre souberam exatamente o que aconteceu. Mas não divulgaram a informação que tinham. A Rússia distribuiu o que tinha e provou, comprovado pelo depoimento de testemunhas em terra e pelos depoimentos dos controladores de voo, que o avião foi derrubado por um ou mais outros aviões. As “provas” de que a Rússia teria derrubado o avião foram expostas como grosseiras falsificações: ninguém em terra jamais viu a trilha de fumaça no céu que o tal míssil russo, se existisse, teria deixado.


Os autores Baldwin e Heartsong concluem seu trabalho com detalhada argumentação para demonstrar que as ações dos EUA recaíram sobre os próprios EUA, que a única verdade é que os cidadãos norte-americanos não têm nem qualquer mínima ideia do que acontece ou deixa de acontecer, que os donos do poder em Washington usam a 
Segunda Emenda como se fosse direito deles, contra todo o mundo. Sanções contra a Rússia tornaram Putin tão popular na Rússia quanto George W. Bush depois que deu jeito de parecer presidente de alguma coisa, enquanto aviões derrubavam arranha-céus no coração de New York. As mesmas sanções fortaleceram a Rússia, empurrando-a para aumentar a produção interna e para alianças com nações não controladas pelos EUA. A Ucrânia sofreu e a Europa está sofrendo com o corte no fornecimento de gás russo, enquanto a Rússia faz negócios com Turquia, Irã e China. Expulsar a base naval russa da Crimeia é delírio mais sem futuro hoje, do que antes de essa loucura ter começado. 


A Rússia lidera o movimento pelo qual mais e mais nações preparam-se para abandonar o dólar norte-americano. Sanções retaliatórias da Rússia, atingem já o ‘ocidente’. Longe de estar isolada (como delira o presidente Obama, dentre outros), a Rússia está trabalhando com países BRICS, na Organização de Cooperação de Xangai e em outras alianças. Sem dar sinal algum de ‘empobrecimento’ (como nos delírios do presidente Obama, dentre outros), a Rússia está comprando ouro, enquanto os EUA afundam-se cada dia mais em dívidas e desemprego, e sempre, cada dia mais, vistos pelos cidadãos do mundo como agente incapaz de jogar limpo, como jogador-bandido; e já detestados também na Europa, porque os EUA privaram os europeus do comércio com a Rússia.


Essa história começa na irracionalidade do trauma coletivo depois do holocausto da 2a. Guerra Mundial, e do ódio cego contra a Rússia. Talvez também termine na mesma absoluta irracionalidade. Se o desespero dos EUA levar o país a guerra contra a Rússia, na Ucrânia ou onde for, em algum ponto da fronteira russa, onde a OTAN vive de joguinhos de guerra e provocações, é possível que essa história, do enlouquecimento dos EUA, seja a última narrativa que a humanidade ouviu 
sobre ela mesma. *****





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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015


11/1/2015, Saïd BouamamaLe blog de Saïd Bouamama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Postado originalmente em redecastorphoto.blogspot.com.br


«O ventre que pariu a besta imunda continua fecundo»
Bertolt Brecht, 1941 [*]



O atentado conta o semanário satírico Charlie Hebdo marcará nossa história contemporânea. Resta saber em que direção e com que consequências. No contexto atual de “guerra (por procuração) contra o terrorismo” e de racismo e islamofobia de Estado, os artífices daquela cena, conscientemente ou não [1] aceleraram um processo de estigmatização e isolamento do componente muçulmano, real ou suposto, das classes populares.

As consequências políticas do atentado já são desastrosas para as classes populares e o desastre só se aprofundará se for proposta nenhuma alternativa à famosa “União Nacional”.

Verdade é que o modo como os veículos da imprensa-empresa na França e uma esmagadora maioria da classe política reagiram aos acontecimentos é criminoso. Essas reações é que ameaçam nosso futuro e trazem nelas incontáveis “efeitos colaterais” e futuros 7 e 9 de janeiros cada vez mais mortíferos. Compreender e analisar para agir é a única postura que pode ajudar a evitar as instrumentalizações e os desencaminhamentos de uma emoção, de uma cólera e de uma revolta legítima.

