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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Kerry 'entregou' a posição dos EUA (à mercê dos russos) na Síria 
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 Resultado de imagem para Joaquim Flores, Fort Russ
Tradução do Coletivo de Tradutores da Vila Vudu.
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O Império dos EUA está mesmo com os dias contados.


O que foi dito pela TV ao vivo, na ONU, com a 
declaração "conjunta" feita por Lavrov, e com Kerry falando na 'conclusão', são dessas coisas "de que a história é feita". E entre o que foi dito depois, com portas fechadas, e o que foi dito publicamente, há oceanos de distância.


Há algumas frases chaves que foram usadas e que são a maior indicação desse golfo de distância, à parte qualquer avaliação objetiva da situação, que também se faz necessária. Mas quanto mais objetiva a avaliação, mais se vê e revê que os EUA estão em posição muito fraca. 


A decisão de divulgar aquela declaração conjunta e em linguagem de colaboração explica-se, em parte, pela necessidade de não assustar os norte-americanos – ou de provocar um 'sobressalto' no mercado de ações, dadas as relações entre a situação objetiva e os bônus do Tesouro e outros papéis que os chineses acumulam. O maior detentor externo de papéis da dívida dos EUA é, como se sabe, a China (cerca de $1,2 trilhões em notas, contas e bônus, segundo o Tesouro dos EUA). Os chineses e a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (
CSTO) estão sem dúvida envolvidos nesse conflito.


Mas – o mais importante – essa decisão de fazer crer em consenso e colaboração tem a ver com oferecer aos EUA possibilidade de sair com alguma elegância, o que é estrategicamente importante para a Rússia, sim, mas, também, reflete o modo russo de fazer política exterior: as coisas são sempre feitas de modo a não provocar, muito menos encorajar, menos ainda encurralar e nunca absolutamente para frustrar os adversários.


Deixar ao inimigo saída segura é tática milenar e manobra militar que assegura que o oponente não encontre razão que o obrigue a continuar lutando até a última gota de sangue.


Como as coisas estão sendo feitas, os EUA terão como fazer retirada às pressas, mas ainda tática, de algum modo, sem usar a linguagem declarada da rendição.


A linguagem da colaboração têm também um significado legal. Dado que vivemos num mundo no qual os EUA tentaram sempre desconstruir a ordem legal pós-guerra e também a ordem anterior, e atropelaram grande número de acordos e convenções, é importante que todos entendam com clareza que esse não é o objetivo da Rússia.


No coração da ilegalidade em que os EUA operam, há o seguinte: a ordem pós-guerra criou um sistema de lei o qual, ao mesmo tempo em que reconhece a supremacia dos vitoriosos da guerra, como se vê na estrutura do Conselho de Segurança da ONU, foi também realmente baseada em princípios de igualdade entre as nações e no direito à autodeterminação.


Nas várias décadas depois do final da 2ª Guerra Mundial, o mundo viu um levante global anticolonial e anti-imperialista, sobretudo no Terceiro Mundo, o qual – apesar de algumas frustrações por ação do imperialismo dos EUA – conseguiu dar bom uso às promessas e valores consagrados na Carta da ONU. Apesar de os EUA continuarem a violar direitos humanos e a lei internacional em algumas graves instâncias, no Sudeste da Ásia e na América Central principalmente – a sua interação primária com o mundo não dependeu da ilegalidade como sistema operacional.


Os EUA não atacaram frontalmente essa ordem global do pós-guerra, porque, mediante o sistema financeiro internacional de bancos e estruturas aparentadas como FMI e OMC, eles puderam continuar a dominar e controlar economicamente os países do Terceiro Mundo, mesmo depois de eles terem alcançado independência e soberania formais. 


Como muitos desses países cresceram, e em vários sentidos ultrapassaram os EUA, o método de manter a hegemonia mediante dominação econômica, que pode alterar a igualdade legal entre todos os estados-nações, foi-se tornando proporcionalmente menos e menos útil.


