Washington perdeu o Oriente
Médio
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Tradução do Coletivo
de Tradutores da Vila Vudu
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Não é surpresa, de modo algum, exceto
pela rapidez do processo. Em pouco mais de uma década, desde a facinorosa
decisão do governo Bush de invadir e ocupar o Afeganistão e depois o Iraque em
março de 2003, os EUA só fizeram perder influência e aliados em todo o Oriente
Médio. Não só os iranianos xiitas, que o presidente Obama crê que sejam gratos
a Washington, mas também, pela primeira vez, a Arábia Saudita e os estados do
Golfo e o Egito, todos em processo de unir-se a novos aliados ou parceiros
colaborativos, que encontram no oriente, não no ocidente.
Dia 11/9/1990, em discurso numa sessão conjunta do Congresso, o então
presidente George Herbert Walker Bush falou triunfantemente dos EUA como a
única superpotência, para criar o que ele chamou de Nova Ordem Mundial. A União
Soviética acabava de se autodissolver em caos. Sob as presidências de Bush e
adiante, de Clinton, e até o dia de hoje, a política de Washington consistiu
exclusivamente em avançar contra, para desvalorizar, destruir, desconstruir e
desmembrar a Federação Russa, praticamente como Washington fez contra a Líbia
de Gaddafi depois da guerra de Hillary Clinton, lá, em 2011.
Durante os anos 1990s, o presidente Bill Clinton apoiou a "terapia de
choque" econômico financiada pelos EUA, com pesado apoio do seu amigo
bilionário e corretor financeiro George Soros e das Fundações Sociedade Aberta
[orig. Open Society Foundations] de Soros. Soros trouxe
pessoalmente vários Harvard-boys, como Jeffrey Sachs, para a
Rússia, logo depois de eles terem devastado a Polônia, a Ucrânia e outros
estados ex-comunistas no leste da Europa. O regime corrupto de Yeltsin, que só
queria saber de encher a cabeça de vodka e os bolsos de dólares, pouco se incomodava
com o que acontecesse aos demais russos.
Mas... Como as coisas mudaram, para Washington, desde aqueles dias de depois de
1990!
Hoje, a Única Superpotência, o Hegemon Indesafiável, está sendo desafiado como
nunca antes, afundado na pior depressão econômica desde os anos 1930s. O
governo dos EUA tem dívida federal de mais de 103% do PIB. O desemprego real,
não a definição delirante com que o Departamento do Trabalho 'opera', está hoje
acima de 22%. O Federal Reserve está afundado há oito anos na pior crise
financeira da história, sem conseguir aumentar os juros acima de 0%.
E agora, a meta estratégica de toda a projeção de poder dos EUA desde 1945 –
controlar os fluxos de energia do Oriente Médio – está sumindo à vista de
todos, como algodão-doce ao vento.
Pânico em Washington
A prova mais clara de que está perdendo influência no Oriente Médio é a reação
do governo Obama às ações dos russos para pôr fim à terrível guerra de
Washington na Síria – que é a verdadeira fonte da crise de refugiados que
atualmente faz subir as tensões sociais em toda a Europa.
Dia 12/9, Barack Obama falou contra as recentes atividades da Rússia. Obama
rejeitou os chamamentos da Rússia para cooperação militar contra o ISIS,
declarando que a estratégia russa de apoiar o governo sírio contra o ISIS estaria
"condenada ao fracasso". Sobre a Rússia estar enviando ajuda
diretamente ao governo de Bashar al-Assad, que Washington 'exige' que renuncie,
Obama atacou: "A estratégia que estão usando agora, de 'dobrar o blefe'
[orig. doubling down] em Assad é um erro." Double down é expressão de cassino, das mesas
de "Blackjack", que nesse caso significa 'adotar comportamento de
risco quando [o jogador] já está em posição precária'.
A lógica da posição de Washington, de 'exigir' que Assad saia não é lógica: é
perfeito absurdo. Como o ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey
Lavrov seguidamente destaca, a Rússia, aliada da Síria há décadas, continuará a
manter a assistência militar que sempre deu ao governo legítimo de Assad em sua
batalha para derrotar os terroristas islamistas: "Só posso repetir, mais
uma vez, que nossos soldados e especialistas militares estão lá para operar o
equipamento militar russo e para dar treinamento ao exército sírio para que
possa operar equipamento novo. E continuaremos a garantir a mesma assistência
ao governo sírio, para garantir que tenha prontidão adequada de combate em sua
luta contra o terrorismo."
Por que o pânico
A razão pela qual Washington
literalmente pirou não é a possibilidade de que a Rússia venha a agravar a
situação na Síria. Depois de mais de um ano de bombardeamento destrutivo por
aviões dos EUA e da OTAN, que gerou a atual crise de refugiados na União Europeia,
dificilmente a situação piorará se a Rússia conseguir isolar o ISIS.