A manipulação da mídia ocasiona desinformação 

A total ocultação das causas 

Não tomar em consideração as causalidades profundas e imediatas, isolar as consequências do contexto que as faz surgir e não inserir evento tão violento na genealogia dos fatores que o possibilitaram condena, no mínimo à catatonia e, no pior caso, a uma lógica de guerra civil. Hoje, ninguém na ‘mídia’ aborda as causas reais ou potenciais do que houve. Por que foi possível que um atentado daquelas proporções acontecesse hoje, em Paris?

Como disse Sophie Wahnich, há “uma utilização fascista das emoções políticas das massas”, contra a qual o único antídoto é “o entrelaçamento possível de emoções e razão”. [2] O que estamos vivendo hoje é a adesão total dos discursos jornalísticos, midiáticos e políticos dominantes exclusivamente à emoção, ocultando-se simultaneamente qualquer análise real e concreta. Qualquer tentativa de análise real da situação como tal, ou qualquer análise que vise a propor outra explicação, diferente da trazida pelos veículos da imprensa-empresa comercial e pelos políticos que a representam, viraria elogio dos crimes.

Examinemos o ventre fecundo da besta imunda

Observemos então pelo lado das causas, a começar pelas causas que brotam da longa duração e da dimensão internacional.

A França é das potências envolvidas em mais guerras em todo o planeta. Do Iraque à Síria, passando pela Líbia e Afeganistão, para o petróleo, do Mali à África Central, passando pelo Congo, para os minerais estratégicos, os soldados franceses colaboram para semear morte e desastre pelos quatro cantos do planeta.

O fim dos equilíbrios mundiais que resultaram da IIª Guerra Mundial com a desaparição da URSS, combinado a uma globalização capitalista centrada na redução dos custos, para maximizar os lucros, na nova concorrência dos países emergentes, fizeram do controle sobre as matérias-primas a principal causa das ingerências, intervenções e guerras contemporâneas. Eis como o sociólogo Thierry Brugvin resume o lugar que as guerras têm no mundo contemporâneo:

A conclusão da guerra fria precipitou o fim de uma regulação dos conflitos no plano mundial. Entre 1990 e 2001, o número de conflitos entre estados explodiu: 57 grandes conflitos, em 45 diferentes territórios. 
[…] Oficialmente, partir para guerra contra nação adversária é sempre legitimado por motivos virtuosos: defender a liberdade, a democracia, a justiça... De fato, as guerras permitem controlar economicamente um país, mas também fazem com que os empresários privados de um país consigam passar a mão nas matérias-primas (petróleo, urânio, minérios, etc.) ou nos recursos humanos do outro país[3]

Guerra = Petróleo

Depois dos atentados do 11/9/2001, o discurso de legitimação das guerras passou a ser construído essencialmente sobre o “perigo islamista”, contribuindo para que se desenvolvesse uma islamofobia em grande escala nas principais potências ocidentais, que os próprios relatórios oficiais são forçados a constatar. [4] Ao mesmo tempo, essas guerras produzem um denso “ódio ao ocidente” entre os povos vítimas dessas agressões militares. [5] As guerras que o ocidente comanda em vários pontos do mundo são uma das principais matrizes da besta imunda.

Para a ambição de controlar as riquezas gaso-petrolíficas, o Oriente Médio e o Oriente Próximo são alvo geoestratégico central. As estratégias das potências ocidentais em geral e as estratégias da França em especial, desdobram-se sobre dois eixos: para reforçar Israel como base e pivô do controle sobre a região; e para manter o apoio às petromonarquias reacionárias do Golfo.