Isso explica em grande parte porque os EUA precisaram atacar a lei internacional, fazendo desse ataque o seu sistema operacional, para conseguir manter a dominação ou reconquistar a posição dominante de antes.


As forças combinadas de China, Rússia e Irã, absolutamente não são derrotáveis no continente eurasiano. Os EUA sabem muito bem disso, mas, por razões de sua própria cultura política e militar interna, exigiram 'uma prova' dos russos, sob a forma de campanha aérea massiva e bem-sucedida. Isso, precisamente, é o que os russos deram hoje a eles, e dar essa 'prova' foi, provavelmente, a principal razão dos ataques do dia de hoje.


E assim sendo, o que foi dito hoje por trás de portas fechadas?


O que muito provavelmente aconteceu foi uma série de ultimatos, dos dois lados. Mas é a Rússia que tem as cartas do jogo. A tática básica de barganha dos EUA é superestimar a própria mão e blefar. A Rússia sabe disso, e sabe da posição delicada e muito sensível em que estão os EUA, os quais só muito recentemente descobriram a própria mortalidade; por isso, os russos com certeza deixaram passar sem resposta, polidamente, sem provocações, as ameaças e exigências absurdas dos EUA. Ao mesmo tempo, não perderam em nenhum momento o foco da reunião: informar aos EUA a posição dos russos, final e inalterada.


O que não aconteceu é qualquer tipo de plano para ação conjunta de EUA e Rússia no serviço de atacar – alvos. A mídia-empresa norte-americana que já percebeu e está discretamente apontando nessa direção, cumpre o papel primário de intrometer dois tipos de interferência: vai desmontando a realidade de que, sim o ISIL é principal criação/aliado dos EUA; e faz parecer que os EUA seriam ainda parte de 'algo', seja o que for, que ainda cheira ou soa como 'vencer'.


O que deve realmente ter acontecido é os EUA terem negociado em nome de Turquia, Israel, Arábia Saudita e Qatar, para garantir que haja corredores de saída pra seus grupos e exércitos (híbridos) de mercenários estrangeiros/extremistas, e outros líderes importantes, especialistas e instrutores. Cada dia que passa, mais especialistas começam a dizer que, sim, entre os verdadeiros refugiados que estão chegando à Europa, há comandantes e instrutores importantes do Exército Sírio Livre/Frente al-Nusra, que estavam um pouco avançados na curva, viram e entenderam o rumo dos eventos e começaram a cuidar da própria saída algumas semanas mais cedo.


O que Kerry disse publicamente e que é criticamente importante – e é o que expõe claramente a real natureza das conversações de hoje – capitulação militar dos EUA – foi o seguinte:


"Como Sergey disse a vocês, concordamos quanto ao imperativo de uma, um... o mais rapidamente possível, talvez já amanhã, o mais rapidamente possível – de haver uma discussão para deconflec... desconfre... uma discussão para desconflitação militar, reunião, conferência, o que for, o que se possa fazer com a necessária rapidez, porque concordamos com a urgência dessa desconflitação."


"Discussão para desconflitação dos esforços militares" é formulação em linguagem pedante e falsamente neutra, para disfarçar o objetivo de 'livrar a cara' de alguém na operação que se descreve mais adequadamente como 'desenredamento', 'separação' ou, talvez mesmo, sendo o caso, como "definir termos para rendição incondicional".


É preciso olhar de frente, na cara do óbvio – e é preciso dar as coisas os nomes verdadeiros.Para que duas partes, dois lados ou dois exércitos tenham uma discussão para desconflitação – eles têm de estar em conflito. Isso, precisamente, é o que há aí, nessa conversa de última hora.


Outra coisa muito significativa que absolutamente não se ouviu publicamente, é qualquer conversa sobre o presidente Assad da Síria renunciar ao governo.


Praticamente não há sombra de dúvida sobre quem – ou Kerry ou Lavrov – suplicou que essa reunião de emergência acontecesse logo. 


