Tempos de Boa Vontade...
Sanções, Sofrimento e Guerras, é o que oferece o Ocidente
Por Finian Cunningham
Tradução: mberublue
Estamos em plena estação da Boa Vontade
– e os governos ocidentais estão exibindo um pacote de seus “presentes”:
sanções, austeridade, ajuda militar letal e conflitos candentes.
Enquanto isso, o contraste entre os
“presentes” ocidentais e a ajuda humanitária para a Ucrânia que a Rússia
forneceu não poderia ser maior ou mais expressivo. Nesta semana, mais um
comboio de caminhões russos – pelo menos o décimo até agora nos meses recentes
– chegará até a Ucrânia oriental levando alimento, roupas, aquecedores e
brinquedos para as crianças desamparadas pela guerra em Lugansk e Donetsk.
A má fé na interpretação da
justaposição entre a conduta do ocidente e a da Rússia só poderia acontecer no
ocidente cínico e mesquinho.
Enquanto o mundo se prepara para as
celebrações natalinas, supostamente uma ocasião de paz, alegria e esperança de
salvação para a humanidade – Washington e seus aliados no Canadá e União
Europeia consideram seriamente desencadear novas sanções contra a Rússia,
alimentar a fogueira da miséria e do sofrimento na Ucrânia e talvez mais
perniciosamente, preparar as condições para uma guerra em larga escala.
Governantes ocidentais insensíveis
parecem carecer de uma espinha redentora em seus corpos ou de células no
cérebro. Na novela clássica de Charles Dickens “Um conto de Natal”, uma
história de redenção e esperança, seu desprezível personagem Ebenezer Scrooge
pelo menos reconhece a mesquinhez de sua existência, arrependendo-se no final.
Nenhuma chance de mudança para os governantes ocidentais, ao que parece cada
vez mais dispostos a pressionar através de sua arrogância cega e destrutiva.
Havaí |
O presidente Barak Obama, ao partir da Casa Branca na última
sexta feira para as férias natalinas no Havaí ensolarado, deixou antes sua
assinatura confirmatória para que o Congresso dos Estados Unidos desse um
“presente” para o regime de Kiev. Aqui entre os “bons” pode-se dar a Kiev
milhões de dólares em ajuda militar letal para um regime que chegou ao poder
através de um golpe ilegal em fevereiro deste ano. Isso não é uma opinião
pejorativa sobre esse regime. Trata-se apenas de um fato objetivo. Claro, os
governantes ocidentais não concordarão, bêbados que se encontram pelos seus
próprios coquetéis propagandísticos.
Perguntamo-nos se Obama, ao lidar com
frangos assados juntamente com suas filhas ao redor das mesas natalinas,
recordará que as crianças ucranianas se encolherão de medo antes o ressoar das
armas que seu governo despreocupadamente introduziu em seu país.
Obama também aprovou novas sanções para
castigar o povo da Crimeia, pela sua audácia em votar no referendo de março em
favor da secessão ante o regime neonazista que a CIA impôs no poder. A ordem
executiva da Casa Branca proíbe a exportação e importação de bens, serviços,
tecnologia e investimento, proibição motivada, segundo Obama, pela “anexação e
ocupação da Crimeia” pela Rússia.
Ações punitivas similares deveriam ser
adotadas, na mesma semana, pela União Europeia e pelo governo canadense
liderado por Stephen Harper.
Os últimos movimentos do ocidente vêm
se juntar às rodadas prévias de sanções econômicas e diplomáticas impostas à
Rússia. Esta semana – às vésperas das férias natalinas – o rublo russo desceu a
novos mínimos, em parte devido às sanções ocidentais, trazendo assim incertezas
e ansiedades para muitos cidadãos russos.
Moscou deplorou a nova rodada de
sanções, como uma provocação imprudente, em particular a aprovação por
Washington em relação à abertura das comportas para inundar a Ucrânia de
suprimentos militares. A país já sofreu com cerca de 5000 mortes de seus
cidadãos nestes oito meses desde que o regime de Kiev, apoiado pelo ocidente,
lançou uma ofensiva contra suas regiões orientais do Donbass, onde predominam
os falantes de russo entre a população civil, apenas porque, assim como seus
compatriotas da Crimeia, se recusaram a reconhecer o golpe imposto pela CIA,
que expulsou o governador eleito Viktor Yanukovich.