O que deixa (mais) ensandecidos os facinorosos fazedores de guerra em
Washington é a possibilidade de a estratégia russa ser bem-sucedida e pôr fim
ao reino de terror do ISIS.
O chamamento russo visa a constituir uma coalizão internacional, convidando
também os EUA a unir forças com estados da região e da Organização do Tratado
de Segurança Coletiva [orig.Collective Security Treaty Organisation (CSTO)].
Dia 15/9/2015, em encontro em Dushanbe, Tadjiquistão, governantes dos estados
membros daCSTO denunciaram o terrorismo no Iraque e na Síria, com
atenção especial ao chamado 'Estado Islâmico'. Declararam-se prontos para
enviar tropas para a Síria, sob patrocínio da ONU, como a OTAN está fazendo sem
sucesso. Esse é desenvolvimento que Washington não aprecia, haver dois
jogadores jogando o jogo. Os estados-membros da CSTO discutirão
sua estratégia para criar uma coalizão global contra o ISIS,
durante a reunião de todos, em setembro, para a Assembleia Geral da ONU em New
York. A CSTO reúne Rússia, Bielorrússia, Armênia, Cazaquistão,
Quirguistão e Tadjiquistão. Seguindo o rodízio, a Rússia na presidência do
Conselho de Segurança da ONU durante esse mês.
Segundo relato de Thierry Meyssan, editor francês de Voltaire.net que tem base
em Damasco, o mais recente movimento de apoio russo à guerra que o governo do
presidente Assad faz contra os terroristas inclui a criação de uma Comissão
Militar Conjunta Sírio-Russa; transmissões de inteligência recolhida pelo
satélite russo; envio de especialistas russos em várias áreas e o fornecimento
de armamento sofisticado. Inclui também significativa modernização e expansão
do porto sírio de Latakia.
Recentes atividades da Rússia, de
ampliação e modernização do porto em Latakia apanharam de surpresa a OTAN
Matéria recentemente publicada na Der
Spiegel alemã diz que as entregas russas à Síria também incluem carros
blindados de fabricação russa para transporte de tropas, BTR-82A. Esse BTR-82A
está em uso nos exércitos da Rússia e do Cazaquistão. É veículo com traços
impressionantes: pode operar em combate sem parar, 24 horas por dia. Sua
principal arma é um canhão automático de carregamento duplo de 30mm capaz de
perfurar a blindagem de foguetes rastreadores, munição de fragmentação,
incendiária e rastreadora de explosivos. Além do canhão, o BTR-82A leva também
uma metralhadora coaxial de 7,62mm e três lançadores de granadas de fumaça de
81mm de cada lado. A cabine do artilheiro conta com sistema para controle de
fogo dia/noite. O comando opera com comunicações e mapas topográficos
avançados. E uma câmera de vigilância armada com laser, permite detectar
qualquer alvo inimigo no raio de 3 km. Ah, e o veículo leva um dos mais
robustos motores turbo-diesel da indústria russa, o KAMAZ 740.14-300 de 300hp e
velocidade máxima de 100 km/h, mesmo em terreno acidentado; para completar, é
totalmente anfíbio, com propulsão a jato, na água.
O respeitado blogueiro The Saker, citando fontes russas, crê que a Rússia também
esteja enviando ao Exército Sírio sistemas de combate em campo que podem ajudar
muito, incluindo radares antibaterias (radares que identificam de onde a
artilharia inimiga está atirando) e sistemas de guerra eletrônica. O Saker
destaca também que, de um ponto de vista estratégico militar, o fator que pode
realmente alterar o jogo, e que a Rússia expôs há poucos dias, é ter escolhido
o porto de Latakia. Segundo o Saker,
" um dos detalhes que estão
deixando nervosos [os norte-americanos] é que os russos, pelo que se pode ver,
escolheram a cidade de Latakia como seu "local de entrega".
Diferente de Damasco, Latakia é locação ideal: é segura, sem ser distante
demais das linhas de frente, e é relativamente próxima da base russa em Tartus.
O aeroporto e o porto naval são sabidamente fáceis de isolar e proteger. Já há
relatos de que os russos estenderam as pistas e melhoraram a infraestrutura no
aeroporto de Latakia, e pesados AN-124s já foram vistos pousando lá. Quanto à
Marinha Russa, também enviou navios para o aeroporto de Latakia
E o Saker conclui:
"Em outras palavras, em vez de se
limitarem a Tartus ou de irem para Damasco, muito exposta, os russos parecem
ter criado nova cabeça de ponte no norte do país, que pode ser usada para
entrega de equipamento à área de combate no norte e até para desembarque de
forças. (...) Além disso, se o equipamento pesado é enviado por mar, os russos
podem entregar por ar os seus sistemas de defesa aérea: o AN-124 é mais que
suficiente para transportar os sistemas S-300s. Basta isso para explicar o
pânico dos anglo-sionistas."
O que parece estar também acontecendo,
como sugeri em artigo anterior, é um movimento da diplomacia russa, para dar à
Arábia Saudita e aos membros árabes da OPEP uma alternativa à fracassada
estratégia que abraçaram, de financiar todos e quaisquer terroristas que se
apresentassem como anti-Assad.