Por fora dessa admissão de derrota mais ou menos direta e completa, pelos EUA, há a semelhança com a situação do Debaltsevo e o Acordo de Minsk. 


Serve como paralelo ao conflito da Ucrânia, onde se viu o caldeirão do Debaltsevo, e o cerco que Motorola disse publicamente que eram soldados da OTAN (que estivessem em formações de mercenários, como Greystone/ Blackwater/ Xe/ Academi não tinha importância nem alterava coisa alguma), e o subsequente Acordo de Minsk 2, construído sobre a derrota de forças norte-americanas 'por procuração', ante forças russas 'por procuração'.


Temos também, portanto, de especular sobre se há combatentes do MI6, da CIA, do Mossad e de outros serviços secretos/militares/forças especiais e/ou grupos mercenários ocidentais ligados a esses entre as baixas nos ataques de hoje.


E como se viu com o Acordo Minsk 2, aqui também se verá os EUA ininterruptamente tentando sabotar ou trabalhar contra tudo que eles mesmos declaram que estariam fazendo ou que se teriam comprometido a fazer.


Ao mesmo tempo, a Rússia está muito ciente disso, e confiará mais pesadamente na sua principal força básica no mundo emergente de hoje: a multipolaridade.


A aliança norte-americana está caindo aos pedaços, e qualquer movimento errado que faça pensar em conflito maior pode pôr em modo de choque a frágil economia norte-americana. Já foi difícil que chegue usar dinheiro de empréstimos [orig. debt spending] e razão crescente entre dívida/PIB para si-mu-lar (não para "estimular") crescimento. Já foi difícil que chegue mudar números a torto e a direito, para fazer que um índice crescente de desemprego desse a impressão de ser decrescente.


Essencialmente, o que a Rússia ofereceu aos EUA é também semelhante a setembro/2013 na Síria, mas em forma reforçada, quando a Rússia forneceu aos EUA – como faz agora – saída oficial elegante e digna, do conflito. Lá, veio na sequência de um ataque sob falsa bandeira, tentado pelos EUA, para pôr no governo sírio a culpa por ataque com armas químicas.


Atrás daquelas portas fechadas, os EUA ameaçaram aumentar o apoio e o reforço que dão à Al-Qaeda, Frente Al-Nusra, o nome que preferirem. Combina perfeitamente com o que emergiu publicamente, dito por Kerry (que a Rússia "será autorizada" a lutar sozinha).
 

Para realmente compreender como essas duas coisas caminham juntas, temos só de observar o que andam dizendo à mídia candidatos presidenciais tipo Trump, cuja tarefa tem sido ir enfiando a ideia na mente do cidadão norte-americano médio. A ideia é 'deixem' a Rússia resolver essa parada... mas com o objetivo real de aumentar o apoio contra os russos, para assim prender a Rússia numa arapuca semelhante à que os EUA já teriam conseguido fazer no Afeganistão.


Não há dúvidas de que o que está sendo dito pela televisão ao vivo, tarde da noite [quando esse postado foi escrito] – depois de um longo dia, quando a Rússia destruiu pelo menos oito alvos em 20 decolagens – é exatamente o oposto do que está sendo dito por trás de portas fechadas.


Com Lavrov, que fala o idioma claro e transparente da diplomacia russa, Kerry não teve escolha e lá ficou, a balançar a cabeça, como se o que Lavrov dizia fossem palavras que Kerry tivesse escolhido.


Prova de que Kerry, nas reuniões fechadas ao público, foi forçado a aceitar um acordo que absolutamente não foi do seu agrado – encontra-se nas suas declarações públicas finais.


Em conclusão e para resumir aquelas declarações: Kerry disse que os embaixadores apenas haviam listado alguns pontos de princípio sobre os quais estariam de acordo – Síria Unificada, Síria Soberana, Síria Democrática, Síria Secular e Síria aberta a todos os grupos étnicos e confessionais; que ele teria de levar tudo isso a Obama e "sua equipe", para aprovação final.


