segunda-feira, 2 de junho de 2014

O que significa(ria)
o excepcionalismo sem o excepcional?

 

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu.

O governo de Obama quer conseguir seu “pivô para a Ásia” – é o plano dele para reagir ao crescimento da China –, sem usar força militar. Não vai funcionar. Países locais, que os EUA querem usar como ‘procuradores’, temem que, sem ameaça crível de que os EUA darão cobertura militar aos respectivos rabos deles, com as bombas atômicas norte-americanas, não haverá limite ao que a China pode fazer e fará para proteger o próprio quarteirão. Estão cobertos de razão.

Por isso os EUA viram-se metidos em confusão braba na recente conferência de segurança em Cingapura:

“Mas, uma vez que o secretário de Defesa Chuck Hagel visitou aquela cidade-estado para uma conferência de segurança com todas as partes interessada na 6ª-feira, a tão falada política para a Ásia pareceu estar virando, isso sim, briga de rua, com os EUA tendo, ao mesmo tempo, de ter lado e 
 de fazer-se de juiz”.[1]

Mas por que, afinal, o que acontece no Pacífico, para lá do Havaí, seria assunto dos EUA? O que leva os EUA a intervir é nada além do tal “excepcionalismo” – a fissura por dominação global e o desejo por governar o mundo.

O recente discurso de Obama na Academia de West Point[2] foi saudado por Pat Lang como um chega-p’rá-lá contra neoconservadores e neoliberais, e um passo de volta à racionalidade na política exterior:

“A decisão sábia embora tardia do presidente, de não atacar forças armadas sírias; sua firme procura por solução negociada com o Irã, contra a pressão dos sionistas; sua relutância em meter o país nas profundas da crise ucraniana; e sua insistência em perseverar na retirada do Afeganistão, tudo isso aponta para uma volta ao tipo de política externa racionalista que os EUA seguiram depois da 2ª Guerra Mundial, até que a histeria da vida pós-11/9 varreu para longe qualquer consideração mais atenta de riscos e benefícios que comandava a política dos EUA.
 

O discurso político do presidente Obama em West Point anuncia o fim, em Washington, da política dominada pelo jacobinismo imperialista.”[3]

É passo nessa direção, mas não vai suficientemente longe. Esperto, em termos retóricos, é possível até que o discurso tenha dado um passo para afastar-se do uso financeiramente ruinoso de forças militares em larga escala, mas, apesar de restringir o uso de força militar, lá estava, no discurso, a velha conversa estúpida sobre o “excepcionalismo” e o desejo de “comandar”:

“Acredito no excepcionalismo dos EUA com cada fibra do meu ser. Mas o que nos torna excepcionais não é nossa capacidade para burlar as normas internacionais e o estado de direito; é nossa disposição para afirmá-los mediante nossas ações. [Aplausos]

(E por quê, diabos, alguém aplaudiria tais e tamanhamente óbvias mentiras?) Há uns cinco anos, Obama tinha visão bem diferente desses ‘temas’:

“Acredito no excepcionalismo dos EUA, como desconfio que os britânicos creiam no excepcionalismo britânico, e os gregos creiam no excepcionalismo grego.”[4]

Proclamar algum próprio extraordinário excepcionalismo, como Obama vive a fazer, sem o ânimo para usar meios excepcionais para resolver os problemas, não vai funcionar, por três razões. É pouco provável que corte o impulso para novas guerras; o mais provável é que gere mais danos, sem gerar qualquer efeito positivo; e levará os aliados a darem as costas ao autoproclamado excepcional.  Muito melhor seria não falar nem pensar, e esquecer totalmente as duas coisas: tanto o excepcionalismo quanto o uso de força militar. 

Não é bom sinal que Obama esteja outra vez a falar do excepcionalismo dos EUA como algo especialíssimo. Como observa Billmon:

“Se alguém crê que os EUA sejam “excepcionais”, seria natural crer que teriam o direito e o dever de comandar.
 

-
Se alguém assume que os EUA teriam o direito e o dever de comandar o mundo, pode-se logicamente concluir que se opor à liderança dos EUA seria moralmente errado...
 

-
... e que os “valores” norte-americanos (definidos não importa como nem onde) seriam valores universais que o mundo pode(ria) e deve(ria) abraçar.
 