Sob a “liderança” que se seguiu, exercida
pelo oligarca Petro Poroshenko e por Arseniy Yatsenyuk, protegido da CIA,
juntamente com um ministério de impostores estrangeiros, o regime impôs contra
o povo de Lugansk e Donetsk um bloqueio econômico. Incapaz de vencer uma guerra
militar contra as milícias formadas pelo povo, o Reich de Kiev agora resolveu
adotar o recurso de uma tática de atrito e punição coletiva. O resultado disso
foi a provocação de mais crimes contra a humanidade.
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Criança do Donbass |
As sanções ocidentais desta semana
contra a Rússia e promessas de futuro apoio militar apenas farão mais audacioso
o já ilegal regime em Kiev e sua conduta criminal contra os civis da Ucrânia
oriental. Pense um pouco nas crianças do Donbass que tem que se amontoar em
volta dos fogões, entre um e outro blackout de eletricidade, enquanto vivem em
constante medo dos militares de Kiev, que rotineiramente não respeitam as tentativas
de cessar fogo, passados apenas dois meses.
Enquanto isso, a benevolência dos
plutocratas de Bruxelas para com as suas crias em Kiev já está se tornando
cansativa. Esta semana, o presidente não eleito do Conselho Europeu,
Jean-Claude Juncker alertou que uma nova ajuda financeira não mais é possível. Ocorre
que as elites de Bruxelas já haviam desembolsado mais um bilhão e oitocentos
milhões de Euros para o regime golpista. Demandas arrogantes por “mais dinheiro”
da vaca endinheirada em que se transformou Bruxelas por Poroshenko e Yatsenyuk
estão se tornando insuportáveis.
A generosidade benevolente largamente
despejada sobre esse regime criminoso (o relatório dos Direitos Humanos da ONU
aponta sistemáticas violações contra civis, incluindo bombardeios
indiscriminados contra áreas residenciais) está acontecendo a expensas dos
cidadãos da União Europeia, os quais, por sua vez, têm que encarar uma implacável
austeridade, que vem acompanhada de desemprego, déficit de habitações e cortes
na assistência social. Como pode haver tão descarado sangue frio entre os
burocratas de Bruxelas? Mandarins não eleitos dão dinheiro público a rodo para
um regime neonazista fora da União Europeia, o qual está matando seu próprio
povo, mesmo quando os cidadãos da União Europeia estão vendo negadas suas
próprias necessidades básicas em nome de cortes ditados pela austeridade... E o
Natal está chegando!
Mas, como se anotou, os
plutocratas da União Europeia parecem finalmente começar a perceber que a
entidade engendrada em Kiev por Washington e Bruxelas é um desastre de trem
desgovernado, um insaciável monstro de Frankenstein.
Na última reunião de cúpula da
União Europeia no final da semana, o presidente-magnata de Kiev não foi
convidado para participar – uma significativa mudança no rumo costumeiramente
indulgente adotado para com ele por Bruxelas.
Mais: quando o arrogante
Yatsenyuk perguntou no início da semana quando para quando Kiev poderia esperar
mais uma parcela de 200 milhões de Euros do bolso do dinheiro público da União
Europeia, ele foi brusco: “Colocando em poucas palavras: para ontem!” De
imediato, o Comissário Europeu Yohannes Hahn replicou que não haveria mais
dinheiro vindo dos pagadores de impostos europeus “enquanto Kiev não
implementasse certas reformas”.
Implacável em sua solicitação chorosa,
Yatsenyuk mais tarde declarou à imprensa: “cumpriremos tudo o que prometemos...
mas para superar este período a Ucrânia necessita de algum tipo de sustentação
e essa sustentação é um novo pacote de ajuda financeira. É muito difícil para
nós lutar contra um Estado Nuclear (Rússia), armado até os dentes.” Não passou da
usual desculpa estridente, culpando todo mundo e esperando receber alguma coisa
por nada.
E que reformas espera a União
Europeia que Kiev implante? Mais reformas econômicas neoliberais, privatizações,
austeridade e o estupro geral e irrestrito por parte do capitalismo no país. Em
nenhum lugar do imperativo da União Europeia por reformas está o fim da guerra,
violações e crimes contra a humanidade.
Um conto de Natal? A União
Europeia não é apenas um Scrooge que não se arrepende. É também o maior dos
títeres dos fazedores de guerra dos Estados Unidos.
Feliz Natal a todos. 
Finian
Cunningham – nasceu
em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional.
Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente
foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou
as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo
Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como
editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge,
Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e
compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de
comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The
Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um
livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe.
Tradução: mberublue
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