O apoio indefectível ao estado de Israel é assim uma constante da política francesa que absolutamente não mudou, de Sarkozy a Hollande. O estado sionista pode assassinar impunemente em grande escala. Sejam quais forem a amplitude e os meios dos massacres, o gerente local dos interesses ocidentais jamais precisou preocupar-se a sério nem por muito tempo. François Hollande declarou, quando de sua viagem oficial a Israel em 2013 : “serei para sempre amigo de Israel”. [6]

E, também nesse campo, o discurso “jornalístico”, midiático e político de legitimação desse apoio constrói-se sobre a base de uma apresentação do Hamás palestino, mas também (mediante o emprego de recorrentes imprecisões verbais) da resistência palestina em sua totalidade, da população palestina na sua totalidade e de seus apoios políticos internacionais, como se todos significassem o mesmo “perigo islamista”. A lógica do “dois pesos, duas medidas” impõe-se mais uma vez a partir de uma abordagem islamofóbica que se manifesta nos mais altos escalões do estado, e é repercutida pela grande maioria dos veículos da imprensa-empresa comercial e dos atores políticos.

Esse é o segundo perfil do ventre da besta imunda.

Esses fatores internacionais conjugam-se a fatores internos da sociedade francesa. Já ficou dito acima que a islamofobia de estado, impulsionada pela lei sobre o véu em 2004 e mantida depois regularmente (discurso sobre os levantes nos bairros populares em 2005, lei sobre oniqab, “debate” sobre a identidade nacional, circular Chatel e exclusão de mães que usem véu na saída das escolas para buscar os filhos, perseguição contra jovens que vistam saias longas nos ginásios públicos, proibição de manifestações de apoio ao povo palestino, etc.).

É preciso dizer, e chamar a atenção para o fato, de que esse clima islamofóbicos não foi contraditado por qualquer das forças políticas que se pretendem representantes das classes populares. Ainda mais grave, surgiu um consenso muito amplo, visível várias vezes, formado em torno do pretexto de defender o “laicismo” e de que ninguém se aproximasse “dos que defendem o Hamas”. Da extrema direita, a uma parte importante da extrema esquerda, ouviram-se os mesmos argumentos, construíram-se as mesmas clivagens e produziram-se as mesmas consequências.

O preço do petróleo
O resultado não é outro se não o enraizamento ainda mais profundo dos islamalgames [/islamalgâmes/[**], aprofundamento de uma clivagem no seio das classes populares, fragilização ainda maior dos diques antirracistas já fragilizados, e violências concretas ou simbólicas exercidas contra os muçulmanos e as muçulmanas. Esse resultado se pode descrever, como propõe Raphaël Liogier, como a difusão, numa parte importante da sociedade, do “mito da islamização” que culmina na tendência a constituir uma “obsessão coletiva”. [7]

A tendência à produção de uma “obsessão coletiva” foi aprofundada, além do mais, com o tratamento que a imprensa-empresa deu aos casos recentes de Zemmour e Houellebecq.

Depois de I-télé ter-lhe oferecido incontáveis tribunas, Eric Zemmour ganhou o emprego de enviado da rede, porque propôs “a deportação de muçulmanos franceses”. Nesse contexto de obsessão coletiva de que estamos falando, é possível, assim, fazer-se passar por vítima. Quanto ao escritor, é propagandeado por numerosos “jornalistas”, sob o pretexto de que não seria recomendável misturar ficção e realidade.

Verdade é que nesses dois casos, continua o aprofundamento da “obsessão coletiva” por um lado, e, por outro lado, o sentimento de ser insultado permanentemente, mais uma vez. Esse é o terceiro perfil do ventre da besta imunda.

Esse fator interno de uma islamofobia banalizada tem efeitos desdobrados no contexto da fragilização econômica, social e política geral das classes populares, hoje. A pauperização e a precarização massivas são já insustentáveis nos bairros populares. Decorrem disso relações sociais marcadas por violência sempre crescente contra si próprio e contra os próximos. Combinam-se a isso, a perda de qualidade de vida de parte importante das classes médias, e o medo de que a mesma perda também os alcance, entre os que ainda estão bem de vida, mas não são “bem-nascidos”. Esses, sentindo-se ameaçados, já contam com um alvo consensual já “jornalisticamente” e midiaticamente e politicamente constituído e designado como legítimo: o muçulmano ou a muçulmana.

