domingo, 21 de junho de 2015

Quando nos Estados Unidos… “Não consigo escrever!”


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por Andre Vltchek
tradução mberublue


19 de junho de 2015 - Countercurrents.org


Em Los Angeles, no Museu de Arte Contemporânea (Museum of Contemporary Art – MOCA), uma gigantesca bandeira de cores sangrentas ondulava em um vento artificial criado por enormes hélices.

Não havia espectadores para a mostra. Por um instante, pensei que estava sozinho naquele espaço todo. Mas em seguida percebi dois vultos vestidos com roupas negras, movendo-se bem devagar na penumbra, grudados aparentemente em desespero às paredes. Curvados, eles passaram pela livraria, perto de um lugar onde alguém tinha colocado um pequeno cartaz na parede, onde se lia: “Eu não consigo respirar!”

Provavelmente se tratava de uma performance, uma espécie de protesto desesperado de um homem e uma mulher contra aquela bandeira gigantesca que a tudo devora.
Antes de morrer assassinado pelo regime, um homem exclamou: “não posso respirar!”

 “Eu não posso escrever!”, pensei. Para mim, isso significa quase o mesmo que não poder respirar.

***

Pela primeira vez em muitos anos, eu não consegui entregar minha coluna, ou continuar meus ensaios, por várias semanas.

Mesmo quando estive preso na República Democrática do Congo, no Kênia, Senegal, consegui continuar a escrever.
Mesmo depois que um pastor fascista, um evangélico louco pagou aos funcionários do hotel para me envenenar na cidade indonésia de Surabaya, eu continuei escrevendo.

Escrevi em muitas zonas de Guerra e favelas em que grassava o desespero, do Iraque a Mindanao, do Haiti às Ilhas Marshall.

Mas eu não consegui escrever nos Estados Unidos da América. Nem uma linha, ou uma mera palavra. Não agora.

***

Eu falei. Fui convidado a falar e falei em uma grande conferência no Sul da Califórnia, e proferi palestras em encontros sobre paz e oposição em Monterey, San Jose e Fresno.

Fui convidado a falar sobre o meu livro de 1.000 páginas, já um best-seller, “Expondo as mentiras do Império”, onde defino de uma vez por todas minha posição oposicionista em relação ao Império, mostrando os horrores que são cometidos diuturnamente pelo mundo.

Mostrei filmes e excertos de meus filmes na África: em Ruanda, Congo, campos de refugiados somalis e as terríveis favelas de Nairobi.

Fui convidado a mostrar tudo isso e mais, mas no final, um homem se levantou e perguntou: “Por que você está nos mostrando tudo isso?”

 “Porque o seu país está matando milhões de pessoas, neste exato momento”, respondi.

Então, com voz suave, ele perguntou novamente: “e você quer que a gente faça o que?”.

No momento em que ele se expressou dessa forma, eu acabava de me recuperar de um monstruoso jetlag, depois de uma viagem de 48 horas vindo da África do Sul, aterrissando na Califórnia apenas um dia antes da apresentação. Na África do Sul, eu estava entre meus camaradas, meus amigos. Tudo era diferente: ali havia uma luta tremenda por um mundo melhor, as pessoas pobres e desvalidas se unindo e enfrentando o governo, a grande UNISA (Universidade da África do Sul) estava profundamente envolvida na luta. Lá, falei no 14º Simpósio Internacional de Contribuição para a Psicologia da Paz. Lá, falei e falei, lutei com vontade, estive envolvido em negociações, estava ajudando um pleno momento de criação de conceitos: de como não pode existir paz se não houver justiça, que sem igualdade social a justiça se torna impossível e que não se pode conseguir atingir o progresso em nenhum lugar do planeta sem confrontar e lutar contra o fascismo e o imperialismo ocidental.

Na Califórnia acontecia o contrário. Tudo era totalmente diferente. Na Califórnia, eu estava só, frente a frente com os rostos frios de multidões hipócritas; pior: multidões convencidas de sua própria superioridade, mesmo quando criticavam, de maneira moderada e “benevolente” as ações homicidas de seu país em incontáveis lugares pelo mundo afora.

 “Nada do que nos dizem é verdade”, é a frase que ouvi de várias pessoas, em muitas ocasiões.

