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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Universidade de Pequim, out. 2015                                                          

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1º Congresso Mundial sobre Marxismo em Estado Comunista       







Tradução pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu     

"Oferecemos aos presentes três canais de tradução simultânea" – explicou um dos organizadores. – 

"Não queremos que o idioma inglês domine, como antes, todos os nossos eventos. 
Nesse Congresso Mundial, os idiomas oficiais são chinês, russo e inglês" 
(Sobre o mesmo evento ver também Pensadores marxistas chineses e russos reunidos, 
1/11/2015, Andre Vltchek, New Eastern Outlook (ing.)



(Adiante, alguns excertos traduzidos [NTs]).



___________________________________________________


O primeiro congresso mundial sobre marxismo em estado comunista de toda a história aconteceu na Universidade de Pequim, dia 10/10/2015. Mais de 400 especialistas em marxismo e em estudos chineses, de mais de 20 países e regiões participaram dos dois dias de seminário sobre "Marxismo e o Desenvolvimento da Raça Humana".

Congresso Mundial sobre Marxismo

O congresso convidou vários professores e especialistas mundialmente conhecidos, dentre os quais o 
prof. Samir Amin, economista marxista egípcio, e Roderick MacFarquhar, professor da Universidade de Harvard e especialista em questões chinesas. Em termos de escala e nível dos especialistas convidados, deve ter sido a mais importante reunião de especialistas internacionais no campo dos estudos do marxismo jamais realizado na China.

Simultaneamente, realizaram-se oito subfóruns e três sessões especiais – com convidados e conferencistas reunidos para discutir os complexos problemas da sociedade contemporânea, estudar e partilhar a experiência chinesa, promover a comunicação, a disseminação e o desenvolvimento do marxismo – e para promover o avanço da civilização mundial na direção de construir uma comunidade de destino fraterno para toda a humanidade.

Lin Jianhua, presidente da Universidade de Pequim, presidiu a cerimônia de abertura do Congresso. Na sequência, vários especialistas apresentaram suas conferências. 

Samir Amin elogiou a contribuição do marxismo chinês contemporâneo para a civilização humana: "nos estudos e na reflexão sobre o marxismo, temos todos de olhar o marxismo chinês, que é reflexo realista da vitalidade e da popularidade do pensamento marxista."

Roderick MacFarquhar disse que a noção de "sonho chinês" exposta pelo presidente Xi deve ser tomada como desenvolvimento inovador do marxismo, que terá efeito construtivo no desenvolvimento humano. 

Na tarde de 10/10/2015, e manhã do dia seguinte, aconteceram oito subfóruns que reuniram especialistas chineses e estrangeiros, sobre vários tópicos, dentre os quais "Origem e Desenvolvimento do Marxismo", "Marxismo e Cultura Científica", "Marxismo e Globalização", dentre outros. Além dos subfóruns, realizaram-se três sessões especiais, com conferências dos especialistas presentes e diálogos ativos, quando os especialistas interagiram com os presentes.

O Congresso Mundial sobre Marxismo foi encerrado na tarde de 11/10/2015. Na cerimônia de encerramento, foi apresentado o "Consenso dos Especialistas reunidos no Congresso Mundial sobre Marxismo", no qual se destacou que o marxismo, renovado ao longo do tempo, ainda tem potência como luz-guia para a sociedade humana do século 21, para ajudar o povo a livrar-se da miséria.



Pensadores marxistas chineses e russos reunidos



Um dos conferencistas, conhecido pensador russo, professor Aleksandr Buzgalin da Universidade Estatal de Moscou, disse que "Rússia e China têm excelentes precondições para construir pontes".

O professor Buzgalin falou sobre a União Soviética: "Na URSS, vivíamos na cultura mundial, não em alguma cultura local, fechada. Em nosso país se imprimiram mais edições de livros de Shakespeare e Hemingway, que nos EUA e Grã-Bretanha". E continuou: "Para nós, cultura não é roupas de moda, mas o que cada um pode fazer por nosso povo, pelo povo da Índia ou da África."

Falou sobre dois grandes países, China e Rússia, e sobre cooperação futura que pode levar a criar um mundo no qual o progresso não seja aferido pela balança comercial, mas pela produção artística, científica e pelas condições de educação. "Nova ordem cultural mundial" – como a chamou –, "com raízes na gigantesca área científico-cultural bilíngue sino-russa."