Em mais uma derrapada diplomática, e falando erradamente por Lavrov, Kerry acrescentou que Lavrov também levaria a relação "de pontos" para que Putin aprovasse. Tudo errado. Lavrov não precisa de nenhuma consulta extra, dado que a lista das exigências russas que Kerry aceitou sem reparos foi provavelmente a mesma lista que os russos já tinham pronta, no início da reunião. Não se tem notícia de vitória que tenha de ser 'aprovada' pelos superiores; termos de rendição, sim.


A diferença é que Lavrov, conforme a modalidade padrão entre os russos, chegou à reunião com plena autoridade de Estado para apresentar o documento do acordo o qual, para começar, foi redigido pelo próprio Lavrov. Mas Lavrov, diplomata brilhante e sempre cavalheiro, deixou que o infantiloide Kerry tentasse mais essa manobra para livrar a própria cara e controlar danos.

Evidentemente, em nenhum caso Lavrov discordaria ou corrigiria Kerry publicamente. A posição de força da Rússia não se baseia no que Kerry pense, faça, diga ou não diga, mas na posição que a Rússia construiu para si na comunidade internacional.


A força da Rússia é a força de seus parceiros na região e de suas próprias ações e movimentos, sempre apoiadas em princípios da lei internacional; e na sua própria capacidade militar – fartamente comprovada hoje.


A estratégia russa baseou-se no ponto de equilíbrio entre o poder real e o apoio 'em princípio' da comunidade internacional. Com o aventureirismo dos EUA perdendo gás, e já sem qualquer possibilidade de sucesso – os EUA passaram a perder também apoio na comunidade internacional. Quando aconteceu, a Rússia já estava posicionada para ocupar o vácuo.


Interessante, daqui em diante, será observar em tempo real o crescente isolamento dos EUA, e a capacidade cada dia menor que passará a ter para ações unilaterais e demandas sobre (e contra) o resto do mundo. E já foi divertido ver Kerry, na TV, ao vivo, sem conseguir não expor a real posição de rendição dos EUA, na Síria.
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* JOAQUIN FLORES trabalha em Belgrado, é diretor do Centro para Estudos Sincréticos. O centro foi fundado em 2013 em Belgrado como organização internacional para educação ideológica, fórum de discussão e revisão de trabalhos significativos e novos itens, e organização militante para desenvolver propostas e recomendações, além de pesquisas de análises sociais sincréticas e interdisciplinares. É também editor chefe do serviço de notícias Fort Russ e presidente da Associação de Jornalistas Independentes pela Paz, com sede em Berlim.


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domingo, 20 de setembro de 2015

Apoio à Síria dá à Rússia status de "superpotência diplomática"
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"A firmeza e a consistência de Putin no apoio a Assad desde o primeiro momento da guerra na Síria está agora rendendo bons frutos. É muito provável que Putin possa em breve comemorar uma grande vitória, cujo valor excede os limites da situação na Síria. As declarações de Putin sobre o papel da Rússia na resolução de conflitos globais estão soando altas e claras."


20/9/2015, Sputnik News
 Vila Vudu's profile photo
Tradução do Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Em artigo recente para o portal israelense de notícias Walla!, o jornalista Amit Leventhal sugeriu que os movimentos da Rússia para garantir assistência à Síria em sua guerra contra o terrorismo jihadista, ante a hesitação do 'ocidente', estão efetivamente convertendo a Rússia na "super potência diplomática" com que o "presidente Putin sempre sonhou".

No artigo, Leventhal argumenta que a Rússia decidiu ampliar seu apoio à Síria no "momento mais acertado", pouco antes da 70ª Assembleia Geral da ONU, em New York, no final de setembro, "onde Vladimir Putin planeja, em seu discurso, falar sobre as vitórias da diplomacia russa."