Os cidadãos do Império aspiram ser descritas como se fossem eles mesmos as “vítimas”. Será que não acontecia o mesmo na Alemanha Nazista em 1930? Muito provavelmente sim! “a Alemanha derrotada foi castigada com a hiper inflação, teve que pagar reparações, por consequência, era a vítima!” Sentia-se vítima dos Bolcheviques, dos Judeus, dos Franceses, de Roma... Os Estados Unidos, embora não derrotados externamente, foram derrotados internamente. São duas coisas completamente diferentes. Mesmo assim, há similaridades, especialmente na maneira com que o Império trata as “não pessoas”.

Lá do meio do público, alguém perguntou: “Você acredita em culpa ou responsabilidade coletiva?”

 “Claro que acredito!”, disparei de volta. “Não se pode negar a responsabilidade e a culpa escancarada do ocidente, da raça branca, do Cristianismo, do Império! Culpa e responsabilidade coletiva pelas milhões de mortes cometidas contra as vítimas definidas como ‘não pessoas’. Vítimas sufocadas com gás, estraçalhadas por bombardeios, mortas à fome, mutiladas... Culpa e responsabilidade coletiva pelo estupro da livre vontade de bilhões de pessoas na África, América Latina, Oriente Médio, Ásia e Oceania. Culpa e responsabilidade coletiva pelo apartheid global em andamento!”

***

Não pude perceber qualquer senso de urgência no Sul da Califórnia; nem em Fresno, Monterey ou San Jose. A vida continua. A vida deles... Sobre outras vidas eles não queriam nem saber. Eles na realidade fazem mesmo é questão de não saber.

Eventualmente eles protestam, para que possam se sentir bem.

Fui empilhando discursos, apresentações e palestras sobre o que eu tinha presenciado no Oriente Médio: guerras perpétuas, destruição de nações inteiras, milhões de corpos empilhados uns sobre os outros. Dei exemplos, exibi filmes. Eu estava oferecendo análises em profundidade sobre a maneira pela qual o ocidente estava antagonizando a China e a Rússia.

Em dado momento, comecei a falar, apaixonadamente, sobre as revoluções na América Latina, sobre poesia e música, sobre as histórias, a beleza quixotesca das rebeliões. Falei sobre poetas como Neruda, Paz, Cardenal e Parra. Eu tentava inflamar, incendiar a multidão. Então, de repente, senti que algo estava profundamente errado... havia um silêncio sepulcral. Olhei para a multidão em frente a mim: a maior parte da “multidão” consistia de mulheres com idade acima de 80 anos, algumas em cadeiras de rodas, várias delas dormindo.

 “Os jovens daqui são introspectivos…” me disseram. “Não é fácil fazer com que se interessem...”

Dia após dia eu me questionava: o que estou fazendo aqui, dentro do país responsável por milhões de assassinatos em massa mundo afora. Eu mesmo estava ficando insano cada vez mais, a cada dia, como os vários editores de publicações da pseudo-esquerda tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, que pregam ao mundo que as pessoas na Espanha, Grécia e nos Estados Unidos na realidade sofrem muito, quase tanto como os bilhões de “não pessoas” em todo o mundo? Como se a maioria deles não fosse, apesar de tudo, recebedores de tremendos privilégios pagos pelo sangue e pela vida de africanos, asiáticos e árabes. Não, eu ainda sabia quem são as verdadeiras vítimas! Eu ainda sabia o que estava acontecendo na realidade! Eu precisava dar o fora do país, o mais rápido que pudesse!

Tudo era uma tremenda de uma bobagem aqui; “sentir-se bem” era uma coisa ôca! Movimentos pela paz... movimentos quase sem negros, muito poucos hispânicos ou asiáticos! Nenhum deles estava comprando nada disso. Eles sabem muito bem que aquilo não era para eles.

Era muito claro que as pessoas com as quais eu me encontrava não queriam saber de mudança alguma. Eles sequer querem obter “conhecimento”. Para quem quer, o conhecimento está à disposição, na RT, no CounterPunch, em todos os lugares, realmente, em toda a parte! Mas se obtiver conhecimento, ninguém mais poderá alegar que não sabia; saber significa a obrigação de agir!

