sábado, 17 de janeiro de 2015

Aprendizes de Hitler.

por Roberto Pires Silveira

“Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um amigo teu, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

John Donne



Sou brasileiro, nestas terras tupiniquins nasci há sessenta e dois anos. Mas antes de ser brasileiro, sou terráqueo, faço parte deste número restrito de seres que se debatem no planeta, incapazes de conviver em paz. Daqui da América do Sul, observo e acompanho o drama vivido por franceses em virtude de recentes acontecimentos, o episódio dos tiroteios que vitimaram quase duas dezenas de franceses.  

Como vocês podem perceber, não me referi apenas ao Charlie Hebdo. Neste momento, entendo que não mais importa o início de tudo o que está acontecendo, por mais trágico e deplorável que tenha sido o tiroteio no semanário francês. Hoje, o que realmente importa são os desdobramentos que inevitavelmente acontecerão.

"Não estamos assustados"
A imprensa empresa ocidental, que o professor Paul Craig Roberts chama de “presstitute” aproveitou-se do episódio com a maestria que lhe é peculiar, para demonizar o islã e promover o que já está sendo chamado de “novo choque de civilizações”. O analista internacional The Saker disse recentemente que, visto que as tentativas ocidentais de promover uma grande guerra contra a Rússia utilizando-se da Ucrânia parece destinadas ao fracasso, o ocidente precisava desesperadamente de uma nova motivação para o incremento da eterna guerra de que necessita a sua indústria principal: a de armamentos. Sem guerras, sem conflitos, não se vendem armas. Se não há conflitos, criaremos alguns.

Mas o conflito que se desenha no horizonte parece particularmente terrível: trata-se de guerras intestinas, já que os muçulmanos hoje estão disseminados pela Europa, mais em alguns países que em outros, mas de forma geral por todo o continente europeu. Neste ponto, torna-se inevitável perceber que a história se repete. Há um axioma que diz que a história acontece primeiro como tragédia e se repete posteriormente como farsa. Pois desta vez a história parece querer repetir a tragédia como outra tragédia.  Mais uma vez, a luta que se desenvolverá dentro da Europa, tem potencial para tornar-se mundial.

Depois de Charlie Hebdo, os acontecimentos se precipitaram, seguindo um roteiro já anteriormente escrito e colocado em prática na Europa do século passado. Primeiro, estimula-se a comoção do país (neste caso, do continente); em seguida, clama-se pela união em torno de “nossos valores primordiais”; na sequência, elege-se um inimigo particular; depois, persegue-se implacavelmente esse inimigo; então é a guerra total. Parece familiar? Pois é exatamente este o roteiro seguido no século passado pelo nazismo. Substitua Hitler pelos líderes europeus reunidos na França, os judeus pelos muçulmanos e teremos o cenário perfeito para muito sofrimento, por muito tempo.

Auswitch
Quais os próximos passos da população europeia? Ataques individuais a muçulmanos já aconteceram. Apedrejamento de mesquitas também. Depredação de lojas de muçulmanos, igualmente já aconteceu. Quais os próximos passos? Confinar os muçulmanos em guetos? Isso já acontece na prática em alguns bairros, notadamente na capital francesa. Obrigar os muçulmanos a usarem uma braçadeira com a crescente em amarelo? Despachá-los coercitivamente para fora do continente? Reativar Auschwitz?

O fascismo está sempre à espreita, que não nos deixe mentir Le Pen, na mesma França. O mundo, que já produziu Hitler, Pinochet, Franco, Costa e Silva, Batista, as juntas argentinas e incontáveis tiranos sanguinários na África parece estar com saudades do sangue inocente derramado...

Cometerá a Europa o erro que já cometeu no passado?

Esperemos que não.



Roberto Pires Silveiramora em Franca, Brasil, e pode ser contatado pelo email btpsilveira@gmail.com