O jornalista entende que o presidente russo tem, efetivamente, muito a celebrar, no momento em que "vai sendo gradualmente atingido o objetivo de Putin, de devolver a Rússia ao status de superpotência, capaz de influenciar ativamente a arena internacional." Levanthal observa que, em grande medida, isso tem a ver com o ininterrupto apoio que Moscou sempre garantiu ao governo sírio, inclusive com provisão de armamento avançado ao exército da Síria, bem como pela expansão da presença militar russa na área, agora que já foi construída a grande base aérea de Latakia. Para Leventhal, "de um ponto de vista tático, Putin escolheu o momento perfeito", nas atuais circunstâncias quando "a Rússia posiciona-se a favor do exército de Assad", num momento em que estaria "enfrentando aumento no número de baixas e perdendo território".


Essa ideia é altamente discutível. A verdade é que o Exército Árabe Sírio não perdeu o controle sobre os territórios em que vivem 80% da população da Síria, mesmo depois de cinco anos de guerra brutal contra ampla coalizão de inimigos radicais das mais diferentes origens, dentre os quais os grupos terroristas Frente al-Nusra e ISIL apoiados por Turquia e Arábia Saudita. Mas a ideia seguinte do jornalista, sobre o significado estratégico do timing definido pelos russos, sim, faz sentido.


Leventhal observa que "de um ponto de vista estratégico, o momento [de a Rússia assumir plenamente o apoio aos sírios] é também muito bem escolhido, às vésperas da 70ª Assembleia Geral da ONU. No final do corrente mês de setembro, chefes de estado de todo o mundo estarão reunidos em New York. Na agenda da Assembleia estarão as guerras no Oriente Médio e a crise de migrantes do Oriente Médio e África que aquelas guerras geraram."
 Resultado de imagem para Vladimir Putin

"Ao se apresentar para falar do palanque da ONU, dia 28 de setembro, depois de 10 anos de ausência, o presidente Vladimir Putin não chegará de mãos vazias" – escreveu Leventhal. – "Putin apresentará sua proposta para resolver a crise na Síria, inclusive propostas para início do diálogo entre Assad e a chamada 'oposição saudável', vale dizer, o Exército Árabe Sírio e a oposição realmente moderada. O presidente da Rússia proporá que se constitua uma coalizão para lutar contra o ISIL, mas sob o formato que efetivamente interessa à Rússia."


Nessa linha, segundo o jornalista, o apoio de Moscou à Síria no momento que o país vive, converteu a Rússia "em fator diplomático que a ONU não poderá deixar de levar em conta. Difícil imaginar sucesso mais completo para o presidente Putin, ter feito de seu país iniciador de importante processo de paz na arena internacional."


"Lenta mas segura e persistentemente, Putin está usando a confusão que reina no Ocidente e as aspirações imperiais isolacionistas dos EUA, depois do trauma que os norte-americanos sofreram na ocupação do Afeganistão e do Iraque, para fortalecer a posição russa" – escreveu Leventhal. (...) E acrescenta que "Putin foi muito bem-sucedido no movimento para preencher o vácuo deixado pelos EUA, e a Rússia está podendo influenciar todos os países que os EUA abandonaram totalmente ou em parte."


O jornalista comenta as relações de aproximação entre os russos e o governo egípcio de Abdel Fattah el-Sisi, o qual, na opinião de Leventhal, "já é aliado de Moscou". Leventhal recorda que "a Rússia está fornecendo armas ao exército egípcio, está ajudando o país na luta contra grupos jihadistas terroristas, e está promovendo um projeto para construir a primeira usina nuclear do Egito. Sisi também convidou Putin a participar da cerimônia de abertura da área expandida do Canal de Suez, solenidade para a qual foi escalado o primeiro-ministro. Em maio e agosto Putin hospedou o presidente do Egito, que prometeu apoio às propostas da Rússia sobre a Síria."