***

Quase não há revolucionários de esquerda nos Estados Unidos ou na Europa, apenas as massas moralmente mortas, sem emoção, insinceras, egoístas que morrem de medo de perder seus privilégios. Os militantes da direita pelo menos são honestos!

O regime, claro, se aproveita da situação. Ele dá sustentação plena para esse estado de coisas. Acabaram por se tornar interdependentes, os governos e as massas, ambos egoístas e hipócritas; estão no mesmo barco. Não é por outra razão que os partidos fascistas nunca se apeiam do poder: quase todos os habitantes dos Estados Unidos e da Europa desejam que a exploração e o estupro do resto do mundo continue como está!

Pode alguém, qualquer um, acreditar que a massa em protesto na Espanha ou na Grécia está lutando alguma batalha internacionalista, lutas pela humanidade?  Ou eles lutam apenas pela manutenção de seus privilégios sociais e econômicos? Esses mesmo privilégios nos quais eles estavam nadando a braçadas há apenas uma ou duas décadas, e que consistiam de doações ou subsídios, enquanto milhões daqueles que o ocidente considera como “não pessoas” no mundo pobre estão sendo espoliados e sacrificados, para que os norte-americanos e europeus vagabundos nos Estados Unidos e na Europa possa viver com qualidade de vida, só porque nasceram brancos e “no lugar certo”?

A esquerda se perdeu tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Clara e vergonhosamente, se perdeu. Mas mesmo agora, ainda é tão arrogante que tenta arrostar países como a China ou Rússia com o seu ar cristão e ocidental de superioridade; tem o atrevimento de tentar permanecer no direito de decidir se a China ou a África do Sul são de fato socialistas ou comunistas, ou, para usar um mote da propaganda enganosa que grassa no ocidente, “ainda mais capitalistas que o ocidente”.

Durante as duas semanas que fiquei na Califórnia, não detectei qualquer sinal de remorso. Quando mostrei e expliquei como milhões de pessoas foram mortas pelo imperialismo ocidental, as pessoas diziam, compungidas: “nossa, que coisa horrível!” Só o faziam porque foram treinadas para reagir dessa forma. Mas não havia qualquer determinação para mudar essas coisas nem qualquer sentimento real.

Para onde quer que eu fosse, me sentia fora do lugar. Esperava-se que eu “me adequasse”. Foi-me dito que não mostrasse tantas imagens chocantes, porque as pessoas eram “muito sensitivas”! Eventualmente, decidi não mostrar mais nada, nem imagens nem filmes. Estabeleceu-se que eu deveria ser educado. Enquanto isso, tudo o que eu queria era gritar insultos na face daquelas pessoas cheias de direitos, homens e mulheres, que nada mais faziam que seguir uma odiosa tradição cristã: ignorar o mal real, fazer alguma coisinha de bom, tudo para que pudessem ter algum crédito para enfrentar uma suposta eternidade.

Enquanto isso continuei a ouvir os mesmos velhos clichês sobre a paz e a democracia. Alguns esperavam a justiça e o fim das guerras, mas agarrando-se desesperadamente aos símbolos do Império, ao legado de seus colaboradores, como Vaclav Havel, o Papa João Paulo II, o Dalai Lama e Madre Teresa...

Eu não só não podia respirar, mas tinha perdido também a capacidade de escrever. A raiva crescia como um edifício dentro de mim. A raiva era sufocante, me estrangulava. Era uma raiva insalubre, improdutiva, misturada com frustração! Não era como a raiva sagrada que sente aquela pessoa que parte para uma luta contra o mal. A raiva se estabelecia de uma forma também mesquinha, indescritível e patética. Ela me sufocava e humilhava ao extremo.

Terminei odiando a luta que enfrentava ali.

***

Tentei olhar para a realidade que me cercava com olhos diferentes, mas para onde quer que olhasse, via apenas uma cultura e um país em colapso, triste e disfuncional.

Dirigi por estradas esburacadas, cheia de solavancos, embarquei em um sistema ferroviário primitivo. Encontrei as pessoas, as quais não estavam absolutamente interessadas em trabalhar ou em melhorar o país. Fui confrontado com o individualismo, com o egoísmo. Vi pessoas que claramente se odiavam profundamente, mas pretendiam ser cheias de cortesia e preocupação uns com os outros.