-
Daí em diante, nem é preciso grande salto para assumir que os valores norte-americanos podem e devem ser exportados – e, se necessário, impostos à bala.”[5]


E isso, diz Billmon, criará resistência natural e, portanto, novos inimigos e novas guerras. Se os EUA afastam-se do uso da força, é preciso que também se afastem dessa declaração irracional de um próprio “excepcionalismo”. O discurso de Obama é pura contradição, porque não faz nada disso.

Como Chinahand destaca, há outro problema com esse excepcionalismo contraditório de Obama. Até quando rejeita o uso direto de força militar, nem por isso passa a oferecer discurso de pacificação e continua a provocar danos tremendos, sem garantir qualquer resultado razoável:

Infelizmente, o lado B [orig.
 the flip side] da doutrina Obama [usar força militar só como último recurso] é que os EUA permanecem comprometidos com uma postura de promover o contraterrorismo e com uma ‘liderança’ norte-americana, i.e. declaram a capacidade para modelar eventos do outro lado do mundo, mesmo sem usar poder militar. 

Mesmo quando evitam usar o poder militar, há muitos meios pelos quais os EUA podem paralisar um adversário que lhes interesse paralisar. Há sanções econômicas; há guerra financeira, econômica e comercial que se faz pelo sistema da banqueiragem internacional; há a subversão, mediante a Internet, apoio a partidos dissidentes e grupos insurrecionais; e há guerras por procuração. Há o Comando Conjunto das Operações Especiais [orig.
 Joint Special Operations Command, JSOC]. E, claro, há os drones. 

...

Em outras palavras,
 os EUA reservam-se o direito de cruelmente e contraproducentemente F*DER qualquer país, servindo-se para isso de qualquer meio exceto o envolvimento físico direto das forças armadas norte-americanas. 


E isso significa muitas, muitas Sírias a mais. 


...

Pergunta: De um ponto de vista ético, será política melhor, mais humana, destripar lentamente um país, usando procuradores que simplesmente mandam seus soldados para brutalizar os locais com rapidez e eficiência e o façam com boa chance de contar com supervisão internacional?


Se se considera a Síria, acho que a resposta é não. Nada disso é ou jamais será eticamente recomendável.


Em termos práticos, temo que a Doutrina Obama não decolará como questão de geopolítica realista.


Ao retirar da mesa a possibilidade de ação militar dos EUA no caso de objetivos de baixa prioridade, afasta-se também todo o caráter de contenção da máquina militar dos EUA.”[6]


É verdade, afasta-se sim. E é bom, mesmo, que se afaste. Não há qualquer necessidade de os EUA conterem a China nos negócios chineses locais, a menos que algum doido ‘invoque’ o tal ridículo papel ‘excepcional’ dos EUA. Os EUA não só devem não usar em larga em escala o poder militar: devem também parar de declarar que teriam algum papel especial no mundo.

Há um terceiro problema com essa conversa de ser ‘excepcional’, se o autoproclamado excepcional deixa de usar força militar excepcional. Outros países em coalizão, ainda que inclinados a trabalhar em harmonia com os EUA, não gostam de ser mandados para lá e para cá, como se fossem criancinhas. Se os EUA não querem usar sua força militar excepcional, que interesse esperam que algum dos aliados dos EUA venha a ter por deixar-se liderar pelos EUA?!

É bem pouco provável que o desejo de mandar em tudo e todos, sem o desejo de usar os meios para mandar, venha a gerar mais desejo de obedecer e trabalhar como subordinados, entre os aliados de qualquer coalizão com os EUA.

Se os EUA não querem expor-se aos riscos físicos de mandar e fazer-se obedecer, como reagirão os japoneses, os sul-coreanos e os vietnameses, agora que já são apareceram chamados de “crianças”, DUAS VEZES,[7] em matéria de primeira página do New York Times?

“Funcionários do governo Obama alertaram privadamente seus contrapartes japoneses a pensar muito cuidadosamente antes de agir, e a evitar qualquer ação que encurrale a China.
 


“Como
 crianças correndo no pátio da escola, estão correndo com tesouras na mão” – disse Vikram J. Singh, que até fevereiro foi vice-secretário assistente da Defesa para o Sul e Sudeste Asiático e, hoje, é vice-presidente para segurança nacional do Center for American Progress. 


...

Hagel e o maior contingente militar à mão [...] passaram horas falando de delegação em delegação, para assegurar que em nenhuma circunstância aqueles contingentes seriam enviados a agir.


“Bons professores sabem que o melhor é conseguir que
 as crianças comportem-se bem desde o começo, em vez de ter de viver a apartar brigas” – disse Andrew L. Oros, professor associado de ciência política do Washington College em Chestertown, Md., e especialista em Leste da Ásia.