Leventhal observa que em seus esforços para "ganhar influência no Oriente Médio e em todo o mundo", a Rússia também desenvolveu "contatos ativos nos estados do Golfo Árabe", inclusive com Arábia Saudita, na esperança de persuadir aqueles estados a aceitarem a iniciativa de Moscou para a Síria. Recentemente, líderes de vários países do Oriente Médio estiveram em visita à Rússia, dentre os quais o rei da Jordânia Abdullah II, um dos principais aliados dos EUA. Abdullah II reconheceu a importância da Rússia, observando que o conflito sírio tem de ser resolvido, e que a Rússia desempenha papel crucialmente importante ao coordenar as forças da oposição síria e levá-las a um diálogo para resolver a crise." 


Observando que alguns atores no Oriente Médio, como Arábia Saudita e Israel, ainda resistem às propostas russas, o jornalista israelense sugere que "é preciso tempo para persuadir, sobretudo quando se trata de persuadir aliados dos EUA." Leventhal citou comentário recente do ministro saudita de Relações Exteriores, que disse que Riad não veria lugar para Assad no futuro da Síria; além dele, o jornalista considera pouco provável que o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu venha a aceitar a posição russa para a Síria; Netanyahu e Putin encontrar-se-ão na próxima semana.


Evitar que situação ruim piore muito 


Seguindo a mesma linha de reflexão, Leventhal recorda que "essa semana Putin explicou que, sem a assistência dos russos, a situação na Síria seria muito pior, que o país correria risco real de cair em mãos do ISIL, que a Europa teria de lidar com número ainda maior de refugiados, e que a situação seria pior, até, do que s que se vê hoje na Líbia. E Nikolai Kozhanov, que foi adido militar da Rússia em Teerã, falou à CNN sobre a estratégia da Rússia. 


Kozhanov explicou que, embora a Rússia não vá lutar por Assad, Moscou entende que o governo sírio está desempenhando papel chave na luta contra o ISIL, e que, exceto os exércitos de Assad, não há na região real alternativa de força capaz" para fazer o serviço.


Citando serviços ocidentais de inteligência, o jornalista enfatizou que "a Rússia não cogita de vencer a guerra de Assad, por ele; nem cogita de ajudá-lo a sustentar-se nos territórios que controla. Kozhanov observou que a Rússia não vai enviar tropas para conquistar a Síria, conhecendo bem os resultados da invasão dos EUA ao Iraque."


(...) Leventhal lembrou que a desestabilização da Síria, processo que está ainda em curso, é repetição de eventos já conhecidos no Iraque e na Líbia. Se se consideram esses exemplos, deve-se, sim, temer que sobrevenham o caos e a desintegração do estado também na Síria, se Assad, como Hussein no Iraque e Gaddafi na Líbia, forem derrubados por golpe, em ataque para 'mudança de regime".


A Rússia avança para preencher o vácuo que o 'ocidente' deixou


Na interpretação de Levanthal, "o evento chave depois do qual a Rússia pôde começar a converter-se em ator internacional influente aconheceu há dois anos, quando se alcançou o acordo sobre o arsenal de armas químicas da Síria, com a Rússia no papel principal" para implementar o programa e desmontar as armas.


Na avaliação do jornalista israelense, "a ação proativa de Putin ensinou excelente lição aos EUA e aliados – que só faziam repetir que 'Assad tem de sair' e acusar o presidente sírio de governar como ditador e de ter provocado o surgimento do ISIL. Na avaliação dos russos, o evento que semeou o caos na região foi a invasão dos EUA contra o Iraque, que fez explodir o ritmo de crescimento de grupos extremistas. Para os russos, Assad não é a fonte do problema, mas a chave para resolvê-lo."


Em resumo, na visão de Levanthal, "o 'ocidente' está sendo derrotado na Síria, porque escolheu fazer diplomacia negativa. 


Por um lado, 'ocidente' foge do confronto direto contra o ISIL. Por outro lado, o 'ocidente' 'exige' a derrubada de Assad. Mas... e onde estão as sugestões positivas?!

