quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Marine Le Pen legitimada



por Joseph Kishore e Alex Lantier.

A campanha internacional para legitimar os políticos fascistóides da Frente Nacional (FN) francesa alcançou um novo estágio nesta segunda-feira com a publicação no jornal The New York Times de um artigo sobre o tiroteio na sede do jornal satírico Charlie Hebdo pela líder do partido, Marine Le Pen.

Ao franquear suas portas para Le Pen, o jornal, degradado pilar do liberalismo americano, sinaliza que significativas partes da classe dominante americana consideram que as ideias da líder fascista são parte fundamental do debate público sobre assunto. O jornal The Times ainda tomou a medida de incluir uma tradução simultânea em francês, assegurando-se de que a coluna receba a maior divulgação possível também na França.

Marine Le Pen
Le Pen está sendo promovida como parte de um esforço comum encetado pela elite da classe dominante no desenvolvimento de uma corrida anti-islâmica para confrontar ao mesmo tempo a oposição anti-imperialista no Oriente Médio e os distúrbios sociais em casa. As charges anti-islâmicas do Charlie Hebdo foram proclamadas pomposamente como símbolos da democracia e neste instante, Le Pen representa nada menos que uma salvadora da pátria.

Os argumentos chauvinistas de Le Pen no The Times (sob a manchete “dando à ameaça um nome próprio” – To call this threat by is name) foram claramente inspirados no arsenal ideológico dos Estados Unidos em sua “Guerra ao Terror”. A França, “terra dos direitos humanos e da liberdade, foi atacada em seu próprio solo por uma ideologia totalitária: o fundamentalismo islâmico” escreveu ela.

Em seguida, ela clama pelo desmantelamento efetivo das liberdades e dos direitos humanos na França a fim de mover uma guerra contra os mais de cinco milhões de muçulmanos que fazem parte do povo francês, propondo nada menos que “uma política restritiva à imigração”, novas medidas para retirar deste povo a cidadania e uma luta contra o “comunitarismo e estilos de vida que estariam em desacordo” com as tradições francesas.

Enquanto providencia uma plataforma política para Marine Le Pen, o The Times não se preocupa minimamente em informar a seus leitores o “pedigree” político da francesa. A Frente Nacional foi formada em 1972 por antigos apoiadores do regime colaboracionista de Vichy, que apoiou efetivamente os nazistas na Segunda Guerra Mundial e por defensores do brutal domínio francês na Algéria. A Frente Nacional é conhecida pelo seu racismo antimuçulmano e antissemita, seu nacionalismo virulento e seus ataques a oponentes políticos através de capangas violentos. Como justificativa para a sua decisão de publicar a coluna de Le Pen, os editores do The Times argumentam que, gostando-se dela ou não, Le Pen não pode ser ignorada. Os defensores do jornal provavelmente argumentarão, que, dada a Le Pen uma plataforma, ela na realidade estará se expondo.

Isso é um rematado absurdo.

A verdade é que Le Pen está sendo deliberadamente legitimada pelo The Times do mesmo modo que fez o presidente Francês, François Hollande, que, ao convidar Le Pen para o palácio Eliseu logo após o tiroteio fatídico no jornal satírico Charlie Hebdo, fez crescer sua estatura política, assim como a de seu partido, a Frente Nacional.

A promoção de Le Pen faz parte de um amplo crescimento de organizações de caráter fascista e de extrema direita internacionalmente. No último ano, os Estados Unidos e a Alemanha trabalharam em conjunto com o Right Sector (Setor de Direita) e Svoboda – organizações que celebram como heróis os colaboradores com o nazismo na Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial para derrubar o governo pro Rússia de Viktor Yanukovych, movimentações apresentadas politicamente como se fossem esforços em direção à democracia.

Jorg Baberowski
Na Alemanha, a classe dominante está em movimentação para livrar o país de todas e quaisquer restrições impostas ao militarismo germânico logo após o final da Segunda Guerra Mundial, e trabalha ainda para minimizar e justificar os crimes cometidos no passado. Jorg Baberowski, um dos principais historiadores da Universidade Humboldt de Berlin recentemente argumentou que “Hitler não era cruel” e que lhe seria favorável uma comparação entre suas ações e as de Stalin ou das lideranças soviéticas.

A Chanceler Angela Merkel referiu-se em um discurso recente, à necessidade de que os cristãos “fortaleçam sua identidade” e  “falem sempre com mais confiança sobre seus valores cristãos” – um indisfarçado encorajamento dos sentimentos antimuçulmanos, calculado para reforçar ainda mais e legitimar a agitação racista do movimento PEGIDA, de extrema direita, na Alemanha.

Parece que as vozes dos nazistas devem ser ouvidas, na medida em que crescem os setores da aristocracia corporativa financeira. Ao mesmo tempo em que veio à luz a coluna de Le Pen no New York Times, Le Pen destacou-se em uma fulgurante entrevista ao Wall Street Journal. Coerente com os cálculos da classe dominante o jornal esclareceu que “se há algum tempo a senhora Le Pen não passava de uma espécie de aberração política, hoje ganhou proeminência na medida em que os problemas da França – uma economia moribunda e uma população muçulmana não assimilável – tornaram-se mais e mais agudos e aparentemente sem solução possível através da classe política tradicional”.

Neste ponto o jornal se refere ao fato de que, devido à demorada crise econômica, o establishment político está profundamente desacreditado na França, tanto interna como internacionalmente. No esforço para criar apoio ao seu domínio, a elite financeira está buscando apoio na pequena burguesia, onde busca mobilizar algumas fatias dessa classe baseada em um nacionalismo extremo. Ao mesmo tempo, as forças de extrema direita estão explorando as condições de colapso da “esquerda” apresentando-se como a principal força de oposição.

A lógica dos desenvolvimentos segue caminho previamente traçado. As políticas contemporâneas parecem assumir cada vez mais as características dos anos 1930s, quando as elites dominantes na Europa se voltaram para os partidos fascistas na tentativa de defender seu domínio. Hoje, a promoção e legitimação de pessoas como Marine Le Pen fazem parte de um esforço mais amplo que busca usar o racismo antimuçulmano como apoio para operações imperialistas no exterior e desculpa para o ataque aos direitos democráticos em casa. As classes dominantes na França, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e outros poderes imperialistas estão conspirando e iniciando novas guerras no Oriente Médio e no Norte da África.

O salvador as elites europeias?
Internamente, a classe dominante a cada dia mais se preocupa com o crescimento de oposição social na classe trabalhadora. Nesta semana, na reunião de bilionários no fórum econômico mundial de Davos, um relatório mostrou que em 2016 os 1 por cento mais ricos da população mundial deterão mais riqueza que todos os demais noventa e nove por cento restantes. Os oitenta indivíduos mais ricos terão mais riqueza que a metade mais pobre da população do planeta Terra (cerca de 3,5 bilhões de pessoas – 3.500.000.000 de pessoas) Estas condições são insustentáveis. A oposição das massas é inevitável.

Juntamente com uma campanha asquerosa contra a população imigrante, a classe dominante está apoiando e legitimando movimentos fascistas e chauvinistas para direcioná-los contra as classes trabalhadoras como um todo. A lição básica das experiências dos anos 1930s, é que a luta contra o fascismo deve ser e será travada como uma guerra contra o sistema capitalista e suas representações políticas.


Por Joseph Kishore e Alex Lantier.

Tradução: mberublue