sábado, 7 de fevereiro de 2015

A Europa na iminência da Guerra
Mais uma vez, o espectro da guerra ronda a Europa



por Alex Lantier
tradução mberublue

Notícias de que Washington está seriamente considerando armar o regime de Kiev, apoiado pelo ocidente, com armas leves e pesadas para atacar os separatistas pro Rússia no leste ucraniano jogaram repentinamente o risco de uma guerra mundial no centro da vida política europeia.

No começo desta semana, antes de voar para Moscou em companhia da Chanceler alemã Angela Merkel, para conversações com o presidente russo Vladimir Putin, o presidente francês François Hollande alertou para o risco de uma “guerra total”. Tais comentários encontraram eco no antigo Primeiro Ministro da Suécia, Carl Bildt.

“Infelizmente é possível no cenário atual uma guerra contra a Rússia,” disse Bildt ao jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung numa entrevista durante a Conferência de Segurança de Munique. “Definitivamente, vivemos uma das mais perigosas fases históricas” disse Bildt, “especialmente se você olhar a situação de uma perspectiva europeia”. Estamos lutando no leste e estamos lutando no sul. “As chamas da guerra cada vez mais se aproximam de nós. A incerteza quanto às relações globais de poder tornam a situação ainda mais explosiva.”

Hoje, o mundo capitalista vive uma crise tão profunda quanto a que viveu no último século – em 1914 e 1939 – e que mergulhou a humanidade em duas guerras mundiais. No curso dessas guerras imperialistas, dezenas de milhões de pessoas foram massacradas, mas mesmo essas atrocidades empalidecem em comparação com a devastação que pode vir a ser causada por uma Terceira Guerra Mundial entre potências nucleares.

A sombra de uma catástrofe nuclear perigosamente iminente surge por trás da população do mundo inteiro no meio do silêncio cúmplice da imprensa empresa. O Frankfurter Allgemeine Zeitung “esqueceu” de colocar para Bildt a questão óbvia: se é verdade que o governo sueco atualmente leva em consideração a possibilidade de uma guerra contra a Rússia, que possui armas nucleares, estaria levando isso em conta quando formula suas políticas, o risco de que mísseis com cargas nucleares podem explodir em Estocolmo? Acreditariam esses líderes suecos que vale a pena arriscar-se à aniquilação da Suécia apenas para defender um regime de extrema direita na Ucrânia? Afinal de contas, quantos milhões de vidas estão os líderes imperialistas preparados para sacrificar em nome do cálculo frio de suas ambições geopolíticas?

Nenhum dos governos do OTAN tem a menor ideia de como resolver o problema, mas ainda assim apontam para o caráter histórico da crise atual. Enquanto isso, vão pondo gasolina na fogueira. Os poderes imperialistas estão se preparando para despachar dezenas de milhares de soldados da força de reação rápida da OTAN aos países do leste europeu que fazem fronteira com a Rússia enquanto ao mesmo tempo enviam navios de guerra para o Mar Negro.

Embora Merkel e Hollande tenham voado para Moscou para um encontro em que se deveria falar de paz, preocupados, ostensivamente, com as implicações das entregas de armas ao regime de Kiev pelos Estados Unidos, A Ministra da Defesa da Alemanha, Ursula Von der Leyen se gabava da participação de seu país nas forças de reação rápida formadas para serem dirigidas contra a Rússia.

“A Alemanha não apenas é uma nação primordial e essencial como ponta de lança para a OTAN”, declarou, “mas também estamos ajudando a erguer o Corpo Multinacional Nordeste, bem como as bases que a OTAN estabelece neste momento nos Estados membros orientais e austrais”. A ministra elogiou “o engajamento e empenho incansável do governo federal Alemão, para fortalecer o crescimento do OSCE (Organization for Security and Cooperation in Europe – Organização Europeia para a Cooperação e Segurança – NT)” e garantiu ainda que “a União Europeia adota posição comum no que se refere à Rússia.”

Algumas vozes na Europa estão pressionando, como alternativa factível à proposta dos Estados Unidos de entregar armas à Ucrânia, para que se adotem ainda mais sanções econômicas contra a Rússia, notadamente a exclusão sumária do sistema internacional de pagamentos SWIFT – atitude que por si mesma já poderia ser considerada como um ato de guerra.