Mas bastava que se fizesse um movimento errado. A explosão viria a seguir.

Vi um país onde não mais existiam os valores positivos e sentimentos humanos mais básicos.

***

Estar inserido neste tipo de sociedade é extremamente humilhante. Tentei mandar uma caixa pelo correio. No posto dos Correios de Clermont, fui obrigado a refazer a embalagem por três vezes, porque nas duas vezes anteriores, a caixa não era a correta (só o chefe do posto dos Correios de Clermont sabia qual era a caixa correta, mas ele jamais se daria ao trabalho de me explicar). Na estação ferroviária, uma mulher que estava parada, apenas batucando em seu Smartfone me explicou que os bilhetes para a viagem de trem não são vendidos na estação. Tive que sair para o sol inclemente, tentando comprar de uma máquina automática de vendas de bilhetes. O sol não me deixou ver nada e voltei para dentro da estação e pedi novamente. “Se quiser, você pode ligar para a Companhia e reclamar”, me disseram. “Nesse caso, posso comprar o bilhete a bordo do trem?” “Não!” “E tem mais: se você embarcar no trem sem o bilhete, você pode ser preso”.

Tudo começou já na minha chegada. Depois de viajar durante 48 horas desde a África do Sul para o sul da Califórnia, carregado com filmes e livros para a conferência, não havia ninguém me esperando no aeroporto. Então, tive que tomar um táxi. Acontece que no lugar onde eu deveria supostamente ficar, também não havia ninguém esperando. Tive que ficar na rua esperando por mais de uma hora. Dias depois, tendo viajado para outro lugar, a pessoa que deveria estar me esperando para me pegar só chegou duas horas depois. Quando comentei o fato em voz normal, ele começou a gritar: “quem sabe você quer ir a pé?”.

Não que eu esperasse qualquer coisa de bom dos habitantes de um país que esta neste mesmo instante assassinando milhões de pessoas, mas a arrogância que encontrei foi uma coisa alucinante. Pior: não se trata apenas da arrogância já conhecida do pessoal da segurança nos aeroportos. Estou falando da arrogância que vem de cidadãos comuns dos Estados Unidos.

Foi fácil detector também uma inacreditável perda de disciplina. Na China ou no Vietnã, assim como na Índia, as pessoas seriam demitidas apenas por usar o tom de voz e as posturas adotadas pelos empregados norte-americanos. Ouvi muitas vezes coisas como “não queremos acabar tratados como os trabalhadores asiáticos”. “Ótimo!” respondi eu. “Muito bem! Mas não espere que os trabalhadores pelo mundo afora que trabalham muitas horas extras se guiem pela sua moleza”. Tal atitude, que beleza, um luxo!

Ao partir dos Estados Unidos para o Equador, tentei fazer o chek-in da bagagem para meu destino final. A funcionária da companhia Delta sequer fazia ideia de onde fica Quito, e era visível que às 05h20min ela não fazia questão nenhuma de aprender. Assim ela fez a checagem da bagagem apenas até o México, e quando eu protestei (afinal de contas, eu teria que fazer outra checagem da bagagem na alfândega mexicana, arrastando as malas para lá e para cá) ela começou a vomitar um monte de normas, inventadas na hora. Insisti. Ela chamou o supervisor. Este determinou que ela fizesse a checagem até meu destino final, Quito. Ocorre que ela não tinha a menor ideia de como fazer isso. Tornou-se apologética? Nem pensar. Quanto mais tempo demorou, mais implicante e teimosa ela se ficou.

Obviamente, a única coisa que o Império aprendeu foi como matar “não pessoas” a longa distância, e como ficar no controle remotamente.

Os cidadãos do Império dos Estados Unidos passam o tempo a reclamar que seus privilégios estão desaparecendo. Bem, na realidade eles estão evanescendo, mas grande parte deles ainda está lá. Fora dos Estados Unidos, nenhum país poderia sobreviver com trabalhadores tão sem ética e de tão baixa performance.

No ocidente, “ser de esquerda” significa sacrificar ainda mais os trabalhadores já brutalmente explorados lá fora, para manter os privilégios absurdos dos ocidentais.

Para nós, em vez disso, a esquerda significa “internacionalismo”.