A fragilização toca ainda mais fortemente a parte das classes populares oriunda da imigração, que é confrontada com discriminações racistas sistêmicas (ângulo absolutamente morto, desconhecido, ignorado, nos discursos das organizações políticas que querem os votos das classes populares); essas discriminações racistas produzem trajetórias de marginalização (na formação, no emprego, na procura por moradia, nos contatos com a Polícia e nos controles policiais pela aparência [orig. contrôles au faciès], etc.). [8]

A islamofobia aumenta na França e no mundo

O aprofundamento da clivagem entre dois componentes das classes populares, por uma lógica de “dividir os que deveriam ser unidos (componentes diferentes das mesmas classes populares) e aproximar os que deveriam ficar separados (as classes sociais cujos interesses são divergentes)” é o quarto perfil do ventre da besta imunda.

O que nasce de um ventre desses?

Tal matriz é evidentemente propícia à emergência de trajetórias nihilistas, que se traduzem pela matança em Charlie Hebdo. Extremamente minoritárias, essas trajetórias são produção de nosso sistema social e das desigualdades e discriminações massiva que o caracterizam.

Mas o que as reações ao atentado revelaram é também muito importante e, quantitativamente, bem mais disseminado que a opção nihilista (por enquanto?).

Sem poder esgotar o assunto, recordemos alguns elementos desses últimos dias. Do lado dos discursos, tivemos Marine Le Pen exigindo um debate nacional contra o “fundamentalismo islâmico”, o bloco identitário declarando a necessidade de “repor em causa a imigração massiva e a islamização” para lutar contra o “jihadismo”, o jornalista Yvan Rioufol do Fígaro intimando Rokhaya Diallo a se des-solidarizar na [rádio] RTL, Jeannette Bougrab acusando “os que acusaram Charlie Hebdo de ser islamofóbicos” como culpados pelas mortes, sem falar de todas as “declarações” que falavam de “guerra declarada”.

A essas intenções, juntam-se as passagens das palavras à ação desses últimos dias: uma mulher da ONG Femen faz-se filmar enquanto queima e sapateia sobre o Corão; houve tiros contra a mesquita de Albi; slogans racistas pintados nas mesquitas de Bayonne e de Poitiers; granadas lançadas contra outra mesquita em Mans; tiros contra uma sala de orações em Port la Nouvelle; outra sala de orações incendiada em Aix les Bains; uma cabeça e vísceras de porco jogadas numa sala de orações em Corte na Córsega; explosão num restaurante snack-kebab em Villefranche sur Saône; um automobilista foi alvo de vários tiros no Vaucluse; um aluno de ginásio, 17 anos, de origem magrebina foi molestado durante um minuto de silencio em Bourgoin-Jallieu em Isère, etc.. Os objetivos e os atos mostram a amplidão dos danos já causados, só até aqui, pelos últimos decênios de banalização da islamofobia. Fazem também parte da besta imunda.

Judith Butler
A besta imunda está igualmente na gritante ausência de indignação em face das vítimas inumeráveis das guerras imperialistas das últimas décadas. Reagindo contra o 11/9, a filósofa Judith Butler interroga-se sobre a indignação desigual. Mostra que a indignação justificada pelas vítimas do 11/9 é sempre acompanhada por completa indiferença pelas vítimas das guerras feitas pelos EUA:

Como é possível que ninguém informe os nomes dos mortos nessa guerra, incluídos os que os EUA mataram, e dos quais jamais teremos uma imagem, um nome, uma história, jamais nem o mínimo fragmento de testemunho sobre sua vida, qualquer coisa que se possa ver, tocar, conhecer? [9]

Essa indignação desigual está na base da produção de uma clivagem bem real, no seio das classes populares. E essa clivagem é portadora de todos os perigos, sobretudo em período de construção da “união nacional”, como hoje.

