terça-feira, 8 de julho de 2014

7/7/2014, [*] M K BhadrakumarIndian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Hossein Amir-Abdollahian
A diplomacia iraniana está trocando de marcha, no que tenha a ver com a situação no Iraque. O vice-ministro de Relações Exteriores, Hossein Amir-Abdollahian, partiu em viagem pelos Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã. Antes, no início da semana, o presidente Hassan Rouhani já conversara separadamente com o Emir do Qatar.

Semana passada, Abdollahian esteve em Moscou, viagem que ele já descreveu como bem-sucedida, dado que forjou “uma posição comum e coordenada” entre os dois países com vistas a combater contra o terrorismo no Iraque e ajudar Bagdá a proteger a “unidade, independência e integridade territorial”.

Teerã está deliberadamente deixando de lado a Arábia Saudita, que está sendo vista como principal protagonista no Iraque e Síria apoiando o Estado Islâmico do Iraque e Levante [ISIL]. E adotou a medida bem pouco usual de distribuir uma declaração, no domingo, para esclarecer, acima de qualquer dúvida, que o ministro de Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif absolutamente não visitara, nem visitaria a Arábia Saudita e que boatos nessa direção não têm qualquer fundamento.

 Javad Zarif
Essa declaração equivale a “empurrar para o lado”, diplomaticamente, a Arábia Saudita, ao mesmo tempo em que o Irã “declara” que nada há a discutir com a Arábia Saudita sobre o Iraque, enquanto os sauditas mantiverem a estratégia pervertida de desestabilizar o Iraque e forçar “mudança de regime”. A viagem regional de Abdollahian tem, muito provavelmente, o objetivo de chamar a atenção para o perigo de um revide a partir do Iraque, que teria impacto negativo sobre a segurança e a estabilidade regional.

Para garantir, ele levará aos três países, que são aliados chaves dos EUA, a conclusão a que Teerã chegou, de que Washington está jogando jogo duplo no Iraque, fugindo como a raposa e caçando como a cachorrada. As mais recentes notícias de Teerã sugerem que o Irã concluiu definitivamente, a partir de informação de inteligência confiável, que o governo Obama faz-se de Janus bifronte e usa duas caras na crise do Iraque, buscando meios para uma “reestréia” militar e política dentro do país para tentar proteger seus interesses econômicos.


Reza Naqdi
Importante: o comandante da Força Basij, Mohammad Reza Naqdi alertou, em tom grave, sobre a “formação de uma nova frente de resistência”, por Teerã, contra os EUA e seus aliados regionais. É o mais forte sinal de alerta que o Irã envia a Washington, até agora. Naqdi, figura muito poderosa no establishment de segurança no Irã, reporta-se diretamente ao supremo líder aiatolá Ali Khamenei. A dura mensagem a Obama é para que ele ponha fim imediatamente à empreitada do ISIL; ou aguente as consequências da “resistência”.

Ao mesmo tempo, Abdollahian novamente refutou os boatos de que o Irã teria enviado tropas para o Iraque. Claro, são boatos gerados também como propaganda distribuída por empresas de jornalismo mantidas com dinheiro do governo dos EUA, como a Radio Free Europe/Radio Liberty. Evidentemente, Teerã sabe que esses boatos visam, em primeiro lugar, manter a escalada constante, incremental, da presença militar dos EUA no Iraque [“EUA negam superdistensão da guerra (“mission creep”), e não param de superdistender a guerra”.  


Abu Bakr 
Al-Baghdadi
Não surpreendentemente, a névoa da guerra vai se tornando mais espessa. Apesar da névoa, não param de surgir inúmeras sempre novas questões incômodas. Por um lado, Bagdá questionou a autenticidade de um vídeo recentemente distribuído, em que se vê o chefe do ISIL Abu Bakr Al-Baghdadi. Se o vídeo é falso, a grande pergunta é: quem anda pelo mundo a inflar a imagem do ISIL, fazendo de tudo para atrair na direção dele as atenções planetárias? Dito em outras palavras: quem tem mais a ganhar, com espalhar mais terror e mais medo?

Interpretação completamente nova surgiu hoje, segundo a qual o atual tumulto no Iraque foi golpe cuidadosamente urdido por EUA e seus aliados regionais, especialmente a Turquia – que mantém silêncio ensurdecedor sobre os desenvolvimentos no Iraque. Pergunta-se: o sequestro de turcos no consulado deles em Mosul, ostensivamente pelo ISIL, pode ser golpe de publicidade, para divulgação global, para apresentar Ancara como vítima, não com mentora do grupo terrorista? E não há resposta fácil.

Daily Mail britânico publicou matéria exclusiva sobre a estranha decisão tomada pelo governo Obama, de libertar Al-Baghdadi, há cinco anos, da prisão onde estava. Gesto absolutamente excepcional, tratando-se de suspeito de comandar a al-Qaeda.

Hmmm... A névoa da guerra só se adensa!

EUA fornece "softwares" e inteligência para o
ISIS/ISIL/DAASH
Novamente, recentes relatos iranianos selecionados pela imprensa oficial do governo russo sugerem que os EUA podem estar partilhando inteligência importante com o ISIL, que, adiante teriam utilidade em campo, no front operacional. Sendo isso verdade, o envio pelo governo Obama de algumas centenas de “conselheiros militares”, e o deslocamento de brigadas de drones para os céus do Iraque, assumem significado absolutamente novo.

Ainda que se deixe de lado tudo isso, fato é que o governo Obama e os aliados regionais dos EUA – Arábia Saudita e Turquia, em especial – já não podem confiar que o “projeto” ISIL tenha alguma serventia para derrubar do poder o primeiro-ministro Nouri Al-Maliki. A melhor aposta deles era isolar Maliki dentro do próprio campo xiita. Mas as coisas não estão andando nessa direção.

Grande aiatolá Ali al-Sistani
Outro duro golpe contra Washington, Riad e Ancara: Al-Sistani, grande aiatolá do Iraque – e clérigo imensamente respeitado e reverenciado – tomou a providência excepcional de esclarecer seus pronunciamentos sobre o impasse político em Bagdá. O grande aiatolá distribuiu declaração oficial em que diz que jamais manifestou qualquer oposição a que Maliki se mantivesse como primeiro-ministro (em direção diametralmente oposta ao que a imprensa-empresa saudita e dos EUA publicaram que seria a posição de Al-Sistani).

Fato é que Maliki está bem vivo e ativo e parecia realmente empenhado, quando disse que talvez se interesse por concorrer ao terceiro mandato como primeiro-ministro.

Não há dúvidas: Maliki está na liça.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu  e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muitas outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.




Postado por Roberto Pires Silveira, via Vila Vudu e Redecastorphoto