Entretanto, a imprensa empresa europeia trabalha implacavelmente para confundir a opinião pública, através de denúncias de que o Kremlin seria um agressor e culpando a Rússia pela crise na Ucrânia.

O jornal francês Le Monde em um editorial de sexta feira alertou que “a história está oscilando entre um conflito localizado e outro que pode ser muito maior e preocupante... uma dessas reações em cadeia que a Europa já conhece”. O jornal manobrou para colocar Putin como o único culpado pela crise. Escreveu: “Na essência, tudo depende de apenas uma pessoa: Vladimir Putin. Achará o presidente russo que já puniu a Ucrânia o suficiente por querer se aliar à União Europeia? Continuará a alimentar as chamas da guerra ou aliviará as tensões?”

Uma reação em cadeia composta de um só homem é um conto de fadas que o Le Monde tenta impingir a seus leitores, como parte da demonização da Rússia levada a efeito e que se baseia em um sem número de mentiras absurdas. O que causa a possibilidade da Guerra são as perigosas ações das potências imperialistas, empurradas por suas veleidades de hegemonia, além da incurável crise do sistema capitalista.

As potências europeias e Washington foram abalados pela crise econômica global, pela diminuição do peso de sua influência econômica no mundo, assim como pelas reações da classe trabalhadora contra os intermináveis programas de austeridade. Aterrorizado pelo que Bildt chama de “incerteza quanto às relações globais de poder” procuraram solidificar suas posições geopolíticas aproveitando-se da Ucrânia – por meio de um golpe liderado por forças paramilitares neonazistas – buscando acertar um golpe devastador em seu vizinho fronteiriço, a Rússia, ao transformar a Ucrânia em uma semicolônia.

No ano passado as potências da OTAN, lideradas por Washington e Berlim, promoveram um golpe de estado em Kiev através do apoio decidido de forças como a milícia fascista Pravy Sektor (Setor da Direita – NT). Tendo derrubado o presidente pro Rússia Viktor Yanukovych, instalaram em seu lugar um regime de extrema direita que impôs brutais medidas de austeridade sobre a classe trabalhadora e buscou afogar as regiões pro russas do leste ucraniano em sangue.

As potências da OTAN aproveitaram-se da resistência armada contra o regime de Kiev no leste ucraniano como a Crimeia e o Donbass, para justificar uma escalada no reforço militar no leste europeu. Elas apoiaram a guerra do regime de Kiev no Donbass, que apenas até agora já matou mais de 5000 pessoas, forçando mais 1.200.000 a abandonar suas casas. Com a sinalização do Kremlin de que poderá intervir para sustar uma ofensiva militar ainda maior contra o Donbass, as potências da OTAN responderam que estão preparadas para uma guerra total.

Contra o frenesi de guerra que toma conta das potências imperialistas, a classe trabalhadora deve contrapor a estratégia de uma revolução socialista mundial.

As ameaças de guerra total tornaram-se uma constante na vida política atual. Os anos recentes viram uma série de possibilidades de guerra – em setembro de 203, quando os Estados Unidos e a França quase atacaram a Síria; em 2014, quando a ameaçada foi a Rússia, nos desenvolvimentos do ainda não resolvido caso da queda do vô MH17 sobre a Ucrânia; e agora, com a guerra no leste da Ucrânia.  O perigo é a possibilidade de que, na ausência de uma intervenção maciça da classe trabalhadora na luta contra o imperialismo, uma ou outra dessas crises dispare uma guerra incontrolável que ameaça até a sobrevivência da humanidade.

Exatamente o que foi escrito declaração da Quarta Internacional pelo Comitê Internacional: “O Socialismo e a Luta Contra a Guerra Imperialista”.

“O choque entre os interesses imperialistas e os interesses nacionais é a expressão da impossibilidade, sob o capitalismo, de organizar uma economia globalmente integrada com base racional, assegurando assim o desenvolvimento harmonioso das forças produtivas. No entanto, essas mesmas contradições presentes no imperialismo são o impulso para prover uma revolução social. A globalização da produção conduziu a um expressivo crescimento da classe operária. Somente essa força social, que não deve lealdade a quaisquer nações, é capaz de impor um fim ao sistema do lucro, causa primária da guerra.”


Alex Lantier