Sua esposa, professora de Direito e Finanças na Universidade de Moscou, Liudmila Bulavka-Buzgalina, argumentou adiante que "o potencial criativo da personalidade não significa capital humano, que não passa de medida monetária (investimento) para o desenvolvimento, e reduz as qualidades e valores humanos ao lucro, como meta de todas as ações humanas."

O professor Li Shenming, diretor do Centro de Pesquisa sobre Socialismo Mundial e vice-diretor da Comissão para Assuntos Internos e Judiciários do Congresso Nacional do Povo, empenhou-se na defesa do marxismo chinês e mundial:


"Alguns dizem que o 'espectro do marxismo' já nos deixou, mas não, não deixou! Flutua por aí, como sempre, nos observando. Nunca nos separamos dele!"

Um após o outro, especialistas chineses, russos e do resto do mundo falaram sobre cultura, marxismo, a República Popular da China e nosso atormentado (principalmente pelo imperialismo ocidental), mas maravilhoso planeta.

"A cultura chinesa é uma das quatro únicas civilizações globais que não foram interrompidas" – disse Zhang Quanjing, ex-presidente do Departamento de Organização do Comitê Central do PCC. "Graças ao marxismo e ao comunismo, sob a liderança do Partido Comunista, nossa nação sobreviveu e prosperou (...) Encontramos a cultura durante a Revolução, com todo seu valor espiritual." 

O camarada Zhang falou sobre a Cultura Vermelha e sobre como sempre se opôs à opressão e à superstição religiosa.

"A cultura pertence ao povo, não a alguma minoria" – concluiu. – O comandante Mao disse, em 1945, que arte e cultura têm a ver com princípios e devem servir ao povo." 

Que tremendo otimismo! Cuspiu na cara de todos o niilismo sombrio que está começando a espalhar-se pelo ocidente com a propaganda distribuída pela mídia-empresa de massa, terríveis filmes de depressão e horror e dogmas religiosos.


Nasceu o Fórum Cultural Mundial!


"É realmente necessário estabelecer o "Fórum Cultural Mundial" que realmente reflete o desejo dos trabalhadores de todo o mundo" – disse o professor Cheng Enfu, diretor da Divisão Acadêmica de Estudos Marxistas. Disse que o espírito do marxismo deve ser amplamente divulgado por todo o mundo.

*****

Os organizadores convidaram-me a falar ao final do Fórum, para resumir os tópicos que haviam sido tão apaixonadamente discutidos ao longo daqueles dois dias. Que grande honra!

Contei sobre os últimos quatro anos, durante os quais viajei pelo mundo reunindo provas, expondo as tais 'revoluções' 'coloridas', 'guarda-chuva' e outras do mesmo tipo. Disse a eles sobre as ações subversivas que o ocidente planeja e executa para confundir, desencaminhar e até destruir todos e quaisquer movimentos, governos e até países inteiros que sejam realmente revolucionários e marxistas.


Falei-lhes do livro que escrevi, 840 páginas – 
Exposing Lies of The Empire, que nasceu dessa minha jornada complexa e difícil.

"O papel dos atos subversivos, hostis e, do ponto de vista da lei internacional também ilegais, cometidos por países ocidentais durante anos, décadas e séculos sempre foi um e o mesmo: quebrar, destruir toda e qualquer resistência contra o controle do mundo pelo ocidente. Todos e quaisquer governos de pensamento independente que tenham servido principalmente ao próprio povo, foram atacados em algum momento e, com raras exceções dentre as quais China, Cuba, Venezuela e Vietnã, completamente arrasados."


Os acadêmicos russos me abraçaram (...) e convidaram-me a falar em Moscou e São Petersburgo – cidade onde nasci. Os camaradas chineses trataram-me como se eu fosse russo. Todos tão calorosos. Estávamos, afinal, no mesmo barco. Afinal.

Levei a eles a mensagem da América do Sul, continente que se tornou meu lar adotivo por tantos anos: "Nossas revoluções latino-americanas estão agora sob ataque direto do ocidente. Agora que vemos nascer sob nossos olhos e graças aos nossos esforços comuns, essa maravilhosa unidade entre China e Rússia, por favor não se esqueçam de Venezuela, Equador, Cuba e outras nações orgulhosas que também estão na linha de frente da luta contra o imperialismo ocidental e o fascismo. 

Há hoje no mundo três grandes centros de resistência anti-imperialista: China, Rússia e América Latina. E a América Latina é a parte mais vulnerável, que luta hoje pela própria sobrevivência."