A união nacional que tanto sonham construir, é “todas e todos juntos contra esses que não são os nossos, contra os que não mostram cara branca”.

Formidável instrumentalização política

Mas o escândalo que vivemos hoje não fica por aí. Todas as instrumentalizações da situação, e o pânico que suscita, estão aí para quem queira ver – cinismo consumado, o dia inteiro.

Reforço na segurança e atentados contra as liberdades democráticas

Alguns, como Dupont Aignan, reclamam “mais maleabilidade nas forças da ordem”, enquanto já foi aprovada, no outono passado, uma nova “lei antiterrorista”. Fazendo-lhe eco, Thierry Mariani faz referência à Lei Patriótica dos EUA (cuja consequência foi graves atentados contra as liberdades individuais, sob o pretexto de que assim se lutaria contra o terrorismo): “Os EUA souberam reagir depois do 11/9. Denunciou-se a [lei] Patriot Act, mas, depois dela, não houve nenhum atentado, exceto Boston”. [10]

Patriot Act
Instrumentalizar o medo e a emoção, para impor leis e medidas liberticidas, eis a primeira manipulação já testada para sondar o campo dos possíveis em matéria de regressão da democracia. Reivindicações legítimas e urgentes são tornadas inaudíveis pela avalanche “de segurança” que visa a aproveitar a situação: será agora muito mais difícil fazer a luta contra o controle pela aparência em locais públicos [orig. contrôle au faciès], e as humilhações cotidianas que assim se produzem continuarão, cercadas pela indiferença generalizada.

A unidade nacional

A construção ativa e determinada da unidade nacional é a segunda grande instrumentalização em curso. Ela permite pôr em surdina o conjunto das reivindicações que entravam o processo generalizado de desregulação. A corda tem de ser bem grossa, e é eficaz no clima de medo generalizado que o conjunto da imprensa-empresa produz diariamente.

Em algumas cidades, a unidade nacional já foi estendida à Frente Nacional que participou das manifestações de apoio a Charlie Hebdo. Dati e Fillon já dão sinais de indignação por  Marine Le Pen ter sido “excluída” da unidade nacional. É essa unidade nacional que causa também os maiores danos políticos, porque ela destrói os raros pontos de referência positiva que existissem antes, em termos de alianças possíveis e de identidades políticas.

A obrigação de justificar-se

Outra instrumentalização encontra-se na obrigação permanente, real ou suposta, para os muçulmanos, de se justificarem por atos que não cometeram, e/ou de se afastarem, separarem-se, dos autores do atentado.

Essa situação de permanentemente acusado é humilhante. A ninguém ocorre exigir que cristãos, reais ou supostos, publiquem condenação “oficial”, quando o norueguês Behring Breivik assassinou 77 pessoas em julho de 2011 e declarou-se islamófobo e nacionalista racista branco.

Por trás dessa obrigação, está a lógica que apresenta o Islã como essencialmente incompatível com a República. Dessa lógica decorre a ideia de pôr todos os muçulmanos, reais ou supostos, sob vigilância – não só da polícia, mas também dos jornalistas da imprensa-empresa, da “mídia”, dos professores universitários, dos vizinhos, etc..


“Ser” Charlie? Quem pode ser Charlie? Quem quer ser   Charlie?

O slogan “somos todos Charlie” é, afinal, a derradeira instrumentalização em operação nos dias que correm. Se o atentado contra Charlie Hebdo é condenável, não se pode de modo algum esquecer o papel que teve o semanário para constituir o clima de islamofobia que se vê hoje.