Quem governaria a Síria e como governaria? 


Os EUA adotaram um programa de mobilizar e armar rebeldes sírios, mas só conseguiram atrair um poucos interessados. O dito Exército Sírio Livre também já está muito enfraquecido. E a terceira força depois do ISIL e do Exército Árabe Sírio, são os grupos jihadistas, inclusive a 'sucursal' da Al-Qaeda na Síria, a Frente al-Nusra."


Com esses fatos em mente, e "no contexto da crise dos refugiados que cerca a Europa, a Rússia está, sim, em condições para pressionar o 'ocidente'" para que reoriente suas posições – não só na Síria, mas também em outras questões – na Ucrânia, por exemplo.


Na opinião do jornalista,


"a firmeza e a consistência de Putin no apoio a Assad desde o primeiro momento da guerra na Síria está agora rendendo bons frutos. É muito provável que Putin possa em breve comemorar uma grande vitória, cujo valor excede os limites da situação na Síria. As declarações de Putin sobre o papel da Rússia na resolução de conflitos globais estão soando altas e claras."
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terça-feira, 8 de julho de 2014

7/7/2014, [*] M K BhadrakumarIndian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Hossein Amir-Abdollahian
A diplomacia iraniana está trocando de marcha, no que tenha a ver com a situação no Iraque. O vice-ministro de Relações Exteriores, Hossein Amir-Abdollahian, partiu em viagem pelos Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã. Antes, no início da semana, o presidente Hassan Rouhani já conversara separadamente com o Emir do Qatar.

Semana passada, Abdollahian esteve em Moscou, viagem que ele já descreveu como bem-sucedida, dado que forjou “uma posição comum e coordenada” entre os dois países com vistas a combater contra o terrorismo no Iraque e ajudar Bagdá a proteger a “unidade, independência e integridade territorial”.

Teerã está deliberadamente deixando de lado a Arábia Saudita, que está sendo vista como principal protagonista no Iraque e Síria apoiando o Estado Islâmico do Iraque e Levante [ISIL]. E adotou a medida bem pouco usual de distribuir uma declaração, no domingo, para esclarecer, acima de qualquer dúvida, que o ministro de Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif absolutamente não visitara, nem visitaria a Arábia Saudita e que boatos nessa direção não têm qualquer fundamento.

 Javad Zarif
Essa declaração equivale a “empurrar para o lado”, diplomaticamente, a Arábia Saudita, ao mesmo tempo em que o Irã “declara” que nada há a discutir com a Arábia Saudita sobre o Iraque, enquanto os sauditas mantiverem a estratégia pervertida de desestabilizar o Iraque e forçar “mudança de regime”. A viagem regional de Abdollahian tem, muito provavelmente, o objetivo de chamar a atenção para o perigo de um revide a partir do Iraque, que teria impacto negativo sobre a segurança e a estabilidade regional.

Para garantir, ele levará aos três países, que são aliados chaves dos EUA, a conclusão a que Teerã chegou, de que Washington está jogando jogo duplo no Iraque, fugindo como a raposa e caçando como a cachorrada. As mais recentes notícias de Teerã sugerem que o Irã concluiu definitivamente, a partir de informação de inteligência confiável, que o governo Obama faz-se de Janus bifronte e usa duas caras na crise do Iraque, buscando meios para uma “reestréia” militar e política dentro do país para tentar proteger seus interesses econômicos.


Reza Naqdi
Importante: o comandante da Força Basij, Mohammad Reza Naqdi alertou, em tom grave, sobre a “formação de uma nova frente de resistência”, por Teerã, contra os EUA e seus aliados regionais. É o mais forte sinal de alerta que o Irã envia a Washington, até agora. Naqdi, figura muito poderosa no establishment de segurança no Irã, reporta-se diretamente ao supremo líder aiatolá Ali Khamenei. A dura mensagem a Obama é para que ele ponha fim imediatamente à empreitada do ISIL; ou aguente as consequências da “resistência”.

