domingo, 14 de junho de 2015

Os anglo-americanos estão loucos.



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Finian Cunningham

Tradução mberublue

Se vivêssemos em um mundo são, o Secretário de Relações Exteriores da Inglaterra deveria ser obrigado a deixar seu posto de principal diplomata do país, coberto de desgraça e desaprovação, na sequencia de suas desastrosas declarações de que a Inglaterra deveria estar pronta para receber mais armas nucleares dos Estados Unidos, supostamente para conter a “ameaça russa”. Assim sendo, nós teríamos uma escalada alarmante das tensões internacionais e militarismo causados por ambos os países – Estados Unidos e Inglaterra – e tudo por causa de palavras imprudentes baseadas em fatos não provados. Claramente, os aliados anglo-americanos estão trabalhando em conjunto.

A regressão sem pejo de Hammond para o ambiente da Guerra Fria vem na mesma medida de Washington, que também tornou pública sua intenção de estar considerando colocar em vários países europeus, mísseis nucleares de “ataque preventivo”. Declaram os norte-americanos que esse movimento viria “em resposta” às supostas violações pelos russos do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Médio (INF). Moscou está sendo acusada de testar mísseis de cruzeiros baseados em terra que estariam proibidos sob o tratado. A Rússia tem negado sistematicamente as alegações acusatórias de Washington, que – como parece estar se tornando uma espécie de norma em outros assuntos contenciosos – não tem sustentação em nenhum tipo de evidência ou prova da parte de Washington.

Tal atitude difamatória contra a Rússia é duplamente desprezível, porque não se trata apenas de uma calúnia. A mentira também serve como cobertura moral que permite aos anglo-americanos perpetrar outras etapas ultrajantes que resultam em perigo flagrante para a paz mundial, com a alocação sem precedentes de armas nucleares.

No que se refere à questão da colocação na Inglaterra de armas nucleares dos Estados Unidos, Hammond afirmou ao jornal de direita Daily Telegraphf: “... penso que é correto de nossa parte estarmos preocupados se a direção tomada pela Rússia é o que chamam de ‘doutrina de guerra assimétrica’. Nós precisamos enviar um sinal muito claro para a Rússia, de que não permitiremos qualquer transgressão às nossas linhas vermelhas. Poderemos considerar a proposta [de permitir a instalação de armas nucleares norte-americanas em solo Britânico]. Trabalhamos lado a lado com os norte-americanos. Caso essa decisão seja mesmo colocada sobre a mesa, deve ser tomada em conjunto. Quanto a nós, devemos pesar os prós e os contras e chegar a uma conclusão”.

Para justificar a si mesmo, o ministro Britânico de relações exteriores buscou relacionar a questão nuclear à alegada agressão russa no leste ucraniano, aduzindo: “Há sinais bem preocupantes de que aumentam as atividades tanto pelas forças russas quanto pelas forças separatistas controladas pelos russos”.

Hammond tentou parecer ambíguo sobre a instalação de armas nucleares dos Estados Unidos no território Britânico – as quais se somariam ao próprio arsenal nuclear da Inglaterra – mas o simples fato de que seu governo está considerando a possibilidade, já é um movimento flagrantemente imprudente. Se tal acontecesse, reverteria a proibição relativa a essas armas que ocorreu na sequencia do fim da Guerra Fria há mais de 20 anos.
Ironicamente, enquanto Hammond estava nesta semana se esforçando para que o Parlamento permitisse um referendo sobre a permanência da Inglaterra como membro da União Europeia, sequer uma palavra foi dita ao público inglês, para saber se a população inglesa quer mais uma vez tornar-se parte da força de ataque nuclear dos Estados Unidos.

Mas talvez a infração merecedora de cartão vermelho cometida por Hammond seja o fato de que ele está militarizando perigosamente a política externa da Inglaterra sem estar lastreado em nenhuma evidência razoável; na realidade, baseia-se em desinformação total. Exatamente como seus aliados em Washington, o ministro do Partido Conservador está fazendo toda sorte de acusações mentirosas e histéricas contra a Rússia, que vão desde constituir uma ameaça para a Europa, até usar “doutrina de guerra assimétrica”, passando pela suposta invasão do leste ucraniano e chegando à sabotagem do acordo de cessar fogo de Minsk (aliás, uma tentativa de paz que Moscou trabalhou duramente para implementar, juntamente com a Alemanha e França em fevereiro, com a significativa ausência de Washington e Londres).