As “crianças” já entenderam que os EUA não têm interesse algum em provocar a China. Todas aceitaram ser lideradas pelos EUA, desde que a ‘liderança’ viesse acompanhada de suprema força. Sem a suprema força, esses países não mais aceitarão fazer o papel de “as crianças” nos jogos de poder dos EUA. Pequenos e desunidos demais para, sozinhos, conterem a China, todos terão naturalmente de acomodar-se ao crescimento da China e ao nascimento do século eurasiano.[8]

Seria bom para o mundo se os EUA finalmente encontrassem meio para voltar a alguma política externa realista, que se abstivesse de ameaças militaristas e de usar a força. Mas enquanto o excepcionalismo é cultuado como doutrina, as contradições inerentes entre a declaração de excepcionalismo e a nenhuma disposição para usar a força (financeiramente ruinosa), a alardeada ‘excepcionalidade’ continuará a rasgar ao meio a política de que Obama fala. Para dar passo efetivo de volta ao realismo, é preciso esquecer as duas coisas: a força militar e a fantasia de excepcionalidade. *****


[8] 18/5/2014, Pepe Escobar: “Nasce o século eurasiano − Rússia e China fazem o Oleogasodutostão”, Tom Dispatch, trad. em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/05/pepe-escobar-nasce-o-seculo-eurasiano.html


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domingo, 1 de junho de 2014

O Regime de Kiev não é “oficialmente” um governo Neonazista.



por Prof. Michel Chossudovsky
GlobalResearch, 01 de junho de 2014.


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ELES sabem o que são?

NÓS sabemos o que eles são?

Há “ultraconservadores” no governo de Kiev, mas “eles não são neonazistas”. De acordo com o jornal New York Times, isso não passa de propaganda russa.

No entanto, a mídia alternativa reconhece que existe uma “coalizão livre de centro-direita” integrada por dois partidos neonazistas (Svoboda e Pravy Sektor), “mas não é um governo neonazista”. Acontece que tanto o Svoboda quanto o Pravy Sektor exibem emblemas NAZISTAS.

Trata-se de uma mera coalizão livre? Se um governo exibe emblemas nazistas, não existe aí uma sugestão de que esse governo se comprometeu com a ideologia nazista?

A partir do momento em que o regime de Kiev exibe “oficialmente” emblemas nazistas como forma de identificação de entidades de seu aparato de segurança nacional e militar que operam normalmente, assume que é um governo neonazista.

Vemos a seguir o emblema NAZISTA da Guarda Nacional (Національна гвардія України) que se define como Reserva das Forças Armadas da Ucrânia. Opera sob a jurisdição do Ministério de Administração Interna. A Guarda Nacional faz parte das “tropas internas da Ucrânia”. Seu símbolo é uma suástica estilizada (veja abaixo).

O mais importante de tudo é que a Guarda Nacional está sendo diretamente financiada pela administração Obama. Para dizer de outra forma, o governo dos Estados Unidos entá apoiando e financiando uma entidade claramente NEONAZISTA.


As imagens abaixo dizem tudo.



O Batalhão de Azov (Батальйон Азов) que exibe o emblema da SS nazista é descrito pelo regime de Kiev como sendo “um batalhão de voluntários para a defesa territorial”. Está sob a jurisdição do Ministério da Administração Interna e compõe a Guarda Nacional. Oficialmente baseado em Berdyank, no Mar de Azov, teve como escopo quando de sua formação pelo regime, o combate contra a insurgência no leste e sul ucranianos. Financiando igualmente pelo governo dos Estados Unidos.


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Ucrânia: O salário da morte.



– Novo "presidente" paga a combatentes 16 vezes mais que o salário médio ucraniano


por Anna News
postado por Mberublue. 

Poroshenko
"A fim de melhorar a motivação" (sim, estas são as palavras exatas) e de acordo com a promessa eleitoral do oligarca Poroshenko, Mikhail Koval, ministro da Defesa da junta, anunciou que o regime de Kiev está a aumentar o pagamento aos seus combatentes que vêem a população anti-fascista e pró russa como "terroristas" para 20 mil hrivnyi por mês, o que corresponde a cerca de US$1.700. Na Ucrânia esta remuneração é como uma chuva de ouro (embora sangrento). Os salários médios ali são cerca de US$100 por mês e aos soldados conscritos é pago a metade disto. 