Ao mesmo tempo, Abdollahian novamente refutou os boatos de que o Irã teria enviado tropas para o Iraque. Claro, são boatos gerados também como propaganda distribuída por empresas de jornalismo mantidas com dinheiro do governo dos EUA, como a Radio Free Europe/Radio Liberty. Evidentemente, Teerã sabe que esses boatos visam, em primeiro lugar, manter a escalada constante, incremental, da presença militar dos EUA no Iraque [“EUA negam superdistensão da guerra (“mission creep”), e não param de superdistender a guerra”.  


Abu Bakr 
Al-Baghdadi
Não surpreendentemente, a névoa da guerra vai se tornando mais espessa. Apesar da névoa, não param de surgir inúmeras sempre novas questões incômodas. Por um lado, Bagdá questionou a autenticidade de um vídeo recentemente distribuído, em que se vê o chefe do ISIL Abu Bakr Al-Baghdadi. Se o vídeo é falso, a grande pergunta é: quem anda pelo mundo a inflar a imagem do ISIL, fazendo de tudo para atrair na direção dele as atenções planetárias? Dito em outras palavras: quem tem mais a ganhar, com espalhar mais terror e mais medo?

Interpretação completamente nova surgiu hoje, segundo a qual o atual tumulto no Iraque foi golpe cuidadosamente urdido por EUA e seus aliados regionais, especialmente a Turquia – que mantém silêncio ensurdecedor sobre os desenvolvimentos no Iraque. Pergunta-se: o sequestro de turcos no consulado deles em Mosul, ostensivamente pelo ISIL, pode ser golpe de publicidade, para divulgação global, para apresentar Ancara como vítima, não com mentora do grupo terrorista? E não há resposta fácil.

Daily Mail britânico publicou matéria exclusiva sobre a estranha decisão tomada pelo governo Obama, de libertar Al-Baghdadi, há cinco anos, da prisão onde estava. Gesto absolutamente excepcional, tratando-se de suspeito de comandar a al-Qaeda.

Hmmm... A névoa da guerra só se adensa!

EUA fornece "softwares" e inteligência para o
ISIS/ISIL/DAASH
Novamente, recentes relatos iranianos selecionados pela imprensa oficial do governo russo sugerem que os EUA podem estar partilhando inteligência importante com o ISIL, que, adiante teriam utilidade em campo, no front operacional. Sendo isso verdade, o envio pelo governo Obama de algumas centenas de “conselheiros militares”, e o deslocamento de brigadas de drones para os céus do Iraque, assumem significado absolutamente novo.

Ainda que se deixe de lado tudo isso, fato é que o governo Obama e os aliados regionais dos EUA – Arábia Saudita e Turquia, em especial – já não podem confiar que o “projeto” ISIL tenha alguma serventia para derrubar do poder o primeiro-ministro Nouri Al-Maliki. A melhor aposta deles era isolar Maliki dentro do próprio campo xiita. Mas as coisas não estão andando nessa direção.

Grande aiatolá Ali al-Sistani
Outro duro golpe contra Washington, Riad e Ancara: Al-Sistani, grande aiatolá do Iraque – e clérigo imensamente respeitado e reverenciado – tomou a providência excepcional de esclarecer seus pronunciamentos sobre o impasse político em Bagdá. O grande aiatolá distribuiu declaração oficial em que diz que jamais manifestou qualquer oposição a que Maliki se mantivesse como primeiro-ministro (em direção diametralmente oposta ao que a imprensa-empresa saudita e dos EUA publicaram que seria a posição de Al-Sistani).

Fato é que Maliki está bem vivo e ativo e parecia realmente empenhado, quando disse que talvez se interesse por concorrer ao terceiro mandato como primeiro-ministro.

Não há dúvidas: Maliki está na liça.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu  e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muitas outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.




Postado por Roberto Pires Silveira, via Vila Vudu e Redecastorphoto
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