Há também, claro, outros grandes países – Síria, Irã, África do Sul e Eritreia, que se levantaram firmemente contra o terror ocidental. Mas aquele encontro, aquele show de unidade, foi rápido demais para discutir todas as dificuldades pelas quais passa o nosso mundo; claramente, foi só o começo. Mas que grande começo! No futuro, nada e ninguém será deixado para trás.





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terça-feira, 15 de setembro de 2015

NÃO EXISTE CAPITALISMO ÉTICO


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Tradução Vila Vudu


Dia 5/9, em postado na internet, o ex-secretário do Trabalho e analista liberal Robert Reich, pergunta "O que aconteceu ao núcleo moral do capitalismo norte-americano?". Não é piada. Falava sério. 


Reich escreve:

“Testemunhamos ao longo das últimas duas décadas nos EUA um declínio constante na disposição de quem ocupa as posições de mando no setor privado – em Wall Street e em grandes empresas – para respeitar, um mínimo que seja, padrões de moralidade pública. (...) Executivos de grandes empresas privadas ganham hoje salários 300 vezes superiores ao do trabalhador médio. Os magnatas de Wall Street levam para casa centenas de milhões, ou mais. Os dois grupos manipularam o jogo a favor deles mesmos, ao mesmo tempo em que empurram para baixo os salários do povo trabalhador médio.”

A vasta e sempre crescente desigualdade nos EUA e em todo o mundo capitalista é, claro, inegável. A resposta de Reich é desejar uma volta a um tempo passado, a um momento suposto "mais moral" do capitalismo:

“Diferente disso, nas primeiras três décadas depois da 2ª Guerra Mundial – em parte porque os EUA passaram por aquela guerra terrível e, antes dela, pela Grande Depressão – havia na comunidade empresarial e em Wall Street um senso de que era indispensável e relevante prestar contas à nação. (...) Não se falava de responsabilidade social, porque se assumia que todos partilhassem a convicção inalterável de que todos que tivessem grande poder econômico deviam agir e agiriam de modo socialmente responsável.

Altos executivos não tinham salários mais de 40 vezes superiores ao do trabalhador típico. Empresas lucrativas não eram lucrativas porque conseguissem demitir o maior número possível de trabalhadores. Consumidores, trabalhadores e a comunidade empresarial eram todos tidos como acionistas, com quase todos os mesmos ganhos e direitos de ganhar."

Difícil empilhar mais ilusões e tantos erros fatuais em tão poucas palavras.

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A Grande Depressão dos anos 1930s foi o mais catastrófico dos recorrentes crashes econômicos que são elemento inerente do sistema capitalista. Durante a Grande Depressão, quando o desemprego subiu acima de 25% e milhões de pessoas perdiam as próprias casas em despejos ordenados pelos bancos, muitos capitalistas opunham-se a salários-desemprego, segurança social ou qualquer tipo de ajuda governamental, e, claro, também ao direito dos trabalhadores de constituírem sindicatos.


Foi a onda massiva de organização do Trabalho, iniciada com as greves gerais em 1934, que levaram o governo Roosevelt a fazer concessões sob a forma de programas sociais, e valeu a milhões de trabalhadores o poder de negociar melhores salários, benefícios e condições de trabalho.


À altura de 1950, 35% dos trabalhadores estavam sindicalizados, um dos fatores mais importantes para a melhoria dos padrões de vida no período do pós-2ªGuerra Mundial, fato que Reich omite. Outro importante fator foi que os EUA passaram a dominar o mercado mundial imediatamente depois da guerra.


Por mais que a guerra tenha sido realmente terrível para dezenas de milhões em todo o mundo, que foram mortos, feridos, humilhados, forçados a passar fome, e para as centenas de milhões de deslocados, arrancados de suas casas, foi período de fartura para as empresas e os bancos  norte-americanos. Grandes empresas colheram lucros imensos como fornecedores da mais poderosa máquina de guerra jamais vista, e expandiram enormemente suas capacidades produtivas. Além do quê, os EUA não sofreram qualquer ataque ou dano no seu front doméstico. Ao final da guerra, os EUA estavam produzindo mais de 50% de tudo que o mundo produzia.


Nadando nesses super lucros auferidos da dominação sobre o mercado mundial e da exploração do mundo colonizado e neocolonizado, os capitalistas norte-americanos puderam fazer concessões econômicas à classe trabalhadora. 