Nós somos Charlie
De modo algum tampouco se podem esquecer as odes a Bush que se via naquelas páginas, enquanto Bush promovia sua famosa “guerra contra o terrorismo” no Afeganistão e depois no Iraque. Essas tomadas de posições escritas ou desenhadas não são detalhes, ou simples piadas sem consequências: estão na origem de múltiplas agressões de mulheres veladas e de numerosos atos contra locais de culto para os muçulmanos.

Sobretudo, o semanário contribuiu fortemente para dividir as classes populares, precisamente quando elas precisavam, ainda mais que nunca, de unidade e de solidariedade. Não somos “mais” Charlie ontem, que hoje.

Os tempos que vêm pela frente anunciam-se difíceis e custosos.

Para deter a escalada, temos de pôr fim à violência dos dominantes: temos de nos bater pelo fim das guerras imperialistas em andamento, e abolir as leis racistas.

Para deter a escalada, temos de desenvolver nossos quadros e produzir eventos de solidariedade destinados a impedir que se alastrem os atos racistas e, sobretudo, islamofóbicos.

Para deter a escalada, temos de construir todos os espaços de solidariedade econômica e social possíveis em nossos bairros populares, com total autonomia em relação aos que tanto promovem, como perspectiva, a união nacional.

Mais que nunca, temos de nos organizar, cerrar fileiras, recusar a lógica que manda “dividir quem tem de ser unido e unir quem tem de ser separados”. 

Mais que nunca, temos de identificar e apontar o inimigo dessa nossa construção conjunta: inimigo são todos e tudo que nos divide.



Notas dos tradutores

[*] BRECHT, B. (1941) Aufhaltsame Aufstieg des Arturo Ui (Der) [“A resistível ascensão de Arturo Ui” (...) “história de gangsters de Chicago num ambiente de filme negro (...) paródia trágica inspirada em Hitler escrita durante o exílio de Brecht em 1941, na Finlândia. Usando como pano de fundo Al Capone e as guerras entre gangsters, o autor fala metaforicamente da ascenção do Nazismo, Brecht reproduz a tomada de poder e a anexação da Áustria. Criminosos de guerra como Goebbels, Goering e Röhm são facilmente identificáveis. Brecht também aproveita para falar do mundo egoísta do capitalismo e da sociedade que o mantém”]. [Trecho da tradução da peça em: A Resistível Ascensão de Arturo Ui]

[**] A palavra-valise islamalgâme (fr.) nos parece cômoda para designar não só o procedimento argumentativo localizado de amálgama, mas os avatares lexicais e discursivos de um fenômeno difuso e implícito, a assimilação mais ou menos marcada e deliberada entre terrorismo e Islã, bem como as cadeias associativas variadas que gravitam em torno de matrizes da “fórmula”. A palavra islamalgâme foi criada pelo jornalista Daniel Mermet (France-Inter Là-bas si j’y suis), para dar título a uma série de programas de rádio, e depois já apareceu em outros contextos [com informações de Semenaqui traduzidas].

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Notas do autor

[1] Por um lado é cedo demais para saber; por outro lado, o resultado é o mesmo.

[2] Sophie Wahnich, La révolution française, un évènement de la raison sensible 1787-1799, Hachette, Paris, 2012, p. 19.

[3] Thierry Brugvin, Le pouvoir illégal des élites, Max Milo, Paris, 2014.

[4] Djacoba Liva Tehindrazanarivelo, Le racisme à l’égard des migrants en Europe, Ed. Conseil de l’Europe, Strasbourg, 2009, p. 171.

[5] Jean Ziegler, La haine de l’Occident, Albin Michel, Paris, 2008.

[6] Le MondeHollande “ami d’Israël” reste ferme face à l’Iran, 17/11/2013.

[7] Raphaël Liogier, Le mythe de l’islamisation, essai sur une obsession collective, Le Seuil, Paris, 2012.


[9] Judith Butler, citada em Mathias Delori, Ces morts que nous n’allons pas pleurer, visitado dia 9/1/2015, 18h.


[10] Le Parisien, 8/1/2015.



postado por Roberto Pires Silveira em 22/01/2015 às 20h11


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