Este "impulsionamento" à motivação para matar e morrer por oligarcas, por bandidos bandeiristas e pela NATO está de acordo com o carácter e a mentalidade de oligarcas.

Suponho que os custos deste aumento (incrível numa Ucrânia devastada pelos mesmos oligarcas) seja pago pelos mesmos empréstimos do FMI e outros créditos ocidentais. Em outras palavras, o FMI e banqueiros ocidentais estão financiando abertamente uma guerra contra a Rússia e contra milhões de pessoas na Ucrânia. Não é preciso dizer que os milhares de milhões de gás russo não pago têm sido utilizados não só para aumentar a riqueza dos oligarcas anti-russos e pró fascistas na Ucrânia (como no passado), mas agora também, como declarado reiteradamente pelos representantes da junta, para "exterminar todos os terroristas" – quer armados, quer desarmados, guarnecendo uma barricada ou sentados numa escola ou numa ambulância. 


A diferença entre a junta atual, com o seu novo "presidente" Poroshenko como sua figura de proa formal, e os anteriores governos oligárquicos ucranianos é a decisão estratégica da NATO e dos oligarcas de dar o comando e o controle sobre todas as forças de segurança a militantes fascistas liderados pelo Pravy Sektor (anteriormente e ainda apoiado por apenas 1% da população), enquanto lança uma guerra sobre qualquer um que não compre esta nova ditadura fascista e sua campanha de assassínio.



O original pode ser visto em anna-news.info/node/16587
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Relatório da situação – SITREP – Ucrânia, 31 de maio 21h13 UCT/zulu – Por que a junta não pode tomar Slaviansk?


 
The Saker

SITREP de combate, por “Juan”


(Juan)
Confirmou-se que sistemas Igla-S (sistema de mísseis portáteis para defesa aérea. Sofisticado e muito eficiente. Detecta fontes de calor e até o formato do alvo a ser atingido. Serve para atuação contra aeronaves ou mesmo mísseis de cruzeiro desde que voem a velocidade subsônica [NT]) de mísseis antiaéreos foram encontrados “abandonados” perto de uma estrada rural pelo exército do Donbass. A quantidade é desconhecida.


Igla-S
Existe um vídeo de um avião de ataque ao solo ucraniano, tipo Sukhoi, sendo abatido em 30 de maio. Sem confirmação do incidente pela testemunha que teria visto o acontecido. É perfeitamente visível no vídeo quando o piloto ejeta.
Em 30 de maio alguns edifícios governamentais foram tomados pelas pessoas em Ternopol. Um edifício administrativo foi queimado.


ZU-23
Vários sistemas antiaéreos ZU-23 (canhão automático antiaéreo de 23 mm [NT]) – que podem ser usados com devastadores efeitos como metralhadoras pesadas de tiro rápido na luta em solo – foram “achados” pelo exército do Donbass. Quantidade e origem das novas armas são totalmente desconhecidas. Agora, estão a serviço do exército do Donbass.

Embora sem confirmação, estima-se em 50 civis o número de mortes causadas pelos bombardeios de Slaviansk e Donetsk. Uma menina de cinco anos perdeu o pé em virtude de ferimentos causados pelos bombardeios.

Ontem e hoje crianças estavam sendo evacuadas de Slaviansk para a Federação Russa e mandadas para Sebastopol. A evacuação foi suspensa por causa da situação em Slaviansk desde o início da tarde, horário local.

Os combates que continuavam a acontecer em partes de Slaviansk e áreas da periferia durante todo o dia, foram intensificados a partir das 17h55 (horário local) do dia 31 de maio.

Lutas esporádicas ainda ocorrem na área do aeroporto de Donetsk desde a tarde do dia 29 de maio. Continuam hoje (31 de maio).

Até 28 de maio há relatos de que houve 627 baixas no exército da junta. As baixas desta data até agora seriam de 250, conforme a mesma fonte. Ambos são números KIA (mortos em ação). O número de WIA (feridos em ação) não é conhecido com precisão, mas estima-se que sejam mais que 700 feridos em ação até 28 de maio. Depois disso, não há estimativas para feridos em ação.

Foi confirmado um número de no mínimo 1428 deserções no exército ucraniano até 28 de maio. Depois dessa data não há conhecimento do número de deserções até hoje (31 de maio). Não há conhecimento se nesses números estão inclusas as baixas ocorridas na Guarda Nacional/Pravy Sektor (Setor de Direita – partido ucraniano com tendências neonazistas [NT]).

Às 18h21 (horário local) conforme relatos ainda sem confirmação, no aeroporto de Donetsk de que uma unidade da Junta, ou pelo menos algumas de suas armas, tornaram-se lutadores da Guarda Nacional/Pravy Sektor no terminal do aeroporto, por razões desconhecidas.


(The Saker)
As minhas próprias fontes relatam que aconteceram em Slaviansk os ataques de artilharia mais pesados, sempre com bombas caindo aleatoriamente em qualquer lugar da cidade. Porém a grande e dura barragem de artilharia que “Juan” e, a propósito, também um dos líderes da resistência, Viacheslav Ponomarev temiam para a noite passada, acabou por não acontecer. Em outras palavras, os meios para destruir Slaviansk estão a postos, mas a decisão política ainda é esperada para o início da ação. Como Crossvader e outros já sugeriram, tal decisão implicaria em riscos enormes para o regime em Kiev.  Meu palpite pessoal é que os comandantes que estão liderando os Esquadrões da Morte de Kiev ao redor de Slaviansk gostariam demais de abrir fogo com tudo o que têm, contra aqueles que chamam de “terroristas” “insetos” e “moskals” mas esse pessoal não vê, como Poroshenko em Kiev o faz, se não o panorama geral, pelo menos uma visão mais abrangente. Em primeiro lugar: os russos podem simplesmente abandonar de vez quaisquer negociações sobre as entregas de gás. O certo é que a luta pelo controle da “teta” ucraniana está hoje entre, de um lado o duo Poroshenko/Klichko, com a dupla se esforçando para manter Kiev sobre controle, e do outro lado o circo de aberrações Iarosh/Timoshenko/Tiagnibok/Liashko tentando colocar ainda mais pressão com suas exigências alucinantes. Na Novorossia o acordo parece ser o seguinte: “vamos fazer o suficiente para causar algum pânico, mas não o suficiente para disparar um banho de sangue real.” Definitivamente, esta não é uma tática eficiente.

Mesmo com um choque inicial muito grande e pagando alto preço, as populações civis aprendem a sobreviver e se adaptam depois de algum tempo após o início de operações de combate, conforme já demonstrado em várias partes do mundo. Já há relatos de que crianças são capazes de reconhecer com que armas estão sendo atacadas, apenas ouvindo o seu som. As escolas estão fechadas e as famílias estão passando seu tempo nos abrigos ou em locais próximos. Em relação aos homens que combatem pelas Forças de Defesa da Novorossia (FDN), não serão nem eliminados, nem obrigados a recuar apenas por ataques de artilharia. Mais uma vez, recentes pesquisas sobre combates urbanos dão conta que artilharia e ataques aéreos não são o bastante para prevalecer sobre forças militares treinadas e abrigadas no interior de cidades.


combate urbano
Exatamente como aconteceu na Segunda Guerra Mundial, a única forma conhecida para derrotar uma força militar treinada, incrustada e abrigada dentro de grandes cidades, é o combate de infantaria prédio a prédio. Assim que as forças de ataque estiverem dentro das cidades, torna-se muito complicado o uso de fogo de apoio pela artilharia (por causa do risco de atingir suas as próprias forças). Apoio aéreo, principalmente com bombas poderosas ou mísseis é especialmente perigoso. Talvez a ordem mais perigosa a ser dada para uma tropa de infantaria seja precisamente a tarefa de limpar uma cidade de seus defensores, rua após rua, casa após casa, mesmo se apoiados por blindados, mas esta é a única maneira de fazê-lo. Com tropas de assalto bem armadas (infantaria). O lado mais bem treinado e mais experiente detém uma vantagem enorme, principalmente se a força atacante é o típico “desordeiro de rua que virou membro da Guarda Nacional em duas semanas”.

Neste mesmo instante a Junta está a usar uma velha técnica bolchevique: enviam para o combate batalhões de conscritos e na retaguarda deles “esquadrões de bloqueio”, que não passam de esquadrões da morte especialmente recrutados entre os membros do Pravy Sektor, com a missão de executar sumariamente aqueles que se recusarem a lutar. Tal método pode ser usado em terreno aberto, mas se torna mais difícil de empregar no ambiente urbano. Assim, dentre as forças do exército ucraniano que tem competência para isso (paraquedistas) são raros os que, dentre seus membros, estejam dispostos a fazê-lo. Os que estão dispostos para executar essa missão, ou seriam mortos dentro de alguns minutos (“desordeiros de rua que viraram membros da Guarda Nacional em duas semanas”) ou são muito covardes para tentar (esquadrões da morte).

Dessa forma, o que temos visto até este momento, é que a Junta tipicamente não tem capacidade para dirigir uma operação militar desse porte. O que eles têm conseguido fazer até agora é:

01 – Em primeiro lugar, a tática do terror: bombardeio aleatório em Slaviansk e outras cidades.
02 – Em segundo lugar, outra tática terrorista: atirar em civis, de forma aleatória.
03 – Ataque a postos de controle fora das cidades.
04 – Atacar alvos simbólicos que se localizam fora das cidades como por exemplo, o aeroporto de Donetsk.

Como tenho dito, o tempo é inimigo da Junta. Os civis estão sendo paulatinamente evacuados da zona de combate e mesmo que as autoridades ucranianas estejam usando sórdidas técnicas de perseguição e intimidação contra eles (como obrigá-los a abandonar os ônibus e seguir caminho a pé), não podem simplesmente matar a todos (muitos celulares com câmeras, muitos repórteres). Quanto às Forças de Defesa da Novorossia (FDN) estão ficando claramente mais fortes a cada dia que passa, adquirindo mais armas, como MANPADS (sistema de defesa aérea portátil que pode ser usado a partir do ombro do atirador) e AA (armas antiaéreas) de fogo rápido, já mencionadas anteriormente por “Juan”, que a FDN parece “encontrar” a todo instante aqui e ali. Por falar nisso, MANPADS e AA são armas *perfeitas* para serem usadas em combate urbano. Os MANPADS podem não apenas prevenir ataques aéreos mas também impedir a mobilidade através do ar (transporte aéreo de equipamentos e pessoal), como foi provado recentemente com a morte do bandido-general da Junta encarregado da liderança da “Guarda Nacional” no Donbass. As armas AA de fogo rápido podem não só servir como defesa antiaérea como também podem transformar em confete um veículo blindado leve em segundos. Até mesmo um tanque pesado de batalha será seriamente avariado se um ZU-23 utilizar de forma correta munição perfuradora de blindagem atingindo-o várias vezes. Entendo que até este momento, a FDN só tem em seu poder a versão rebocada, porém mais cedo ou mais tarde chegarão os ZU-23 com auto propulsão (o ZU-23-4, chamado carinhosamente de “Shilka”), normalmente usado como arma de defesa antiaérea para qualquer divisão de infantaria motorizada ou regimento blindado. Quanto aos velhos ZU-23-2, podem ser montados em qualquer caminhão ou pick-up (embora tais veículos não sejam adequados para suportar durante muito tempo o choque dos disparos). Penso que essas armas simples mas espetaculares são como “armas da Segunda Guerra Mundial com esteróides”.

O que escrevi acima sobre Slaviansk se aplica de forma ainda mais contundente em grandes cidades como Donetsk, que a tudo isso adicionam mais dois obstáculos consideráveis que as forças atacantes teriam que superar: enormes e fortes edifícios construídos com concreto reforçado com porões profundos e uma rede complementar subterrânea de comunicações. No primeiro caso, a dificuldade aumenta para o uso de artilharia ou de ataques aéreos para auxiliar os ataques de uma eventual força de infantaria e no segundo caso, torna-se quase impossível interromper as comunicações dos defensores da cidade. Grandes cidades também têm mais armazéns de comida, mais depósitos de suprimentos e munição e os defensores podem se preparar melhor para a defesa (eixos de ataque são mais fáceis de serem previstos em cidades) e as forças defensivas tem *mais* mobilidade dentro da cidade que fora delas. Finalmente, cidades têm muito mais civis com câmeras e telefones celulares e também muito mais jornalistas e repórteres. O custo político do ataque a uma grande cidade é, assim, muito maior que os de um “massacre privado” de alguma aldeia que, mesmo assim, normalmente são descobertos após alguns dias. Os piores massacres ocorridos em Ruanda não tiveram lugar em Kigali (que viu uma infinidade de horrores) mas em pequenas vilas escondidas nas montanhas e florestas.

Concluindo: este combate não pode ser vencido pelos líderes da Junta. A esperança deles era que a Rússia entraria na batalha, mas se a Rússia resiste às provocações, o que acredito que é exatamente o que a Rússia fará, eles mais cedo ou mais tarde terão que desistir, como eu disse ontem.


(assina) The Saker

Tradução: mberublue


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