O novo monarca saudita e seus conselheiros parecem ter começado a suspeitar que
é muito provável que os doidos-por-guerra neoconservadores nos EUA que estão
armando o ISIS e a Frente Al-Nusra da Al-Qaeda, além da
Fraternidade Muçulmana no Oriente Médio ali perto, bem podem ter em vista
derrubar os sauditas e outras monarquias do Golfo. Ao abrir negociações, ou mediar um fim informal para a mais recente
guerra sunitas versus xiitas inventada/fomentada por
Washington, a Rússia pode conseguir remover um importante fomentador de guerras
à distância que sempre manteve ativas as guerras de Washington.
E assim, resta só a Turquia de Erdogan, como principal patrão/patrocinador do ISIS.
É situação qualitativamente nova desde o início da guerra há cerca de quatro
anos, e momento ideal para o aumento combinado do apoio russo, ao Exército
Árabe Sírio e ao legítimo governo do presidente Assad, e para uma grande nova
ofensiva diplomática para pôr fim àquela guerra.
Esse é o fator que, muito provavelmente, mais incomoda os planejadores de
guerras em Washington. Estão começando a ver que estão a um passo de perder –
ou, mais provavelmente, já perderam – qualquer derradeiro fiapo de poder ou
influência sobre países em todo o Oriente Médio, inclusive sobre o Irã – pedra
central, até agora, de toda a política de Obama para o Oriente Médio.
Dia 21/9, o vice-ministro do Exterior para Questões Árabes e Africanas do Irã,
Hossein Amir Abdollahian, estava em Moscou, discutindo Oriente Médio e Síria. O
Irã trabalha com a Rússia, bem próximos, já há semanas, para construir uma
estratégia que ponha fim à ameaça que o ISIS representa para a Síria.
Mas... E Israel?
Claro que o fator que mais fez crescer
e aprofundar a instabilidade política e social no Oriente Médio islamista
sempre foi o governo de Netanyahu em Israel. Também nesse campo Putin mais uma
vez mostrou presença e alta habilidade, com Israel já se afastando de
Washington na questão do Irã, como em outras questões.
Segundo o site de notícias DEBKA.file, reputado
como centro de atividade de militares israelenses e da inteligência do Mossad,
no final de agosto Putin propôs a Israel que Moscou assumisse a
responsabilidade pela segurança dos campos de gás de Israel no Mediterrâneo, ao
mesmo tempo em que ofereceu investimento russo de $7-10 bilhões para o
desenvolvimento do poço Leviathan, o maior de todos, e construção de um
gasoduto até a Turquia, para exportar o gás para a Europa. "Um
investimento multibilionário da Rússia naquele campo faria dele um projeto
russo, que nem Síria nem Hizbollah ousariam atacar, mesmo que pertença a
Israel" – escreveu DEBKA.
A matéria diz que a oferta foi feita
"ao primeiro-ministro Binyamin Netanyahu em telefonema confidencial e por
enviados sigilosos." DEBKA.file diz também que as
revelações dessa crescente ajuda militar russa à Síria e da cooperação entre
forças russas e iranianas na Síria mudaram completamente o cálculo estratégico
israelense, depois de construída a 'parceria' com os russos: "O exército
de Israel deve agora reavaliar sua postura no front sírio, reconsiderando o
patrocínio que dava ao grupo de rebeldes seletos que defendem a linha no sul da
Síria contra iranianos e combatentes do Hezbollah que atacam através da
fronteira no norte de Israel. A mudança na atitude de Israel apareceu sugerida
em declarações ouvidas nos últimos dias, de altos funcionários da segurança
israelense, os quais, agora, dizem que, afinal, a melhor opção é, mesmo, deixar que Assad permaneça no governo da Síria."
E acrescentam: "A Força Aérea e a Marinha russas são os mais fortes
contingentes militares estrangeiros ativos no Mediterrâneo oriental. Os EUA
nada têm ali, sequer comparável. A força militar de Israel é substancial, mas
ninguém cogita de confronto militar com os russos…"
Se as notícias de DEBKA.file são acuradas, a mais recente
estratégia de paz dos russos para o Oriente Médio, que associa diplomacia e
ostentação de força militar, acaba de aplicar derrota devastadora à estratégia
de Washington, de promover e inflar guerras e mais guerras sempre e por todos
os cantos do planeta.
Se a Rússia consegue agora forjar uma coalizão genuína e honesta de nações,
para isolar e destruir o monstro criado e nutrido por Washington conhecido como ISIS ou
EI, e permitir que a verdadeira oposição síria resolva seus problemas com o
presidente Bashar al-Assad (e vice-versa) – em eleições das quais não
participem ONGs mantidas por George Soros ou a "National Endowment for
Democracy" do governo norte-americano – o mundo terá dado passo gigantesco
para bem longe de novas guerras.