Sem qualquer informação confiável, os norte-americanos e os britânicos parecem estar se movendo deliberadamente no sentido de incrementar a capacidade de um ataque nuclear preventivo contra a Rússia. Como relatou a Associated Press na última semana, embora usando uma linguagem eufemística: “as opções chegaram apenas ao nível de insinuações – mas não de declarações enfáticas – de que certamente melhorariam a capacidade das armas nucleares dos EUA para atingir alvos em território russo”.

A verdade é que os norte-americanos, os britânicos ou a OTAN não produziram sequer um fiapo de evidência verificável de que a Rússia tenha violado o Tratado INF, ou esteja subjugando a Ucrânia ou ameaçando qualquer outro país europeu.

No leste ucraniano os relatos mais confiáveis sobre a situação emanam tanto do grupo de monitoração do cumprimento do acordo de Minsk feita pela Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) quanto de fontes da mídia local e de oficiais separatistas de que o recente incremento da violência vem do regime de Kiev, apoiado pelo ocidente. A violência inclui o bombardeio de centros residenciais na cidade de Donetsk e nos arredores de pequenas cidades e vilas, que resultaram na morte de dúzias de civis durante a última semana.

A maneira pela qual os britânicos e norte-americanos distorcem os fatos para fazer da Rússia o agressor e destruidor do cessar fogo de Minsk é apenas uma assertiva prejudicial que se baseia em qualquer coisa, menos nos fatos. Desta forma, essa visão é uma distorção dos fatos que chega às raias da mentira descarada.

Que o Secretário para a Política Externa possa fazer comentários tão enganosos e aparentemente desorientados sobre o conflito na Ucrânia e sobre a Rússia em geral, e pensar em mudar a política militar da Inglaterra para instalar no território inglês armas nucleares dos Estados Unidos é digno de expulsão do ministério por extrema e grosseira incompetência.

A adoção por Hammond de um militarismo nuclear em meio a um tenso impasse político entre Oriente/Ocidente não passou em brancas nuvens na Inglaterra. Suas teses e afirmações belicosas causaram controvérsia, com várias campanhas antiguerra em repúdio à imprudente reversão para a mentalidade de Guerra Fria. Contudo, o fato de que a incompetência de Hammond não tenha causado ainda mais celeuma é um preocupante sinal da dormência moral do povo inglês, que não fez com que Hammond incorresse numa condenação pública ainda maior.
Nas entrelinhas, a política externa dos governos dos Estados Unidos e da Inglaterra trata-se apenas disso: uma ideologia de Guerra Fria, que os faz ver o mundo inteiro como inimigos ou “ameaças externas”. Mais uma vez, Rússia e China são vistos e retratados como inimigos.

Na última semana, em uma entrevista para o jornal italiano Corriere dela Sera, o presidente russo Vladimir Putin observou: “Já que muitos países têm preocupações sobre possíveis agressões pela Rússia, eu penso que apenas uma pessoa insana, louca, e apenas em sonhos maus poderiam imaginar que a Rússia poderia subitamente atacar a OTAN”.

Ora, por dedução, esse raciocínio lista pessoas com a visão dos fatos de Hammond como “insanas”. O mesmo vale para o presidente dos Estados Unidos, Barak Obama e sua administração. Discursando na recente reunião de cúpula do G7 na Alemanha, Obama pontificou: “precisamos encarar a agressão russa”.

A pergunta lógica é: por que tanto Washington como Londres em particular, interpretam o mundo em termos de inimigos, ameaças e agressões?
Parte da resposta pode ser a de que essas mesmas potências são as maiores praticantes de agressões ilegais na perseguição de seus objetivos na política externa. O Imperialismo – uso de força militar na sustentação de metas políticas e econômicas – é parte indissociável da forma pela qual Estados Unidos e Inglaterra operam no mundo. Agressão e militarismo são instrumentos fundamentais do imperialismo anglo-americano, assim como acordos para atividades bancárias, de investimento e comércio.