Essas duas visões não só não se complementam, como são antagônicas. As metas da esquerda no Equador ou na Venezuela sofreriam grande prejuízo, se as esquerdas dos Estados Unidos e Europa tivessem sucesso.

O colonialismo nunca morre!

O apartheid nunca foi desmantelado. Apenas se tornou global.
A escravidão continua, embora com outros nomes.

Se assim não fosse, como poderiam os Estados Unidos sobreviver na sua forma hoje em dia?

***

Nestas duas semanas em que estive nos EUA, conheci alguns dos maiores pensadores que aqui vivem: Michael Parenti e John Cobb. Tempos atrás, eu trabalhava juntamente com Michael em dois livros, um dele e outro meu, mas era a primeira vez em que o via face a face. Discuti o cristianismo com John Cobb, tentando definir onde se encontra escondida a codificação que permite as mais horríveis atrocidades que são cometidas em nome da cruz. Foi uma discussão filosófica profunda que deveremos converter brevemente em um novo livro.

Tive ainda o prazer de passar uma tarde prazerosa em Los Angeles, com o editor do CounterPunch. Joshua Frank e sua companheira Chelsea, pessoas de bom coração e que saber ser divertidos para os convidados.

Viajei e trabalhei em conjunto com Dan Yaseen, um ativista dedicado do rádio, e sua parceira Camille.

Sim, é claro que existem pessoas brilhantes, boas e devotadas vivendo nos Estados Unidos. Mas mesmo eles sabem e admitem que seu grupo é muito pequeno frente o tamanho do país, e também pequeno para fazer parar os crimes que o Império continua a cometer.

***

Deixei o país muitos anos atrás. Saí de Nova Yorque, que foi a minha casa por mais de uma década. Nunca retornei, a não ser para o lançamento de maus livros e filmes, e para ver alguns amigos. Nunca fiquei por longo tempo. Desta vez, por duas semanas, foi a mais longa estadia por anos.

Esta visita me quebrou. Fiquei fortemente deprimido e exausto.

Pude ver claramente como uma grotesca pseudo-moralidade, conceitos religiosos repugnantes e a hipocrisia que influenciou e arruinou estados clientes e nações inteiras, no mundo inteiro, especialmente na Ásia e África.

Sim, acredito em culpa coletiva. Como tenha a cidadania norte-americana, carrego esta culpa. Portanto, trabalho sem parar, não para deixar minha consciência limpa, mas para tentar estancar a loucura.

Estou convencido de que o ocidente, a raça branca e seus lacaios no estrangeiro, não tem o direito de governar este planeta. Vi o suficiente para cristalizar minha convicção.

O ocidente acabou e sua cultura está morta. O que ainda resta, além de não atrair, é realmente horrível. Não há coração, não existe compaixão nem criatividade. Aqueles bilhões de pessoas fora do território ocidental não deveriam estar morrendo enquanto são forçados a apoiar o individualismo agressivo pós cristão, pós cruzadas colonialistas além do fascismo dos Estados Unidos e da Europa.

***

Durante aquelas duas semanas horríveis, a minha habilidade de escrever entrou em colapso, mas apenas até o momento em que o trem de pouso do avião em que eu me encontrava viajando para o sul, em direção à América Latina perdeu o contato com a pista de decolagem do aeroporto de Salt Lake City.

Em seguida, tudo voltou ao normal. Os motores rugiam e eu abri meu Mac e comecei a teclar. Até o momento de desembarcar na Cidade do México, fui capaz de escrever a metade deste ensaio. Em Quito, cercado pelo calor e pela bondade das pessoas locais, na maioria indígenas, me senti mais uma vez forte e feliz. Comecei então a escrever; mais uma vez, eu era capaz de escrever. Sobrevivi. O pesadelo tinha chegado ao fim.


Andre Vltchek É um filósofo, cineaste e jornalista investigativo. Cobriu guerras e conflitos  em dúzias de países. Seus últimos livros são: “Mostrando as mentiras do Império” e “A luta contra o imperialismo ocidental”. Diálogo com Noam Chomsky: “Sobre o terrorismo ocidental.” Pode ser encontrado através de seu site http://andrevltchek.com ou de seu twitter https://twitter.com/andrevltchek