Foi essa combinação altamente inusual de fatores, não alguma espécie de recém descoberta "moralidade" ou "ética" que teria florescido na alma dos capitalistas, que gerou, como consequência, que o período 1945-75 fosse dos mais significativos, em termos de melhoria no padrão de vida de milhões de trabalhadores. Ao mesmo tempo, o governo ia conseguindo sucessos também na tarefa de enfraquecer os sindicatos, extraindo de lá os comunistas e outros militantes, e fazendo aprovar leis como a [lei] Taft-Hartley.


Intelectuais capitalistas e a mídia de massas não se cansavam de repetir que o novo conforto que se via na vida dos trabalhadores seria a 'prova' de que o marxismo errara. 


Marx escreveu que a característica fundamental do capitalismo é que

“Acumulação de riqueza num polo é ao mesmo tempo acumulação de miséria, agonia, escravidão, ignorância, brutalidade, degradação mental no polo oposto” (MARX, Karl. Capital, vol. 1, cap. 25: "The General Law of Capitalist Accumulation").


Desenvolvimentos subsequentes mostraram irrefutavelmente que o período do pós-guerra não foi alguma espécie de novidade para o capitalismo; que foi, isso sim, uma aberração.


Hoje, a desigualdade econômica é a maior de todos os tempos. Uma família, os Waltons, de Walmart, é proprietária de riqueza equivalente a tudo que possuem, somados, os 42% mais pobres da população dos EUA; 400 bilionários, possuem tanto quanto os 3,5 bilhões de seres humanos mais pobres da Terra.


Desde o começo a sempre mesma classe dominante racista 


Ao contrário do que diz Reich, "empresas lucrativas" demitiram, sim "grandes quantidades de trabalhadores" incontáveis vezes entre 1945 e 1975, particularmente, mas não exclusivamente, em tempos de contração econômica. É surpreendente que alguém que já foi responsável pelo Departamento do Trabalho federal nos EUA escreva tamanha imbecilidade.


Durante as primeiras duas décadas dos delirantes "bons velhos tempos", a segregação – legalizada ou de fato – prevaleceu em todos os EUA. Até a Lei dos Direitos Civis de 1964 e a Lei dos Direitos de Votar de 1965, ambas aprovadas depois de dura luta pelo Black Freedom Movement, os afro-norte-americanos eram proibidos de votar em muitos estados, e continuam sem direitos à igualdade plena até hoje.


A ideia de que "consumidores, trabalhadores e a comunidade tenham sido todos acionistas com direitos praticamente iguais" garantidos pela classe capitalista dominante e seus governos, em algum momento da história dos EUA é, intencional ou não intencionalmente, cômica.


E nas três décadas 'morais' de Reich, aquela mesma classe governante e seus governos fizeram guerras genocidas na Coreia, Vietnã, Cambodia e Laos, e golpes assassinos no Irã, Guatemala, Congo, Brasil, Indonésia, Grécia, Bolívia, Chile e Uruguai, e apoiaram regimes de apartheid na África do Sul e Rodésia (hoje Zimbabue), e armaram os fascistas portugueses nas guerras coloniais na África e invadiram e bloquearam Cuba, e tiveram papel central na ação de Israel para expulsar o povo palestino da própria terra deles, e montaram o mais mortífero arsenal jamais montado e não passaram um dia sem ameaçar alguém com um ataque nuclear e etc., etc., etc.


Robert Reich é crítico dos excessos do capitalismo, ao mesmo tempo em que defende o sistema capitalista. Para ter a sensação de que superou essa impossibilidade absoluta, vê-se obrigado a fantasiar que teria existido um tempo ("Era uma vez...") na história, quando o capitalismo operou de modo justo.


Na vida real, esse tempo jamais existiu. Nunca houve "um senso na comunidade empresarial e em Wall Street, de que era importante preservar alguma transparência" com prestação de contas à sociedade e controle social. –  Ali só se pensa e sempre se pensou em maximizar lucros e em defender o próprio poder. Não é novidade. É essa a natureza do capitalismo.

O único meio de pôr fim aos excessos capitalistas é pôr fim ao capitalismo, o sistema todo.*****



* Richard Becker é Coordenador para a Região Ocidental, da CoalizãoANSWER – Act Now to Stop War & End Racism [Aja já para pôr fim à guerra e ao racismo] e autor de Palestine, Israel and the U.S. Empire [Palestina, Israel e o Império Norte-americano; e de The Myth of Democracy and the Rule of the Banks [O mito da democracia e O império dos bancos].


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