Não se pode negar que existe uma espécie de “consciência do mal” que rola nas relações internacionais tanto de Inglaterra como dos Estados Unidos. Ambos temem (com razão) retribuição e vingança causadas por seus comportamentos agressivos e criminosos em relação ao resto do mundo. Numa palavra, a visão de mundo dos anglo-americanos se resume em: paranoia.

A militarização das relações exteriores também é uma eficiente via indireta para controlar eventuais aliados nominais. Se ameaças externas são retratadas de maneira suficientemente forte, cria-se então uma espécie de senso restrito de “defesa” entre “aliados”, que passam a ver a potência dominante como líderes para “proteção”. Esses jogos mentais são típicos da forma pela qual Washington e Londres promoveram a OTAN  ao status de protetor de seus “aliados europeus” frente “agressão russa”.

O mesmo jogo mental está rolando na região da Ásia/Pacífico, onde os norte-americanos estão tentando marcar a China como um “agressor do mal” para pequenas nações, que então se voltam para Washington em busca de “proteção” – e montes de dinheiro para comprar armas dos Estados Unidos, cortesia das máquinas impressoras de dólares do FED.

Sobre a questão das alegadas agressões russas, Putin, na já citada entrevista, comentou de maneira muito apropriada: “penso que alguns países estão simplesmente se aproveitando do medo das populações ocidentais no que diz respeito à Rússia... Suponhamos que os Estados Unidos gostariam de manter sua liderança na comunidade atlântica (União Europeia). Precisaria então de uma ameaça externa, um inimigo comum para garantir sua liderança. Claramente, o Irã não é suficiente – a ameaça que representa não é tão assustadora ou grande. Quem poderia ser assustador o bastante? Então, subitamente, a crise se desdobra na Ucrânia. A Rússia se viu forçada a responder. Talvez toda essa situação tenha sido criada de propósito... não sei. Mas sei que não fomos nós russos que a criamos”.

Putin acrescentou, falando ao editor do Corriere dela Sera: “Deixe-me dizer uma coisa: não é preciso temer a Rússia. O mundo mudou de forma tão drástica que atualmente qualquer pessoa com um mínimo de bom senso não pode sequer imaginar um conflito militar em larga escala. Eu garanto que temos outras coisas com as quais nos preocuparmos”.

É por isso que políticos como o ministro de relações exteriores da Inglaterra, Philip Hammond são compelidos a demonizar a Rússia e conjurar pesadelos de invasões, conflitos militares em larga escala e armas nucleares. Sem alarmismo, não pode haver belicismo; e sem belicismo o capitalismo anglo-americano não pode exercer a hegemonia da qual sempre desfrutou e que necessita para funcionar.
Essa forma de ver o mundo adotada pelos anglo-americanos continua atrelada a uma era que já deveria estar esquecida, na qual a gestão da relações internacionais se dava através de violência e agressões ou até da instigação de uma guerra total, se necessário.

Se vivêssemos em um mundo são, pessoas como Philip Hammond, o primeiro ministro Cameron e do outro lado do Atlântico, Obama e seu secretário de Estado Kerry, não seriam merecedores de estar em uma posição de poder e governo. Se vivêssemos em um mundo são.

Ocorre que em nosso mundo capitalista e louco, são pessoas desse tipo que são selecionadas, porque dão ao sistema tudo o que é essencial para a sua sobrevivência, ainda que através de uma mentalidade draconiana  de agressão, violência e guerra. A inominável e diabólica vergonha é que essas pessoas insanas são perfeitamente capazes de trazer o apocalipse para milhões e milhões de pessoas inocentes.

Botando para for a esses políticos estaríamos praticando uma forma inteligente de evitar a guerra. Talvez fosse ainda melhor se pudéssemos chutar para a estratosfera todo esse sistema, no qual alguns enriquecem obscenamente à custa do sofrimento da maioria. Esse “custo” inclui suportar o risco perene de guerra e, ouso dizer, aniquilação.


Finian Cunningham nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe.